4. Ceditçilik Öncesi Döneme Genel Bir Bakış
3.7. Münevver Kâri’nin Vefatı
Depois de apresentado um panorama geral dos escritores que encontraram a sua forma de sustento no jornalismo, levantando, inclusive, questões contemporâneas, retorna-se à década de 1930, agora para saber quais eram os escritores que, assim como Erico Verissimo, buscaram, no jornalismo, um meio para ingressar na literatura. Além de Verissimo, dentre os principais nomes que marcam esse período, estão: Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, José Lins do Rego, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado. Todos esses autores tiveram ligações com o jornalismo na década de 1930, época em que Erico Verissimo se mudou para Porto Alegre para trabalhar na Editora e Revista do Globo.
O primeiro exemplo que se pode citar é o de Rachel de Queiroz, nascida em Fortaleza, no Ceará, no dia 17 de novembro de 1910. Ela inicia sua vida literária
com a colaboração em jornais, em 1927. Conforme Nicola (1996), ela publica o seu primeiro romance, “O quinze”, justamente em 1930, e nos anos seguintes ela milita no Partido Comunista Brasileiro, sendo presa em 1937 por suas ideias esquerdistas. Já a partir de 1940, dedica-se à crônica jornalística e ao teatro. Anos mais tarde, em 1977, torna-se a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Rachel apresenta um caráter regionalista, característico dos romances modernistas, à exceção dos do Sul, abordando temas como sua terra e as secas, com linguagem fluente e de compreensão fácil.
Outro contemporâneo de Erico Verissimo, e que também atuou em jornais, foi José Lins do Rego, nascido em 3 de julho de 1901 na Paraíba, onde passou a infância. Após morar em João Pessoa e Recife, em 1935 ele se muda definitivamente para o Rio de Janeiro, onde passa a colaborar com alguns jornais. Antes de publicar a sua principal obra, “Fogo morto”, em 1943, ele já publica outros dois romances: “Menino de engenho”, de 1932, e “Usina“, de 1936.
Um dos contemporâneos de Erico que mais se destacou no jornalismo foi Graciliano Ramos, nascido em Quebrangulo, Alagoas, em 27 de outubro de 1892. Após concluir apenas os estudos secundários em Maceió, tem uma passagem rápida pelo Rio de Janeiro e fixa-se em Palmeira dos Índios, no interior de Alagoas, onde tem seus primeiros contatos com o jornalismo. Publica o seu primeiro livro: “Caetés”, em 1933 e trabalha como diretor da Imprensa Oficial, além de manter contato com os já mencionados José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, bem como Jorge Amado. Em março de 1936, é preso por atividades consideradas subversivas, o que resulta no livro: “Memórias do cárcere”. Após publicar “Vidas secas”, em 1938, muda-se definitivamente para o Rio de Janeiro. No entanto, mesmo após a consagração literária, em 1947, passando por dificuldades financeiras, o escritor aceita o convite de Aurélio Buarque de Holanda para substituí-lo no Correio da Manhã, onde tinha ingressado como suplente de revisão, em 1914, e onde era descrito como temido e admirado:
Quando a coisa era feia, Graciliano Ramos alisava o cabelo e xingava: Cavalo!
O temido e admirado revisor do Correio da Manhã odiava palavras e expressões empoladas perdidas no meio do texto, e rugia para o autor do outro lado da redação: Outrossim é a puta que o pariu. A maioria dos repórteres o via como antipático e grosso. [...] Impopular, logo ganharia no jornal um apelido: neurótico da língua (COSTA, 2005, p. 93).
Ao chegar ao Correio da Manhã, Graciliano Ramos acabou surpreendendo o redator-chefe, Pedro da Costa Rego, que pensava que o escritor estivesse rico. “Longe disso. Vivia e escrevia sob extremas dificuldades, num apertado quarto de pensão dividido com mulher e filhos” (COSTA, 2005, p. 94). Essa realidade reflete bem o cenário em que Erico Verissimo se inseriu na Editora e Revista do Globo, na década de 1930, como será visto mais adiante.
Fora do eixo Rio-São Paulo, além de Erico Verissimo, os já citados Augusto Meyer e Dyonélio Machado também iniciam na literatura por meio da participação em jornais. Outro contemporâneo e amigo de Verissimo nesse período é o baiano Jorge Amado, que publica o seu primeiro romance, “O país do carnaval”, em 1931, e forma-se em Direito em 1935, tendo participações em jornais apenas com colaborações eventuais.
Monteiro Lobato, por sua vez, após alcançar a consagração literária e se mudar para os Estados Unidos, em 1929, é atingido pela crise da Bolsa de Valores de Nova York e é obrigado a vender a sua participação na Companhia Editora Nacional, retornando ao Brasil em 1931. A partir de então, o escritor se torna sócio da União Jornalística Brasileira, agência de notícias criada por Menotti del Picchia, e acaba sendo preso pelo governo de Getúlio Vargas, que havia lhe convidado, anos antes, para chefiar o embrião do que viria a ser o temido Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). “O escritor recusou e nunca comentou o convite, que só foi revelado após a morte de Getúlio, quando pesquisadores tiveram acesso aos diários do presidente” (COSTA, 2005, p. 79). No entanto, a razão da sua prisão teria sido o artigo “Inglaterra e Brasil”, irradiado pela BBC de Londres no final de 1940 e reproduzido pela imprensa americana, inglesa e argentina, em que Lobato driblava a censura e acabava criticando a censura de Vargas internacionalmente. “Depois de quatro dias mantido incomunicável, foi liberado” (COSTA, 2005, p. 79). No entanto, no ano seguinte, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional e ficou três meses preso, sendo absolvido em primeira instância e condenado a seis meses de prisão na segunda. Da mesma forma que Graciliano Ramos, Lobato também sofreu as consequências da ascensão e repressão imposta pelo governo getulista. A diferença era que Lobato era mais popular que o escritor alagoano, o que dificultava para o governo mantê-lo preso. Por fim, acabou tornando-se um porta-voz dos presos políticos e comuns, exigindo a revisão de processos e libertação dos que já tinham cumprido sua pena, além de pedir emprego para ex-presidiários e denunciar as
torturas do Estado Novo. “Na porta da cadeia, crianças faziam vigília. Milhares de cartas chegaram ao Palácio do Catete. Lobato acabou libertado” (COSTA, 2005, p. 80). Cansado de brigar com o governo, Lobato muda-se para a Argentina, em 1946, mas retorna no ano seguinte.
Além das questões políticas, Lobato também sempre soube se valer dos jornais para divulgar a sua obra: “Capitalista e marqueteiro, o editor Lobato está muito distante da imagem de bom velhinho que ficou para a história da literatura infantil” (COSTA, 2005, p. 77). A trajetória de Monteiro Lobato, bem como a de outros autores não tratados aqui, como Cecília Meirelles e Carlos Drummond de Andrade, dentre tantos outros, também exemplifica o contexto em que Erico Verissimo estava inserido quando começou a trabalhar como escritor-jornalista, antes de dedicar-se com exclusividade à literatura. Aliás, a segunda fase da carreira de Verissimo, quando abandona o jornalismo, torna-o uma exceção na história do Brasil, pois passa a viver apenas de sua literatura, algo raramente conquistado em território nacional.