4. Ceditçilik Öncesi Döneme Genel Bir Bakış
3.5. Münevver Kâri’nin Düşünceleri
Conforme Hohlfeldt (1996), o primeiro registro documental histórico do Rio Grande do Sul é o conjunto de duas passagens do “Diário de navegação”, de Pero Lopes de Souza, datadas de 28 de setembro de 1531 e de 3 a 5 de janeiro de 1532, sobre uma expedição pelo rio da Prata. De lá para cá, assim como em outras partes do mundo, a escrita e a literatura evoluíram muito; porém, deve-se lembrar que a Revolução Farroupilha12 também representou um marco para a cultura gaúcha, que passa a se envolver em um status literário mediante a criação de instituições, como,
12 Conforme consta na própria obra de Erico Verissimo, em O tempo e o vento, a Revolução Farroupilha, ou Guerra dos Farrapos, é como ficou conhecida a revolução ou guerra regional, de caráter republicano, contra o governo imperial do Brasil, na então província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e que resultou na declaração de independência da província como Estado republicano, dando origem à República Rio-Grandense. Estendeu-se de 20 de setembro de 1835 a 1° de março de 1845.
por exemplo, o já mencionado Partenon Literário (1868). Já a partir do século XX, autores como João Simões Lopes Neto13 buscam reconstituir as raízes do Rio
Grande do Sul por meio da literatura.
No entanto, como ressalta Hohlfeldt (1996), o século XX já nasce com um tom contestatório. Se, por um lado, João Simões Lopes Neto concretiza a transformação do gaúcho em mito universal, por outro lado, outros escritores voltam os seus olhos para a realidade da época, como é o caso de Alcides Maya, que desde 1910, com a publicação de “Ruínas vivas”, denuncia a “marginalização progressiva a que estava devotado o gaúcho clássico, isto é, o peão” (HOHLFELDT, 1996, p. 27).
Como o trabalho fala de literatura, também se deve mencionar o movimento modernista14, que, no Rio Grande do Sul, começa a se desencadear apenas em 1925, embora, como aponta Zilberman (1992), o primeiro livro de Augusto Meyer, compatível com o movimento, seja de 1923. Inclusive, a autora dá um apanhado geral do que acontecia na literatura gaúcha na época:
[...] o exame da produção poética gaúcha demanda uma dupla orientação: de um lado, a abordagem do gênero na sua oscilação entre a fidelidade ao Simbolismo e a adesão ao projeto modernista; de outro, o contraste entre as criações dos artistas ligados ao cenário porto-alegrense, como Augusto Meyer e Mario Quintana, e a obra de Raul Bopp, autor que se afastou do contexto local e abraçou integralmente as propostas revolucionárias de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral (ZILBERMAN, 1992, p. 63).
Nesse sentido, Augusto Meyer foi um dos principais mentores do modernismo no Rio Grande do Sul, com atuação marcante na década de 1920, em Porto Alegre, época em que publicou grande parte dos seus livros de poesia. Já a partir dos anos 1930, Augusto Meyer passa a se dedicar à atividade ensaística, abordando temas da literatura brasileira e ocidental, mas enfatizando, também, a produção cultural da época no Sul.
13 O pelotense João Simões Lopes Neto (1865-1916) é considerado um dos maiores autores do Rio Grande do Sul, pois procurou, em sua produção literária, valorizar a história do gaúcho e suas tradições. No entanto, Simões Lopes Neto só alcançou a glória literária postumamente, em especial após o lançamento da edição crítica de “Contos gauchescos e lendas do Sul”, em 1949, organizada para a Editora Globo, por Augusto Meyer e com o decisivo apoio do editor Henrique Bertaso e do próprio Erico Verissimo.
14
Conforme Zilberman (1992), o Modernismo, desencadeado na década de 1920, “respondeu aos anseios de equiparação da literatura nacional aos avanços das vanguardas estrangeiras” (ZILBERMAN, 1992, p. 61), irradiando-se de São Paulo para as demais regiões do país. Também foi um conjunto de movimentos culturais, escolas e estilos que permearam as artes e o design da primeira metade do século XX.
Seus poemas estão fortemente marcados pela ambiência regional do Sul; seus primeiros versos traduzem a tentativa de se aproximar ao falar gauchesco e identificar-se com seus costumes, à moda da vertente regionalista (ZILBERMAN, 1992, p. 67).
Aliás, a experiência modernista, iniciada por Meyer, é levada adiante por Mario Quintana na década seguinte, quando, em 1940, publica “A rua dos cataventos”.
No entanto, apesar do movimento modernista, também se verificou uma permanência da linha regionalista, como destaca Zilberman (1992, p. 75):
Os traços característicos da narrativa regionalista, relativos a personagem, espaço e o tempo, foram remanejados e utilizados na promoção de uma certa realidade rural e um tipo humano, em contraposição à ascendente burguesia urbana, que, nas décadas seguintes, veio a provocar o deslocamento do poder econômico e, mais adiante, político.
A autora aponta autores como Roque Callage (que, como será exposto mais adiante, chega a aparecer como uma personagem-jornalista real em um dos romances de Erico Verissimo) e João Fontoura como exemplos de autores que provêm do Regionalismo pré-modernista, enquanto Darcy Azambuja (1903-1970) é quem, com o livro “No galpão”, ultrapassa esse período, escrevendo ainda, nas décadas seguintes, contos e novelas que dão continuidade a esse estilo. “Tido como legítimo sucessor de Simões Lopes Neto, trata de conservar seus principais temas, atualizando e rejuvenescendo a linguagem” (ZILBERMAN, 1992, p. 76).
Porém, havendo aqui, por um lado, o surgimento do Modernismo, e de outro, a manutenção do regionalismo, é que, durante a década de 1930, acabam se modificando as bases ideológicas que vinham fundamentando essa vertente regionalista. Essas alterações estavam associadas às transformações pelas quais passavam a vida e a literatura brasileiras no período, com os novos rumos da narrativa regional sendo reavaliados dentro desse contexto. Nesse sentido, pode-se destacar novamente que a década de 1930 foi um período de transformações, não só políticas e sociais, mas também literárias:
A narrativa de [19]30 se diferencia bastante da produção que lhe antecedeu. Retorna, é certo, à vertente localista, como ocorrera no pré-modernismo, mas agora com outros olhos, querendo rasgar o véu protetor que lhe lançou o ufanismo remanescente, ainda no começo do século XX, do Romantismo. E incorpora dois procedimentos modernistas: vê de dentro a realidade retratada,
rejeitando a ótica de turista condenada por Lúcia Miguel-Pereira a propósito da prosa do início do século, dá margem à assimilação entre o assunto e a técnica literária; e, por essas razões, valoriza uma linguagem atual, sintética e atinente ao contexto das personagens, como fazem Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado (ZILBERMAN, 1992, p. 81).
Ainda de acordo com a mesma autora, as modificações na literatura gaúcha poderiam ter sido inauguradas em 1934, quando Cyro Martins publica seu primeiro romance, “Campo fora”, no que se refere à tendência regionalista; ou no ano de 1935, quando são editados “Caminhos cruzados”, de Erico Verissimo, e “Os ratos”, de Dyonélio Machado, “novelas decisivas para o encorpamento da narrativa de cunho urbano no Estado” (ZILBERMAN, 1992, p. 82). Destaca-se também que, nesse sentido, a prosa gaúcha se manteve afinada aos percursos da moderna ficção brasileira, respondendo afirmativamente às novas soluções estéticas.
É assim que ganha destaque a figura de Cyro Martins:
Cyro Martins constitui o autor mais produtivo do período; a temática rural ocupa grande parte de sua obra, sendo que “Sem rumo”, “Porteira fechada” e “Estrada nova” formam, segundo o autor, uma trilogia, dedicada ao assunto do gaúcho a pé. O grupo desses romances forneceria nova visão do herói tradicional dos pampas, apresentado em seu estado atual: de penúria econômica e desenraizamento social, já que foi jogado para fora do campo, vivendo como pária da sociedade urbana (ZILBERMAN, 1992, p. 83).
Em contrapartida, é nesse período também que surge a nova ficção urbana, impulsionada pelas profundas modificações sociais, já referidas anteriormente. Essa nova composição social também forneceu assuntos originais aos escritores, determinando o aparecimento, em solo gaúcho, de obras que valorizavam a paisagem urbana e aproveitavam as novas situações como pretexto para o desenrolar dos enredos. Devido a isso, o romance urbano que surge acompanha o processo por que passa a narrativa regionalista de seu tempo, focalizando o cenário social para desvelar e questionar as contradições existentes (ZILBERMAN, 1992). É justamente nesse contexto que se apresenta a literatura de Erico Verissimo e seus contemporâneos, como Dyonélio Machado, De Souza Júnior e Reynaldo Moura, entre outros.
Destaca-se primeiro a figura de Dyonélio Machado, que estreou em 1927, antes da chegada de Erico Verissimo a Porto Alegre, com os contos de “Um pobre homem”. Já em 1935, Dyonélio é um dos quatro distinguidos com a homenagem Grande Prêmio Machado de Assis, instituído pela Companhia Editora Nacional, com
o romance “Os ratos”, que conta a história de Naziazeno Barbosa, um funcionário público que se vê em grandes dificuldades financeiras e que é cobrado pelo leiteiro, recebendo um prazo de 24 horas para pagar a dívida. A partir de então, o herói de “Os ratos” passa a buscar, de todas as formas, o dinheiro para pagar o leiteiro, e, após consegui-lo, passa a ouvir o barulho dos ratos roendo o dinheiro que deixara na cozinha, em uma paranoia de que alguma coisa trágica aconteceria ao dinheiro.
Sobre essa obra, Erico Verissimo escreveu, na Revista do Globo, em 16 de abril de 1938:
A gente começa a leitura. Tem de vencer a princípio a antipatia que a maneira de escrever do autor desperta em nós. É preciso saltar por cima duma série de obstáculos. (Uma repetição quase enervante de um que outro, um que outro, um que outro, meio que etc.) Mas depois de algumas páginas esquecemos que existe um autor e um estilo e estamos de todo dominados pela história (VERISSIMO, 1996, p.119).
Outra obra de destaque de Dyonélio Machado é “O louco da Cati”, de 1942, que “traça a trajetória de homens humildes em meio a uma realidade hostil, que não compreendem nem submetem” (ZILBERMAN, 1992, p. 94), e “Desolação”, publicado em 1944. “Com efeito, os três livros apresentam características estruturais comuns, revelando a técnica narrativa do escritor, e investem num setor social via de regra ausente de nossa literatura - a pequena burguesia e o operariado urbano” (ZILBERMAN, 1992, p. 68).
Seguindo a ideia da autora, pode-se afirmar que a temática regionalista, no Rio Grande do Sul, deixou de ser hegemônica na década de 1930, quando a literatura se voltou à denúncia das desigualdades sociais, tanto no campo quanto na cidade.
Não houve esgotamento daquela vertente, e sim alteração de interesse, orientado agora à pesquisa histórica ou à análise das relações de fronteira entre o Brasil e os países do Prata, segundo uma perspectiva latino- americana. O aparecimento de assuntos originais e a mudança do foco sugerem a permanente renovação da ficção localista (ZILBERMAN, 1992, p. 131).
Observe-se ainda que essas transformações continuaram se refletindo na década de 1940, quando o quadro verificado na década de 1930 começa a ser notado no romance, gênero que passa a ficcionalizar a figura do escritor como um ser preocupado com os problemas sociais e humanos, como acontece com a própria personagem Tônio Santiago, de “O resto é silêncio” (1941), de Erico Verissimo.
Tônio Santiago é “quase um alter ego de seu criador, Erico Verissimo, cuja prosa já vinha concretizando as propostas e afirmações formuladas naquele romance” (ZILBERMAN, 1985, p. 119).
Hohlfeldt (2000) aponta outra característica que marcou a geração de escritores de 1930: a perspectiva de uma leitura da realidade, consequência não só da tradição do realismo-naturalismo, mas também da formação intelectual de cada escritor. “Não se deve excluir, por fim, que a própria realidade observada no entorno desses intelectuais deva ter provocado indignação e, concomitantemente, a busca por respostas consubstanciadas em suas obras” (HOHLFELDT, 2000, p. 131). Entre os escritores apontados por Hohlfeldt (2000), que marcaram essa geração, estão: Erico Verissimo, Dyonélio Machado, Cyro Martins e Ivan Pedro de Martins, além de Pedro Wayne e Aureliano Pinto de Figueiredo, em um plano paralelo.
Dentre os autores citados, Ivan Pedro de Martins aparece com uma característica bem particular: ao contrário dos demais, ele não é gaúcho. A chegada dele ao Rio Grande do Sul é contada por Hohlfeldt (2000, p. 133-4):
Membro militante da Juventude Comunista, melhor dizendo, seu secretário, participara diretamente do movimento da Aliança Nacional Libertadora, em 1935. Dissolvida esta, deve ele entrar para a clandestinidade. Como havia desposado, por determinação do partido, uma jovem militante gaúcha que integrava a ala do movimento feminino do partido, filha de estancieiro, decide-se que deverá exilar-se temporariamente no Rio Grande do Sul. Contatos políticos mais ou menos secretos garantem o êxito da decisão. Ivan Pedro de Martins era formado em Direito, com excelentes estudos de economia, e com boa herança de leitura filosófica e ficcional, principalmente no romance contemporâneo, o que facilitou a sua observação sobre as contradições que o sistema produtivo adotado no Rio Grande do Sul apresentava (HOHLFELDT, 2000), vindo a escrever a chamada “Trilogia da campanha”, romances reunidos sob essa denominação, mais tarde reeditados pela editora Movimento, de Porto Alegre. A trilogia abrange um período significativo do Rio Grande do Sul: de 1905 até 1945.
Certamente, cada um dos autores mencionados nessa contextualização merece ter sua biografia e análise de obras mais aprofundada, como já foi feito por outros pesquisadores. No entanto, como o interesse desta pesquisa é situar o leitor no contexto histórico em que Erico Verissimo constituiu a sua literatura, ela encerra este breve resumo da literatura gaúcha da década de 1930 citando um dos principais autores desse tempo, Cyro Martins (2000, p. 19):
Assim como na década anterior predominaram os poetas no cenário literário, efetivamente a revolução do verso, agora os prosadores passavam a galvanizar a atenção do público. Era o romance de 30 que surgia.
A valiosa produção novelística daqueles anos não foi dominada assim logo em seguida à rebentação nordestina. Não recebeu esse batismo vinte e tantos anos depois. O que é que o romance de 30 possui de característica? O trato dos temas da região do escritor em termos de ficção, usando uma linguagem singela, larga, temperada com sal da tarra e sem vanglórias. Era o espírito da poesia dos anos 20 transposto para a prosa, completando o ciclo de cultura renovador da inteligência nacional. Atingiríamos, enfim, a emancipação literária.
Assim, após essa contextualização, tentar-se-á entender na sequência, um pouco mais, como os escritores, historicamente, sempre estiveram ligados ao jornalismo.