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O cálculo amostral foi realizado com base na estimativa de proporções com um determinado grau de precisão (Quadro 2). Adotando a prevalência de violência física de natureza grave contra criança, baseada em literatura que é em torno de 10% (DAVOLI, 1994; FIGUEIREDO et al, 2004) a 20% (BORDIN et al, 2006) e determinada a precisão relativa como 20% (intervalo de confiança de p entre 8% e 12%), obteve-se um tamanho da amostra estatística de 363 famílias, calculada pelo programa Epi-Info - versão 6.0 4b (1994). Essa amostra foi acrescida de 20%, em virtude das possíveis perdas, totalizando 436 famílias. A

amostra por microárea foi distribuída de forma proporcional à quantidade de famílias elegíveis.

QUADRO 2 - Tamanho da amostra necessária para estimar a prevalência p com intervalo de confiança de 95% e precisão relativa e*.

Foram realizadas 412 entrevistas. Deste total, foram identificadas e retiradas dez entrevistas que não atendiam aos critérios estabelecidos, como, por exemplo, criança-índice com 12 anos completos (dois casos), mãe/responsável que foi entrevistada duas vezes, em horários e entrevistadoras diferentes (um caso), mães/responsáveis que tinham mais de 49 anos (dois casos) e cinco casos que haviam substituído mães/responsáveis, inicialmente sorteadas, que não compareceram às entrevistas, uma vez que estas mães/responsáveis foram entrevistadas posteriormente. Nesta situação, optou-se pelas mães do primeiro sorteio.

A amostra final do presente estudo totalizou 402 mães/responsáveis, composta por 223 crianças do sexo feminino e 179 do masculino, demonstrada na tabela a seguir.

TABELA – 5 Amostra final segundo sexo e faixa etária das crianças (N=402).

Faixa etária (meses) Feminino Masculino Total

Nº % Nº % Nº %

5 – 23 21 58,3 15 41,7 36 9,0

24 – 71 66 54,5 55 45,5 121 30,1

72 – 143 136 55,5 109 44,5 245 60,9

Vale ressaltar que, das 436 famílias sorteadas, 51 famílias não foram entrevistadas, devido a: (1) recusas (N=2) e (2) mais de três faltas em entrevistas previamente agendadas (N=49). Destas, 17 famílias foram substituídas por outras de acordo com os critérios estabelecidos, e 34 deixaram de ser entrevistadas em virtude de já ter sido atingido o total de 402 entrevistas, quantidade superior à amostra calculada de 363 famílias (9% a mais).

No momento da pesquisa, observaram-se muitas mudanças das famílias sorteadas: desapropriação de suas residências e grande mobilidade na comunidade, situação comum em população de baixa renda.

Foi adotado, em todos os testes estatísticos, o nível de significância de 5% (x= 0,05). Inicialmente foram selecionados todos os domicílios elegíveis, pertencentes a todas as microáreas cadastradas da área coberta pelo CSF Aida Santos, através da Ficha A - ficha de cadastramento das famílias do Sistema de Informação da Atenção Básica – SIAB (Anexo F).

As fichas foram armazenadas de forma sistemática, separando as elegíveis e as não elegíveis. Com tal organização, selecionou-se o primeiro cadastro elegível da primeira microárea, sempre observando se estava de acordo com os critérios previamente estabelecidos pelo estudo.

Com origem nessa família inicial, prosseguiu-se com a seleção das demais, contando, subsequentemente, de cinco em cinco cadastros, e assim sucessivamente, até completar o número necessário para obtenção da amostra de cada microárea.

Nos casos em que foi detectada, na seleção, família que não atendia aos critérios estabelecidos, como, por exemplo, existência de criança morando somente com o pai, selecionou-se a família do cadastro vizinho do lado direito que atendia aos critérios.

6.4.2 Treinamento das entrevistadoras

A coordenadora da pesquisa participou de capacitação, com carga horária de 4 horas, na cidade de São Paulo, ministrada pela pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), que atuou na coordenação da pesquisa WORLDSAFE de Embu. Nesse treinamento, foi discutido todo o

instrumental, o qual já havia sido objeto de estudo prévio pela pesquisadora principal, o que facilitou o processo.

Durante o treinamento foram discutidas as dúvidas que ainda existiam, seguindo cuidadosamente todos os instrumentos e questões. Foi aproveitado o momento para discussão da metodologia, além de alguns conceitos e definições utilizados no estudo.

Em Fortaleza, a pesquisadora principal repassou esse treinamento para as duas profissionais designadas para atuar na pesquisa, discutindo passo a passo os instrumentos com essas entrevistadoras. Essa discussão resultou na elaboração de um manual para o entrevistador, que trata das questões com maiores questionamentos, além de procedimentos operacionais.

Foi realizado um teste-piloto da aplicação dos questionários de pesquisa, como exercício prático, em que foram entrevistadas 20 mães/responsáveis de um Centro de Saúde da Família de outra “Regional”. Estas entrevistas foram realizadas pela pesquisadora e pelas entrevistadoras contratadas sob o acompanhamento da pesquisadora principal.

Após cada entrevista desse teste, foram realizadas discussões para esclarecimento das dúvidas porventura apresentadas pelas pesquisadoras contratadas, e efetuados os ajustes necessários.

6.4.3 Coleta de dados

A coordenadora/pesquisadora principal do estudo, antes de iniciar a pesquisa de campo, realizou várias visitas à unidade onde foram realizadas as entrevistas, CSF Aida Santos, uma delas com o orientador. Esta visita teve como intuito conhecer a realidade local e discutir com os ACS e coordenação da Unidade a territorialização realizada no bairro. Buscou-se também detectar possíveis problemas que pudessem interferir no estudo.

A pesquisadora principal apresentou na roda5 da unidade, com a participação do conselho local, a pesquisa, seus objetivos e metodologia. Na ocasião, foi pactuada com os profissionais e coordenação a disponibilização de atendimento às mulheres entrevistadas e respectivas crianças, caso fosse

5Roda – É o método de cogestão de coletivos, que se apresenta no contexto das práticas da gestão

detectado algum problema que necessitasse de atenção mais específica. Esse processo foi discutido também com o distrito de saúde da SER II e a Coordenação Regional da Saúde Mental, pois muitas das mães/responsáveis entrevistadas necessitavam de encaminhamentos para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), principalmente CAPS de álcool e de outras drogas da SER II.

Foi realizada, também, reunião com todos os agentes comunitários de Saúde do CSF Aida Santos, ocasião em que foram apresentados os critérios de seleção, a importância das visitas e do trabalho a ser realizado por eles, para a concretização do estudo. Para essa estratégia de sistematização do trabalho de campo com os ACS, foi confeccionado convite para formalizar a solicitação da participação das mães/responsáveis. As visitas realizadas pelos ACS foram acompanhadas pela coordenadora da pesquisa.

Esse convite foi confeccionado em duas vias, sendo um entregue no domicílio e o outro devolvido à pesquisadora principal, com assinatura de recebimento e número de telefone das mulheres. Essa estratégia ajudou a pesquisadora nos contatos diários para maiores esclarecimentos sobre a importância da participação das mães/responsáveis na pesquisa. Nesses contatos, também eram realizados ajustes em datas e horários, de acordo com a disponibilidade das mães. O convite era entregue à mãe/responsável ou a alguém da família, quando essa não se encontrava.

A pesquisa de campo ocorreu no período de 28/11/2008 a 16/01/2009, perfazendo um total de 46 dias (todos os dias da semana, incluindo os sábados e feriados). Nos dias úteis, as entrevistas foram realizadas por duas entrevistadoras, além da pesquisadora principal (uma enfermeira, com conhecimento na área de saúde mental, e uma assistente social, com experiência na área de violência contra criança).

Para realização das entrevistas, foram garantidos privacidade e ambiente adequado, livre de barulho e sem interrupção.

Por ocasião das visitas, as mães/responsáveis foram esclarecidas sobre a pesquisa, informando-se tratar-se de um estudo acerca da saúde da mulher e da criança (sem especificar os detalhes), com o objetivo de evitar qualquer suscetibilidade que produzisse viés de informação, uma vez que se trata de uma temática de abordagem difícil e que produz constrangimento ao discutir sobre o assunto. Foi mencionado também que as entrevistas seriam realizadas com base em um questionário com perguntas abertas e fechadas, com duração média de 50

minutos, realizadas no CSF Aida Santos. Após esse contato e aceitação de sua participação, as entrevistas eram agendadas em data e horário de sua escolha.

As famílias sorteadas foram visitadas pelo ACS da microárea de sua responsabilidade. As que residiam nas microáreas descobertas foram visitadas pelos ACS que cobriam a área vizinha ou, em alguns momentos, por mais de um ACS, dependendo da microárea, uma vez que muitas delas eram distantes da unidade ou consideradas muito violentas.

Para que fosse obtido o número previsto de mães identificadas e evitar perdas para o estudo, caso o domicílio selecionado estivesse fechado durante a visita do ACS, foram realizadas novas buscas na mesma casa, com apresentação de novo convite, até três visitas, em dias úteis, para cada domicílio. Algumas vezes as tentativas de contato ocorriam à noite e em finais de semana, até conseguir o agendamento e comparecimento na entrevista.

Quando a mãe/responsável não compareceu à entrevista, a pesquisadora principal providenciou a sua substituição pelo cadastro vizinho, de acordo com os critérios estabelecidos. No total, foram substituídas 91 famílias, finalizando a pesquisa com 402 entrevistas.

O trabalho desenvolvido pelos ACS foi de fundamental importância para o êxito da pesquisa. A participação, o envolvimento e o compromisso de todos ajudaram na agilidade do processo de captação dessas mães. O fato de serem moradores da comunidade (conhecidos por grande parte da comunidade) foi determinante para garantir livre acesso às famílias, como também para minimizar os riscos relacionados à situação de violência e tráfico de drogas, presentes nesse bairro.

Quanto ao acolhimento das crianças e como forma de assegurar tranquilidade às mães nas entrevistas, foi implantada uma brinquedoteca em local reservado, com a presença de uma profissional responsável por essa atividade, onde foram oferecidos lanches para crianças e mães. Esse local era também utilizado para acolhimento de mãe/responsável, que aguardava sua vez de participar da entrevista.

Outra questão considerada importante para esse processo foi o apoio dado em relação ao transporte, uma vez que, em alguns momentos, se tornou necessário ir apanhar e deixar a mãe/responsável em casa.

6.5 Critérios de diagnósticos e de exposição