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Se a história do Brasil é em si um recorte, a contextualização que aqui se propõe é muito mais ainda. Nesse caso, a nossa proposta, mais do que entrar propriamente na história do Brasil, é apenas uma tentativa de catalogar alguns poucos eventos históricos e, a partir deles, estabelecer conexões entre aspectos sociais, políticos e econômicos que tenham incidência direta no Brasil de hoje. A idéia é também de considerar um e/ou outro aspecto que esteja, de algum modo, relacionado à história dos outros dois países em análise.

Assim como Moçambique, o Brasil foi colônia portuguesa. Os portugueses chegaram a essas terras em 1500, a caminho das Índias. No Brasil, antes do colonizador, as terras pertenciam aos povos indígenas que, hoje, à semelhança dos outros dois contextos em análise, a sua maioria encontra-se numa situação política e econômica desprivilegiada. Nesse sentido, Fausto (1997) faz saber que “a chegada dos portugueses representou para os índios uma verdadeira catástrofe [e estes, para não se submeterem, preferiram isolar-se], através de deslocamentos para regiões cada vez mais pobres” (FAUSTO, 1997, p. 40). Ou seja, “milhões de índios viviam no Brasil na época da conquista e apenas cerca de 250 mil existem nos dias de hoje” (Ibidem, p. 41), sintetiza o autor.

Antes de prosseguir com o pequeno adendo à história do Brasil, cabe a referência de que também aos índios pode ser-lhes reconhecida uma cultura e expressão intelectual desenvolvidas, cujas riquezas (com experiências diferentes e nem por isso inferiores à

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européia) estão condensadas, por exemplo, nas línguas tupi-guarani, como se percebe no trabalho de Lauand (2001), em Tomás de Aquino e a metafísica das línguas Bantu e tupi. Na sua tese, Lauand dá o exemplo do uso da composição güera (ou puera, conforme a eufonia) em Tupi e a metafísica subjacente. Nesse sentido, de acordo com o autor, “ao ajuntar, a um substantivo x, a terminação –güera [...], obtemos uma curiosa alteração semântica: x-güera é o que foi x, já não é mais (ao menos, em sentido próprio e rigoroso), mas preserva algo daquele x que um dia foi” (LAUAND, 2001, s/p). Assim, ainda de acordo com o autor, “[...] Ibirapuera é o que resta daquilo que um dia foi mata (Ibirá); Itaqüera, o mesmo para pedreira (ita, como se sabe, é pedra); e Piaçagüera é porto em ruínas, que já não se usa mais” (Ibidem, s/p). Para completar e para mostrar a existência, entre os índios, de uma forma avançada de ser168, Lauand sublinha que:

A composição com -güera é freqüentíssima no tupi e está continuamente a recordar-nos - algo, hoje, tão esquecido - que há uma conexão entre o presente e o passado, entre o futuro e o presente; que há leis naturais regendo o desenvolvimento das coisas e que as ações têm conseqüências: projetam-se, deixam um rastro, um güera (LAUAND, 2001, s/p).

A história do Brasil poderia ser dividida em 3 principais fases: (1) a fase colonial, da chegada dos portugueses à independência; (2) a após independência (monárquica); e, por fim, (3) a fase da república (FAUSTO, 1997).

Quanto à época colonial e à semelhança dos outros países em análise, vale lembrar que a colonização brasileira também tinha como base o trabalho compulsório, do qual a escravidão era a forma dominante. Nessa época, estima-se, segundo Fausto (1997), que tenham entrado no Brasil cerca de 4 milhões de escravos, de 1550 a 1855.

O Brasil fica independente, isto é, rompe com Portugal em 1822, reivindicando uma maior autonomia política e econômica, sobretudo com o aumento dos tributos imposto por Portugal. Uma vez proclamada a independência, embora uns defendessem já a república, prevaleceu, como forma de governo, uma monarquia constitucional com representação limitada.

Sobre a independência – ainda relacionado aos outros países em análise – cabe aqui o destaque de que, para que esta fosse reconhecida internacional e formalmente – com

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implicações políticas e comercias -, a Inglaterra exigiu que o Brasil se comprometesse com o fim do tráfico de escravos, fato que, entretanto, não impediu que estes viessem, nos anos subseqüentes, em número ainda maior.

Dessa época, um outro aspecto que pode ser destacado - e com alguma semelhança com os outros países analisados - é a relação de desigualdade, inclusive formal, nas relações sociais, fato que vem à tona quando se analisam os dispositivos legais vigentes na época, entre eles, a Constituição de 1824 (a primeira brasileira), que, pelo ato e pelo teor, era celebrada como um grande avanço para o povo brasileiro. Entretanto, como observa Fausto, por “povo” deveria ser entendido “... a maioria dos brancos e mestiços que votava e que de algum modo tinha participação na vida pública” (FAUSTO, 1997, p. 147). Ainda de acordo com o autor, “... um contingente ponderável da população – os escravos – estava excluído dos dispositivos” (Ibidem, p. 149).

O Brasil transformou-se em República em 1889. Nesse caso, o país passou de monarquia - até então como Estado unitário - para uma Republica Federativa, com autonomia regional. Dessa época, vale destacar a primeira Constituição da República que, inspirada no modelo norte- americano, deu poderes aos estados, entre eles, o de organizar a sua própria força policial e de ter uma justiça própria. Essa constituição também estabeleceu “os três poderes – o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, harmônicos e independentes entre si” (FAUSTO, 1997, 251). Ainda relacionado à constituição, importa também destacar a instauração do voto direto e universal.

Entretanto, como já se fez referência, não há, no presente trabalho, a intenção de percorrer os momentos históricos, os avanços e os retrocessos políticos, econômicos e sociais do Brasil. A idéia é de concentrar a caracterização nos dias de hoje, com alguma exceção para um ou outro evento e período que tenha incidência no Brasil de hoje e que tenha, de algum modo, relação com os outros dois países. Entre alguns desses eventos já na república, ressalta-se, por exemplo, o período desenvolvimentista, de 1955 – 61. Esse período - à semelhança dos outros países, Moçambique, muito em particular – pode ser caracterizado pelos altos índices de

crescimento econômico169, por um lado, e, por outro, pelo aumento do déficit público e da inflação, além da influência das agências financiadoras170.

Um outro evento (e período) a ser destacado é o golpe de 1964, que deu origem ao regime militar no Brasil (1964 – 1985). Esse período coincide com o da efetiva ocupação, independência e reconstrução de Moçambique171 e o da vigência da política do Apartheid na África do Sul, cuja principal forma de ação, seja em um ou em outros países, consistia em banir os direitos de ação, em última instância, dos indivíduos, através dos chamados “atos Institucionais”, como ficaram conhecidos no Brasil. Nesse sentido, direitos políticos foram cassados; partidos políticos foram extintos; houve repressão, prisões e tortura; a censura se fez presente; a prática da greve tornou-se ilegal, entre outras restrições.

Do ponto de vista econômico, entretanto – sobretudo no início desse período e voltando ao caso brasileiro – várias conquistas poderiam ser enaltecidas, entre elas, a redução nos níveis de inflação; a redução do déficit público; e o grande crescimento econômico. Era o período do “Milagre brasileiro”, com níveis de crescimento que atingiram cerca de 11,2%, em 1968, e cerca de 13%, em 1973, obtidos graças a “...sacrifícios forçados, especialmente para a classe trabalhadora” (FAUSTO, 1997, p. 473).

Do ponto de vista social, o período foi caracterizado pelo aumento da concentração da renda, por um lado, e pela compressão dos salários dos trabalhadores de baixa renda, por outro; salários estes que chegaram a cair cerca de 61 pontos percentuais, de 1959 a 1973. Dessa

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Crescendo cerca de 7%, de 1957 a 1961. Moçambique, hoje, tem uma média de crescimento de 8,9% por ano. Quanto às agências financiadoras, tanto num quanto no outro, o seu papel foi/é determinante para o crescimento econômico.

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Nesse período, o FMI já impunha as suas exigências, entre elas as relacionadas ao corte nos gastos públicos e à reforma fiscal. Esse período foi também acompanhado pela recessão e pelo desemprego e que, diante das pressões, levou à ruptura com o FMI, em 1959. Moçambique, hoje, está num processo de reestruturação de acordo com as exigências do mercado e do FMI. Entre as conseqüências da reestruturação está, por um lado, um dos maiores índices de crescimento entre os países sub-saharianos, e, por outro, e como se fez referência, um dos maiores contingentes de demitidos, em que, de 2003 a 2006, perto de 11.000 trabalhadores foram despedidos – mal necessário, para alguns defensores do modelo. Mas, para outros, essas medidas são tidas como ortodoxas, autoritárias e punitivas (como ilustra a discussão a respeito da suspensão da ajuda a Guiné-Bissau, por este se demorar a cumprir as determinações do FMI, entre elas a de demitir cerca de 3.500 trabalhadores da função pública [Banco Mundial e FMI mantêm suspensão de relações com Guiné. Notícias, Maputo, 23 Maio 2006. Disponível em <www.Jornalnoticias.co.mz>. Acesso em: 23 Maio 2006]). Na África do Sul, o FMI teve a sua presença marcante na década de 1970 (antes das sanções, portanto) ampliando os benefícios do regime do

Apartheid e em que os malefícios recaiam sobre os já em desvantagens, com reflexos até hoje, como se

depreende do trabalho de Arora e Ricci (c2005).

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Moçambique, mesmo a seguir à independência, viveu um período de ditadura, em que partidos políticos foram proibidos e os direitos individuais limitados.

forma, segundo Fausto, o Brasil lançou-se no cenário mundial como um país de elevadas potencialidades econômica e industrial, mas de baixa escolaridade, saúde e habitação.

O Governo militar chegou ao fim em 1985, embora algumas mudanças - bastante tímidas – tenham sido iniciadas em 1974, com uma ligeira abertura política. O ano de 1985 foi o das primeiras eleições indiretas (pós 1964) para a presidência da República, via colégio eleitoral; eleições em que, pela primeira vez, foram também considerados os votos dos analfabetos. Com a mudança constitucional de 1988, ocorrem, em 1989, as primeiras eleições diretas.

O Brasil é o país com a maior extensão geográfica na América Latina. Tem cerca de 169.799.170 habitantes, de acordo com o censo parcial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2000 (estimada em 186.335.099, em 2006). Tem o português como língua oficial, embora uma parte muito pequena da sua população, a indígena, fale o Tupi- guarani172. Politicamente, é um país democrático, sendo o voto obrigatório.

Do ponto de vista econômico, desde o início da década de 1990, com a abertura comercial e com a liberalização financeira, o Brasil tem uma economia de mercado, na qual o Estado participa como regulador e fiscalizador. De acordo com a Moodys173, nos últimos anos, em particular desde o Plano Real (1994 – 2005) - a economia brasileira teve uma média de crescimento de 2,8% ao ano. Para alguns autores, além das influências exógenas e de outros fatores internos, as baixas taxas de crescimento estão relacionadas ao fato de o Brasil estar num novo ciclo de estabilização econômica, depois da crise dos anos 80; crise essa caracterizada pela alta da inflação e do déficit público, não contidas pelos planos anteriores ao Plano Real, implementado em 1994.

Com a estabilidade conseguida pelo Plano Real, a taxa de inflação - que chegou a 758,59%174 num único semestre, o primeiro de 1994, na vigência do Cruzeiro Real175 – está quase sempre

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Convencionou-se, assim, designar as línguas que pertenciam a dois grupos indígenas, os guaranis e os tupis. Uma ou outra palavra dessa língua aparece na atual sociedade brasileira para designar uma ou outra localidade ou alguns locais de referência. O uso da língua fora das chamadas reservas indígenas é fato isolado.

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Instituição Independente, vocacionada na medição do risco de crédito [Brasil: Analyse da Moody’s... Disponível em: <http://www.fazenda.gov.br/portugues/releases/2005/MOODYSBrasil_Pvv.pdf>. Acesso em: 29 maio 2006].

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[Brasil. Ministério da Fazenda. Balanço dos 12 meses do Real. Disponível em <http://www.fazenda.gov.br/portugues/real/real12.asp>. Acesso em: 29 maio 2006].

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Padrão monetário criado em meados de 1993 até meados de 1994 para facilitar a circulação da moeda. Cada Cruzeiro Real correspondia a 1000 Cruzeiros.

na casa de um dígito. Entretanto, a despeito da estabilidade econômica, o país tem registrado subidas na taxa do desemprego, chegando a 11,48% em 2004, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Ainda de acordo com o IPEA, a taxa atual, 2005, portanto, é de 9,82%.

Quanto à educação, o Brasil mostra uma queda nos índices de analfabetismo, de 13,8% em 1998, para 11,6 em 2003, de acordo com o IBGE.

Para finalizar a breve caracterização do Brasil, vale referir que, apesar de alguns bons indicadores e de avanços educacionais significativos, este país é marcado por uma enorme desigualdade na distribuição da renda, como destacam diversos autores e como é também testemunhado pelo índice Gini, de 0,593, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2005. Com esse índice, é o oitavo pior país em desigualdade, estando a África do Sul logo a seguir, com 0,578. Moçambique está com 0,396 (PNUD, 2005). Ainda de acordo com o referido Relatório, “dos 73 países para os quais existem dados disponíveis, 53 (com mais de 80% da população mundial) têm visto aumentar176 a desigualdade, enquanto apenas 9 (com 4% da população) têm-na visto diminuir” (PNUD, 2005, p. 55).