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6. Müellifin Takip Ettiği Metot
Da panfletagem ao uso de lazer dos bares, a ação determinante foi a diminuição da repressão e o esfriamento dos ânimos juvenis, somado ao fechamento da Esquina Maldita, ocasionado pela transferência de muitos cursos da UFRGS, do Campus Centro ao Campus do Vale, na diminuição da frequência dos bares, somada à falta de mobilização dos estudantes, amenizados pela falta de efetivo local e com a própria falta de motivos pelos quais lutar.
O público “órfão” dos bares da Esquina encontram nos antigos espaços de mobilização e militância da Cidade Baixa lugares para lazer e ações culturais. Conforme Viecelli:
A decadência da “Esquina” foi se processando aos poucos, fruto da necessidade de um novo tipo de convivência. Aos poucos fomos nos mudando: para o Ocidente ou nos espalhando, em grupos, pela Osvaldo Aranha afora. Com o surgimento do “Doce Vida” [na Cidade Baixa], passou a se repetir o fenômeno da Esquina. As pessoas se encontravam todas por lá. [...]
Mas a fuga da Esquina Maldita também tem outros motivos. Os papos mudaram. As questões fundamentais se transformaram. A cabeça de quem questiona hoje é diferente das angústias que importunavam os filhos de 60 com os pés em 70. “Várias gerações passaram na Esquina até que os bares também não resistiram e morreram. [...]325”.
324 Elmar Bones citado por ÁVILA, Alisson e MICHELIN, Juliana. C. Os vícios do Bom Fim. Aplauso - Cultura
em Revista. Ano 3. nº 20, 2000. p. 17.
O público que inicialmente frequentava os novos espaços do Bom Fim era o mesmo público que frequenta a Cidade Baixa. Conforme Frank Jorge:
[...] eu acho que muito desse público que migrou para a Cidade Baixa, ele é semelhante ao público de origem da agonia do Bom Fim do final dos 70, início dos 80 [...](informação verbal)326.
Migrando para o bairro, os frequentadores encontravam como espaços de lazer O Cine ABC, com programação alternativa, e Cine Avenida, com programação comercial; os bares Van Gogh, Doce Vida e Marcelina e Ressaca, os restaurantes Pedrini, Copacabana Galo e Spina; e as Padarias da República e Suíça; além das boates Chão de Estrelas, Gente da Noite, Big Som, Clube da Saudade, o Teatro de Câmara e o novo Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (Grupo Terreira da Tribo) (1984). (Apêndice E).
Com o abrandamento da repressão e as conquistas nos âmbitos das ações sociais no espaço aberto e na interação entre as pessoas, estas liberdades recuperadas, somadas ao “ativismo cultural de resistência” que até então era instrumento de expressão, foi consolidando um espírito de construção e manutenção da cultura, alicerçado sobre a produção já executada e a vontade de manutenção desta prática, da qual surgiram grandes e expressivos grupos de várias áreas, como música, teatro, artes, dentre outras.
Assim, os espaços de uso de lazer noturno na Cidade Baixa se prestaram a receber estes “militantes culturais”, que buscavam um ambiente para suas práticas e exercícios. Neste território, foram se consolidando lugares para todos os gêneros musicais: bares de músicas nativistas, de rock, de metal, de samba, de música de “dor-de-cotovelo” (como ainda são referenciadas as músicas de Lupicínio Rodrigues e de seus amigos), de MPB, dentre outras. Portanto, o território começa a se estruturar, primeiramente com uma distribuição aleatória destes caráteres de uso pelo território, disseminados pela malha local, se consolidando, lentamente, com zoneamentos mais especializados em cada tipo de música ou ação cultural.
Próximo ao Largo Zumbi dos Palmares (hoje mais conhecido como “Largo da EPATUR”), concentraram-se bares de música nativista. O Pulperia no lugar do atual Jeckyll, à Travessa do Carmo, e o Estância de São Pedro à Rua João Alfredo quase esquina com a Rua da República, consolidavam o espaço tradicionalista. Na Rua Lima e Silva, às proximidades da Primeira Perimetral, os bares-lancheria Cavanha’s, Copão e Bar e Lancheria Apollo faziam um reduto de locais para lanches associado a lazer, compartilhado por pessoas de várias gerações. Às proximidades do supermercado Zaffari, na esquina das Ruas Joaquim Nabuco
ano 210. Folha da Tarde. 2 de abril de 1982.
com José do Patrocínio, o Big Som e a primeira casa do Opinião faziam um circuito de rock. Inicia-se uma consolidação de cafés pela Rua da República, em suas largas calçadas (arborizadas na reforma da rua para o recebimento de Dom Pedro II, em sua visita ao Brasil, em 1845, que implicara aumento de algumas residências para sobrados, com anexações de balcões no segundo pavimento, construção de platibandas, colocação de adereços estilísticos e repintura das casas e meios-fios), que usufruem desta morfologia para ocupação dos passeios públicos com mesas e cadeiras sob seus jacarandás.
Assim, se consolida, às voltas do Doce Vida e Marcelina, também o Gota d’Água, substituído pelo Bar do Marinho, a Padaria da República e o Fofa (1982).
Na Rua Sarmento Leite, surgem o novo Bar do Beto (II) e o Zelig (1985/6), às proximidades da CEUPA. À esquina desta com a Rua José do Patrocínio, instala-se o bar do Libanês (mais conhecido por bar do Francês, posteriormente transformado em John’s Bar – um reduto de cabeludos que foi fechado numa batida policial, por ser ponto de venda de drogas327). O bar era mantido fechado, por isso os frequentadores precisavam bater à porta para que o proprietário selecionasse quem poderia ou não entrar. O lugar era conhecido pelo capricho e delícia da cozinha especializada em comida árabe328.
À projeção da Rua Sarmento Leite, com a qual a referida edificação faz esquina, a Padaria Suíça foi eficientemente instalada, na rota de deslocamento entre as Casas de Estudante, aproveitando o trânsito natural de pedestres no local.
Em direção ao centro, pela Avenida José do Patrocínio, segue-se a Sorveteria Jóia, à esquina com a Rua da República e, na esquina ao lado, o Makumba (substituído pelo primeiro Água na Boca), com repertório MPB, que fazia uma rota com o Maria Fumaça e o João de Barro, instalado à José do Patrocínio, esquina com a Rua Lopo Gonçalves – esquina na qual teria vivido Adriana Calcanhoto329.
Contornando os limites espaciais do bairro, à margem deste, pela Avenida João Pessoa, Venâncio Aires e Aureliano Figueiredo Pinto, bares para um público mais velho: Casa de Portugal, Pedrini, Clube da Saudade, Spina, Restaurante Galo e Copacabana. Lindeiras ao Cine ABC, uma sequência de boates gays, como Ego Sun (migrada da Avenida Independência e, posteriormente, da Rua Santo Antônio), Indiscretus e W Bar (ou W Boate).
Próximo desta esquina, à Rua José do Patrocínio, o Chão de Estrelas - da boêmia de Lupicínio -, posteriormente seguidos por Anos Dourados (próximo à Igreja Sagrada Família)
327 Trecho por Tagore Rodrigues, 53a., em entrevista individual em 16.03.07. 328 Ibid., loc. cit.
e Sandália de Prata (possivelmente, também, o Clube Carinhoso) de danças de Salão330. Próximo deste local, onde era tocado e dançado o samba, havia o Bar do Títi331, um negro grande e forte que fervia ininterruptamente uma sopa de batata, servida para a recuperação de alguns frequentadores. Era “fim de noite” no outro extremo do bairro, equivalendo à função do Van Gogh, à esquina da Rua da República com a Avenida João Pessoa, frequentado até hoje e famoso pela sua sopa na madrugada.
Teatro de Câmara e Teatro do Terreira da Tribo faziam uma parceria na potencialização da frequência do teatro, ainda que tenham perfis diferentes. O Teatro de Câmara se presta ao atendimento de público em seus espaços interiores, coberto e fechado. Já o Terreira da Tribo é teatro popular, sem espaços físicos específicos, com participação e interação do público, frequentemente realizado no espaço urbano. Dispunha de seu próprio território, no qual eram exercidos os ensaios e treinamentos de sua equipe, constantemente em ampliação. Era também território da comunidade local – os atores viviam no espaço do teatro.
A Cidade Baixa tornara-se uma grande arena cultural, dispondo de espaços para variadas formas de manifestações artísticas e de qualidade. Os anos 80, motivados pela repressão, qualificados pela competência dos artistas, formou diversos grupos musicais de renome, em todas as áreas já citadas, do nativismo ao MPB, como Kleiton e Kledir (que já alcançavam seu auge no Bom Fim, faziam a inauguração do Bar Maria Fumaça, na Cidade Baixa; Engenheiros do Havaí – iniciado nos shows promovidos pela Faculdade de Arquitetura da UFRGS; Nenhum de Nós, lançado numa programação do Escaler Voador, promovido pelo Bar Escaler, do Bom Fim, incluindo grupo Terreira da Tribo, com várias performances, inclusive no pátio da Universidade, destacando-se, inclusive em nível nacional, além do primeiro show do Tangos e Tragédias, feito no Espaço do IAB.
Este uso cultural local foi potencializado pela proximidade da Universidade que, politizada, apoiava a liberdade de expressão conquistada com as liberdades democráticas e com a frequência de seus estudantes, que moravam, trabalhavam ou estudavam às suas proximidades. As Casas do Estudante Universitário de Porto Alegre (CEUPA) I, III e IV, além da CEUACA (Rua Riachuelo) e CEUFRGS (Avenida João Pessoa) também dispunham de público para estas atividades. Trajetos juvenis pela Avenida Borges de Medeiros e Ruas André da Rocha, Sarmento Leite e República mantinham entradas à Cidade Baixa.
A esta época, a Sala 1 Cinema Vogue já estava fechada e seu público se dividia entre os ciclos no Bristol e no ABC. Portanto, conexões entre as área do Bom Fim e da Cidade
330 Provavelmente instaladas à esquina diagonal da posição do Opinião. 331 Ou Tídi ou Tíde – Bar Luanda.
Baixa se davam mais fortemente pela Rua José Bonifácio e Avenida Venâncio Aires – ligações conectoras entre os bairros, divididos pelo Parque.
Conforme Elton Campanaro, morador da Cidade Baixa, na época:
Na verdade na minha época o perfil de bares era o Bom Fim, mas não era aqui, então eu saía praticamente da Cidade Baixa e ia para o Bom Fim naquela época.[...] Na verdade eu não frequentava bar aqui [...]
Eu ia pela Venâncio Aires, eu saía daqui, pegava a Aureliano Figueiredo Pinto, depois entrava na Venâncio, e aí até lá o Pronto Socorro e do Pronto Socorro eu entrava na Osvaldo Aranha e depois ia ali, tinha bares, tinha os bares ali naquela época, ou era na Fernandes Vieira, ou então lá na parte do Ocidente, na João Teles. Era naquele pedaço ali que tinha os bares do Bom Fim332.
Neste momento, os altos da Cristóvão Colombo e o Bom Fim dividiam mais público afim, devido ao caráter mais contestatório, subversivo e de ocupação de grupos do que na relação Bom Fim e Cidade Baixa. A conexão entre os dois últimos se dava pela questão cultural, no início deste período, mas que foi perdendo força no primeiro e se fortalecendo no segundo.
Os espaços que ofertavam este tipo de programação no Bom Fim, como o Ocidente, era local de semelhança entre os públicos dos dois bairros, como já citado por Frank Jorge (notas 107 e 128). Semelhante a este, o Clube de Cultura, junto à rota de conexão destes dois espaços, pelo caminho feito ladeando o Parque, reforçava esta conexão cultural ao final do bordo de bares do Bom Fim. A “costura” com o território da Cidade Baixa se dava às proximidades dos já extintos Cinemas Rio Branco e Atlas, coincidentemente em território que já havia tido um caráter cultural.
No Bom Fim, a programação cultural do Ocidente, Bristol, Clube de Cultura e os shows no Escaler (até a montagem do Escaler Voador) e no Auditório Araújo Viana, mantinham o perfil cultural construído à Cidade Baixa e faziam a conexão entre estes espaços através de seu público. Desta programação, citam-se, no Ocidente, os shows musicais (visto que o teatro não vingara na intensidade desejada); no Bristol, a programação de cinema de arte nos ciclos, as sessões promovidas pelos grupos teatrais, com filmes especiais, importados, e os eventuais ensaios das peças destes grupos, ali apresentadas; no Clube de Cultura, a vasta programação de artes; e no Escaler, shows de música. Nos demais espaços, ocupação territorial contestatória de autoafirmação de grupos e culturas ou ideologias específicas.
À Cidade Baixa, um pouco de tudo, somado também a lugares de ocupação de grupos. O que o Bom Fim tinha de subversão, a Cidade Baixa tinha de cultural. Nela, espaços “malditos” também foram identificados, como o ponto de venda de drogas que se dava à base
do bar Makumba ou Água na Boca, e no lugar do Bar Adriano – locais que se equivaliam ao espaço do Bar Bocaccio333 - na base do Edifício do Ocidente (onde atualmente se encontra o Sebo Traça) - onde também teria funcionado um ponto de venda de drogas – no qual o pessoal vendia, comprava e consumia, “abrindo carreirinhas sobre o tampo da mesa do bar”. Local este que compartilhava o público com os frequentadores do Fumódromo, e que, após o consumo, se espalhavam pelos bares da região, concentrando-se, principalmente, às portas dos bares Lola, João e Lancheria do Parque, talvez pelos baixos preços das bebidas neles vendidas, e/ou pela atração à concentração de público no local.
O período se encerra marcado pelo final da Ditadura, pelo fechamento do Auditório Araújo Viana e pela ampliação do número de espaços de lazer noturno, em suas variadas formas de sociabilização e consumo.
Figura 43 - Auditório Araújo Viana.
Fonte: Acervo do Museu da UFRGS.
O capítulo encerra após a apresentação das conexões de atuação militante entre Bom Fim e Cidade Baixa, à época da Ditadura, e do desenvolvimento do point da Esquina Maldita até seu findar, com a migração do seu público a outra região do Bom Fim e à Cidade Baixa.
O capítulo também apresenta as particularidades de cada sítio nos seus espaços de atuação e as diferentes ações sociais desenvolvidas em cada um deles, além das conexões com outras regiões próximas que começavam a crescer no uso noturno.
333 “[...] tinha um bar embaixo (do Ocidente), um bar onde é essa livraria de hoje, tinha um bar chamado
Bocaccio.[...] que é uma livraria hoje, que era um bar muito apertadinho, assim, que passava repetidamente vídeos, poucos vídeos, assim, de shows, passava muito um vídeo dos Stones [...] esse era um bar que tinha também, era o Bocaccio, né, ele era tipo que um morredouro, quando se tira, um bar que se ia quando já estavam fechando os outros e aquele estava aberto ainda...” (informação verbal). Trecho por Frank Jorge, 40a., em entrevista individual em 20.12.06.
4. SEGUNDA FASE DO MAPEAMENTO DOS ESPAÇOS DE USO NOTURNO: