Na caracterização de sistemas deposicionais, os elementos básicos de descrição são as fácies, unidades sedimentares concretas, porém desconfinadas estratigraficamente (Walker 1976, Anderton 1985, Giannini 1993), delimitadas por mudanças de propriedades macroscópicas. Embora descritivas, as fácies assim definidas visam, em última análise, a interpretações de processos deposicionais. Deste modo, interessam na sua caracterização, sobretudo as propriedades que possam ter-se formado ou existido durante ou logo após a deposição (sindeposicionais e penecontemporâneas, respectivamente). O procedimento mais usual de análise de fácies divide-se em duas etapas: primeiro, as estruturas sindeposicionais permitem trançar correlações com a morfologia do depósito (leito sedimentar ou frente da duna, por exemplo), ou seja, correlações produto-forma; em seguida, a partir destas correlações e da assunção tácita de validade de correlações processo-forma, traçam-se correlações produto-processo (Giannini 2007).
Nos depósitos quaternários, a morfologia pode estar ainda preservada e ser assim observada diretamente no campo; portanto, considera-se a coexistência de fácies morfológicas, traçadas através da observação direta das relações processo-forma, e fácies morfo-deposicionais, baseadas na descrição de elos forma-produto (Giannini 2007).
Com base nesse enfoque, as principais atividades executadas durante as jornadas de campo nas áreas de dunas e paleodunas eólicas costeiras selecionadas foram: 1. identificação e descrição de fácies e elementos morfológicos reconhecidos previamente no sensoriamento remoto; 2. análise de fácies deposicionais e associações de fácies, correspondentes, respectivamente, às fácies e elementos morfológicos identificados;esta análise foi feita principalmente em cortes naturais (de deflação ou erosão subaquosa), incluindo a confecção de croquis e seções colunares; 3. coleta sistemática, por fácies e/ou horizonte estratigráfico, de medidas de espessura e atitude de estratificação cruzada, com trena e bússola; 4. amostragem seletiva de sedimentos destinados a datação e a caracterização textural, mineralógica e petrográfica (teor de carbonatos, granulometria, microscopia óptica de luz polarizada e microscopia eletrônica de varredura).
Diferentemente do que costuma ocorrer em paleodunas quaternárias terrígenas de clima tropical, nas quais a pedogênese oblitera as estruturas sedimentares primárias, a
análise de fácies nos eolianitos estudados foi facilitada pela abundância de estruturas sindeposicionais ou penecontemporâneas, principalmente laminação plano-paralela pouco inclinada e estratificação cruzada (inclusive acanalada-festonada), algumas com evidências superimpostas de paleossolos (horizontes de raízes cimentadas ou rizocreções e camadas com escurecimento gradual para o topo e gastrópodes continentais).
5.2.2. Códigos de fácies
As fácies deposicionais observadas no campo foram classificadas por meio de siglas tipo Xy, em que as iniciais maiúsculas (X) referem-se ao nome da rocha, com ênfase na granulação (arenito ou rudito), e as iniciais minúsculas após as maiúsculas (y) fazem alusão às estruturas sedimentares reconhecidas. Para simbolizar estas composições e estruturas, foram utilizadas as letras listadas no Quadro 4.
Quadro 4. Siglas adotadas para representar litologías e estruturas sedimentares, nos códigos de
fácies, segundo a fórmula geral Xy
Natureza da informação Sigla Descrição
A Arenito ou areia
X
Nome da rocha/depósito, com
ênfase na granulação R Rudito
ca Estratificação cruzada de ângulo alto (›10°)
cb Estratificação cruzada de ângulo baixo (≤10°)
p Estratificação plano-paralela
y ra Rizoconcreções abundantes (›10% em volume)
re Rizoconcreções escassas (≤10% em volume)
g Presença de bioclastos ou vestígios in situ de gastrópodes
b Presença de bioclastos (conchas) rudáceos
Estruturas sedimentares ou conteúdo biológico
reconhecidos
m Maciço (sem estrutura sedimentar aparente)
5.2.3. Coleta e códigos de amostras
Ao todo foram coletadas 84 amostras, das quais 50 são de eolianitos, 13 de praias, seis de dunas ativas, oito de paleodunas terrígenas, duas de beach-rocks, uma da Formação Barreiras, uma de depósito “Pós-Barreiras” cascalho-arenoso, uma de calcirrudito de gastrópodes (ECE49), duas de arenitos calcíferos com gastrópodes in situ (EPI04 e ECE45), interpretados no campo como possíveis paleossolos. Deste total, 21 foram destinadas também a datação por LOE e 42 tiveram coleta de amostra indeformada para estudo petrográfico. Amostras de depósitos não eolianíticos coletadas para datação visaram dar contexto estratigráfico aos eolianitos. As estratégias foram: 1. datar por LOE feições eólicas terrígenas fósseis com morfologia similar a dos eolianitos (caso da amostra EPI02), para ter ideia dos intervalos de tempo sem cimentação carbonática; 2. datar por 14C o
cimento carbonático de feições análogas aos eolianitos, porém ainda não litificadas (caso da amostra EPI13R), para ter ideia do tempo de cimentação envolvido na formação dos eolianitos; 3. datar por LOE e 14C sucessões de camadas que representam o substrato dos eolianitos, tais como o “Pós-Barreiras” e os “beach-rocks” (caso do ponto ECE51); 4. datar por LOE e 14C as sucessões acima e abaixo de horizontes calcíferos com gastrópodes continentais interpretados como possíveis paleossolos (caso dos pontos EPI04 e EPI45); 5. datar por 14C concentrações de gastrópodes terrestres em meio a corredores de deflação entre cordões de eolianitos (caso da amostra ECE49Econ), para caracterizar a relação de tempo entre eles.
A amostragem para LOE foi feita em duas alíquotas, uma destinada à leitura de paleodose e outra para a medida de dose anual. A coleta da primeira alíquota foi feita protegida da luz, com uso de tubos opacos, fechados, cravados em porção de depósito livre de retrabalhamento por escorregamento, de preferência na crista da paleoduna. A coleta da segunda alíquota foi feita em saco plástico transparente. Esta segunda alíquota serviu também para ensaios sedimentológicos, como granulometria. As amostras tomadas para petrografía foram embaladas em saco plástico, orientadas quanto a topo e base, e, em seguida, acondicionadas em potes de plástico rígido com tampa.
As amostras foram numeradas em ordem crescente contínua, de W para E. A primeira letra do código de amostragem faz referência ao tema do projeto (E, de eolianitos). As duas letras seguintes indicam o estado em que foi feita a coleta (PI ou CE), e são seguidas pelo número do ponto ou estação de amostragem, começando por 001; segue-se outra letra, indicativa da litología ou feição geomorfológica (D para duna ativa de orla praial, P para praia, E para eolianito, R para rastro linear terrígeno, X para paleoduna, Y para beach-rock, PB para “Pós-Barreiras” e g para amostras com gastrópodes inteiros); nos casos em que, num mesmo ponto, coletou-se mais de uma amostra, adicionou-se uma letra minúscula, que especifica o horizonte de amostragem (a,b,c, de baixo para cima). A localização das amostras apresenta-se nas figuras 5.1 a 5.4.
Figura 5.1. Localização de amostras no setor norte, no Estado de Piauí. Para otimizar a
visualização, omitiram-se algumas amostras que se encontram dentro de sucessões num mesmo ponto.
Figura 5.2. Localização de amostras no setor norte, no Estado de Ceará.
Figura 5.3. Localização de amostras no setor centro.