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As disciplinas de Saúde Coletiva no atual currículo do Curso de Medicina da UFPR foram descritas anteriormente com base na análise documental do material coletado e extraído do projeto pedagógico do curso.

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Os docentes atuam especificamente em cada uma das oito disciplinas do curso já relatadas e a sua normatização está bem definida administrativamente pela Resolução do CEPE Nº 62 de agosto de 2006, que estabeleceu o elenco de disciplinas e práticas profissionais do Departamento de Saúde Comunitária do Setor de Ciências da Saúde da UFPR.

Além disso, a resolução definiu que os créditos correspondentes às diferentes modalidades das disciplinas são assim computados: “um crédito equivalerá a dez horas de aula teórica, a vinte horas de aula prática e a quarenta horas de prática profissional sob a forma de estágio supervisionado ou Internato”.

As ementas das disciplinas, assim como os planos de ensino de cada uma delas, descrevem os objetivos educacionais que os estudantes devem alcançar ao final de cada disciplina e que lhes são apresentados no início das suas atividades acadêmicas. Tais objetivos estão registrados no Ementário da Pró-reitoria de Graduação e na coordenação do Curso de Medicina.

No entanto, entre os objetivos prescritos e os efetivamente executados pelos docentes, existe certo distanciamento, como aponta um dos professores entrevistados:

“A principal dificuldade que a gente tem, eu diria quase como um desafio, porque entre a idéia do que a disciplina foi imaginada e o que a gente consegue tocar, tem sempre um grande abismo entre quem vai fazer e o como vai fazer”. (PUFPR4)

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Um bom exemplo dessa situação é a disciplina de Epidemiologia, que esteve muito centrada nas doenças transmissíveis, tendo depois se voltado para a metodologia epidemiológica e para a epidemiologia das doenças, com certa repetição da clínica e do diagnóstico. A proposta no atual currículo foi no sentido de que as doenças transmissíveis ficassem com a disciplina de Infectologia que, inclusive, está lotada no mesmo Departamento, como descreve uma professora entrevistada:

“[...] a Epidemiologia passou a ter um conteúdo mais de Epidemiologia Básica como trabalhar com dados, indicadores e método epidemiológico. Eu achei que não era necessário dar a chamada Epidemiologia Social, porque a meu ver a Epidemiologia Social é a Sociologia aplicada à saúde. Pode ser que tenha gente que questione isso, mas eu acho que se nós não tivermos uma boa visão da epidemiologia tradicional, como trabalhar com dados, indicadores, o aluno sequer tem instrumental para discutir a Epidemiologia Social. O aluno de Medicina demanda muito a compreensão das doenças pelos métodos tradicionais. Então eu diria que a gente fez uma reforma conservadora da epidemiologia.”

(PUFPR2)

Houve um período de muita carência de professores na década de 90 nas universidades federais, causada pela impossibilidade de contratar novos docentes, inclusive para substituição dos aposentados. A situação se agravou na UFPR e, em particular, no ensino de graduação com a criação de Práticas de Ambulatório Geral, disciplina para a qual o Departamento de Saúde Comunitária ficou como co-ofertante das práticas profissionais integradas do Curso de Medicina.

Um dos professores entrevistados relata:

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“Prática de Ambulatório Geral, ela tem esse nome porque se colocou, mas ela é uma disciplina basicamente de Atenção Primária à Saúde, ela é nas Unidades de Saúde da Prefeitura de Curitiba. Ela se dá no 6º período do Curso de Medicina, é um dos primeiros momentos de inserção precoce do aluno na rede de saúde. Porque a primeira vez que o aluno vai para a Unidade de Saúde, ele tem na Saúde e Sociedade, no 3º período, mas é muito teórico e a nossa não, o aluno vai toda semana à Unidade de Saúde e ele já visa atendimento aos pacientes da Unidade que são agendados, então ele faz uma atenção primária, mas ele participa da Unidade de Saúde também. Ele participa dos programas da Unidade de Saúde, faz visita domiciliar, faz atividade de educação em saúde, participa das campanhas de vacina, da campanha de dengue, tudo que a Unidade acaba produzindo que é um conhecimento que a gente acha que é importante, os alunos participam de todo esse processo. É uma disciplina importante, mas tem um professor só, que sou eu. O que nós conseguimos foram médicos concursados da Universidade que nos ajudam na disciplina, então, são médicos da Universidade que são lotados no nosso Departamento e eles ficam na Unidade de Saúde. E o aluno vai para a Unidade e o médico está lá”.

(PUFPR5)

Os gestores não se manifestaram especificamente sobre esta questão, mas tendem a concordar com os professores porque, com o processo de ajustamento curricular provocado pelas diretrizes curriculares, há maior mobilização para a formação do médico que atenda as necessidades de saúde da população como a exposição precoce do estudante às Unidades Básicas de Saúde do SUS, ampliando o seu contato com a comunidade.

Nesta perspectiva, existe um esforço concreto de superação de um curso tradicional, de uma visão de formação médica mais voltada para as práticas dentro do Hospital de Clínicas.

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Nesta categoria, a proposta é analisar como os conteúdos e as práticas da área de Saúde Coletiva são enfatizadas no currículo do Curso de Medicina efetivamente executado, bem como a carga horária real dessas atividades.

Vale lembrar que a UFPR adota um modelo curricular estruturado em regime de matrícula por disciplina (crédito). Por isso, cada disciplina tem um professor responsável que coordena e traduz a ementa e os seus objetivos educacionais em um programa disciplinar, o que se concretiza em um cronograma de atividades acadêmicas, com carga horária administrada pelo Departamento de Saúde Comunitária, assim como para todo o elenco de disciplinas e práticas profissionais dessa área.

Desta forma, se por um lado as ênfases nos conteúdos e práticas das sete disciplinas de Saúde Coletiva são bastante específicas, o que lhes confere um caráter “permanente”, por outro, elas têm uma dimensão “variável” que procura se adaptar ao calendário escolar de cada ano, no plano de ensino.

Cada um dos professores entrevistados explicou a ênfase dada na sua disciplina especificamente, que tem na perspectiva da formação do médico generalista a sua imagem objetivo, mas com pouca articulação entre as sete disciplinas ofertadas pelo Departamento de Saúde Comunitária.

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Apesar disso, parece evidente o esforço da coordenação em envolver todos os docentes na discussão do ajuste curricular, uma preocupação que poderia ser comprovada até na pauta das reuniões ordinárias de 2007, convocadas pelo Colegiado do Curso de Medicina.

De acordo com os estudantes de primeira à quarta série, reunidos no Grupo Focal realizado no Diretório Acadêmico Nilo Cairo – DANC, houve consenso de que as disciplinas de Saúde Coletiva são muito teóricas e com poucas práticas, com exceção dos PAGs, que dão importância ao que os estudantes entendem como atividades práticas, como podemos observar neste relato:

Eu acho que a única disciplina que nos proporciona momentos práticos é o PAG. Porque Saúde, Sociedade e Meio Ambiente, a gente até teve essa saída a campo, mas para mim não valeu como carga horária prática. Teve a sua importância, mas acho que a gente é simplesmente jogada e o PAG é eminentemente prático, então o conteúdo teórico é mínimo, mas eu não vejo isso como um problema. Até pelos assuntos que eram abordados basicamente sobre doenças, isso a gente tem em outras disciplinas, nas especialidades. E nas outras é basicamente teórico, a Infectologia, por exemplo, eram três aulas que a gente tinha teóricas que deveria ser uma hora teórica e duas de prática ou teórica-prática, mas a gente não viu nenhum paciente, a gente não saiu do ambiente de sala de aula. Saúde e Trabalho, a gente só teve conteúdo teórico, tivemos uma visita a uma empresa, que foi até interessante, porque a empresa, no meu modo de ver, é uma comunidade. Acho que isso foi um problema bem grande, porque dentro de um Departamento de Saúde Comunitária eu acho que a prática é indispensável. (EUFPR3)

Na visão dos internos do 12º semestre, entrevistados em um Grupo Focal específico, houve consenso sobre a conveniência de se antecipar o estágio e sobre a oportuna vivência em uma Unidade Básica de Saúde.

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Considerada como um avanço, a obrigatoriedade dos estágios nos anos iniciais, que vai ao encontro das Diretrizes Curriculares Nacionais e passará a vigorar no próximo ano.

Com relação ao estágio do Internato no 12º semestre, que havia sido inicialmente colocado na reforma curricular como obrigatório, acabou se transformando em optativo, como relata um dos professores entrevistados:

Eu só estou ligado à questão do Internato no 12º período. Na Federal, os estudantes sempre passam pela Saúde Coletiva depois que já passaram por todos os outros estágios. Então eles estão mais próximos da prova de residência, o interesse tende a ser menor. Não está no currículo como estágio obrigatório, embora na gestão da coordenação anterior se comportasse como tal. O Coordenador do curso, tentando obedecer às diretrizes, fazia com que todo mundo passasse. A coordenadora atual voltou a explicitar a questão do fato de ser eletivo. Para nós que fazemos as coisas, o curso ficou até melhor, porque os alunos que vão lá são os que se interessam, uma grande dificuldade que tem é que nós fazemos uma parte boa dessa atividade em Unidades de Saúde PSF de Colombo. Agora, a Universidade não encontrou nenhuma forma de remunerar a supervisão médica na Unidade. No ano passado foi muito difícil, nós ficamos numa Unidade só com uma médica da universidade que pedimos para dobrar a carga horária dela e então ela supervisionava os alunos. Ficou um ambulatório na Unidade de Saúde. Para não ficar só isso, a gente faz outras atividades, não é só atender pacientes na Unidade de Saúde. Mas a parte da atenção ficou assim, muito artificial. Esta médica não gosta de entrar no consultório junto com os alunos, ela orienta no corredor, horrível nesse aspecto. Eu consegui no final deste ano, que dois ex-alunos nossos que têm afinidade com a área e que não passaram na residência, apesar de serem excelentes alunos, façam essas coisas lá [consulta didática]. Eles recebem R$ 300,00 reais para o combustível e terão certificado de participação, mas é uma situação precária. E tem mais uma médica que é da Unidade de Saúde que a gente identificou que poderia fazer esse trabalho e está fazendo também. Porque tem que ter capacidade técnica e a questão ética, gostar de aluno, tem que ter alguma tendência para a docência. Então hoje os alunos fazem isso, está melhor que no ano passado, mas tem prazo para terminar. (PUFPR1)

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Como se pode observar, apesar da reforma curricular ter introduzido duas disciplinas no 6º e 7º semestres, chamadas de Prática de Ambulatório Geral I e II, que acabaram sendo assumidas pelo Departamento de Saúde Comunitária, essas disciplinas não estão até agora cumprindo a função que seria de Saúde Coletiva, no sentido de dar uma visão maior de organização de serviços de saúde, programas de saúde e epidemiologia local. Em função disso, o estágio do Internato acaba cumprindo esse papel, como afirma uma professora entrevistada:

Eu considero que os nossos alunos hoje só estão tendo uma vivência prática de Saúde Coletiva no 12º período, o que é muito ruim. Foi essa motivação e as avaliações sucessivas que a gente fez do estágio, com questões abertas, que nos mostraram que ele teria que descer para o 6º e 7º período, então nós estamos propondo mudar essas disciplinas de PAG (Ambulatório Geral), com uma visão muito clínica mesmo, para Atenção Integral à Saúde I (AIS I) e Atenção Integral à Saúde II (AIS II). A proposta na reformulação é 1 hora teórica e 3 horas práticas na AIS I e 2 horas teóricas e 3 horas práticas na AIS II, para tentar resolver isso e descer essa nossa experiência do estágio para essas disciplinas, porque não tem sentido no último período do curso, o estudante ter uma prática em Unidade de Saúde, em que ele veja a Saúde Coletiva. É isso o que a gente está tentando consertar agora. (PUFPR2)

Em síntese, pode-se dizer que o reconhecimento das dificuldades e problemas do curso vem gerando medidas institucionais orientadas para o aprimoramento da proposta curricular. Em primeiro lugar, vale mencionar o esforço dos coordenadores em transformar as reuniões em espaços de negociação para melhor articular as disciplinas. Em segundo, importa destacar a proposta de Ajuste Curricular com a antecipação dos estágios refletindo o consenso da comunidade acadêmica, tem ainda o mérito de aproximar o curso das Diretrizes Curriculares Nacionais.

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