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“A verdade, com suas vestes, acha que os fatos são apertados demais. Na ficção ela se move mais à vontade.”
(Rabindranath Tagore, Poesia mística, 2003) “Si j’essai de me remémorer, je m’invente.” (Serge Doubrovsky, Le livre brisé)
As epígrafes dadas a este capítulo parecem já orientar o olhar deste estudo para a autoficção como instrumento de análise da obra do escritor Caio Fernando Abreu, revelando ser a autoficção um dos modos de tratar uma “verdade”, sem perder o caráter literário da “escrita do eu” verificada em muitos aspectos da obra desse autor.
Se as questões relacionadas à escrita autobiográfica, como se viu, trazem muitos problemas até mesmo conceituais para a crítica literária em geral, as questões envolvendo a “autoficção” parecem ser ainda mais problemáticas, levando a dúvidas e dificuldades de estabelecimento de um conceito ou a compreensão desse para sua elucidação. Sobretudo no Brasil, a autoficção parece ainda carecer de estudos sistematizados especialmente no que se refere à sua diferenciação do conceito de autobiografia, de modo mais amplamente empregado, ainda que com as limitações já discutidas.
Essa realidade brasileira pode ser percebida na confusão relativa à origem da autoficção percebida em artigo de Betty Milan publicado no jornal Folha de S.Paulo de 19 de dezembro de 1993. Já pelo título do artigo que comenta o lançamento do livro O que a noite conta ao dia, constata-se um equívoco da crítica: “Hector Bianciotti lança a autoficção”. No texto que antecede a entrevista ao escritor argentino, filho de camponeses italianos e radicado em Paris desde 1961, Milan reconhece a “impossibilidade” da autobiografia, creditando à autoficção o papel da imaginação
literária na escrita do eu, mas atribui a Bianciotti a criação do termo, ou mesmo do gênero que, segundo ela, teria escapado aos analistas (à crítica), tendo sido assim “criado” por Bianciotti:
“Quem conta um conto, aumenta um ponto”, diz o adágio popular, dando a entender que não há como narrar sem inventar. Não seria precisamente para inventar que o contador se põe a narrar, para transfigurar com as suas palavras a história e se realizar assim enquanto sujeito?
Quem conta escrevendo a própria vida o faz também no anseio de se transformar através da reconstrução do passado. Bastaria isso para situar a autobiografia no campo da ficção, em que o biógrafo se exerce por mais que ele insista no “testemunho verídico”, idéia aliás encobridora da sua fantasia.
Isso não poderia ter escapado aos analistas, mas foi um literato que, por valorizar a imaginação, pôs os pingos nos “ii”, negando a possibilidade mesma da autobiografia e criando um gênero literário: o da autoficção. Trata-se de Hector Bianciotti [...] (Milan, 1993, p.6)
A articulista, que revela desconhecimento do tema já em pauta pelo menos desde meados da década de 1970 na França, certamente se baseia nas informações passadas pelo autor apresentado que formula coerentemente uma “teoria” para a autoficção:
A memória e a imaginação trabalham juntas. Nós não lembramos o fato em si, mas da última vez em que nos lembramos dele. A autobiografia é impossível, daí o termo autoficção [...] A autoficção é um romance baseado nos atos e experiências que formaram nosso ser e constituem nossa vida. Já no romance, a gente pode, por exemplo, inventar uma personagem a partir de duas ou três pessoas conhecidas e até mesmo de uma fotografia. (ibidem)
O equívoco, assim, se estabelece quando a crítica argumenta que o termo teria sido então introduzido pelo autor na literatura, com o que ele concorda.
Essa realidade remete, portanto, este estudo à necessidade de uma abordagem das origens do termo e sua discussão também procedentes da crítica francesa, uma vez que a “autoficção”, segundo alguns estudiosos franceses, nasce justamente de uma espécie de desdobramento da autobiografia, ou mesmo supostamente de uma lacuna deixada por Philippe Lejeune no seu quadro estrutural para o estabelecimento do gênero autobiográfico.
Numa consulta ao Dictionnaire International des Termes Littéraires1 obtém-se que, etmologicamente, o termo autoficção é um “Néologisme du milieu du XXe
siècle repris par Serge Doubrovsky, critique littéraire et romancier, en 1977, pour désigner
son roman Fils. Le terme est composé du préfixe auto- du grec αυτο: ‘soi-même’ et de fiction”.2 Nesse caso, o referido dicionário ainda apresenta:
1. (Sens étroit). Projection de soi dans un univers fictionnel où l’on aurait pu se trouver, mais où l’on n’a pas vécu réellement.
2. (Par extension). Tout roman autobiographique, en considérant qu’il y a toujours une part de fiction dans la confession.
3. (S. Doubrovsky). Récit dont les caractéristiques correspondent à celles de l’autobiographie, mais qui proclame son identité avec le roman en reconnaissant intégrer des faits empruntés à la réalité avec des éléments fictifs.
Combinaison des signes de l’engagement autobiographique et de stratégies propres au roman, genre qui se situe entre roman et journal intime.3
Com base nas três acepções aqui explicitadas, é possível perceber que, na primeira, há um problema do ponto de vista da realidade experienciada pelo autor, uma vez que, no sentido estrito, considera-se que o autor não teria vivido realmente o fato que narra, ainda que inserido no universo em que ele se deu – ora, não há nenhum impedimento para que o autor tenha realmente vivido o fato e ainda assim recriá-lo ficcionalmente; na segunda, o problema já está colocado no aparente paradoxo do “romance autobiográfico”, segundo as definições inicialmente propostas por Lejeune; na terceira, a que se tem por certo como original, encontra-se a definição de Serge Doubrovsky, considerado o “criador” do termo “autoficção”, como se verá adiante. O complemento da citação procura, assim, sintetizar as acepções, ainda que lance mão do diário íntimo como elemento determinante da criação autoficcional em oposição e/ou complemento à idéia de romance, o que não necessariamente se constitui numa verdade quanto à criação autoficcional, como se pretende mostrar em parte deste estudo.
Como a questão ainda carece de maiores discussões, parece pertinente que aqui se desenvolvam a gênese do termo e a construção de sua definição, ao menos para os casos de estudos mais significativos em relação ao tema.
2 “Neologismo da metade do século XX retomado por Serge Doubrovsky, crítico literário e romancista,
em 1977, para designar seu romance Fils. O termo é composto do prefixo auto, do grego αυτο ‘si mesmo’,
e de ficção.”
3 “(Sentido estrito). Projeção de si num universo ficcional onde se teria podido encontrar, mas onde não se
viveu realmente. / (Por extensão). Todo romance autobiográfico, considerando-se que sempre há uma parte de ficção na confissão. / (S. Doubrovsky). Narrativa cujas características correspondem à da autobiografia, mas que declara sua identidade com o romance reconhecendo congregar fatos tomados à realidade com elementos fictícios. / Combinação de signos do compromisso autobiográfico e de estratégias próprias do romance, gênero que se situa entre romance e diário íntimo.”
A autoficção e sua gênese
Até muito recentemente, ou seja, pelo menos até o ano de 2007, o conceito de autoficção reconhecido e utilizado pela crítica literária, ainda que de modo indiferente para designar escritas de cunho autobiográfico ou demais escritos factuais e/ou romanescos relacionados à “escrita do eu”, refere-se ao que se convencionou chamar como sua primeira aparição na França em 1977 com a edição do livro Fils de Serge Doubrovsky, considerado, por isso mesmo, o criador do termo. Essa primeira inserção do termo aparece, assim, esboçada na quarta capa desse romance, escrita em vermelho, trazendo uma definição de um “novo” gênero autobiográfico, como a reproduz Philippe Vilain (2005, p.170) em seu livro Défense de Narcisse, ao apresentar um breve histórico do termo e seu conceito:
Autobiographie? Non, c’est un privilège réservé aux importants de ce monde, au soir de leur vie, et dans um beau style. Fiction, d’événements et de faits strictement réels; si l’on veut, autoficcion, d’avoir confié le langage d’une aventure à l’aventure du langage, hors sagesse et hors syntaxe du roman, traditionnel ou nouveau. Rencontre, fils de mot, allitérations, assonances, dissonances, écriture d’avant ou d’après littérature, concrète, comme on dit en musique. Ou encore, autofriction, patiemment onaniste, qui espère faire maintenant partager son plaisir.4
Vilain – professor na Universidade de Sorbonne-Nouvelle (Paris III) e membro do Centro de Estudos sobre Romance Contemporâneo dessa universidade – conta que o próprio Doubrovsky explica o conceito em um texto intitulado “Autofiction/Vérité/Psichanalyse”, publicado em Autobiographies, de Corneille à Sartre, e que Gérard Genette, em 1991, em Fiction et diction, deixando de citar Doubrovsky, considera a “autoficção” um “récit de fiction homodiégétique, communément baptisé, depuis quelques années”5 (apud Vilain, 2005, p.170). Já em 1993, seria Philippe Lejeune quem reconheceria Doubrovsky como o criador do termo, ao afirmar em “Autofiction et compagnie. Pièce en cinq actes”, de Jacques Lecarme: “Dans son ‘roman’ intitulé Fils, Serge Doubrovsky [...] fait sauter les briques qui obturent la fenêtre et plante son drapeau: Fils est baptisé ‘autofiction’ [...] Le mot
4 “Autobiografia? Não, esse é um privilégio reservado aos importantes desse mundo, na noite de sua vida,
e num belo estilo. Ficção, de acontecimentos e de fatos estritamente reais; se se prefere, autoficção, de ter confiado a linguagem de uma aventura a uma aventura da linguagem, exterior à sabedoria e à sintaxe do romance, tradicional ou novo. Encontro, fio de palavra, aliterações, assonâncias, dissonâncias, escrita do antes ou do depois da literatura, concreto, como se diz em música. Ou ainda, autofricção, pacientemente onanista, que espera agora dividir seu prazer.”
apparaît donc dans un contexte ludique: un mot-valise, jailli du bouillonnement de l’écriture, immédiatement retransformé”6 (ibidem, p.171).
Para Lecarme, o termo cunhado por Doubrovsky aparece apenas na quarta capa de seu livro, ou seja, como um neologismo gravado no peritexto da publicação preferencialmente ao termo “autobiografia”, afirmando ainda, em outra publicação, que no sentido estrito, a autoficção corresponde a um modelo muito preciso criado por Doubrovsky e retomado por Robbe-Grillet. Nessa mesma publicação, a revista Page des Libraires, ele foi contestado pelo crítico e escritor Marc Weitzman7 ao afirmar que, na verdade, o conceito já havia sido empregado em 1965 por Jerzy Kosinski em seu livro The painted bird [O pássaro pintado8], que conta os dissabores de um menino judeu na Polônia durante a Shoah, livro que foi recebido depois com entusiasmo pela crítica norte-americana como um testemunho autêntico sobre o Holocausto, mas que, segundo nota do próprio autor, não passava de uma história inventada, alegando Weitzman que, dessa forma, o termo “autoficção” aparecera nesse livro pela primeira vez sob os auspícios de Henry James e Robbe-Grillet, somente tendo sido reinventado depois por Doubrovsky quando da publicação de seu livro La dispersion.
As pesquisas empreendidas por Philippe Vilain vão revelar, contudo, que, na verdade, o termo “aufoficção” não aparece na nota de Kosinski de 1965, mas sim a assimilação de seu livro à idéia de uma “não-ficção”, termo ainda retomado por esse autor em entrevista de 1973. Evidentemente, Vilain (2005, p.174) reconhece nessa proposta de “não-ficção” uma base para o posterior estabelecimento do conceito de autoficção, e considera:
L’assimilation de son texto à une “nonfiction” lui semble une classification convenable, mais insuffisante. Kosinski pense que, pour subvenir aux besoins d’une mémoire incapable de saisir l’extrême réalité des faits, pour combler les lacunes d’une mémoire toujours sujette à la transformation des événements, nous nous créons ce qu’il appelle “nos petities fictions individuelles”.9
6 “Em seu romance intitulado Fils, Serge Doubrovsky [...] detona os tijolos que obstruem a janela e finca
sua bandeira. Fils é batizado ‘autoficção’ [...] A palavra aparece, então, num contexto lúdico: uma palavra-valise brotada do borbulhar da escrita, imediatamente retransformada.”
7 Em texto posterior, Doubrovsky (2007, p.58) vai esclarecer que Weitzman na verdade era seu primo
segundo, ao contrário do que afirma Vincent Colonna (2004, p.101) de que era seu “sobrinho”.
8 Não consta edição brasileira do livro, mas sim uma edição portuguesa com tradução de Luísa Ferreira e
Joana Taborda, pela editora Livros de Areia, de 2006, em relação à qual se lê em release da editora: “Livro polémico, que se julgou ter uma base auto-biográfica durante alguns anos, apesar de publicada como ficcional; foi reconhecido e aconselhado ao longo dos anos como um dos melhores retratos da Segunda Guerra Mundial. Uma obra marcante, não aconselhável a pessoas susceptíveis, diferente da maioria dos livros sobre a Guerra”
9 “A assimilação de seu texto a uma ‘não-ficção’ lhe parece uma classificação conveniente, mas
Kosinski, ainda segundo Vilain, somente mencionará o conceito de “autoficção” numa entrevista de 1986, em resposta a um jornalista que o interroga sobre isso, mas ainda em 1991, naquela que certamente foi sua última entrevista, pois veio a falecer naquele ano, ele ainda reivindicava para si o termo “autoficção” que, em verdade, apareceu pela primeira vez com Doubrovsky, ainda que esse autor venha com toda sinceridade, em entrevista de 1999 por ocasião do lançamento de seu livro Laissé pour conte, admitir que:
Donc, je n’ai pas du tout inventé l’autofiction. J’ai inventé le nom, le mot. Il y a eu, récemment, une petite controverse assez amusante. Certains pédants m’ont enlevé la paternité du mot. C’est un mot qui aurait été employé en réalité en 1965 à propos de The Painted Bird (L’Oiseau bariolé, en France), de Jerzy Kosinski. Je connais bien le The Painted Bird et Jerzy Kosinski. On sait maintenant, parce que la critique a fait son travail, que ce n’est absolument pas son enfance qu’il a racontée, mais une certaine expérience de la guerre, bien entendu, qu’il a modifiée. C’est un roman autobiographique; ce n’est pas une autofiction au sens où
je l’entends, parce que, dans l’autofiction, il faut qu’il y ait, comme pour l’autobiographie selon la catégorisation de Philippe Lejeune, identité nominale entre le personnage, le narrateur et l’auteur. Or, il n’y a pas cela dans le livre de Kosinski. Comme le dit Lejeune encore, il n’y a pas de milieu: ou on est nommé,
ou on n’est pas nommé. Mais à ce moment-là, ce n’est plus de l’autobiographie ni de l’autofiction, qui impliquent cette présence de l’auteur. Donc, j’ai été amené à inventer le terme à propos de mon livre Fils, sur la quatrième de couverture. Mais, encore une fois, si j’ai inventé le mot je n’ai absolument pas inventé la chose, qui a été pratiquée avant moi par de très grands écrivains. Le mot a cristallisé quelque chose qui était diffus, et il a été repris sans guillemets par des collègues et même par des journaux. C’est un mot qui est passé dans la langue critique, et qui correspond bien à quelque chose. (Hughes, 1999 – grifo nosso)10
extrema realidade dos fatos, para preencher as lacunas de uma memória sempre sujeita à transformação dos acontecimentos, criamos para nós mesmos o que ele chama ‘nossas pequenas autoficções individuais’.”
10 A entrevista de Doubrovsky concedida a Alex Hughes aqui citada constitui também a mesma fonte
citada por Philippe Vilain em seu livro Défense de Narcisse (2005, p.176-7) em consideração. “Portanto, decididamente não inventei a autoficção. Inventei o nome, a palavra. Houve, recentemente uma pequena controvérsia bastante divertida. Alguns pedantes me creditaram a paternidade da palavra. É uma palavra que teria sido empregada em 1965 a propósito de The Painted Bird (O pássaro multicolorido), de Jerzy Kosinski. Eu conhecia bem The Painted Bird de Jerzy Kosinski. Sabe-se agora, porque a crítica fez seu trabalho, que não é absolutamente sua infância que ele contou, mas uma certa experiência da guerra, bem entendido, que ele modificou. É um romance autobiográfico; não é uma autoficção no sentindo que eu
entendo, porque, na autoficção, é preciso que haja, como para a autobiografia conforme a categorização de Philippe Lejeune, identidade nominal entre o personagem, o narrador e o autor, Ora, não acontece isso no livro de Kosinski. Como diz ainda Lejeune, não há meio: ou se é nomeado ou não se é nomeado.
Mas naquele caso, não é mais autobiografia nem autoficção, que implicam essa presença do autor. Portanto, fui levado a inventar o termo a propósito de meu livro Fils, na quarta capa do livro. Mas, uma vez mais, se inventei a palavra, absolutamente não inventei a coisa, que foi praticada antes de mim por grandes escritores. A palavra cristalizou algo que era difuso, e foi retomada sem aspas por colegas e mesmo por jornais. É uma palavra que entrou para a língua crítica, e que corresponde bem a alguma coisa.”
Vilain reconhece a dificuldade de se interpretar a posição de Doubrovsky por parecer que ele tenha, de algum modo, de fato se apropriado do termo, ainda que contraditoriamente afirme e reconheça que o tenha criado, a despeito do conceito; além disso, ele próprio reconhece que no livro de Kosinski não se trata ali de uma autoficção no sentido defendido por ele, citando para tanto as condições também impostas por Lejeune para a autobiografia, ou seja, o homonimato entre autor, narrador e personagem, de onde por certo surgiu para Doubrovsky o termo “autoficção” e sua concepção, na medida em que preenche uma lacuna deixada por Lejeune relativa ao que se poderia conhecer como “romance autobiográfico”, tal como retomado na segunda acepção do termo no dicionário antes citado. Nisso Doubrovsky tem razão, pois o próprio Kosinski vai reconhecer, segundo comenta Vilain (2005, p.179), que, para ele,
la survie était une action individuelle qui donnait au survivant le droit de ne parler qu’en son propre nom. Des faits concernant ma vie et mes origines ne devaient pas, tel était mon sentiment, servir à tester l’authenticité du livre, pas plus qu’a encourager les lecteurs à lire L’oiseau bariolé. En outre, je pensais alors, comme maintenant, que la fiction et l’autobiographie sont des genres très differents.11
Dissemos antes, ao iniciar esse breve histórico a respeito das origens do termo “autoficção”, que ao menos até 2007 acreditava-se que ele teria aparecido pela primeira vez na quarta capa do livro Fils de Doubrovsky, ao que Lecarme se refere como uma informação apenas inserida no peritexto do livro. Essa realidade, contudo, hoje já não pode mais sustentar as discussões acerca da origem da autoficção para o caso de Doubrovsky, considerando ter sido ele efetivamente o criador do termo, pois em recente estudo de Isabelle Grell (2007), intitulado “Pourquoi Serge Doubrovsky n’a pu éviter le terme d’autofiction” [“Porque Serge Doubrovsky não pôde evitar o termo autoficção”] e publicado em Genèse et autofiction, a autora estabelece um divisor de águas na história da gestação do terminus tchnicus graças aos estudos genéticos elaborados no prototexto que o autor de Fils acumulara desde 1970, data em que ele teria começado a escrever seu livro, originalmente batizado como Le monstre, ou ainda Monsieur Cas. A descoberta de Greell (2007, p.39) tendo como base a primeira produção redacional de Doubrovsky foi:
11 “a sobrevida era uma ação individual que dava ao sobrevivente o direito de não falar senão em seu
próprio nome. Fatos concernentes à minha vida e minhas origens não deviam, tal era meu sentimento, servir para testar a autenticidade do livro, não mais que a incentivar os leitores a lerem O pássaro
multicolorido. Além disso, eu pensava então, como agora, que a ficção e a autobiografia são gêneros muito diferentes.”
l’écrivain croyait avoir inventé le terme d’autofiction suíte à la lecture du fameux tableau schématique de Philippe Lejeune, qui déclarait, en 1975, peu vraisemblable l’hypothèse d’un ouvrage régi par un pacte romanesque explicite, alors que par ailleurs, l’auteur, le narrateur, le personnage y porteraient le même nom; en fait, l’écrivain l’avait bel et bien déjà inscrit dans le roman au feuillet 1637. Il sera, dans la dactylographie, inscrit avec un tiret pour, justement, éviter l’amalgame encore inconcevable théoriquement entre l’autobiographie et la fiction.12
Ela justifica assim seu estudo:
Nous allons nous interroger sur le processus réflexif de l’écrivain, en ajustant nos pas sur ceux de Serge Doubrovsky et en n’empiétant sur sa propre parole écrite que dans la stricte nécessité. Trois stades d’écriture (mémoires, bi-autographie, analyse), attelés à des styles rédactionnels três hétérogènes devront se confronter