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A sistemática de tombamento em países como França e Brasil é um dos principais desafios à intervenção estatal na área patrimonial, como visto no último tópico do capítulo 2.

32 Para mais informações a respeito das leis de incentivo à cultura no Brasil, ver Durand, Gouveia e Berman (1997), Moisés (1998), Durand (2000), Botelho (2001), Recife (2005) , Brasil (2005a) e Brasil (2005b).

O conceito de patrimônio histórico e artístico nacional, baseado em monumentos de pedra e cal do Brasil Colônia representativos da etnia branca e de sua elite militar, civil e eclesiástica, fez com que centenas de igrejas barrocas dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX fossem protegidas por leis federais em todo o país. Ouro Preto, primeira cidade a ser designada “patrimônio cultural da humanidade” pela UNESCO, conta com sete capelas e quinze igrejas barrocas tombadas pelo IPHAN. Também neste estilo arquitetônico, a cidade do Recife possui três capelas e quinze igrejas protegidas por lei federal, enquanto que Goiana tem uma capela e oito igrejas sob a tutela do IPHAN (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 1994).

De acordo com Benhamou (1996), estima-se que o serviço federal de proteção francês conduza ou apoie seis mil projetos de restauração ou manutenção em monumentos protegidos por leis federais anualmente. O aumento de recursos públicos para a área patrimonial, como foi visto anteriormente, não consegue reverter a crescente deterioração do acervo de bens tombados pelo Estado francês.

Mesmo monumentos tombados que constituam atrações turísticas têm dificuldades de arcar com os custos de manutenção patrimonial e estrutura de visitação necessários. A maior parte dos palácios do Vale do Loire, na França, não consegue receber mais do que cinqüenta mil visitantes anuais, e muitos não chegam à marca de oito mil pessoas no ano (BENHAMOU, 1996).

O tombamento integral de um imóvel (fachada, coberta e espaços internos) produz um aumento nos custos de recuperação e manutenção de sítios históricos e bens culturais edificados, além de colocar em risco a possibilidade de utilização contemporânea do patrimônio histórico e cultural.

As estruturas dos bens culturais edificados, construídas a partir de padrões de demanda e utilização pretéritos, não conseguem atender à qualidade e velocidade das demandas contemporâneas, a partir de transformações culturais e funcionais (UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, 1974). A proteção integral de um sítio histórico ou conjunto de edificações tem o potencial de esterilizar economicamente setores inteiros do

tecido urbano, ao acarretar custos elevados de conservação e utilização econômica do acervo tombado.

Benhamou (2003), em uma pesquisa sobre o mercado imobiliário de Paris, aponta que a presença de monumentos históricos está positivamente correlacionada ao valor de mercado

do metro quadrado, enquanto em Londres está correlação não se estabelece de forma clara33.

Além da presença de generosos incentivos por parte do Estado, os proprietários franceses beneficiam-se de um padrão de proteção que engloba, de forma geral, apenas a fachada e a coberta das edificações. No Reino Unido, a legislação prevê o tombamento integral dos bens culturais edificados, recomendando a manutenção da integridade do monumento e a

utilização na sua função original34.

O problema da expansão constante do conjunto de bens tombados pode ser em parte solucionado, ou pelo menos minimizado, por meio do estabelecimento de normas e procedimentos para a revisão do acervo protegido por leis federais, estaduais e municipais e para a regulação da inclusão de novos bens. Isto permitiria que a proteção se concentrasse nos exemplares mais representativos dos diversos estilos artísticos que marcam a trajetória de um país, região ou cidade, ao invés de englobar tudo que foi produzido em um estilo considerado legítimo por parte do Estado.

A limitação da ação estatal a um acervo patrimonial reduzido evitaria a dispersão de recursos em um amplo número de bens culturais edificados tombados, como acontece no Brasil atualmente. Como diz uma arquiteta do IPHAN:

Neste ano de 2005, todas as liberações de verba foram para projetos emergenciais. Foram R$ 29.000,00 para a Igreja e Convento de Santo Antonio em Sirinhaém, em virtude do rompimento de uma tesoura, R$ 5.000,00 para uma imunização na Igreja Matriz da Boa Vista, R$ 100.000,00 para trabalhos de recuperação parciais na cobertura e assoalho da Igreja de Nossa Senhora do Amparo em Goiana, R$ 100.000,00 para a cobertura da Igreja e Convento do Sagrado Coração de Jesus em Igarassu e

33 Uma pesquisa do The Royal Institution of Chartered Surveyors e do English Heritage (espécie de IPHAN inglês) aponta que a valorização depende muito da composição do acervo patrimonial tombado de cada área.

34 Os padrões de tombamento presentes nos dois países e o registro de aproximadamente 40.000 edificações tombadas na França e de 500.000 no Reino Unido dão uma idéia do custo de manter o acervo patrimonial protegido por lei no segundo caso.

R$ 115.000,00 na forma de material – madeira, telhas e tijolos – para a Igreja e Convento de Santo Alberto de Sicília, também em Goiana35. (Entrevista no Recife, 18.07.2005).

No Brasil, enquanto processos de tombamento são concluídos anualmente, a retirada de bens do acervo protegido por lei federal é algo absolutamente extraordinário. Mesmo edificações arruinadas ou saqueadas, com perda de elementos artísticos relevantes e em estado avançado de degradação, continuam inscritas nos livros do tombo do IPHAN. Processos de destombamento são exceções que confirmam a regra: a retirada do Forte do Buraco da lista, em meados do século XX, deveu-se à necessidade de ampliar a Escola de Aprendizes Marinheiros do Recife, o que gerou a obliteração parcial da edificação. Mas nem tudo está perdido: graças aos apelos de intelectuais pernambucanos ligados à vertente patrimonial, o IPHAN estuda a possibilidade de tombar novamente o Forte do Buraco (ou o que dele sobrou).

A utilização de monumentos históricos muitas vezes não é viável sem que ocorram mudanças em sua estrutura interna, que permitam ao bem suportar funções e atividades contemporâneas (BENHAMOU, 2003). O conceito de property rights, onde um bem pode possuir apenas um proprietário, mas ter atributos pertencentes a duas ou mais pessoas, é utilizado para defender o conceito de “façadism” na proteção e conservação do acervo patrimonial.

O façadism parte do princípio de que a fachada e coberta de uma edificação tombada pertencem ao público, enquanto o seu interior é de uso e interesse privado. De acordo com esta argumentação, a legislação de preservação cultural deve proteger apenas os elementos externos de uma edificação, permitindo que o seu interior seja adaptado de acordo com as necessidades do proprietário. Preserva-se, assim, a característica histórica de edifícios e sítios históricos, não os ‘congelando’ através de um tombamento rigoroso que dificulte o desenvolvimento de atividades econômicas contemporâneas (BENHAMOU, 2003).

A perda definitiva de valores culturais e a transformação de um acervo patrimonial em patrimônio de fachada são duas críticas presentes no discurso da vertente patrimonial às soluções de destombamento e façadism.

35 Os cinco bens culturais edificados citados pela arquiteta são edificações religiosas de estilo arquitetônico barroco. Em todos os casos, trata-se de obras que não resolvem os problemas estruturais de nenhum destes cinco monumentos históricos.

A retirada de bens do acervo protegido por lei pode levar à perda de valores culturais de forma permanente, já que a destruição de uma edificação é irreversível. O destombamento de bens culturais edificados pode colocar em risco o estoque de valores simbólicos ou o potencial econômico do patrimônio de um país, já que a escolha do que deve ou não ser tombado baseia-se em valores contemporâneos, mas constrói o acervo patrimonial do futuro36.

A principal crítica ao façadism é que ele constrói um patrimônio de fachada, estéril, voltado apenas ao uso econômico do bem. Isto, de acordo com Munsters (1997), detrai a autenticidade do bem cultural, já que a fachada e cobertura são os únicos elementos históricos que sobram após as obras de renovação urbana empreendidas. O processo de renovação urbana da cidade de Bruges, na Bélgica, capitaneado por grandes cadeias hoteleiras internacionais e outras atividades ligadas ao turismo, resultou na destruição de diversos prédios históricos e em reformas que mantiveram apenas as fachadas como elemento histórico.

Assustados com este processo de renovação urbana empreendido por interesses exógenos à comunidade, os moradores fundaram um movimento chamado ‘SOS for a livable Bruges’, destinado a controlar o fluxo turístico e pôr fim à perda de elementos históricos da cidade via demolições e façadism (MUNSTERS, 1997).

Em geral, o conceito de façadism já é empregado na proteção a diversos monumentos e sítios históricos pelo IPHAN e por outros órgãos de conservação estaduais ou municipais no Brasil. O processo de tombamento do casario histórico do Bairro do Recife e sítio histórico de Igarassu contempla apenas as fachadas e cobertas das edificações, salvo monumentos isolados. Em alguns casos, como o casario de taipa de pilão de Santana do Parnaíba, a

36 Esta discussão baseia-se em grande parte no valor de opção presente nos bens culturais edificados, como visto no primeiro tópico do capítulo 3. Por exemplo, o crescimento da atividade de turismo cultural no Brasil pode fazer com que bens degradados e sem utilização econômica venham a ter importância fundamental na geração de emprego e renda em determinadas regiões do país.

O destombamento extensivo de bens culturais edificados, com a conseqüente destruição de monumentos históricos gerada pela possibilidade de usos mais rentáveis em um horizonte de curto e médio prazo, prejudicaria o desempenho da atividade turística no futuro.

preservação de sítios históricos compreende também o interior das edificações37. Com base na literatura existente a este respeito, não se pode calcular precisamente o que representaria a adoção generalizada do conceito de façadism no caso brasileiro.

Atualmente, encontram-se protegidos por legislação federal 1.013 bens, sendo 79 sítios urbanos com cerca de 21.000 imóveis (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2005). Encontram-se ainda sob proteção legal seis bens imateriais (registrados), 9.930 sítios arqueológicos e 250.000 objetos museológicos. A retirada de parte destes bens da lista de proteção do IPHAN poderia gerar efeitos diversos; o objeto de estudo desta dissertação não contempla uma discussão mais profunda a este respeito, mas vale a pena discutir brevemente alguns possíveis resultados da revisão da lista de bens culturais sob tutela do IPHAN.

A diminuição do acervo poderia direcionar maior quantidade de recursos à recuperação e conservação dos imóveis e monumentos mais representativos dos diversos estilos artísticos característicos da evolução histórica brasileira, ou de maior significado para os grupos sociais formadores do país. Ou, dada a noção de patrimônio ainda hegemônica do IPHAN, carrear os recursos para um seleto conjunto de monumentos de pedra e cal, de acordo com a orientação formadora do órgão.

O baixo valor econômico e alto custo de manutenção de grande parte do acervo destombado poderia gerar uma onda de destruição dos bens culturais excluídos da tutela estatal, principalmente através da especulação imobiliária. A diminuição do acervo tombado poderia fragilizar a já pouco representativa vertente patrimonial brasileira, pondo em xeque a sua legitimidade enquanto receptora de recursos públicos para funções de recuperação e conservação.

Apesar de considerar a discussão importante e necessária no caso brasileiro, esta dissertação não contempla uma discussão detalhada sobre façadism e mudanças na sistemática de tombamento. Antes, preocupa-se em analisar alternativas de atividades econômicas que

37 A preocupação com a conservação integral do casario de Santana do Parnaíba, no Estado de São Paulo, deveu-se a uma ação da prefeitura municipal, e não à orientação específica do IPHAN. Para mais informações a respeito do projeto de recuperação do casario de taipa de pilão de Santana do Parnaíba, ver Pedrotti (2005).

envolvam o patrimônio e com potencial de carrear recursos para a recuperação e conservação dos bens edificados.

3.6. Sistema nacional do patrimônio e transferências compulsórias para a área

Benzer Belgeler