3.2. Bağlılık Kavramı
3.2.2. Müşteri Bağlılığının Önemi
Conforme explicitado na introdução e no decorrer deste trabalho, entendemos que o desenvolvimento da disciplina “Cultura do RN”, a partir do ano de 2007, deu-se em relação aos pressupostos de ensino e aprendizagem de História. Enquanto componente curricular, o ensino da disciplina de cultura foi mobilizado de forma a ocupar parte da carga horária da disciplina de História, e ministrado, na maioria dos casos, também pelo professor da área.
Este deslocamento do ensino de cultura para a disciplina de História foi entendido como uma inclinação da concepção histórica de conceber os elementos culturais e identitários de determinada comunidade como questões para serem trabalhadas na disciplina de História, uma vez que, dentre as diversas funções sociais que ocupou no passar do tempo no Brasil, a difusão e consolidação das identidades no tempo foram direcionadas ao ensino de História. Inclusive, tal função social é explicitada em diferentes documentos oficiais que versam sobre as questões do ensino de História, como, por exemplo, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).
Vimos que no ano de 201447 a estrutura curricular do Estado do Rio Grande do Norte sofreu algumas alterações, em decorrência, sobretudo, da efetivação no estado da Lei no 11.738/2008 ou também conhecida por Lei do Piso do Magistério, que, entre outras prescrições, estabeleceu que a carga horária docente em sala de aula era de 2/3, sendo 1/3 reservado para atividades extraclasses. Assim, a Secretaria de Estado da Educação e da Cultura, através da Coordenadoria de Desenvolvimento Escolar e da Subcoordenadora de Ensino Fundamental, reorganizaram a estrutura curricular do Ensino Fundamental de forma a sofrer uma espécie de “enxugamento” do seu currículo, uma vez que a carga horária do professor, antes totalmente utilizada em sala de aula, foi reduzida para cumprir o que previa a referida lei. Neste processo, a disciplina “Cultura do RN” não mais fazia parte da grade curricular, cabendo à escola desenvolvê-la como conteúdo nas aulas de História do Brasil, preferencialmente nos 6º e 7º anos.
Em relação a essa alteração curricular ocorrida em 2014, a partir das discussões que promovemos sobre o deslocamento da disciplina “Cultura do RN” para o ensino de História, podemos entendê-la como a consolidação da institucionalização da “Cultura do RN” no ensino de História, apesar de pensada originalmente como conteúdo interdisciplinar. Embora teoricamente e oficialmente, a partir do projeto de desenvolvimento da disciplina “Cultura do
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Como já referenciado no capítulo 02, as estruturas curriculares de 2015 ainda não foram estabelecidas oficialmente.
RN” criado em 2007, este componente curricular tenha sido proposto como uma disciplina diferente do que seja a de História, na prática seu desenvolvimento se deu, e está se dando, no ensino de História.
Incluir um tópico referente à cultura demonstrou avanços em relação ao ensino de História, pois diferencia-se das perspectivas conservadoras e tradicionais de história do passado para a qual só admitiam-se narrativas que versassem sobre política e/ou economia. Dessa forma, a “Cultura do RN”, seja enquanto disciplina ou conteúdo, funcionou como resposta a demandas colocadas socialmente de maneira a conceber o ensino regular de História a partir de uma funcionalidade prática que venha a acolher questões contemporâneas, como os litígios pertinentes aos problemas culturais.
Ainda sobre a mobilização do currículo através de tópicos culturais, como ocorreu no Rio Grande do Norte, podemos entender tal projeto curricular como uma maneira de perceber a escola enquanto um constructo social, como discutimos no capítulo 01 deste trabalho. As diferentes instituições e sujeitos fazem com que a escola extrapole suas dimensões físicas para assumir signos e significados decorrentes das diversas relações sociais que nela se processam. Alunos, professores, pais, diretores, movimentos sociais, Estado e outros setores da sociedade, em geral, voltam-se para a escola em busca de respostas para suas carências de orientação no tempo (RÜSEN, 2010).
Verificamos também que essas demandas direcionadas à escola não estão ligadas apenas às questões didático-pedagógicas das diversas áreas de conhecimento no processo de ensino e aprendizagem escolar. No caso do ensino de História, discutido neste trabalho, examinamos que assuntos referentes à cultura, ao patrimônio, ao folclore, à tradição, às relações de poder e à dominação são direcionados aos pressupostos da Ciência da História e extrapolam as questões didático-pedagógicas. Dessa forma, entendendo que cada área de conhecimento deve utilizar de seus pressupostos científicos para desenvolver as questões do ensino, logo, sendo a escola mais do que um espaço direcionado apenas às questões da Pedagogia.
O projeto de desenvolvimento da disciplina “Cultura do RN” nos conduz exatamente para este caminho, uma vez que entender as relações sociais que estão inseridas no referido planejamento foi possível através dos pressupostos da Ciência da História, não restringindo-se, assim, ao caráter pedagógico da disciplina. Não que este não deva ser considerado e debatido, contudo, se não houver um direcionamento específico das questões referentes a cada área de conhecimento, compromete-se a possibilidade de identificar a complexidade dos sistemas simbólicos que formam o espaço e, em consequência, o ensino escolar.
Atentando-se para questões que ultrapassam a escola enquanto dimensão de aplicação de instrumentos e teorias pedagógicas, conseguimos observar como a instituição escolar configura-se a partir da perspectiva de espaço social (BOURDIEU, 1998), na qual lutas e disputas sociais são travadas cotidianamente. Neste cenário, pode haver um investimento intenso de grupos de poder que buscam produzir determinadas concepções da realidade, através da estruturação de elementos simbólicos que estarão presentes nas disposições físicas, organizacionais e curriculares do ensino regular.
No caso do objeto de pesquisa desse trabalho, analisamos como o currículo – potencialmente promovido pelo livro Introdução à Cultura do Rio grande do Norte – da disciplina “Cultura do RN”, inserida no ensino de História, pautou-se por uma concepção folclorizante e tradicional das expressões culturais referentes ao Estado do Rio Grande do Norte. Na busca por elementos culturais, que definissem um “ser potiguar”, recorreu-se ao folclore como elemento que “prende” e “localiza” os sistemas tradicionais da comunidade norte-rio-grandense. Dito de outra forma, as expressões culturais passadas foram mobilizadas no livro Introdução à Cultura do Rio Grande do Norte como formas inalteradas e intactas à ação do tempo. O folclore e a tradição, neste cenário, foram tomados como os instrumentos “chaves” para um “resgate” da cultura do estado, por vezes, injustamente, não “reconhecidas” pelos norte-rio-grandenses, de acordo com a concepção dos autores do livro em questão.
As narrativas do livro produzido por Tarcísio Gurgel, Vicente Vitoriano e Deífilo Gurgel assumiram, preponderantemente, um sentido tradicional (RÜSEN, 2010c), havendo um direcionamento no agir do indivíduo de maneira a retornar a processos considerados originários, a fim de reconhecer e reafirmar as expressões passadas que resistiram às vicissitudes do tempo. Essa busca pelo passado, a partir de tons nostálgicos assumidos pelos autores do livro, revelou que o desenvolvimento da disciplina “Cultura do RN”, na forma como foi pensado, serviu a um grupo social que é apegado a um projeto ideológico antigo cujas origens revelam seus vínculos oligárquicos. Estes que, em grande medida, contribuem para manutenção das relações de desigualdade social, uma vez que as relações paternalistas, que favorecem alguns poucos, não coadunam com o princípio da isonomia, responsável pelo direito a igualdade entre todos na democracia liberal em que vivemos.
Tal projeto se operou a partir do processo que chamamos de monumentalização do folclore, apresentando em seus motivos símbolos que dizem respeito a uma elite intelectual potiguar que construiu, ao longo do século XX, fortes laços com as oligarquias locais. Desse modo, quando buscaram para o desenvolvimento da disciplina “Cultura do RN” elementos
ditos patrimoniais, folclórico e da cultura popular, foram estes perspectivados a partir de signos e significados pertencentes a uma elite local.
Os produtores do livro, considerados intelectuais consagrados em relação aos assuntos culturais do Estado, atuaram de forma a construir um sistema simbólico capaz de remeter à herança cultural e histórica das oligarquias locais. E foi através da monumentalização do folclore que tal projeto se fez possível, haja vista que a ideia de monumento remete a um elemento de resistência ao tempo (CANCLINI, 2008). Dessa maneira, “velhas” ideologias podem ser atualizadas de modo a estabelecer uma manutenção de poder.
Este processo, contudo, se deu de forma silenciosa, haja vista que aquilo que se estabeleceu como integrante de uma cultura norte-rio-grandense partiu de uma ideia de consenso social. Isto é, quando da construção das narrativas do livro distribuído para disciplina, pareceu existir uma definição já bem estruturada do que seria a cultura potiguar como também de sua identidade. É neste momento que se estabelece o consenso que o poder age silenciosamente ou, nos termos de Bourdieu, a violência simbólica atua de maneira que determinados grupos impõem-se, ao mesmo tempo em que se distinguem de outros grupos sociais.
Faz-se interessante perceber também o papel que o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte/IHGRN desempenhou neste processo. O livro foi produzido por intelectuais ligados à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, não sendo esta a instituição tomada enquanto produtora de conhecimento científico relativo à cultura e identidade local. As narrativas do livro de Tarcísio Gurgel, Vicente Vitoriano e Deífilo Gurgel, recorrentemente, remeteram-se ao IHGRN para definir e difundir uma concepção de cultura do Estado.
Houve um deslocamento das questões identitárias do IHGRN para a UFRN, uma vez que os especialistas da cultura responsáveis por produzir um livro, que posteriormente foi distribuído nas escolas da rede pública do estado, tinham vínculos empregatícios com a Universidade. Porém, a construção das narrativas da obra desses autores foi pautada por uma herança historiográfica do IHGRN, sobretudo na evocação dos trabalhos de Luís da Câmara Cascudo. Em outras palavras, podemos dizer que a UFRN deu continuidade à tradição narrativa do IHGRN.
O reforço que o legado do referido Instituto recebeu nas narrativas didáticas desenvolvidas na disciplina “Cultura do RN” fortalece “velhas” práticas históricas que correspondem a poderes políticos oligárquicos no Rio Grande do Norte. Assim, o planejamento de desenvolvimento da disciplina mostrou uma interiorização discursiva, pelos
autores do livro e do Projeto e Diretrizes da disciplina, do projeto histórico das elites potiguares.
Ainda que a UFRN tenha sido pautada como um “novo” espaço responsável pelo diálogo das questões culturais e identitárias do Estado, levando-se em consideração o elo que os autores do livro possuíam com a instituição, em momento algum das narrativas produzidas para a disciplina “Cultura do RN”, a Universidade Federal foi indicada ou enaltecida como centro de produção de conhecimento histórico. A recusa “silenciosa” da historiografia e didática produzida na academia universitária pode ser considerada também como uma recusa de novas perspectivas no conhecimento histórico. Ou seja, marca-se um lugar de poder no qual, embora a UFRN forme os professores de História, quem diz o que será ensinado são os herdeiros ideológicos das oligarquias locais encarnados na historiografia produzida pelo IHGRN.
Em relação ao ensino de História, percebemos que esse processo de definição de uma cultura local, a partir de uma herança do IHGRN, foi tomado em conformidade com uma perspectiva naturalizada, com isso, limitando o diálogo entre os agentes escolares de forma a perceber as distintas relações de poder que atuam na produção do conhecimento. Assim, o “pensar historicamente”, pressuposto central do ensino de História, foi prejudicado, tendo em vista que uma das condições para que esse pressuposto se efetive é considerar a diferença entre experiências históricas e produção do conhecimento histórico.
Quando a história é entendida à luz de uma noção de “verdade absoluta”, compromete- se o processo de ensino e aprendizagem no qual os alunos adquirem autonomia para criticar e refletir sobre a produção do conhecimento histórico e as diversas relações sociais nela envolvida. Diante disso, as ideologias de grupo atuam de forma eficaz no sentido de tentar conformar determinada realidade histórica.
De tal modo que, mesmo um tópico sobre a cultura representar um avanço nas concepções de ensino e aprendizagem de História, a forma assumida pelas narrativas da disciplina revelam visões tradicionais da História que servem a interesses de grupos, no caso desta pesquisa, a um legado oligárquico norte-rio-grandense.
Compreendemos então que, apesar do projeto de desenvolvimento da disciplina “Cultura do RN” apresentar vários documentos que norteiem o ensino escolar, no geral, e o de História em específico, de acordo com novas concepções e parâmetros do que se espera do ensino regular (LDB, PCN, DCN), como também de indicar legislações alinhadas a novas demandas sociais (no que tange à preservação do patrimônio e ao direito e diversidade
cultural), a ampla distribuição de um livro produzido, sobretudo, a partir de narrativas do tipo tradicional remete a concepções antigas do conhecimento histórico.
Assim sendo, essa obra, mesmo não possuindo o caráter oficial de livro didático, pode ser caracterizada como um limitador do ensino e aprendizagem em História. A escola, nesse sentido e de maneira mais ampla, pode contribuir para reproduzir determinados sistemas simbólicos. Não que estejamos tomando-a como um espaço reprodutivista, haja vista que compreendemos neste trabalho que o espaço escolar e o ensino em sala de aula têm formas diversas de atuação que não estão restritas ao material didático veiculado em sala de aula. Entrementes, considerando-se a ausência de um currículo e as dificuldades de outros materiais que possam possibilitar o desenvolvimento da ideia de uma “Cultura do RN”, o livro Introdução à Cultura do Rio Grande do Norte, potencialmente, a partir de análises realizadas nesta pesquisa, pode limitar as perspectivas atuais do que se espera de um processo de ensino e aprendizagem de História que leve os agentes escolares a pensarem historicamente para situar-se da melhor forma no tempo e espaço da realidade que vivem.
Numa época em que se espera que o ensino escolar conduza os sujeitos a um agir autônomo, crítico e reflexivo, verificamos que grupos sociais ainda utilizam-se do espaço escolar, especialmente através do conhecimento histórico, para empreender projetos e instrumentos de dominação que dizem respeito a seus interesses. Compreendendo, portanto, que a institucionalização da disciplina da forma como foi pensada, embora campo de disputas, insere-se no interesse de determinada intelectualidade norte-rio-grandense.
REFERÊNCIAS
FONTES
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