• Sonuç bulunamadı

Pretendo apresentar, neste tópico, sob a ótica dos alunos do programa de EJA e das educadoras, as contribuições dos familiares no processo de escolarização dos alunos jovens e adultos do Colégio Cora Coralina. Caracterizarei o tipo de relação escola-família e as condições oferecidas para tal (espaço, tempo, procedimentos, instâncias).

Assim sendo, voltando à aluna Priscila, relatou-me que é casada há 21 anos e é muito feliz no casamento. O seu esposo trabalha na feira e ajuda nas atividades domésticas. Apesar de preferir que ela ficasse em casa ao invés de estudar à noite, ele vai buscá-la todos os dias na escola. Quanto à escolaridade dos filhos, dois estão matriculados no ensino fundamental e dois no ensino médio. Mesmo não tendo nível de conhecimento escolar que permitisse a ela o

acompanhamento nas tarefas escolares dos filhos, sempre se preocupou com a escolarização deles, priorizando-a. Percebe que não basta oferecer escola, é necessário criar as condições de frequência e de êxito escolar. Quando crianças, os dois filhos mais velhos faziam as tarefas escolares no projeto de reforço escolar da paróquia e os dois mais novos foram orientados pelos irmãos. Para acompanhar o desempenho escolar dos filhos, visitava a escola e conversava com os professores, coordenadores e direção a respeito do rendimento escolar e do comportamento deles no ambiente escolar. “A família, por intermédio de suas ações materiais e simbólicas, tem um papel importante na vida escolar dos filhos, e este não pode ser desconsiderado. Trata-se de uma influência que resulta de ações muitas vezes sutis, nem sempre conscientes e intencionalmente dirigidas” lembra Zago (2000, p. 20.).

Também não esqueceu de contar, durante a entrevista, que os filhos a ajudam nas tarefas escolares e reclamam quando ela falta às aulas, “parece que sou a filha e eles a mãe”. Assim, eles fazem com Priscila o que ela fazia com eles quando crianças. Seu primeiro contato com a escola foi aos 16 anos e, na ocasião, só deu para aprender a assinar o nome. Foi alfabetizada pelo MEBIC. A primeira vez que fez leitura em voz alta para os filhos, comentou, foi emocionante, tanto para ela quanto para eles. Com alegria ela diz: “Hoje eu tenho mais

assunto para conversar com meus filhos e seus amigos, agora participo das conversas sem mais aquela vergonha que tinha antes. Isso é pra mim uma grande satisfação!”, comentou

por fim.

No caso de João, foi sua família que o ajudou a ir ao encontro da escola. Para encorajá- lo, a sua esposa voltou a estudar e matriculou-se no mesmo colégio. “Ela parou de estudar na

5ª série, há muito tempo, mas esse ano ela já vai concluir o ensino médio” comentou durante

a entrevista. Nessa trajetória de escolarização, quando a esposa se sentia desanimada, ele a animava e ela tinha a mesma atitude em relação a ele. De acordo com ele, quando a família contribui, “o peso das dificuldades alivia” e acrescenta: “Eu estou longe de concluir o ensino

médio, ainda estou no primeiro passo, mas não quero parar”. Em outro momento da

entrevista, enfatizou o apoio dos filhos na realização das atividades escolares: “Antes eu é que

me preocupava com eles na escola, hoje eles é que se preocupam comigo”.

Já a história de Ana é oposta a de João e de Priscila. Ana se queixou da falta de apoio dos familiares. Considera a relação escola-família necessária. Lembrou que, quando estudava no MEBIC, levava sua filha para o projeto e, assim, enquanto ela (mãe) participava da aula, a menina brincava com outras crianças. Eis sua explicação a respeito:

“No MEBIC muitas mães levam os filhos, é de costume. Enquanto a gente estudava, a criançada brincava no pátio da igrejinha. Na escola eu acho estranho, morro de medo de incomodar. Quando saio de casa com ela, eu recomendo pra ficar quietinha e fazendo a tarefa. É até bom porque, quando ela não sabe a tarefa e tem uma brecha, minha professora explica a tarefa pra ela. Meus colegas não importam, a professora também não, mas eu sei que não está certo. Se minha mãe ou minha irmã cuidasse dela pra mim, eu não trazia pra escola, eu me sinto mal, é um constrangimento pra mim [...]. Na minha família meus avós não estudaram, nem meus pais, nem meus irmãos. Eu quero estudar porque, se eu não estudar, como eu vou passar pra minha filha o que eu não aprendi?!” (Ana, 28 anos)

Durante a entrevista, ela lembrou também que participara da audiência do Plano Municipal de Educação e está esperando que a escola se aproxime mais da EJA, oferecendo aos alunos o que eles têm dificuldades de obter em casa. Sobre isso, assim se manifestou:

“Fiquei cheia de esperança quando foi falado da necessidade da escola receber os filhos pequenos dos alunos na escola, não pra estudar à noite, mas pra ler as historinhas, fazer brincadeira, assistir filmes de criança”. Apesar desse entusiasmo, pensou em abandonar a

escola várias vezes, mas resistiu, porque acredita na promessa de que o município vai providenciar espaço para acomodar os filhos cujas mães, assim como ela, não têm com quem deixá-los enquanto participam das aulas.

O último relato, de Jeremias, lembrou que sua mãe fizera de tudo para que ele continuasse na escola, mas ele não suportou a dinâmica escolar do diurno e a forma como era tratado entre as crianças. O retorno à escola se deve aos cuidados e à insistência de sua mãe. Ao considerar que ela carregava o peso de não ter tido acesso à escolarização que lhe ensinasse a ler e escrever com facilidade, ele demonstra que entende o forte desejo e a satisfação de sua mãe em vê-lo estudando. Além da figura materna, o patrão também é uma referência importante para ele.

Esses depoimentos deixaram transparecer a importância do incentivo dado pelos familiares a esses alunos tão fragilizados em termos de estudo. Pude perceber que esse apoio foi fundamental para a aprendizagem e desenvolvimento dos alunos da EJA. Nesse sentido, muitas vezes, foram citados o marido por ser responsável por trazer a esposa para a escola; o filho, responsável por trazer a mãe para a escola; os vizinhos influenciam a permanência dos pares no ambiente escolar. Tudo isso é muito positivo para a presença e permanência (com sucesso) na escola do aluno de EJA. Assim concluo: os vínculos familiares e a importância da rede social de apoio são extremamente necessários para a inserção, permanência e o desenvolvimento na escola dos jovens e adultos.

Benzer Belgeler