Propriedade intelectual é a denominação atribuída ao “conjunto de prerrogativas e obrigações decorrentes das relações jurídicas promovidas sobre a criação intelectual humana” (ARRABAL, 2005). No Brasil, a propriedade intelectual divide-se em dois ramos jurídicos: a propriedade industrial e o direito autoral, sendo este último o objeto da presente seção.
O direito autoral compõe-se das vertentes: moral e patrimonial. O direito autoral moral assegura ao criador a titularidade da obra, enquanto que o patrimonial regula as relações jurídicas quanto a sua utilização econômica. Ambas as vertentes são protegidas pela Constituição Federal, em seu artigo 5º, incisos XXVII e XXVIII, conforme se segue:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]
XXVII – aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar; XXVIII – são assegurados, nos termos da lei:
a) a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades desportivas;
b) o direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que participarem aos criadores, aos intérpretes e às respectivas representações sindicais e associativas. (BRASIL, 1988).
Tais dispositivos constitucionais são regulamentados pela Lei nº 9.610, de 16 de fevereiro de 1998 (BRASIL, 1998), conhecida como Lei de Direitos Autorais. Embora tenha sido promulgada 4 anos após a chegada da Internet no Brasil, a Lei de Direitos Autorais não faz qualquer menção explicita às restrições legais para utilização de textos disponíveis na
web. A obsolescência da Lei nesse sentido tem criado situações bastante complexas no campo
jurídico, as quais contribuíram para a consolidação do novo ramo do Direito Digital.
A rigor, do ponto de vista jurídico, a Internet não mudou os direitos autorais. Os direitos morais e patrimoniais do autor continuam legalmente incontestáveis: “[t]odas as obras intelectuais [...], mesmo quando digitalizadas, não perdem sua proteção, portando não podem ser utilizadas sem prévia autorização” (MARTINS FILHO, 1998). O problema está no fato de
que as violações aos direitos autorais, que já ocorriam, por exemplo, na reprodução de livros em fotocópia, foram potencializadas pela dificuldade de controle, ausência de suporte físico e a facilidade de reprodução das obras digitais.
Configura-se então um paradoxo: as leis de direito autoral têm o objetivo de estimular o autor a criar cada vez mais, garantindo-lhe o sustendo por meio de sua obra (ABRÃO, 2002). Por outro lado, o direito não pode impedir o amplo acesso ao conhecimento, que é uma das molas propulsoras do desenvolvimento social sem precedentes que se vêm testemunhando.
De fato, os novos impasses são fomentados por discussões envolvendo os limites de uso de um direito autoral adquirido e seu nível de relação com o suporte físico (PINHEIRO, 2007). Além disso, as leis ainda vigentes têm sua abrangência ligada à territorialidade, enquanto que a circulação de uma obra na Internet extrapola de maneira muito rápida quaisquer fronteiras ou limites de natureza física. Segundo Martins Filho (1998), é imperioso que se crie um “código universal e plenamente funcional” que assegure a proteção aos direitos autorais nas relações envolvendo dois ou mais países.
Esforços nesse sentido vêm sendo feitos por meio de contratos internacionais firmados com o objetivo de alinhar certos aspectos jurídicos constantes das legislações sobre direitos autorais dos países signatários. Fernandes-Molina (2003) afirma que nos últimos anos tem ocorrido um processo de “harmonização internacional” das leis relacionadas ao direito autoral.
Dadas suas implicações legais, os direitos autorais ou copyright precisam ser considerados durante a estruturação de uma biblioteca digital ou repositório institucional. Uma pesquisa realizada em 2005 com bibliotecas digitais brasileiras revelou que esta já era uma preocupação dos administradores desse tipo de serviço (RAMALHO; PAIVA; FIGUEIREDO, 2006). Das instituições pesquisadas, 66,0% já dispunham de políticas de inserção de conteúdos, incluindo formulários próprios para autorização por parte dos autores.
As autorizações de uso são prerrogativas dos responsáveis pelos conteúdos publicados, o que pode representar um sério problema para o administrador de bibliotecas digitais brasileiras, uma vez que, diferentemente do que ocorre nos países europeus e anglo-saxões, aqui as leis de direitos autorais não incorporam os chamados “privilégios de bibliotecas”
(FERNANDEZ-MOLINA, 2008). Tais privilégios envolvem uma maior flexibilidade para o uso do acervo com propósitos científicos e de estudos, partindo do princípio de que as bibliotecas, sejam tradicionais ou digitais, promovem o bem comum por meio da preservação e difusão da informação.
Dentre os acordos internacionais vigentes, destacam-se o tratado do direito de autor da
Organização Mundial da Propriedade Intelectual3 (WIPO, 1996) e a Directiva Europea
(COMUNIDADE EUROPÉIA, 2001), adotada pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Européia. Ambos os documentos procuram harmonizar aspectos do direito autoral no meio digital, constituindo-se em elementos-chave para as necessárias reformas nas leis de direito autoral de vários países, enfatizando a necessidade de equilíbrio entre os interesses dos autores e os do público, particularmente no que tange à educação, pesquisa e acesso à informação.
Sua adaptação às leis nacionais de direitos autorais tem sido, no entanto, bastante deficiente, em especial entre países da América Latina (FERNANDEZ-MOLINA, 2008). Segundo Fernandez-Molina, os autores e legisladores parecem não ter se dado conta de que as bibliotecas (virtuais) não representam uma ameaça ao direito autoral. Lucas (2005) reforça que o meio digital não põe em dúvida o que é determinado pelas leis de direitos autorais. Segundo o autor, o grande mérito da Internet é trazer novamente à tona antigas questões ainda não resolvidas sobre os aspectos internacionais inerentes à questão. Embora discorde desses autores, ao afirmar que as novas tecnologias modificaram profundamente o direito autoral, Geiger (2007) reforça o argumento de que a adaptação das leis ao contexto digital deve ser encarada como uma prioridade pelo Direito.
Uma explicação possível para a dificuldade no alcance do equilíbrio entre os interesses de autores e leitores pode estar calcada na crescente privatização do acesso à informação (ELKIN-KOREN, 2001). Trata-se de uma questão complexa e juridicamente delicada. Pinheiro (2007, p. 96) lembra que “pensar em proteção aos direitos na Internet de uma forma
3 A Organização Mundial da Propriedade Intelectual é uma agência especializada das Nações Unidas, com sede
na Suíça, criada em 1967, com o objetivo de desenvolver um sistema de propriedade intelectual balanceado e acessível, que estimule a criatividade e a inovação, contribuindo para o desenvolvimento econômico e defendendo o interesse público (WIPO, 2009).
muito restrita pode significar que se está protegendo o intermediário, o atravessador, não o autor.”
Tal realidade vem se configurando de forma cada vez mais pungente, particularmente no campo da produção científica. Pesquisas com tecnologias de ponta são feitas com recursos da iniciativa privada e geram resultados que, na maioria das vezes não são disponibilizados para acesso público. A esse respeito, Wachowicz (2006, p. 41) lembra que “[a] emancipação humana e a liberdade de acesso à informação que a humanidade conquistou nas últimas décadas não podem ser restringidas ou suprimidas em prol dos interesses econômicos de uns poucos.” O autor enfatiza que a inadequação das normas jurídicas a realidades específicas proporcionadas pelas tecnologias termina por corroborar tais interesses.
O projeto Creative Commons é uma iniciativa que visa à superação desse paradoxo e que vêm obtendo a adesão de vários países. Criado pelo professor de Direito norte-americano Lawrence Lessig, o sistema possibilita aos autores das obras publicadas na internet definirem o nível de permissão de uso das mesmas, desde as mais restritivas até as mais liberais. O objetivo é expandir a quantidade de obras criativas disponíveis ao público, permitindo inclusive criar outras obras a partir de produções originais. (CREATIVE COMMONS, 2009).
A adaptação do sistema Creative Commons à legislação brasileira está sendo realizada pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas. Em relação a outros países, o Brasil ocupa posição de destaque no desenvolvimento de instrumentos para o licenciamento de software a partir do projeto Creative Commons. Alguns desses instrumentos já são utilizados pelo Governo Federal.
Nas palavras de Fernandez-Molina (2003), é importante lembrar que a informação não pode ser vista como simples mercadoria comercializável, pois seu uso gera valor social agregado que retroalimenta todo o sistema, contribuindo para a produção de mais informação. Por isso, é indispensável que o direito autoral, aplicado ao contexto da Internet, caminhe cada vez mais no sentido do equilíbrio. Somente dessa forma será possível assegurar que os avanços tecnológicos sejam, de fato, ferramentas para a construção de um mundo mais justo.