Investigamos agora possíveis reflexos da filosofia de Schlegel na música contemporânea. Uma forma de interpretação do fato seria pelos sons prosaicos cotidianos, comuns do dia-a-dia, invadindo as formas musicais.64 Podemos exemplificar com
62 Ele “passa a desdobrar – debaixo do nariz do leitor – os passos de um procedimento de interpretação que, à custa de apontar onde deve ser levado a sério (com todas as reservas de que carece a expressão, em Schlegel) e onde fala ironicamente, deverá levar tanto ao reconhecimento dos próprios ‘fracassos’, como levar o leitor a um confrontamento com a sua própria razão de leitor” (Ibidem, p. 167).
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Temos consciência de que o atonalismo não surgiu na época de Hegel e Schlegel, mas queremos apontar que tanto o prognóstico hegeliano de fim da arte quanto a ironia de Schlegel abrem campo para uma nova forma de se ver e de se fazer arte. Seriam eles um prenúncio do modernismo? Os filósofos, de forma sábia, estariam prevendo as mudanças que historicamente já apontavam na aurora que se anunciava nas artes, ou estariam eles fundando o modernismo? Tais questões, aqui, não ouso desvendá-las.
64 “A exposição deve aqui aparecer natural, mas não deve aparecer nela a naturalidade enquanto tal, e sim o poético e ideal em sentido formal é o fazer [Machen], a eliminação justamente da materialidade sensível e das condições exteriores. Alegramo-nos com uma manifestação que deve aparecer como se a natureza a houvesse
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movimentos contemporâneos como o de Karlheinz Stockhausen, com o quarteto para helicópteros.65 Assim, podemos ter com o prosaísmo hegeliano uma chave de leitura para esses movimentos contemporâneos, onde sons como o de um helicóptero que passa por nossas cidades todos os dias, ou como uma pá (ferramenta de trabalho do campo), distraída em um campo qualquer, ganham configurações artísticas em uma galeria, a partir de seu deslocamento.
Para Danto, “as obras são significados corporificados” (DANTO, 2005, p. 18), onde a chave para entender esses movimentos seria a “interpretação” (Ibidem, p. 19). Assim, para ele, a interpretação seria o ponto crucial da crítica de arte. Para nós, é a relação entre obra e objeto que nos interessa, e “a obra é o objeto mais o significado, e a interpretação explica como o objeto traz em si o significado que o observador (ouvinte) percebe e ao qual reage de acordo com o modo como o objeto se apresenta” (Ibidem, p. 19), o que nos leva para uma filosofia da arte que transcende a matéria. Danto, em consonância com Hegel, afirma que
a arte é praticamente uma confirmação da teoria da história de Hegel, segundo a qual o Espírito está destinado a tornar-se consciente de si. Ela reproduziu esse curso especulativo da história tornando-se autoconsciente – a consciência da arte sendo arte sob uma forma autoreflexiva comparável à da filosofia, que é ela própria consciência da filosofia. (DANTO, 2005, p. 102)
Segundo Duarte, na discussão de Danto sobre arte contemporânea ou pós-histórica em seu texto O Mundo da Arte, ele “indaga sobre o mistério da transformação de objetos comuns em obras de arte. Sua conclusão é de que se trata de um tipo de olhar teórico, de certo modo especializado, que tem a capacidade de produzir essa transfiguração” (DUARTE, 2007, p. 33). Segundo Danto, é a teoria que a recebe no mundo da arte e a tira da condição de objeto prosaico. Duarte nos mostra como Danto associa essa sua indagação ao prognóstico hegeliano de fim da arte, em que ocorre a perda de substancialidade da arte. É quando história e arte seguem rumos diferentes, sendo que ambas já foram movidas pela mesma energia. Assim, nessa pós-história, a arte perdeu qualquer significação histórica. Desse modo, Duarte nos mostra que, para Danto, somente com esse deslocamento a arte atingiu sua
produzida, quando de fato ela é uma produção do espírito, sem os meios daquela; os objetos não nos deleitam porque são de tal modo naturais, mas porque são feitos [gemacht] tão naturalmente.” (Est, I, p. 175.)
65 Em 1995, quando ele transformou uma praça em Amsterdam em heliporto, onde quatro helicópteros alugados por Stockhausen participaram da estreia da excêntrica obra Helikopter-Quartett (Quarteto para Helicópteros). A apresentação aérea foi transmitida em som e imagem na sala de concertos.
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autoconsciência filosófica, que seria um sinônimo do fim de sua história, de um modo análogo à estética hegeliana, no qual o fim da arte, como parte da autoconsciência do espírito, redundaria na filosofia. (Ibidem, p. 34)
Danto argumenta que, com o fim da história, a arte se livrou do fardo que carregava, passando-o para os filósofos – o fardo da história. Agora, os artistas podem, em seu subjetivismo (muitas vezes irônico), realizar o que bem quiserem, sem nenhum propósito, se assim o desejarem. Tal liberdade seria uma marca própria do contemporâneo.
Stockhausen utiliza-se, na peça citada, de fragmentos sonoros existentes concretamente – no caso, o som dos helicópteros; “é no nível do objet trouvé, do ready made sonoro, ou ainda, da matéria mais concreta” (MENEZES, 2009, p. 18) que ele desenvolve sua composição. É “uma música na qual cada evento sonoro passa ter lugar – na medida em que a intensão assim o deseje” (Ibidem, p. 18). Tal recurso só é possível a partir da perda da significação da matéria. Neste sentido, Pierre Schaeffer, defensor da música concreta, argumenta a favor desse elemento, pois só assim, conforme Menezes, o “advento do aspecto eminentemente musical poderá, segundo Schaeffer, emergir” (Ibidem, p. 18). Apesar de Stockhausen ser representante da música eletroacústica, nessa peça podemos perceber claramente a sonoridade do helicóptero como um elemento da música concreta. Assim, a música concreta poderá emergir “apenas por meio de uma variação da matéria destituída de significação. [...] A música concreta dá as costas às formas puras” (Ibidem, p. 18-19), ela renova a matéria. Tal música se utiliza de uma infinidade de objetos sonoros anteriormente excluídos do domínio musical.
Hegel, em seu tempo, está atento às dissonâncias, como por exemplo, as de Beethoven. A questão se torna problema a partir do momento em que essas dissonâncias rompem com aquilo que para Hegel é o conteúdo verdadeiro da obra, a saber, o retorno ao si mesmo tonal – o que não seria aceito por Hegel, pois colocaria em cheque sua lógica, sua dialética.
O antissistema de Schlegel pode nos auxiliar nessa interpretação, na medida em que ele aponta para uma arte não dialética, fragmentada – elementos presentes na arte contemporânea. Dessa forma, interpretamos que já há em Schlegel um germe de nossa contemporaneidade. A música ser antissistema pode ser interpretado como antitonal, a princípio.
Como veremos mais adiante no terceiro capítulo, o prosaísmo será visto, em outra ótica sobre o mesmo assunto, como um excesso de razão presente na obra de arte, quando a obra nos convida a pensá-la, como no caso da forma sonata de Beethoven que, divida em três
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partes ou mais, apresenta uma estrutura extremamente racionalizada, dialética, apesar de Hegel não reconhecer tal relação. Para ele, tal racionalismo presente na música tiraria dela sua capacidade de ser um “canto dos afetos”, de nos tocar na mais pura interioridade subjetiva; ela passaria a ser mais racional do que sentimental, onde seu maior valor estaria em sua construção formal.