A partir da problemática contemporânea a Hegel sobre a arte e moral, queremos aqui perguntar qual a relação da arte diante do interesse moral que surge a partir de Kant. Hegel nos dará as diretrizes para melhor entendermos a função da arte dentro do espírito absoluto.
Segundo Hegel, em seu tempo, essa linha limite da arte acentua-se ainda mais quando objetivos e finalidades superiores da arte deslocam-se para o aperfeiçoamento moral. Isso quer dizer que a arte saberia do “bem verdadeiro moral, e assim, por meio da instrução, deve ao mesmo tempo incitar à purificação e, somente então, deve realizar o aperfeiçoamento do ser humano enquanto sua utilidade e finalidade suprema” (Est, I, p. 71). Segundo Benedito Nunes, Kant escreve na Crítica da Razão Pura que todo interesse é prático, e completa essa ideia na Crítica da Razão Prática, a saber: “o estético, domínio do belo, arraigado à Natureza, enquanto objeto de juízo de gosto, é ohne interesse, sem interesse.” (NUNES, 1993, p. 12) Os românticos religaram o estético, por intermédio da arte, aos interesses morais e cognitivos,
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quebrando assim esse desinteresse kantiano. Nesse ponto, Hegel se distancia de Kant e se aproxima dos românticos, apesar de suas críticas a eles.46
O idealismo germânico surge como parte de um desmembramento do problema kantiano, que se inicia com Fichte, “seguindo o caminho da constituição transcendental do mundo através da ação originária do eu, reverteu-o a objeto de conhecimento racional” (Ibidem, p. 12). O “eu fichtiano constitui uma unidade daquilo que Kant separou como duas razões, [...] [ele é] mediado por sua intuição intelectual, que apreende sua estrutura e descobre seus princípios” (NUNES, 2003, p. 12).
Ambos, Eu e não-Eu, estando em experiência, não podem ser definidos e não estão em absoluta contradição “no eu, ao eu divisível opõe-se um não-eu divisível” (Ibidem, p. 12). A oposição é interna à consciência e não contra a consciência, o que é uma luta dinâmica, onde ambos buscam suprimir-se. A liberdade absoluta desse eu se dá na união de seus impulsos naturais essenciais, onde “eu sou sujeito-objeto e meu verdadeiro consiste na identidade e inseparabilidade desses dois aspectos” (FILHO, em notas para FICHTE, 1984, p. XI). O impulso natural deve abdicar-se do desejo, e o mais elevado deve abdicar-se da pureza.
O sucesso desse ideal é a liberdade absoluta. Tal conflito se dá no interior de um mesmo eu. Para Schlegel, tal conflito se dá na “interação de um impulso consigo mesmo” (Ibidem, p. XI). Tudo é um e mesmo eu, e esta junção se dá na esfera do ‘eu’. Ao se manifestar na esfera prática, é necessária uma resistência: sem essa resistência, “o eu não pode afirmar sua independência e libertar-se; é por sentir-se limitada que a vontade pode aspirar continuamente à supressão de seus limites” (Ibidem, p. XI).
Segundo Gadamer, em Hegel, “O saber absoluto é, portanto, o resultado de uma purificação, no sentido de que a verdade do conceito fichteano do transcendental emerge não como um mero ser sujeito, mas sim como razão e espírito, e, portanto, como a totalidade do real” (GADAMER, 2007, p. 82).47 “Hegel pode julgar-se como filósofo, que ultrapassou todas as aquisições desse idealismo filosófico, que as conduziu ao seu termo lógico, e lhes exprime, por assim dizer, o resultado dialético.” (HIPPOLITE, 1971, p. 3)
Para Hegel, a arte deve escolher o objeto moral para sua exposição. Ele se pergunta que ponto de vista particular da moral é pretendido por esta exposição. O homem faz o bem
46 “Na tradição do idealismo alemão germânico, o absoluto é o nome do incondicionado kantiano – o real em si, sob as condições a priori da experiência – fora da órbita do conhecimento empírico e apenas visado, como ideal, pela razão.” (Ibidem, p. 12)
47 Segundo Jean Hippolite, Hegel possui uma autonomia inteiramente pessoal e não é apenas um sucessor do pensamento que parte de Kant, Fichte, Schelling. Para ele, essa leitura é esquemática, mas não verdade histórica.
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porque adquiriu a certeza do que é bom. Aqui, Hegel fala do dever ser moral, que deve ser escolhido segundo a universalidade abstrata da vontade e as forças das paixões. O outro tende a ser eliminado pela dicotomia entre ânimo e coração. A moral habita essa contradição e a vitória seria a escolha consciente do dever e a superação das paixões.48 A verdade está na reconciliação e mediação de ambos. Se o fim último aponta para o aperfeiçoamento moral, devemos reclamá-lo para a arte. Neste objetivo, não cabe à arte ser apenas meio, útil para esse fim. Hegel resolve esse impasse afirmando que “a obra de arte deve revelar a verdade na forma da configuração artística sensível, isto é, ela é chamada a expor aquela contraposição reconciliada e, com isso, possui seu fim em si mesma, nesta exposição e revelação mesma” (Ibidem, p. 74).49 Ele propõe a busca do “conceito de arte em suas necessidades internas a partir do ponto de vista em que cessa a consideração reflexiva” (Ibidem, p. 74). Segundo o autor, historicamente, o belo artístico foi reconhecido como um dos meios que resolve e reconduz a uma unidade a contradição entre espírito e natureza, tanto no surgimento da arte quanto no sentimento que ela causa. Ele novamente retoma Kant como um importante pensador do problema dos opostos e da apreensão do belo artístico.
Kant concebe o juízo estético, de tal modo que ele não provém do entendimento enquanto tal – enquanto faculdade de conceitos – nem da intuição sensível e de sua multiplicidade variada, mas do livre jogo do entendimento e da imaginação. Nessa unanimidade das faculdades de conhecimento, o objeto é referido ao sujeito e seu sentimento de prazer de comprazimento. (HIPPOLITE, 1971, p. 76)
Esse objeto é destituído de interesse; não podemos desejá-lo nem necessitá-lo. É preciso deixar o objeto artístico existir livremente por si. Segundo Kant, o belo deve ser representado sem conceito e deve valer universalmente, pois o “em si e para si verdadeiros carregam em si mesmos a determinação e a exigência de também valer universalmente” (Ibidem, p. 76). O belo, diferente do bem e do mal, deve despertar um comprazimento universal.50 Na arte não há finalidade, pois o objeto possui a Forma da conformidade a fins, “na medida em que esta conformidade a fins é percebida no objeto sem a representação de uma finalidade” (Est, I, p. 77). Em Kant, a separação entre o universal e o particular se encontra superada pelo belo, pois ambos estão interpenetrados.
48 Para Hegel, esta condição deixa o homem como um anfíbio habitante de dois mundos.
49Outros fins, como a purificação, o aperfeiçoamento, a fama, o ganhar dinheiro; esses não pertencem à obra de arte enquanto tal.
50 “Na observação do belo não tomamos consciência do conceito e da subsunção que se opera sob esse conceito e não deixamos que aconteça a separação do objeto singular e do conceito universal, que no juízo sempre está presente.” (Ibidem, p. 76-77)
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Kant vê o belo artístico como uma concordância, na qual o próprio particular é adequado ao conceito [...] Desse modo, o pensamento toma corpo no belo artístico e a matéria não é determinada externamente por ele, mas existe livre por si mesma, na medida em que o natural, o sensível, o ânimo e assim por diante possuem em si mesmos medida, finalidade e concordância e a intuição e o sentimento são igualmente elevados à universalidade espiritual, enquanto que o pensamento não só renuncia à sua hostilidade com a natureza, mas nela se asserena e o sentimento, o prazer e o fruir são legitimados e santificados; de tal maneira que natureza e liberdade [...] encontram seu direito e satisfação em um só termo. (Ibidem, p. 77)
Mas ao mesmo tempo, para Kant, tal julgamento e produção são subjetivos. Para Hegel, é preciso superar as deficiências kantianas, como a “apreensão superior da verdadeira unidade da necessidade e da liberdade, do particular e do universal, do sensível e do racional” (HIPPOLITE, 1971, p. 78).51
Para Hegel, a relação da moral na música está nos sentimentos causados pelo retorno à tônica. Isso gera um sentimento de agrado, não deixando o espírito na contradição. Para Hegel, oposições [Gegensätze] não possuem, segundo seu conceito interior, nenhuma sustentação firme. Para ele, tais acordes de tensão não podem levar ao ouvido a satisfação e o ânimo. Ele propõe justamente a dissolução da tensão no retorno à tríade. Esse sentimento satisfatório do retorno a si mesmo é necessário para a formação do espírito ético de um povo, questão tão fundamental na Fenomenologia do Espírito, pelo menos na época em que a arte tinha como função levar em seu conteúdo os interesses mais nobres da humanidade, antes de sua ‘morte’. É na religião da arte que a música, nessa função religiosa, se relaciona com a moral. Hegel, nesse ponto, valoriza o formal musical, pois é ele que toca o espírito em sua interioridade, uma vez que a música é sem conceito. Como já visto, se a música trouxer a
51 Hegel vê em Schiller o rompimento com a subjetividade e a abstração kantiana. Nas Cartas Sobre A Educação
Estética do Homem, que é um conhecimento da natureza da arte, Schiller vê que cada homem tem em si mesmo uma disposição para um homem ideal, e esse homem ideal é o Estado enquanto Forma objetiva e universal. É onde as particularidades buscam unir-se em uma unidade. Nesse encontro, o Estado enquanto ético, jurídico e inteligente suprime a individualidade. Por outro lado, elevar-se a este Estado (homem da Ideia) enobrece o homem do tempo. “A razão reclama a unidade enquanto tal, o que é conforme ao gênero, enquanto que a natureza conclama a multiplicidade e a individualidade, e as duas legislações recorrem igualmente ao homem.” (Ibidem, p. 80) Tal mediação e reconciliação serão realizadas pela educação estética, que
tende a formar a inclinação, a sensibilidade, o impulso e o ânimo de tal modo que se tornem em si mesmos racionais e que então a razão, a liberdade e a espiritualidade saiam de sua abstração, se unam com o lado natural em si mesmo racional e nele mantenham carne e sangue. (Ibidem, p. 79)
Em Schiller, o belo será a expressão da formação unificadora do racional e do sensível, e tido como o verdadeiro. A Schelling coube o conceito e a posição científica da arte, o que lhe dá uma posição superior e verdadeira. A intuição intelectual foge do castelo que a aprisionava, a saber, a Crítica da Razão Pura. Tal feito é obra do gênio em sua intuição intelectual. A obra se desvincula da ordem das representações empíricas; ela revela a verdade transcendente, e é o real idealizado.
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moral em forma de texto prosaico ou lei, ela vira um mero invólucro plástico, perdendo assim sua autonomia como arte. Assim, é no seu interno material que a música se relacionará com a moral. Eis a importância do estudo de Hegel sobre a relação entre ritmo, harmonia e melodia, tendo no retorno a si mesmo tonal o seu conteúdo verdadeiro. Eis a pertinência de nossa questão: se um problema acerca do formal musical se relaciona com uma questão filosófica.
Na música é justamente a melodia que exercerá essa função, pois o livre soar da alma no campo da música é primeiramente a melodia.
O poético da música, a linguagem da alma, que derrama o prazer interior e a dor do ânimo em sons e nesta efusão se eleva suavemente acima da força natural do sentimento, na medida em que faz da comoção [Ergriffensein] atual do interior uma percepção de si mesmo, um demorar junto de si mesmo e dá ao coração, desse modo, igualmente a libertação da pressão advinda da alegria e do sofrimento. (Est, III, p 315.)
Assim, a melodia tem essa relação direta com o espírito humano, de levá-lo a ter a percepção de si mesmo na comoção causada pelo retorno a si mesmo. Eis em parte a resposta à questão levantada logo no primeiro parágrafo da introdução, a saber, como o formal [Gestalt] da música, através da sonoridade causada pelo retorno à tônica, pode tocar o espírito em sua interioridade subjetiva, conduzindo-o à consciência de si? Por ser insuficiente a música, ela leva, através dos sentimentos, à percepção, e não à consciência de si mesmo. A música se encontra em um estágio inferior, e será superada pela poesia, que melhor realiza essa tarefa. Toda a questão sobre a música será vista de forma sistemática adiante.