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Como nos referimos no capítulo anterior, a concepção de trabalho desde o mundo antigo teve sua perspectiva em sentido pejorativo como castigo, padecimento e sofrimento. Basta lembrarmos alguns exemplos como o Mito de Sísifo1, em que o personagem que dá nome ao referido mito num eterno retorno, sempre levando uma pedra até o cimo da montanha como castigo de Zeus, ou ainda, como no relato bíblico sobre a expulsão do homem do paraíso, em que Deus diz:

Porque atendeste à voz da tua mulher e comeste o fruto da árvore, a respeito da qual Eu te tinha ordenado: ‘Não comas dela, maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida. Produzir- te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e ao pó voltarás. 2

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1 – BULFINCH, Thomas, O livro de ouro da Mitologia: historias de deuses e heróis, 2006. p. 206. 2 _ Gn 3, 17-20. (grifamos).

Somente na Modernidade a categoria trabalho assume outra perspectiva em pensadores com Hegel, Feuerbach, Engels e o nosso autor, Karl Marx, que, com suas ideias centradas no materialismo histórico dialético, entende o trabalho em sua dupla dimensão: positiva, como fundamento da sociabilidade, atividade que gesta a sociedade como atividade livre e consciente, como práxis humana, atividade criadora do novo (dimensão formadora do homem) como vermos mais adiante, e em seu aspecto negativo, uma forma específica de trabalho, não o trabalho em geral, mas o trabalho estranhado, que é o escopo deste capítulo

(dimensão deformadora do homem).

Ao analisar a concepção marxiana do duplo caráter do trabalho nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, aqui ressaltamos precisamente os aspectos negativos do trabalho. Ou seja, se, por um lado, trabalho é a mediação ineliminável do ser humano, o homem se faz a si e ao mundo pelo trabalho; por outro lado, na sociedade capitalista, o trabalho assume a forma do estranhamento (Entfremdung), negação do homem, quando assume a condição de trabalho morto (CHAGAS, 1994, p. 23-33).

Na quarta seção do Primeiro Manuscrito de 1844, Marx expõe sua concepção de trabalho diferentemente das posições dos economistas políticos clássicos como: David Ricardo (1772 – 1823), James Mill (1806 – 1873), Jean-Beptiste Say (1767 – 1832), Adam Smith (1723 – 1790), Proudhon(1809 – 1865) e Saint-Simon(1760 -1825), que só percebem o trabalho em seu aspecto positivo, sobre o qual trataremos no próximo capítulo. Para compreender, todavia, o conceito de trabalho e suas consequências para a classe trabalhadora, é necessário, antes de tudo, compreendê-lo como fez Marx, com uma dupla possibilidade: na condição de atividade produtiva emancipatória e na condição de atividade produtiva estranhada.

Outra consideração necessária à análise aqui presente, no que diz respeito ao estranhamento, ocorre em determinadas condições históricas. Precisamente por ser o capitalismo o atual modo de produção predominante, consideramos essa base material como ponto de partida para as devidas reflexões sobre a alienação do trabalho.

Também se faz necessário considerar que a atividade produtiva é um fator sem o qual a existência humana não seria possível. Aqui defendemos a centralidade do trabalho para a existência humana. Conforme sustenta Mészáros, “o modo de existência humano é inconcebível sem as transformações humanas realizadas pela atividade produtiva”. Nesse sentido, a atividade produtiva é o “mediador na relação sujeito-objeto entre homem e

natureza” (MÉSZÁROS, 2006, p. 78), pois o produto do trabalho é a objetivação do homem. Quando livre, o trabalho possibilita ao ser humano – um ser então objetivo – manifestar-se e contemplar-se a “si mesmo num mundo criado por ele, objetivado, e não somente no seu pensamento”. (MÉSZÁROS, 2006, p. I44).

Assim, uma vez considerado que o trabalho – como atividade produtiva – é a mediação fundamental entre o homem e a natureza, a partir do momento em que o trabalho se torna uma mercadoria, surgem mediações de segundo grau – tais como a propriedade privada, a divisão do trabalho, a mercadoria, a troca, intercâmbio – que o “impedem de se realizar em seu trabalho, no exercício de suas capacidades produtivas (criativas), e na apropriação humana dos produtos de sua atividade”. (MÉSZÁROS, 2006, p. 78).

Dessa forma, haja vista a composição e o funcionamento da sociedade capitalista, fundamentada na reificação3 do trabalho, ou ainda, no capital, entendido como uma relação social de dominação baseada na estrutura hierárquica do trabalho, ele se torna uma atividade penosa e de sofrimento, uma atividade estranhada pelo homem.

Marx estudou profundamente, em 1843, os clássicos da Economia Política e, nos Manuscritos de Paris, ele nos revela o caráter ideológico da Economia Política de conteúdo clássico, pois esta não compreende a historicidade da propriedade privada, ou seja, a toma como um fato natural e trata o trabalhador como mercadoria. Para Marx, o ponto de partida é outro, pois ele parte de uma dada forma particular de produção, a sociedade industrial moderna, e critica a unilateralidade da economia política clássica, que vê somente o lado exterior e produtivo do trabalho. Assim sendo, Marx desmascara a alienação que está na base da sociedade burguesa.

A Economia Política, segundo Marx, não enxerga as contradições entre trabalho e capital. Como vimos, o ponto de partida dos economistas políticos é a sociedade burguesa e sua objetividade. Eles apenas expressam as leis do trabalho estranhado.

Citando o próprio Marx (2010, p. 79), _______________________

3 Considerar algo abstrato como coisa material. Representar o ser humano como objeto físico privado de qualidades pessoais ou de individualidade. De acordo com Marx, considerar o trabalho como uma mercadoria (commodity) exemplifica a reificação do indivíduo. Transformar o homem ou algo em coisa - objeto de consumo (ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo, Mestre Jou, 2009).

A economia nacional parte do fato dado e acabado da propriedade privada. Não nos explica o mesmo. Ela percebe o processo material da propriedade privada, que passa, na realidade, por fórmulas gerais, abstratas... Não concebe estas leis, isto é, não mostra como têm origem na essência da propriedade privada.

Deste modo, a economia política não vê a gênese histórica das determinações sociais do trabalho. Marx, ao contrário, recusa toda e qualquer, robsionada4 econômica de ficção que não explica a realidade histórica. Para Marx (2010, p. 80), enquanto a Economia Política parte de um estado primitivo que nada explica, ele simplesmente empurra a questão para uma região nebulosa, cinzenta. Supõe na forma de fato, do acontecimento, aquilo que deveria deduzir”. Marx chega a comparar, ironicamente, esta relação da Economia Política com a Teologia que explica a origem do mal pela queda do homem, pois, segundo ele, os economistas políticos, pressupõem como fato histórico o que se deveriam explicar. Ou seja, não são capazes de ver as suas determinações histórico-sociais.

O ponto de partida de Marx é outro: é o fato econômico real contemporâneo da sociedade capitalista com todas suas formas de relações de trabalho estranhado e do homem negado.

2.2 O Trabalho como Produção da Existência

O pensamento de Marx toma como ponto de partida a realidade em que vivem os indivíduos, suas ações e o que produzem com base nessas ações, arriscando-se em constatações obtidas em experiências comuns, e não por via de teorias sobre o real.

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4 Robisonada . Refere-se ao mito fictício em que um homem vivia isolado de todos os outros. Para Marx, esse homem civilizado, quando é transportado para uma ilha deserta, leva consigo a dinâmica de sua sociedade, e mesmo a sua produção individual não é nada além do que mais um produto de sua sociedade, fruto da história de sua produção social. Ele não cria, não interage com o meio novo em que vive, apenas repete aquilo tudo o que aprendeu burguesa e religiosamente. O termo robsionada se refere a Robinson Crusoé, romance escrito por Daniel Defoe e publicado originalmente em 1719 no Reino Unido. É uma obra autobiográfica fictícia em que o personagem-título, um náufrago que passou 28 anos em uma remota ilha tropical próxima a Trinidad, encontra canibais, cativos e revoltosos antes de ser resgatado.

Para Marx (2010, p. 27),“O primeiro pressuposto de toda a história humana é, naturalmente, a existência de indivíduos humanos vivos”. Portanto, em primeiro lugar, devem-se constatar as organizações materiais dos indivíduos entre si e a natureza que os cerca. O homem deve ser pensado no seu todo como indivíduo físico.

Para Marx, podemos distinguir os seres humanos dos outros animais por vários meios, como a consciência, a religião; mas o que o faz diferente de fato é que o homem produz os próprios meios de viver. “Produzindo seus meios de vida, os homens produzem indiretamente sua própria vida material”. (MARX, 2010, p. 27). Com isso, Marx situa o trabalho como atividade essencial do ser humano consciente5, e é a partir do trabalho que o homem é capaz de produzir meios que garantam sua vida material, satisfazendo suas necessidades principais, como alimentação, moradia, vestuário e as demais necessidades surgidas ao longo da história. Sendo o indivíduo sujeito de sua história, o que ele é se identifica com a sua produção. O homem é aquilo que produz, ou, em outras palavras, é o produto do seu trabalho.

A maneira como cada nação desenvolve suas formas de produção influi em sua relação com as demais, pois a produção se desenvolve com o aumento da população. Pressupõe-se que, quanto maior a nação, maior também será sua produção. A produção foi se desenvolvendo de acordo com o desenvolvimento das civilizações. Com o crescimento da humanidade, cresce também o conhecimento. Com a necessidade de produzir mais, foram surgindo também outros meios e instrumentos capazes de ir atendendo às novas necessidades para o bem do homem.

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5 “O trabalho é antes de tudo um ato que decorre entre o homem e a natureza. O homem representa, ele próprio, diante da natureza, o papel de uma força natural. As forças de que seu corpo é dotado, braços e pernas, cabeça e mãos, são por ele postas em movimento a fim de se apropriar das matérias, dando-lhes uma forma útil à sua vida. Ao mesmo tempo em que, através desse movimento, atua sobre a natureza exterior e a modifica, modifica também a sua própria natureza e desenvolve as faculdades que nela estavam adormecidas. Não nos deteremos neste estágio primordial do trabalho ainda não despojado do seu modo puramente instintivo. O nosso ponto de partida é o trabalho sob uma forma que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha faz operações semelhantes às de um tecelão e a abelha confunde, pela estrutura das células de cera, muitos arquitetos hábeis. Mas o que, logo de início, distingue o pior arquiteto da abelha mais habilidosa é que ele construiu a célula na cabeça antes de a construir na colméia. O resultado a que chega o trabalhador preexiste, idealmente, na imaginação do trabalhador. Não muda apenas a forma das matérias naturais; realiza, ao mesmo tempo, o seu próprio objetivo de que tem consciência, que determina como lei o seu modo de ação e a que deve subordinar a vontade. E esta subordinação não é momentânea. Durante toda a sua duração, além de esforço dos órgãos que atuam, a obra exige uma atenção firme que não pode resultar senão de uma tensão constante de vontade”. (MARX, 1986, p. 27).

Outros fatores também importantes nas relações entre as sociedades são os intercâmbios, tanto internos quanto externos, e a divisão do trabalho. “A divisão do trabalho no interior de uma nação leva inicialmente à separação entre o trabalho industrial e comercial de um lado, e o trabalho agrícola de outro, com isso a separação da cidade e do campo leva à oposição de seus interesses”. (MARX, 2010, p. 29).

A divisão do trabalho começa, portanto, na propriedade tribal, sendo a família o modelo para a divisão do trabalho, que Marx chama de escravatura latente. Ou seja, a estrutura social segue o modelo da família na sua hierarquia: os patriarcas, os chefes das tribos, depois os membros das tribos, e, por fim, os escravos. E esta divisão vai se desenvolvendo de acordo com o aumento da população e de suas necessidades e com isso também o desenvolvimento do comércio e do intercâmbio externo.

Depois desta fase ainda não desenvolvida da produção, em que o povo vivia de forma muito simples, surge a propriedade comunal e estatal antiga, desenvolvida pela união de várias tribos, formando cidades, algumas se organizando por meio de acordos, outras mediante conquistas. Com esta nova maneira de organização, acompanhada de novas formas de produção, continua a existir a escravatura. Desenvolve-se ainda a propriedade privada móvel e, mais tarde, a imóvel, sendo esta subordinada à primeira. Os cidadãos em comum dominam os escravos. Tendo sua propriedade privada em comum, eles devem permanecer em associação perante os escravos. “Eis por que toda estrutura social baseada nesta propriedade coletiva, e com ela o poder do povo no mesmo grau, decaem, na medida em que se desenvolve a propriedade privada imóvel”. (MARX, 2010, p. 31). Com isso, está sendo formada a relação de classes pela oposição de ideias entre campo e cidade, depois entre Estados, uns demonstrando interesse pelo urbano e outros pelo rural.

Para Marx, todas as relações de exploração existentes na sociedade capitalista são consequência do desenvolvimento da propriedade privada, iniciado na Antiguidade e desenvolvido ao longo da história. De um lado, os dominadores, e do outro, o proletariado, que em sua posição média não conseguiu o desenvolvimento autônomo.

A terceira forma de propriedade surge na Idade Média a propriedade feudal. Diferentemente da Grécia e de Roma, a população passa a residir no meio rural e a viver do trabalho agrícola. Esse desenvolvimento do feudalismo acontece num território preparado por conquistas romanas, às quais a expansão da agricultura está inicialmente ligada. Com o final do Império Romano e a conquista pelos bárbaros, as forças produtivas foram destruídas, tanto

a agricultura, quanto o comércio e a indústria foram abalados e a população diminuiu. Ante tal situação, sob a influência da constituição militar germânica, é que surge a propriedade feudal. De modo semelhante à propriedade comunal e tribal, a propriedade feudal era uma associação em face os opressores, só que, diferentemente dos escravos, os pequenos produtores feudais eram produtores diretos.

A estrutura feudal da propriedade fundiária era semelhante à propriedade corporativa das cidades. “Aqui, a propriedade consistia, principalmente, no trabalho de cada indivíduo”. (MARX, 2010, p. 34). Fatores como a necessidade de associação contra a rapina da nobreza associada deram origem às corporações, que desenvolveram na população uma hierarquia semelhante à do campo.

A principal forma de trabalho, na época feudal, era o trabalho servil, ligado à propriedade fundiária. A outra era uma forma própria de trabalho com um pequeno capital que dominava o trabalho das oficinas. Ambas as formas estavam adequadas às relações de produção limitadas à agricultura rudimentar e à indústria artesanal. “No apogeu do feudalismo, houve pequena divisão do trabalho”. (IBIDEM, p. 35). Havia nos países oposição de ideias entre campo e cidade, e na estrutura de Estado era forte a diferenciação de príncipes, nobreza, clero e camponeses no campo, e de oficiais e aprendizes na cidade, portanto, não houve nenhuma divisão importante. Tanto na agricultura, quanto na indústria, não havia uma divisão do trabalho propriamente dita. A divisão de indústria e comércio só aconteceu quando as cidades mais novas entraram em relação com a cultura das cidades mais antigas, onde essa divisão já estava desenvolvida.

Com o surgimento do capitalismo, o trabalho se torna mercadoria a ser vendida, enquanto, para Marx, ele deve significar a produção da vida. Queremos esclarecer que vida aqui tem um sentido mais amplo, abarcando todas as manifestações humanas. A vida humana com deliberação humana, eis a sua liberdade: algo incompatível com a existência do trabalhador6 que vê sua vida produzida sob o caráter mediato da necessidade, da operação física e da mera sobrevivência.

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6 A essênciahumana se realiza no trabalho, ou melhor dizendo. O trabalho é a própria essência do homem. É, pois, insustentável pensar a vida humana, ou qualquer forma de sociabilidade, sem o trabalho, sem objetivação. (CHAGAS, 1994, p. 28, grifamos).

Benzer Belgeler