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Na análise de discurso, busca-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história. Sobre noção histórica Brandão (1999, p.49) cita:

A noção histórica é fundamental, pois, porque marcado espacial e temporalmente, o sujeito é essencialmente histórico. E porque sua fala é produzida a partir de um determinado lugar e de um determinado tempo, à concepção de um sujeito histórico articula-se outra noção fundamental: a de um sujeito ideológico.

A ideologia é materializada por meio do discurso e o discurso é materializado por meio da língua. Para Pêcheux (1988), fiel ao marxismo de Althusser, a ideologia é fundamentalmente aquilo que determina o sujeito, à

sua revelia, na ilusão da autonomia que lhe fornece a língua e complementa com o fato de que não há discurso sem sujeito e sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela própria ideologia e é assim que a língua faz sentido. A esse respeito Orlandi (2005, p.42) concebe:

Os sentidos não estão nas palavras elas mesmas. Estão aquém e além delas. O sentido não existe em si, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo histórico em que as palavras são produzidas. As palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que a empregam. Elas "tiram" seu sentido dessas posições, isto é, em relação às formações ideológicas, nas quais essas posições se inscrevem. (grifo do autor).

De acordo com Maingueneau (2008), tanto o texto oral como o texto escrito trazem a materialidade do enunciador, por meio da multiplicidade de tons. Assim, o ethos não só recobre a dimensão verbal, mas também o conjunto de determinações físicas ou psíquicas ligados ao ‘fiador’ pelas representações coletivas estereotipadas. Sobre estereótipo Amossy (2004, p.125-126) aponta:

A estereotipagem é a operação que consiste em pensar o real por meio de uma representação cultural pré-existente, um esquema coletivo cristalizado. Assim, a comunidade avalia e percebe o indivíduo segundo um modelo pré-construído da categoria por ela difundida e no interior da qual ela o classifica.

Para complementar, Fiorin (1998) observa que esses estereótipos impregnam na consciência e acabam por ser considerados naturais. Algumas figuras têm conteúdos carregados de preconceitos, outras são impregnadas de sentimentos positivos. Os estereótipos representam a condensação de uma prática social. Dessa forma, diremos que e o ethos é o imaginário social que se corporifica e pode ser resultante tanto de indivíduos como de grupos.

Em relação ao conceito de ideologia, Charaudeau (2008) afirma que a Análise do Discurso desenvolveu vários, sob pontos de vista. Inicialmente invocou o “materialismo histórico” e uma “teoria das ideologias”, tal como foi

definida por Althusser. Em seguida ocorreu a “formação discursiva”, proposta Foucault e deu lugar à pesquisas que tinham por objetivo revelar os pressupostos ideológicos que se escondiam sob a linguagem.

Além disso, em relação à problemática do discurso, não se pode separar as representações sociais de uma teoria do sujeito. A partir do ato de comunicação cria-se um elo social que parte de normas de comportamentos de representações partilhadas. Por meio dos discursos de representações, os sujeitos se reconhecem como pertencentes a grupos por um jogo de identificação e exclusão, desse modo criam para si uma consciência social. Em relação ao conceito de representação social, Abric (1996, apud Fátima Santos e Renata Lira, 2006,p.114) concebe o seguinte:

Uma representação social é um conjunto organizado e hierarquizado de julgamentos, atitutes e informação que um determinado grupo elabora a respeito de um objeto. As representações sociais são resultantes de um processo de apropriação de realidade, de reconstrução desta realidade em um sistema simbólico. Elas são interiorizadas pelos membros do grupo social e coletivamente engendradas e compartilhadas.

Charaudeau (2008) ressalta que as representações sociais possuem três dimensões: cognitiva (organização mental da recepção); simbólica (interpretação do real) e ideológica (atribuição de valores que desempenham o papel de normas societárias). Sobre a utilização dessas dimensões Fátima Santos e Renata Lira (2006, p.115) afirmam o seguinte:

[...] utilizar o referencial das representações sociais é focalizar simultaneamente os processos cognitivo e social do conhecimento produzido. Do ponto de vista cognitivo, é importante ressaltar que, sendo a representação sempre de alguém, ela é uma forma de conhecimento submetido às regras dos processos cognitivos do sujeito. Tais processos, entretanto, são considerados como diretamente determinados pelas condições sociais nas quais são elaboradas e transmitidas as representações. Logo, do contexto social, emergem regras diferentes da lógica formal , da “lógica cognitiva”. (grifo do autor).

De acordo com Charaudeau (2008) a realidade que cerca o sujeito é interpretada a partir das representações, ao mesmo tempo, mantendo com ela

as relações simbólicas e atribuindo-lhes significações. As representações são constituídas pelo conjunto de crenças, dos conhecimentos e das opiniões produzidas e partilhadas por indivíduos de um mesmo grupo social a respeito de um dado aspecto social. Sobre o que constituem essas representações Charaudeau (2008, p. 197) concebe:

[...] assim formulamos a hipótese de que essas representações constituem maneiras de ver (discriminar e classificar) e de julgar (atribuir um valor) o mundo diante de discursos que engendram saberes, sendo que é com esses últimos que se elaboram sistemas de pensamento, misturas de conhecimento, de julgamento e de afeto. (grifo do autor).

A partir disso, conclui-se que os saberes não são categorias abstratas da mente, mas maneiras de dizer configuradas pela e dependente da linguagem e podem ser reagrupadas em dois grupos: saberes de conhecimento e saberes de crença. Ambos estruturam as representações sociais (Charaudeau, 2008).

Os saberes de conhecimento visam a estabelecer uma verdade sobre os fenômenos do mundo. Existem além da subjetividade do sujeito, participam de uma razão científica que constrói uma representação da realidade. Pelo fato de ser uma razão científica, escapa à singularidade do indivíduo. Assim, o discurso é construído de maneira impessoal e desempenha papéis de referência e de verificador do conhecimento.

Já os saberes de crença visam a sustentar um julgamento sobre o mundo. Referem-se aos valores que lhe são atribuídos. Esses valores são procedentes de um juízo relativo aos seres que habitam o mundo, seu pensamento e seu comportamento, isto é, o sujeito que se impõe ao mundo. Por ser o indivíduo heterogêneo existem vários julgamentos possíveis acerca do mundo. Todo o juízo de crenças está fundado sobre uma partilha, pois ele tem também uma função identitária.

Nos tipos de saber sobre os quais se fundam os sistemas de pensamentos, como afirma Charaudeau (2008), podem-se distinguir teorias, doutrinas e ideologias.

As teorias são constituídas de saberes de conhecimento que podem ser chamados de saberes científicos, e podemos caracterizá-los, ora como um saber fechado sobre ele mesmo, ora como um saber aberto, ao aceitar o questionamento pela observação ou crítica.

As doutrinas são constituídas pelo saber de conhecimento e pela crença e caracterizam uma forma de discurso exclusivamente fechado, pois se trata de um saber de crença mascarado como saber de conhecimento e que termina por tomar o lugar do saber de crença. As doutrinas servem de modelo de pensamento e de comportamento para indivíduos que vivem em sociedade.

As ideologias constituem um conjunto de representações sociais, e é um sistema moderadamente fechado sobre ele próprio que é construído em torno de valores de um grupo social que se impõe. A questão da identidade do sujeito passa por representações sociais: o enunciador é corporificado a partir de uma representação social, já que a visão que uma sociedade tem do corpo depende dos imaginários coletivos que ela constrói para si.

Charaudeau (2008) ressalta que sendo uma das características principais da Análise do Discurso a centralidade ideológica de textos orais e escritos (em particular, os textos políticos), evidenciam-se os efeitos de imposição da ideologia. O estudo das representações sociais na Análise do Discurso tem a finalidade de trazer para o próprio sujeito a ordem das coisas. Para Pêcheux (1988), uma formação discursiva é somente o componente de uma formação ideológica que constitui um grupo de atitudes e representações que não são nem individuais, nem universais.

O coenunciador se relaciona ao ethos de um discurso por meio de incorporação, já que o texto não é para ser contemplado, e sim a enunciação voltada para um coenunciador que deve ser mobilizado a aderir a um certo universo de sentido. Sobre a relação do coenunciador com a ideologia, Maingueneau (2008, p.72) explicita:

O poder de persuasão de um discurso decorre em boa medida do fato de que leva o leitor a identificar-se com a movimentação de um corpo investido de valores historicamente identificados. A qualidade do

ethos remete, com efeito, à figura desse “fiador” que, mediante sua

fala, se dá uma identidade. compatível com o mundo que se supõe que ele faz surgir em seu enunciado Paradoxo constitutivo: é por seu

próprio enunciado que o fiador deve legitimar sua maneira de dizer. (grifo do autor).

O ethos e as ideias são inseparáveis, pois a maneira de apresentá-las cria imagens, É, portanto, por meio do ato de enunciação que o público constrói representações do ethos do enunciador.

2.3.1 A imagem da função pública: ethos de credibilidade

As figuras identitárias no discurso político se agrupam em duas grandes categorias: o ethos de credibilidade que se funda na razão e o ethos de identidade que se funda no afeto social. Sendo a credibilidade fundamental no discurso político, em virtude da pretensão do enunciador ser a persuasão do público de quem tem certo poder, o sujeito político procura construir para si a imagem de credibilidade, por meio de traços do ethos de sério, do ethos de virtuoso e do ethos competente, ou seja, essas imagens são relacionadas, basicamente à imagem que o coenunciador tem do enunciador enquanto político.

Em relação à imagem que o coenunciador faz do enunciador, novamente evidenciamos a discussão das imagens mútuas, que se fazem entre enunciador e coenunciador. O enunciador não tem do coenunciador uma imagem empiricamente testável, mas uma imagem que lhe serve para obtenção dos efeitos de sentido pretendidos. O próprio discurso impõe a questão da dominação do coenunciador e as imagens criadas a respeito dele são apoiadas naquilo o que ele tem como válido e indiscutível como: “coletividade”, “democracia”, “inflação”, “guerra”, “paz”, “globalização” etc. (CHARAUDEAU, 2008).

O sujeito enunciador busca construir uma imagem que se refere ao pressuposto da imagem, basicamente, que o coenunciador faz do enunciador político, e essa imagem se apoia na concepção de que o sujeito enunciador responde pelos interesses de forças superiores às suas: coletividade, o povo, a Nação. Assim, a constituição do ethos de credibilidade se funda na imagem do poder político que é a que interessa ao enunciador para desencadear o seu discurso. Sobre a noção de poder público assumido pelo enunciador Osakabe (1979, p.73-74) aponta:

Essa noção de poder público, que o locutor insiste em assumir, não pode ser caracterizada como sendo efetivamente o que ele pensa que o ouvinte pensa dele, mas como sendo uma forma pela qual ele pensa que pode abarcar tudo aquilo que o ouvinte possa dele pensar. Em outros termos é aquilo que o locutor pensa que o ouvinte pensa

não dele, mas da função que assume perante esse mesmo ouvinte.

Nessa medida ele se ajusta ou se propõe como ajustado a essa imagem. (grifo do autor).

O sujeito político pode ser julgado digno de crédito se houver condições de se comprovar que aquilo que é dito por ele corresponde sempre ao que ele pensa; se possui os meios necessários para pôr em prática as ações propostas e se o que ele anuncia e aplica é seguido de um resultado positivo.

2.3.2 A imagem sobre o referente: ethos de identificação

Salientamos que a classificação dos traços do ethos de identificação é complexa, tendo em vista essas imagens serem destinadas a persuadir um maior número de indivíduos, naturalmente heterogêneo, e vagos do ponto de vista dos imaginários.

De acordo com Osakabe (1979), o enunciador, no ato de enunciação, se enquadra, independente da imagem que o coenunciador possa ter do referente, na exigência básica de que o conhecimento do coenunciador é passível de ser distinto do seu. Em relação às imagens para a construção do ethos de identificação Osakabe (1.979, p. 80) esclarece:

A imagem contrária à sua o locutor a atribui a uma terceira pessoa (no caso, todo o adversário). O fato parece ter a seguinte explicação: o ouvinte tem na verdade, um papel duplo para o locutor, à medida que ele não é só a instância que ouve, mas também a instância que ouve o adversário; enquanto instância que o ouve, o ouvinte caracteriza-se como parceiro político, o que não justifica o discurso, mas enquanto aquele que pode ouvir o adversário, ele é, ao mesmo tempo, portador de uma imagem contrária, mas por não ser o adversário, é um possível aliado. (grifo do autor).

O enunciador não mostra essa condição : o coenunciador é considerado na sua permeabilidade ou em sua sintonia com a própria imagem assumida pelo locutor. Em relação à imagem que o enunciador pensa que o coenunciador faz do referente, o segundo parece assumir uma imagem contrária à do primeiro ou parece ao enunciador que este assume uma imagem contrária à sua. Apesar disso, o enunciador não situa o coenunciador como adversário e, a fim de tê-lo como aliado desresponsabiliza-o dessa imagem.

Benzer Belgeler