3.1 Chegada de Otto, revolução
Foi Otto Lara Resende quem inaugurou a crônica diária na página 2 da Folha de S.Paulo. A leitura da Folha nesse período nos leva a dizer mais: foi ele quem reintroduziu esse tipo de texto, com tom de conversa fiada e um pé na realidade, no jornal. Ao assumir a coluna Rio de Janeiro, ele revolucionou aquele espaço.
Considerada, sob muitos aspectos, a mais importante do periódico por conter os editoriais – que expressam a opinião do jornal sobre esse ou aquele fato da atualidade –, a página 2, até a chegada de Otto, tinha tradição eminentemente político-econômica. De alto a baixo, da esquerda para a direita, a página era composta de: créditos do jornal (nome da publicação e dos principais executivos) e editoriais (que variavam entre um e três textos diários); a coluna seguinte iniciava com uma charge ora assinada por Spacca, ora por Orlando e vez ou outra por Glauco – sempre de fundo político – e o trio de colunas políticas, sempre iniciado pela de São Paulo, seguida da de Brasília e encerrada com a do Rio de Janeiro. A página ainda tinha uma última coluna esguia com um artigo de vários autores (como Florestan Fernandes, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Antonio Delfim Netto, Dom Luciano Mendes de Almeida e outras figuras relevantes no cenário político-social do país), que terminava com um conjunto de frases selecionadas da edição anterior.
Entre os anos de 1979 e 1991, a coluna mais ao pé da página 2 da Folha foi ocupada pelo jornalista político Newton Rodrigues (1920-2005). Ex-diretor e editor na primeira revista Senhor e redator-chefe e editorialista do Correio da Manhã, em meados da década de 1960, Rodrigues formou-se em história, foi membro do Partido Comunista no início dos anos 50 e destacou-se na imprensa como comentarista político. Sua coluna escrita do Rio de Janeiro tinha grupo de leitores fiéis, informa em entrevista à pesquisadora Edney Cielice Dias, então responsável pela publicação dos textos dele naquele espaço.
Como vimos no final do primeiro capítulo, a relação da Folha de S.Paulo com o governo do presidente Fernando Collor de Mello foi marcada pela tensão. Desde o começo da campanha presidencial, o jornal procurou mostrar todas as facetas do Collor candidato. Tanto abriu espaço para o crescimento daquele personagem jovem que aparecia no cenário político nacional, como para algumas irregularidades que foram cometidas no período que ele foi governador de Alagoas. Logo que assumiu, Collor mandou invadir o jornal em busca de irregularidades e, em seguida, a presidência da República abriu um processo contra quatro jornalistas da Folha.
Ao contrário da linha editorial do jornal, que buscava erros e acertos do governo, os textos de Rodrigues durante o período Collor mostravam certa condescendência com o presidente recém- eleito. Sempre valorizando a pluralidade, o jornal nunca se pronunciou contrário àquela posição, nem censurou o colunista. A relação entre Newton Rodrigues e o jornal ficou insustentável, porém, quando ele aceitou um convite para almoçar com o presidente Collor sem avisar à direção da Folha.
Assim como fez com Rodrigues, o cerimonial convidou nomes de destaque do jornalismo político de outros meios de comunicação para um almoço com Collor. Sentindo-se excluída de uma lista de notáveis, a direção da Folha reclamou com a presidência. E foi surpreendida com a resposta de que fora representada pelo jornalista Newton Rodrigues.
Com a saída de Rodrigues, o espaço ficou mês e meio com um colunista interino: em 1º de maio de 1991, passou a ser ocupado por Otto Lara Resende. Como vimos no primeiro capítulo, Otto tinha experiência no noticiário político e também era nome representativo no cenário do jornalismo brasileiro, mas diferentemente de Rodrigues aceitou o cargo desde que não tivesse de tratar de temas exclusivamente políticos.
Em alguns depoimentos que se seguiram à estréia de Otto na Folha de S.Paulo, o escritor conta que trocar as colunas dominicais de O Globo pelas crônicas do jornal paulista foi um processo que exigiu adaptações. Sobre o período, Otto diria que:
Estou tendo uma dificuldade enorme para escrever apenas 30 linhas diárias para a Folha. Sou muito prolixo. [...] A volta à crônica diária é uma grande novidade para mim. Estou ainda pegando a embocadura, experimentando. Não tenho ainda a resposta do público. A impressão que estou tendo é que estou agradando, mas pode ser que seja coisa de amigo.1
A fase das adaptações passou logo. Benício Medeiros observou que “Otto resolveu o problema passando a usar períodos curtos, lampejantes, que resumiam num haicai idéias de dois ou mais parágrafos”. O espaço ganhou adeptos. O jornalista Carlos Castello Branco comentaria em texto escrito após a morte de Otto que aquelas trinta linhas diárias publicadas na Folha eram “um vento que sopra de baixo para cima e areja toda aquela página”. Os leitores pareciam concordar. Em poucos meses de casa, Otto virou o terceiro colunista mais lido do jornal, só perdia para José Simão e Gilberto Dimenstein. O jornalista e pesquisador Humberto Werneck acredita que nessa época Otto ganhou o grande público:
Digamos que foi na Folha de S.Paulo que Otto se tornou conhecido entre o grande público, ao qual falava todos os dias, servindo-lhe seu saboroso palmo de prosa. Antes disso, o seu leitorado certamente era mais restrito e homogêneo – intelectuais, jornalistas, políticos etc. Não era cronista, com foi na Folha. Era articulista semanal e seu texto, mais exigente, demandando do leitor um repertório maior, naturalmente chegava a menos gente.2
A verdade é que depois de passar anos lendo notícias produzidas nos escritórios, onde se tomam as decisões ditas importantes do país, descritas nos textos do colunista político Newton Rodrigues, o leitor foi introduzido à sala, ao quarto, à cozinha e até ao quintal do lar com os textos de Otto Lara
1 FREITAS, Armando. Otto Lara Resende, o mestre volta à crônica diária. Diálogo médico. São Paulo, ano 17, nº5: julho-agosto 1991.
2 Humberto Werneck, escritor jornalista freelance e pesquisador da vida de Otto Lara Resende em entrevista à pesquisadora em 23 de outubro de 2005.
Resende. Levar o leitor para uma conversa fiada e, por que não, íntima, foi desde a primeira crônica uma proposta de Otto, que sabia exatamente os limites libertários do gênero. Ao ser interpelado sobre aquele espaço por Alcino Leite Neto em entrevista publicada no caderno “Mais!”, ele responderia:
Eu sempre trabalhei no jornal e num certo sentido eu tentei distingui-la [a crônica] do jornalismo. [...] Esse desafio de escrever todo dia numa página caracterizadamente de política, na Folha, eu achei muito curioso. A primeira crônica, escrevi no dia 1º de maio. Eu queria adiar para o 1º de junho, pôr uma distância entre minha saída do outro jornal e minha entrada na Folha. Mas eles estavam com uma certa pressa e tal, e me jogaram na piscina. Tive que nadar de qualquer maneira. Por coincidência, 1º de maio era também o dia do meu aniversário... Você sabia que na gíria do circo, 1º de maio é o sujeito que está estreando? Então, 1º de maio tinha até um sentido meio simbólico. Por isso coloquei nesta primeira crônica o título: “Bom Dia para Recomeçar”3. Para mim, era, na verdade, um renascimento. Houve
até um velho conhecido meu que me disse: “Otto, você ressuscitou”. Como se eu tivesse morrido... Até parecia que a Folha tinha me ressuscitado.”4
As crônicas de Otto fizeram mais por aquele espaço: cativaram leitores múltiplos. Com a chegada do texto do mineiro, outro tipo de leitor passou a visitar a página 2 da Folha.
Como muitos intelectuais brasileiros da primeira metade do século passado, Otto era formado em direito e tinha grande voracidade de conhecimento. Apesar de ter-se embrenhando no jornalismo, ele certamente pode ser incluído no grupo de escritores mineiros surgidos entre os anos de 1940 e 1950, que segundo Antonio Candido bem manipularam a “confluência na maneira de escrever, da tradição, digamos clássica, com a prosa modernista”.5 Para explicar melhor esse estilo, Antonio Candido continua
“é como se (imaginemos) a linguagem seca e límpida de Manuel Bandeira, coloquial e corretíssima, se misturasse ao ritmo falado de Mário de Andrade, com uma pitada do arcaísmo programado pelos mineiros”. Nas trinta linhas da Folha de S.Paulo ele conseguiu aliar sua erudição com a arte do bem conversar e, não por acaso, virou um sucesso. “Ele tinha um fã-clube”, conta Cielice Dias. “O número de cartas que recebia era inédito para qualquer ocupante daquela página.”
“Um dos legados de Otto foi certamente dar à crônica visibilidade que ela não gozava naquele momento. Especialmente na Folha”, explica o diretor de redação da Folha, Otavio Frias Filho. De fato, entre 1985 e 1991, ano de estréia de Otto, a Folha dava pouco espaço para cronistas. Sobretudo no primeiro caderno do jornal.
Até meados de 1985, à exceção de quarta-feira, a “Ilustrada” publicava uma crônica. De segunda a sábado, os textos apareciam na capa do caderno e eram assinados por Josué Guimarães, Gerardo de Mello Mourão, Mauro Santayana, Décio Pignatari e Marcio Souza. Fernando Sabino era o autor dos textos dominicais, publicados na contra-capa do caderno. No final de 1985, esses textos sumiram
3 Crônica publicada com o título “Bom dia para nascer”. 4 “Mais!” Folha de S.Paulo, 3 janeiro 1993, p. 10.
por completo da “Ilustrada” e do jornal. Somente cadernos muito específicos e de entretenimento publicavam textos mais leves – como os assinados por David Drew Zingg na “Revista D”.
Nesse mesmo 1985, o então repórter Leão Serva entrevistou os críticos literários Davi Arrigucci Jr. e Luiz Roncari sobre a morte das crônicas nos jornais. Dia de 5 de outubro de 1985, a “Ilustrada” publicou o texto “Crônica, a experiência impressa todo dia”, em que Serva escreveu que: “Tanto Luiz Roncari quanto Davi Arrigucci concordam que o gênero [crônica] vive hoje um momento de ‘baixa’. Poucos são os novos cronistas e pequena a repercussão de seus textos, bem menos do que a que alcançavam entre os anos 50 e 60.”6 Junto do texto, a “Ilustrada” trazia ainda artigo assinado por
Davi Arrigucci Jr., “Fragmentos sobre o gênero” que depois de revisto e aumentado virou o texto “Fragmentos sobre a crônica”, citado nesse trabalho e publicado no livro Enigma e Comentário.
A reintrodução deste tipo de crônica no jornal, em 1991, foi um mérito de Otto. Tanto isso é verdade que, com a morte dele, o jornal, como vimos, escolheu para ocupar o espaço outro escritor, Carlos Heitor Cony. A missão principal de Cony era consolidar o espaço literário iniciado por Otto. “E as viúvas de Otto Lara Resende eram tantas que, no começo, Cony enfrentou certa resistência”, recorda Edney Cielice Dias, também responsável pela publicação dos primeiros textos de Cony no jornal.
O sucesso de Otto talvez seja resultado de uma equação que os cronistas de meados do século XIX descobriram e os escritores brasileiros aperfeiçoaram até a década de 1930 e os pesquisadores Sidney Chalhoub, Margarida Souza Neves e Leonardo Affonso de Miranda Pereira abordaram em texto introdutório do volume História em Cousas Miúdas. Para eles, além da leveza própria da crônica, o gênero tem entre suas características principais:
a cumplicidade construída entre o autor e o público quanto aos temas e questões a serem discutidos. Se no caso das vizinhas faladeiras, a parceria era fruto da vivência de situações e ambientes comuns, quando pensado no contexto mais amplo dos jornais tal questão se colocava de forma mais complexa. Ao cronista cabia a responsabilidade de buscar, dentre os acontecimentos sociais de maior relevo e divulgação, capazes de formar entre o escritor e o público códigos compartilhados que viabilizassem a comunicação, temas que lhe permitissem discutir as questões de seu interesse.7
Mestre da arte da conversa, Otto percebeu rapidamente os temas que interessavam ao público da Folha e conseguiu outro feito: cativou leitores importantes para o jornal no Rio de Janeiro. Em números absolutos, os leitores do jornal naquela cidade sempre foram poucos. No ano em que estreou na Folha, a circulação total do jornal era de cerca de 400 mil exemplares e a parcela enviada ao Rio de Janeiro variava entre 10 e 13 mil. Mas a capital carioca sempre interessou ao jornal pelo número de personalidades importantes que ali estão instaladas.
6 SERVA, Leão. Crônica, a experiência impressa todo dia. Ilustrada, Folha de S.Paulo, 5 de outubro de 1985. 7 CHALHOUB, S. et al. Op. cit., p. 11.
Pouco antes da estréia de Otto, a direção da Folha enviou para chefiar a sucursal do Rio de Janeiro o jornalista Luiz Caversan, que tinha como principal missão atrair número maior de leitores cariocas, sobretudo de esferas artísticas, políticas e intelectuais. A estratégia de Caversan era fazer com que o jornal prestasse a atenção em fatos importantes da vida carioca que coubessem na publicação paulista e fossem inseridos em seu noticiário. Para Caversan:
O texto de Otto contribuiu muito para o sucesso da missão. Além de falar sobre o Rio de Janeiro, ele tinha uma visão de mundo e do país diferenciada dos profissionais que escreviam para o jornal e que tiraram um pouco daquele estigma de “jornal paulista” que a Folha tinha no Rio de Janeiro. 8
3.2 Da análise política para a conversa fiada
A leitura dos textos de Newton Rodrigues no último mês em que ocupou o espaço Rio de Janeiro é bastante ilustrativa para perceber a mudança de assunto da coluna. Apesar de escrever do Rio de Janeiro, Rodrigues parecia estar em Brasília. Mais da metade dos textos publicados entre 10 de fevereiro e 12 de março de 1991 (data de sua última coluna para a página 2) são escritos em formas de tópicos, sempre numerados de 1 a 3, no máximo. Nesses tópicos, Rodrigues tratava de assuntos distintos concernentes ao cenário político nacional. A coluna de 9 de março de 1991, intitulada “Responsabilidades e gentilezas”, por exemplo, tem dois tópicos: 1. decisão do STF sobre o teto anual dos juros de 12%; e 2. visitas de governadores ao presidente da República. À exceção de uma coluna, do dia 15 de fevereiro de 1991, todas as outras trataram algum aspecto da política nacional relacionados com o Congresso ou com alguma medida do Palácio. Para não dizer que ele não falava do Rio de Janeiro, nesse 15 de fevereiro, no terceiro tópico ele trata da supercomercialização do Carnaval carioca (já comenta a chegada das grandes marcas aos camarotes à beira do desfile).
Nos outros dias desse período, Newton Rodrigues tratou da necessidade de governabilidade que batia à porta da presidência; do Plano Collor 2, que mal estreara já tinha problemas (que “morreu de morte morrida, logo ao nascer, por deficiência genética”, disse em 18 de fevereiro de 1991); da disputa interna entre Ulysses Guimarães e Orestes Quércia pelo controle do PMDB; sobre o horário gratuito do PDT exibido na TV; sobre a quantidade de Medidas Provisórias usadas por Fernando Collor; sobre o comportamento de Jarbas Passarinho à frente do Ministério da Cultura (“O envio de um projeto cultural ao ministro, celebrizado entre outros feitos, pela perseguição a eminentes personagens da cultura brasileira, não tem justificativa”, escreveu em 02 de março de 1991); sobre os preparativos para
as comemorações de um ano do governo Collor (“Apesar do lema vencer e vencer, Fernando Collor de Mello não é um vitorioso ao aproximar-se do primeiro aniversário de seu governo”, escreveu em 04 de março de 1991).
A última coluna de Newton Rodrigues foi publicada na terça-feira 12 de março de 1991, chamava-se “Tempestades” e tratava de ações feitas nas fronteiras do Brasil na região amazônica, depois que um posto militar daquela região foi atacado. Dia 13 de março de 1991, nota do Painel (seção fixa da página 4 da Folha, com notas políticas), chamada “Interrupção” com o texto abaixo, trata do desligamento do colunista:
A Folha está interrompendo a publicação da coluna do jornalista Newton Rodrigues, do Rio, editada à página 1-2. O colunista manteve encontro com o presidente da República, que está processando o jornal, sem informar prévia ou posteriormente a sede, em São Paulo.
Nesse mesmo 13 de março, a Folha publica na página 3, artigo “Posses, aniversário, propostas e possibilidades”, assinado por Newton Rodrigues, que faz uma análise do primeiro ano de governo Collor. A saída de Rodrigues ainda provocou ruidosa troca de cartas entre o ex-colunista e Otavio Frias, no dia 14, e entre Cláudio Humberto Rosa e Silva, então secretário de imprensa da presidência da República, e Otavio, no dia 15. O assunto rendeu alguns artigos nas páginas de opinião, mas o fato é que Rodrigues jamais voltou ao jornal.
Seu antigo espaço, até a chegada de Otto, ficou interinamente ocupado pelo então diretor da sucursal da Folha no Rio de Janeiro, Tales Faria. Era Faria quem já escrevia naquele espaço às quartas- feiras, quando Newton Rodrigues folgava. Ele começa uma de suas colunas, “Fim de festa”, de 13 de fevereiro de 1991, com o seguinte parágrafo:
De volta agora das férias, dá vontade de plagiar o José Simão, lá da “Ilustrada”, e começar com o largo “bom dia, flor do dia”. Mas como a página A-2 não é a “Ilustrada” e a boa regra do jornalismo e da educação manda respeitar as características de cada lugar, não dá para começar assim tão gaiato.
Mal sabia ele, que alguns meses mais tarde, Otto traria o tom dos cadernos de variedades para aquele espaço e o subverteria para sempre.
A primeira coluna de Otto, “Bom dia para nascer”, foi exemplo primoroso do que estava por vir. De 1º de maio de 1991, o texto era uma comemoração, entre outros aspectos, de seu aniversário de 69 anos e o escritor, que dispensou qualquer apresentação para anunciar sua estréia (só aceitou a chamada discreta na primeira página do jornal - ver reprodução a seguir), foi logo anunciando: “Eu não tinha a intenção de dizer logo assim de saída. Mas já que a Folha me entregou, confesso que sou mesmo antigo. Modelo 1922”. A coluna está reproduzida abaixo, exatamente (e com correções) como ele guardou em seu arquivo pessoal.
Figura 32 – verso da mesma crônica com o texto da primeira página que anunciava a estréia de OLR no jornal (acervo OLR – IMS-SP)
Naquele primeiro mês, Otto tratou de futebol; de mulheres na justiça; de relações diplomáticas entre Portugal e Brasil; de Zélia Cardoso de Mello (não só a ministra, mas a mulher e seus joelhos à mostra); das chuvas no Rio; da mãe de Guimarães Rosa; de Bob Dylan (Otto ficou irritado com o músico que disse que não viria ao Brasil com medo de pegar cólera); de Olavo Bilac e a campanha pelo serviço militar obrigatório e deu seu adeus a Tarso de Castro, entre outros assuntos.
A chegada de Otto coincidiu com a carta aberta ao presidente da República assinada por Otavio Frias Filho e publicada na capa do jornal em 25 de abril de 1991. Por mais de um mês a seção de correspondências foi quase totalmente ocupada por cartas comentando o texto estampado na primeira página do jornal (e que pode ser conferido na figura 27, à página 33). Quase. Apesar de estréia tímida, o texto de Otto chamou a atenção dos leitores. E em meio ao alvoroço de correspondências acerca da carta do diretor de Redação, começaram a pipocar no Painel do Leitor elogios ao tom que ele inaugurara na página 2 do jornal.
O jornalista Luiz Caversan fez uma boa imagem da chegada de Otto no jornal:
Num momento em que a redação da Folha era composta por jovens que queriam revolucionar o jornalismo tradicional do país, Otto veio com sua erudição e emprestou sua condição de leitor privilegiado para fazer reflexões leves e bem-humoradas para aquela página que até então só se dispunha a falar dos assuntos mais sérios do país. De uma hora para outra, aquele espaço deixou de ser de análise política e passou a ser de leitura múltipla, generalista e literária. Ele foi um cometa que passou, deu uma arejada, uma luz e fez um bem danado para aquela página.9
3.3. Nomes, amigos e palavras
Ao descrever os talentos de Graciliano Ramos como cronista no texto “Graciliano Ramos e a Crônica”, Mário Fernando Passos Danner lista uma série de características que também