As políticas de consumo tem se apresentado durante o século XX, de acordo com Hilton (2003), como uma terceira via de solução para o sistema político dominado pelos interesses dos fabricantes e dos trabalhadores na Grã- Bretanha. O consumo despertou um importante movimento sócio-político durante os últimos cem anos – o consumerismo – uma força que mobiliza o coração da história social e política. Deve-se destacar, entretanto, que o que inspirou os movimentos consumeristas está muito próximo dos temas que também foram centrais para os movimentos cooperativistas e de trabalhadores: as idéias sobre consumo de produtos com qualidade e sobre a formação de preços. O autor pontua a representação dos consumidores existente dentro da estrutura do Estado:
[...] Apesar das críticas freqüentes por sua ineficiência, a representação de consumidores existe dentro da infra-estrutura do estado desde o Conselho de Consumidores (First World War Consumer’s Council) da Iª Guerra Mundial em instituições como o Conselho Alimentar (Food Council), criado em 1925 e os comitês de consumidores da Agricultural Marketing Boards em 1930. Os mecanismos consultivos dos consumidores foram também estabelecidos dentro das indústrias nacionalizadas na década de 1940, e
desde a década de 1950, uma ampla variedade de entidades de consumidores baseadas no governo tem emergido: o Consumer Council entre 1963-70, o Office of Fair Trading em 1973 e o National Consumer Council em 1975, junto com a representação direta governamental através de vários Ministros de Consumidores. Em função de seu pragmatismo, o consumerismo foi frequentemente transformado em um campo de batalhas sobre novas formas de cidadania e de expressão política (HILTON, 2003, p. 252).
O consumerismo moderno é um movimento da classe média e tem impactado significativamente na legislação, além de estar contribuindo para o desenvolvimento de discussões singulares nas campanhas políticas do país. De acordo com Hilton (2003), os consumidores ativistas britânicos têm sido sempre os participantes dominantes na Europa, principalmente por meio de suas experiências na Consumers’ Association (CA) e no National Consumer Council (NCC).
A CA foi criada em 1956, sendo reconhecida como o mais importante movimento da história. Sua formação foi inspirada na experiência americana da Consumers’ Union e no seu Consumers’ Report que, na CA, se materializou na revista Which?. Atualmente ela é reconhecida como uma instituição nacional, celebrada por seus testes comparativos de preços – ou de valor para o dinheiro – entre as diferentes marcas de bens e por suas recomendações sobre “a melhor compra”. É fonte de informações para os departamentos governamentais em matérias referentes aos interesses dos consumidores, além de ser consultada constantemente pelas mídias em relação a quaisquer desenvolvimentos econômicos particulares que envolvam os consumidores. Caracteriza-se como uma instituição privada sem fins lucrativos, que defende os interesses dos seus associados. Seu sucesso provém de uma operação eficiente visualizada como um negócio e de seus esforços em se vender efetivamente, ainda que mantenha a percepção de uma idéia inicial de movimento social a qual foi claramente formada na mente de muitos de seus fundadores.
Já o National Consumer Council, inicialmente denominado apenas de Consumer Council, foi fundado, de acordo com Hilton (2003) em 1963, seguindo
uma das principais recomendações do Comitê Molony53 e encarnou o não intervencionismo do Estado no consumerismo. Foi estabelecido como uma organização independente para buscar informações sobre os interesses dos consumidores, para promover ações em defesa de seus interesses e para alertar e orientar os consumidores. Evitou deliberadamente em se engajar na preparação de relatórios de testes comparativos, nas reclamações de consumidores individuais e na pressão por leis – três abstenções que levaram às críticas imediatas no Parlamento como limitantes de sua ação. Entretanto, as restrições deixaram clara a perspectiva do governo e do Comitê Molony sobre sua atuação como uma organização que publica informações sobre o mercado e que não interfere nas políticas de mercado.
Além da CA e do NCC (duas grandes organizações nacionais de consumidores), Hutton (2004) destaca também duas organizações menores: o Institute of Consumer Affairs, de cunho acadêmico e a National Consumer Federation, uma organização oriunda dos movimentos voluntários. Há, também, diversas organizações que se concentram em proteger os interesses dos consumidores em setores específicos, como o financeiro, o de telecomunicações/radiodifusão/tecnologia da informação, o de serviços de eletricidade, de água, postal, entre outros. É raro, também, que os comitês do governo e suas forças tarefas não incluam representações dos consumidores. Filiadas à Consumers International, encontram-se: Energy Watch, European Research into Consumer Affairs (ERICA), International Consumer Research and Testing (ICRT), National Consumer Council (NCC), UK Office of Fair Trading e Which?.
A partir de 1999, houve uma mudança no ponto de vista governamental sobre a importância econômica dos consumidores no Reino Unido. Segundo Hutton (2004), até então, as políticas relacionadas aos consumidores eram vistas como ações protetoras do bem-estar. Foi a partir das idéias de Michael Porter, economista americano contratado pelo governo Britânico para ajudar o governo a encontrar meios para melhorar a competitividade do país, que se abriu caminho para um melhor entendimento do papel dos consumidores como fomentadores,
53 Molony Committee on Consumer Protection, fundado em 1959 com o objetivo específico de revisar a legislação existente sobre proteção e examinar outros meios para a proteção do consumo público, somente na esfera dos bens, excluindo os serviços (HILTON, 2003, p. 222).
pelas suas demandas, de práticas mais competitivas pela indústria e, conseqüentemente, para o país. Um documento, editado pelo governo Blair e denominado Modern Markets: Confident Consumers, põe o consumidor no centro do palco, reconhecendo, pela primeira vez, que as exigências dos consumidores são boas para os negócios na medida em que promovem e inovação e estimulam o incremento de valor pelo desenvolvimento de produtos melhores a preços relativamente mais baixos.
Em 2003, prossegue o autor, o NCC desenvolveu um estudo comparativo do Reino Unido com outros nove países e, em termos gerais, as conclusões mostraram que o país estava em paridade com os melhores em muitas áreas, mas em atraso em algumas, como, na sua estrutura legal, nas suas ações de advertência aos consumidores sobre as empresas comerciais que agem inadequadamente e na fragmentação das entidades representativas dos interesses dos consumidores. Porém, aconteceram no país alguns movimentos importantes para o empoderamento do consumidor, ressaltando-se duas diretrizes principais: a crescente ênfase na instrução do consumidor, preponderante, principalmente, em relação aos serviços financeiros e o maior acesso à informação, que se reflete no estabelecimento do Consumer Direct, um serviço que responde às dúvidas dos consumidores tais como, os seus direitos e aonde se dirigir em caso da necessidade de suportes adicionais.
O Reino Unido foi um dos primeiros países a adotar uma política na direção do consumo e da produção sustentáveis, de acordo com Hutton (2004). Em 2003 foi publicado o Programa Changing Patterns que foi considerado como um bom primeiro passo, mas que não apresentava estratégias coerentes já que tendia a ignorar o impacto do comportamento do consumidor e privilegiava medidas para a produção, negligenciando políticas sobre o consumo.