Outra crítica endereçada a Engels tem origem nas exposições presentes nos prefácios de livros de Karl Marx. Segundo esta interpretação, haveria um distanciamento entre a forma de apresentação dos textos de Marx observados no chamado “último Engels,” que incidiram na leitura da crítica da economia política de Marx herdada pela tradição socialista imediatamente posterior e que se caracterizaria pela abstração de aspectos fundamentais do pensamento de Karl Marx. O fundamento desta crítica se embasa no estudo rigoroso da teoria do valor cujo primeiro nome de peso é Rubin, em A Teoria Marxista do Valor (1928).
Não se encontra em Isaak Rubin uma crítica a Engels ou uma crítica sistemática das distorções como se torna padrão posteriormente, ao se abordar em Marx a ideia de método
rigoroso. Ainda assim, na sucinta apresentação de seu método na introdução de A Teoria
Marxista do Valor, Rubin demonstra como não seria o foco da análise de Marx em sua obra
madura o “aspecto técnico-material do processo de produção capitalista, mas sua forma social, isto é, a totalidade das relações de produção que constituem a ‘estrutura econômica’ do capitalismo,” concluindo que “as técnicas de produção (ou as forças produtivas) só se inclui no campo da investigação da teoria econômica de Marx como um suposto, como um ponto de partida, tomado em consideração na medida indispensável para a explicação do genuíno objeto de nossa análise, as relações de produção.”107Dessa maneira, conclui que a “Economia
Política não é uma ciência das relações entre as coisas, como pensavam os economistas vulgares, nem das relações entre as pessoas e as coisas, como afirmou a teoria da utilidade marginal, mas das relações entre as pessoas no processo de produção.”108 Torna, assim,
desautorizado o juízo de Engels sobre a ciência, com pretensão de aplicação de um método marxista, exceto se pensarmos que a análise de Marx estivesse pressuposta em toda análise de Engels da ciência e das demais formas de relações sociais. O foco da crítica marxista do valor se volta para o fetichismo e a lógica da economia, designada pela “forma mercadoria” e suas categorias de base (trabalho abstrato, valor, mercadoria, dinheiro109), questão frente à qual é assumido como pressuposto político a ideia de que uma superação do capitalismo somente seria possível a partir de uma transformação profunda da sociedade em seu aspecto global.
O diagnóstico trazido por esta interpretação fez notar a novidade que o pensamento maduro de Karl Marx instaura, justificando uma crítica à leitura das obras de Marx como conjunto sistemático e de igual valor para todos os textos. Seus pressupostos são em geral partilhados por Lukács,110 iniciador da crítica do papel de Engels no marxismo, somados a outras interpretações distintas como os frankfurtianos (em particular Theodor Adorno), e “autores como Hans-Jürgen Krahl, Hans-Georg Backhaus, Lucio Colletti, Roman Rosdolsky ou Freddy Perlman”111, mas:
A opção revolucionária crê igualmente na existência dessa fractura, mas para criticar uma suposta contradição entre a descrição científica e a luta prática. Na verdade, porém, é precisamente o Marx do Capital que pode ser entendido como o mais radical. Enquanto o Manifesto Comunista, reputadamente muito “radical,” desemboca em reivindicações frequentemente “reformistas,” a crítica da economia política de Marx tardio (mas também a Crítica do Programa de Gotha) demonstra
107 RUBIN, Isaak. A Teoria Marxista do Valor. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.15. 108 Idem, p.15.
109 Como resume Anselm Jappe em: JAPPE, Anselm. As Aventuras da Mercadoria para uma nova
crítica do valor. Lisboa: Antígona, 2006, p.14.
110 Questão que tratamos com maior detalhe no capítulo a respeito das Táticas de infantaria, especialmente no contexto do Anti-Dühring de Engels.
que toda a transformação social é vã se não chega a abolir a troca mercantil112.
Deste modo, se compreendermos Engels a partir dos pressupostos de análise do primeiro período de parceria direta com Marx, e assumindo a continuidade de temas, é possível notar o lugar em que incide uma crítica à separação demarcada pelo o signo da totalidade (Lukács), mas ajustado a outras formas de leitura da crítica do valor e da teoria
crítica, compondo uma forma de interpretação nova em relação às abordagens anteriores. No
entanto, apesar de tentativas de reconstituição dos períodos anteriores do pensamento de Marx segundo um prisma político de princípio (o da crítica radical do valor), estas não se apresentam como as marcas das lutas políticas ou da história (tomadas como fenômenos externos), mas sim como formas de distorção (ou cooptação) das leituras de Marx frente a um impulso apassivador e “cientificizante” de apresentar Marx estritamente como uma teoria particular da economia. Ou então, tal crítica chega a incidir até mesmo sobre o princípio de organização dos movimentos sociais e políticos de contestação que seriam incapazes de captar a essência da sociedade produtora de mercadorias e que, por isso, teriam incidência apenas superficial no que seria o eixo central do modo de produção capitalista.
De modo distinto desta abordagem, cabe notar que se rejeitamos por um lado a unidade plena entre Marx e Engels, ainda assim mantemos alguns dos aspectos levantados por esta crítica, na medida em que puderam ampliar o escopo e as problematizações quanto à fundamentação teórica dos textos de Engels, mantendo um juízo sobre a relação com Marx nos termos de continuidades e diferenças.
Outro problema de diferenciação entre Engels e Marx, é apontado na leitura engelsiana d’O Capital ao compreender a exposição de Marx como de caráter histórico. Esta leitura é apresentada em muitos Scholars americanos que seguem a ideia de uma organização lógica d’O Capital estrita em relação ao que seriam considerados os momentos de inserção histórica presentes (como a passagem da cooperação simples à grande indústria, ou da ursprüngliche
Akkumulation: acumulação primitiva ou originária) também optado por uma rejeição da
exposição de Engels sobre O Capital onde este partiria, segundo os autores, de uma concepção da organização deste livro segundo uma ordem cronológica (de sucessão histórica), como Moseley. 113
112 Idem, p.17.
113 MOSELEY, Fred 1993 (ed.), Marx’s Method in ‘Capital’: A Reexamination, Atlantic Highlands: Humanities Press. Moseley, Fred & Martha Campbell (eds.) 1997, New Investigations in Marx’s Method,
Atlantic Highlands: Humanities Press. No entanto, é possível notar que autores como João Bernardo em Marx Crítico de Marx e Teoria do modo de produção comunista e David Harvey insistiram que parte do pretenso
É neste contexto que se apresentam o diagnóstico crítico de Ingo Elbe a respeito do “clássico mito do paradigma da identidade entre Marx e Engels,” apoiando-se, para isso, na tradição da nova leitura de Marx (Neue Marx Lektüre) 114. Segundo ele, a relação entre Marx e Engels, quando tomada em termos de identidade, perpetua certa visão que distorce o entendimento das obras “maduras” de Marx, notadamente, as que se debruçam em analisar a crítica do valor.115 Portanto, para o autor, torná-los um único paradigma seria não apenas indesejável, mas impossível, principalmente se levarmos em consideração a “argumentação tanto em termos do materialismo histórico, quanto da economia política” em que “os comentários de Engels a respeito da obra de Marx são geralmente inadequados e de um puro exoterismo que perpetuam o paradigma tradicional, mesmo argumentando criticamente.” 116
Os pontos principais de sua crítica relacionam-se a duas tendências, para ele, derivadas da leitura d’O Capital por Engels e inseridas na nova leitura crítica do valor que se consolida no problema da “tendência ontológico-determinista fruto da social democracia alemã.” Tal viés influenciaria sobremaneira no processo de crítica do capitalismo que toma as formas sociais particulares como determinadas pela estrutura d’O Capital, assumindo “a interpretação historicista do método genético positivo” e certo positivismo na compreensão do
equívoco sobre a apresentação de Engels refere-se na verdade a uma dificuldade presente no próprio texto de Marx, especialmente na articulação dos argumentos presentes no segundo e no terceiro livro d’O Capital: “Marx não completou sua análise do fenômeno monetário e financeiro. Ele define uma teoria muito geral e altamente abstrata do dinheiro no primeiro volume d’O Capital (lá resumindo as análises mais longas, mas mais experimentais nos Grundrisse e na Contribuição à crítica da economia política). Suas anotações sobre o funcionamento do sistema de crédito foram deixadas em grande confusão. Engels teve grande dificuldade em colocá-los em qualquer tipo de ordem para publicação no terceiro volume d’O Capital. Havia, Engels reclamou em seu prefácio àquela obra ‘não o projeto acabado, nem mesmo um esquema cujos contornos podem ter sido preenchido -. Muitas vezes apenas uma massa desordenada de notas, comentários e extratos’. Engels foi fiel a Marx e acabou por reproduzir a maioria desta desordem. Esta foi uma peça importante do "negócio inacabado" na teoria de Marx.” David Harvey. Limits to Capital, Verso: London/New York, 2006, p. 239.
114 ELBE, Ingo. Zwischen Marx, Marxismus und Marxismen. Lesarten der Marxschen Theorie. Acessado em: http://www.rote-ruhr-uni.com/texte/elbe_lesarten.pdf Último acesso: 27/11/2012., s/p. Versão
original: In: (DKNL) Das Kapital neu lesen. Beiträge zur radikalen Philosophie. WOLF, Frieder Otto (Org.). Münster: Westfälisches Dampfboot, 2006, p.52-71.
115 Tal viés é assumido em parte nos pressupostos da leitura althusseriana, como crítica que se estabelece de modo interno ao texto (Como em Pour Marx), delimitando neste procedimento igualmente os efeitos desta leitura na recepção. Este tema foi investigado sob o tom de uma pesada crítica a respeito do campo de recepção intelectual do marxismo por Pierre Bourdieu: “A estratégia da desbanalização, absolutamente banal em filosofia, assume aqui uma forma original: não se trata apenas de compreender Marx melhor do que o próprio Marx, de superar Marx (o jovem) em nome de Marx (o velho), de corrigir o Marx ‘pré-marxista’ que sobrevive em Marx em nome do Marx realmente marxista, ao produzir uma ‘leitura’ mais marxista do que Marx (‘Marx ainda não rompeu com a ideologia’; ‘mesmo em O Capital, não há ruptura objetiva e definitiva com esta ideologia’), juntando-se assim os lucros derivados da identificação com o projeta de origem (ou seja, a autoridade intelectual e política associada ao fato de pertencer) aos lucros provenientes da distinção” (BOURDIEU, Pierre. A Economia das trocas linguísticas. O que falar quer dizer. São Paulo: EdUSP, 2008, p.163) No entanto, nossa questão vai além de Bourdieu, no sentido de tentar superar a determinação do campo, para compreender o que é possível em relação ao texto, para além dos conflitos de interpretação textual, o que não acreditamos ser possível, sem levá-los em consideração.
desenvolvimento das formas do capitalismo. Seriam abstraídas, dessa maneira as mudanças radicais que o capitalismo sofreria ao entendê-lo como um processo contínuo cumulativo.
Elbe chega a conduzir um processo de análise que produz separações rígidas entre as formas de leituras a partir de uma linha divisória demarcada e clara que define tais divisões em dois quadros que sistematizam parte das discussões trazidas até agora, e cuja formalização da expressão Marx e Engels é duramente criticada para seguir-se a uma genealogia das teorias rigorosas que permitiriam sua compreensão:
Leitura tradicional da teoria marxista clássica assumida pelo marxismo da 2ª e 3ª Internacional
Marx = Engels (Único paradigma, argumento coerente, visão próxima de mundo)
Estágios críticos – Leitura reconstitutiva
Primeiro Nível: ex. Backhaus materiais Engels → exotérico x.
1ª e 2ª parte Marx → esotérico
Segundo Nível: ex. Backhaus materiais ª e ª parte)
Marx → Metadiscurso exotérico x. Althusser, Backhaus Materiais Marx → Análise da realidade esotérica Terceiro nível: ex. Backhaus Materiais Marx →Metadiscurso exotérico/esotérico
ª e a Parte ; (einrich Ciência do Valor Marx →Análise realidade exotérica/esotérica Fonte: Ingo Elbe. Zwischen Marx, Marxismus und Marxismen. Lesarten der Marxschen Theorie, p.11 (ELBE, 2006)
Resumindo nosso percurso até aqui, e dirigindo-nos a um público que talvez esteja acostumado com outras abordagens de análise, não deixa de causar certa confusão a abertura entre formas de interpretação da obra de Marx em nosso presente, seja pela possibilidade de reconstituições de discussões em outros períodos, seja como processo histórico em que os estratos de leituras da obra de Marx (e Engels?), posteriores a Marx, se acumulam como sedimentações geológicas - com o perdão do recurso da imagem natural. Ou ainda, pela reconstituição de perdas do entendimento em relação à decifração (Dechiffrierung nos termos de Ingo Elbe) de ruídos de linguagem trazidas pelo que podemos enxergar como resultado, seja de um psicologismo, seja da utilização incorreta de ideias e formas a ponto de podermos alcançar sentenças objetivamente válidas em Marx.
Deste modo, ao voltarmos aos textos de Engels, apesar de ser possível notar que optamos por relativizar certos aspectos da diferenciação radical entre Marx e Engels, manteremos a observação do caráter e estatuto dos textos, sempre levando em consideração o cuidado com possíveis extrapolações entre os autores buscando os elementos que permitem a diferenciação entre as respectivas formulações quanto a temas comuns. Apesar do estranhamento à abordagem radical de Elbe, tal abordagem pode deixar um elemento positivo,
já que permite uma organização de um quadro de referências teóricas e políticas que baliza algumas referências contextuais de recepção dos textos. Por outro lado, também é importante notar o risco de se confundir quase um século de estudos e publicações militantes considerados de mesma natureza “por aproximação” a partir de características consideradas similares, abstraindo-se de seu contexto efetivo. Caso aceitássemos integralmente estes pressupostos, dentro do esquema proposto por Elbe, assumiríamos um tipo de atitude recorrente quanto à obra de Engels como um processo de depuração da obra de Marx.117 Os defeitos desta comparação seriam enumerados e nomeados por Elbe, dividindo inclusive os termos, ideias e obras principais a ponto de justificar uma divisão ainda mais profunda entre o já extenso quadro internacional de referências teóricas do marxismo e dos marxistas, como é possível notar a seguir:
117 Como exemplo notável, podemos destacar a organização bibliográfica como catálogo, no Departamento de Sociologia da USP, onde são elencados todos os textos de Marx dentre o catálogo do MEW (Marx Engels Werk) com os títulos traduzidos para o português sem a presença dos textos de Engels, exceto quanto escritos conjuntamente. SADER, Emir (org). Karl Marx - Bibliografia - Programa de Pós-graduação do Departamento de Sociologia - FFLCH - USP - São Paulo - 1995.
Teóricos principais Referências centrais entre os textos de Marx e Engels Ideia principal: Teoria marxista como... Marxismo tradicional [Engels], Kautsky, Bernstein, Mehring, Labriola, Plekhanov (= 1a geração) Engels: Anti-Dühring, Ludwig Feuerbach, Esboço para a CrEP 1859 e outros
Mundo proletário fechado – crenças e doutrinas da evolução pela natureza e pela história Devir (werden) e passagem (vergehen) Lênin, Luxemburgo, Trotsky, incluindo Hilferding (= segunda geração) Marxismo ocidental
Lukács, Korsch, Bloch, Escola de Frankfurt, Gramsci, Lefebvre, Grupo Praxis, e outros.
Marx: Teses ad Feuerbach, Manuscritos Econômicos Filosóficos de 1844, A Ideologia Alemã (M/E) e outros. Teoria da prática sociológica crítica- revolucionária mediação subjetiva dos objetos Nova Leitura de Marx Backhaus, Reichelt, Kittsteiner, Heinrich, SOST,118 Representantes da Staatsableitung (Teoria Marxista da Derivação119), e outros Marx: Grundrisse, O Capital, vol. I primeira parte, Capítulo Inédito de O Capital (Urtext, Resultate) e outros
Deciframento consistente e crítica das formas capitalistas de socialização (forma e desenvolvimento crítico)
Fonte: Ingo Elbe. Zwischen Marx, Marxismus und Marxismen. Lesarten der Marxschen Theorie, p.15 (ELBE, 2006)
118 Um dos diversos herdeiros da SDS (Sozialistischer Deutscher Studentenbund), que formava um campo teórico comum a partir de onde emergiram diversas atividades políticas, como os direitos de minorias, protesto anti-nucleares e pacifismo e tendências radicalmente distintas, que apesar das diferenças partilhavam de um pressuposto comum de análise. Mesmo que possuíssem relativa autonomia, faziam parte ou orbitavam em torno do SPD (a Social Democracia Alemã). Entre os ex-membros, despontam conhecidos nomes como Rudi Dutschke, que com o tempo foi um dos fundadores do partido verde, Helmut Schmidt, que se tornou chanceler da Alemanha e Ulrike Meinhof, que rompeu com o grupo para se tornar parte da Fração do Exército Vermelho (RAF). Outro ex-membro da SDS conhecido no Brasil foi Robert Kurz. Hoje, o remascente mais conhecido na Alemanha é Joachim Bischoff, membro do Linke.