4.4. DOĞU AKDENİZ LİMANLARI İNCELEMESİ VE MERSİN
4.4.2. Aktarma Limanı Olarak Besleme Gemilerin Maliyet Karşılaştırmaları
No texto Feuerbach e a História – composto de uma série de rascunhos e anotações escritos entre o fim de novembro de 1845 e o começo de abril de 1846,123 há passagens que tratam do que pode ser entendido como os pressupostos materiais que formam a sociedade burguesa, elementos com os quais Marx e Engels realizam sua resposta à crítica feita por Bruno Bauer ao pensamento de Ludwig Feuerbach. Este texto, assim como outros deste mesmo conjunto foram concebidos durante o exílio em Bruxelas, segundo Marx, com o objetivo de “acertar contas com nossa antiga consciência filosófica. O propósito tomou corpo na forma de uma crítica da filosofia pós-hegeliana (…). Abandonamos o manuscrito à crítica roedora dos ratos, tanto mais a gosto quanto já havíamos atingido o fim principal: a autocompreensão.”124
Fixemos a ideia de autocompreensão no sentido de definir o lugar que o manuscrito ocupa enquanto gênero. Ele não se dirige propriamente a intervenção política direta ou um interlocutor ao qual fosse endereçado, ou mesmo um leitor universal, como um ajuste de contas, pois se tratava mais de uma reflexão entre os dois autores. A investigação buscava assim definir fundamentos para a crítica da filosofia hegeliana, voltando-se então para identificar nos pressupostos sociais, o que para Marx e Engels serviria como uma resposta aos problemas filosóficos postos pelos demais ex-companheiros de Berlim.
123 Parte dos manuscritos inacabados que compõe o texto que conhecemos como A Ideologia Alemã, série de manuscritos realizada entre 1845 e 1846 que recentemente tem seu formado unitário contestado pelos organizadores da edição completa dos manuscritos de Marx e Engels, o MEGA.
Segundo acreditamos ser o procedimento da passagem que pretendemos indicar, tratava-se de observar em detalhe como se constituía o verdadeiro substrato, ou nas palavras de Marx em agosto de 1858, a “base real sobre a qual se levantaria uma superestrutura jurídica e política, e a qual correspondem formas sociais determinadas de consciência”125, de
modo que ocorreriam relações sociais materialmente constituídas, para que esse substrato fosse contraposto à representação invertida encontrada na reflexão dos jovens hegelianos. O que pode ser constatado, mesmo se levarmos em consideração a forma fragmentada em que o manuscrito se encontra, pois seria este o momento em que apareceria o verdadeiro fundamento da política, única parte completa do manuscrito. Em seus elementos internos nota-se que, ao buscarmos uma correlação entre esta parte que define o fundamento da crítica e seu final, notamos como a crítica a Bauer presente no texto só se completaria na exposição da forma invertida de apresentação da realidade presente neste autor, pois o “modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual,” não sendo “a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.”126
Deste modo, além daquilo que é descrito como fundamento da alienação dos “homens” (precisando seus fundamentos para além dos atributos), outros elementos parecem ser capazes de caracterizar sua natureza, enquanto uma aparência do “homem” para a razão filosófica. Assim, para a compreensão da sociedade seria importante pensar em seus fundamentos relacionados à produção da aparência em particular do homem, isto é, do “homem” enquanto problema filosófico aos jovens hegelianos. Para isto, Marx e Engels organizaram esta exposição logicamente em dois momentos: um primeiro desde o começo, onde se expõe a constituição (ao longo do tempo, ou diacrônica) do fundamento material da sociedade mostrada de modo dinâmico a partir de suas transformações e tornando explícito aquilo que seria suprimido deste fundamento nas representações sociais no presente. E um segundo momento que parece ser indicado, em diversas passagens, e principalmente em seu final após a apresentação dos pressupostos, partindo-se para a crítica filosófica do presente a partir de uma relação com a representação invertida expressa nos jovens hegelianos e os socialistas verdadeiros.
Essa soma de forças de produção, capitais e formas sociais de intercâmbio, que cada indivíduo e cada geração encontram como algo dado, é o fundamento real [reale] daquilo que os filósofos representam como ‘substância essência do ‘homem,’ aquilo que eles apoteosaram e combateram; um fundamento real que, em seus efeitos e
125 Idem, p.25. 126 Idem, p.25.
influências sobre o desenvolvimento dos homens, não é nem de longe atingido pelo fato de esses filósofos contra ele se rebelarem como autoconsciência e como ‘Único’
127
Uma primeira questão que deixaremos de lado e que poderia chamar a atenção de um leitor atento ao comentário destas passagens refere-se aos termos que aparecem tantas vezes reiterados ao longo do manuscrito como o “homem,” isto é, aquilo que pode ser interpretado como o fundamento filosófico de uma antropologia. Para nós, longe de representar uma fundamentação filosófica que responderia segundo os termos de Marx e Engels ao problema filosófico da antropologia sob um viés “efetivamente” materialista (em contraposição a Feuerbach), muito mais nos parece que sua reiteração ao longo do texto trate meramente do fato de que a crítica é obrigada a assumir ali parte dos termos do debate postos pelos jovens hegelianos.
Nesse sentido, é necessário dizer que se tratava tanto do “homem” enquanto termo ao qual o debate responde (tanto em Feuerbach no texto Fundamentos da Filosofia do Futuro, quanto de toda a primeira parte d'O Único de Stirner) como vemos nesta passagem, e que se refere à crítica sustentada entre os jovens hegelianos da ideia de “homem” que fundamenta de modo geral a filosofia dos jovens hegelianos. No entanto, o termo, em um contexto onde aparecem igualmente outros conceitos substantivos como “Deus” em debate com a teologia, mas também os de “natureza” `nos jovens hegelianos e em particular em Feuerbach (como núcleo da relação que determina o homem como uma antropologia que encontra o outro, a alteridade, na natureza, sendo o eu, passivo em relação às condições naturais, ou seja, em uma forma de materialismo vulgar) ou de “Eu” (em Stirner ao negarem-se sucessivamente as formas determinantes do Eu que o abstraem, como a sociedade que gera as concepções substantivas generalistas que abstraem o particular), além de outros menos presentes como o “Estado” e “sociedade” (que ganharam maior destaque na Introdução da Crítica da filosofia
do direito de Hegel escrita no começo dos anos 1840). Apesar de se constatar a presença
destes conceitos, não se pode entender este debate realizado pelos jovens hegelianos como uma contínua tentativa de fundamentação substantiva destes mesmos conceitos, mas sim como uma série de fundamentações criadas pela negação de conceitos filosóficos que amparavam os termos da teologia e de outras teorias filosóficas pregressas, como a hegeliana, o que envolvia em muitos casos, inclusive a tentativa de ruptura com a forma de exposição e sua organização, ela mesma organizada como uma resposta à ontologia hegeliana. Marcuse
127 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia Alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007, p.43.
resumiu este procedimento nos seguintes termos “a negação da religião começara com a transformação hegeliana da teologia em lógica: e se completa com a transformação, feita por Feuerbach, da lógica em antropologia”128. Por isso, o fundamento real encontrado na “base
social” para a crítica serve para Marx e Engels como forma de diferenciar-se de uma simples negação, que tornaria inócuo o resultado da crítica, por partilhar de certa forma dos mesmos termos e pressupostos.
Ao se observar a estrutura destes manuscritos conforme aquilo que Marx e Engels apresentavam, isto é, como o momento daquilo que poderia ser entendido como um plano de trabalho inacabado de Marx e Engels para a própria Ideologia Alemã, ou como anúncio ou mesmo sistematização de esquemas previstos para outros manuscritos. Neste manuscrito é relatada a relação entre uma filosofia que se deseja crítica, mas que não consegue aprofundar- se e tornar-se efetiva e os fundamentos da realidade social (principalmente a divisão social do trabalho) de onde se origina. Ao contrário, para a Marx e Engels a crítica que realizariam pretendia avançar em relação aos jovens hegelianos por ser capaz de demonstrar o fundamento da realidade social, para além da mera constatação da insuficiência da crítica feita estritamente a partir de critérios internos ao pensamento, esta contraposição pode ser comparada à produção da representação ideológica da lei em relação à prática do direito inserida em seu contexto social.
Asseguradas politicamente as relações sociais de propriedade, naturalizam-se os códigos que a traduzem nos termos dos valores desta mesma sociedade dividida por relações sociais de propriedade. Esta representação separada apresenta-se como a neutra expressão de valores sociais partilhados que deveriam, por sua vez, ao separar-se de seu fundamento político social e organizar a sociedade em geral a partir das relações sociais de propriedade. Seria este, em parte, o sentido da inversão representada pela ideologia em Marx e Engels durante este período.
Influência da divisão do trabalho sobre a ciência. No Estado, no direito, na moral etc., a repressão.
Na lei, os burgueses devem fornecer uma expressão geral de si mesmos, precisamente porque dominam como classe.
Ciência da natureza e história.
Não há história da política, do direito, da ciência etc., da arte, da religião, etc. Porque os ideólogos colocam tudo de cabeça para baixo.
Religiosos, juristas,
Políticos, juristas, políticos (homens de Estado em geral), moralistas, religiosos. Para essa subdivisão ideológica numa classe, 1) autonomização dos negócios por
128 MARCUSE, Herbert. Razão e Revolução. Hegel e o advento da teoria Social. São Paulo: Paz e Terra, 2007, p.233.
meio da divisão do trabalho; cada um toma o seu próprio ofício como o verdadeiro ofício. No que diz respeito à relação entre seu ofício e a realidade, eles criam ilusões tão mais necessárias quanto isso já é condicionado pela própria natureza do ofício. As relações, na jurisprudência, na política, convertem-se – em conceitos da consciência; por não estarem acima dessas relações, também os conceitos dessas relações são, na cabeça de religiosos, juristas, políticos e moralistas, conceitos fixos; o juiz, por exemplo, aplica o código, e por isso a legislação vale, para ele, como o verdadeiro motor ativo. Respeito por sua mercadoria, pois seu negócio tem a ver com o geral.
Ideia (no original grafado deste modo) do direito. Ideia do Estado. Na consciência comum, a questão é colocada de cabeça para baixo. 129
De modo semelhante, o final do manuscrito, segundo cremos, apresenta uma fórmula para se entender todo o sentido da reconstituição do pensamento de Bruno Bauer e Feuerbach, ao demonstrar a inversão desta representação, de modo similar à crítica endereçada de modo mais completo a autores como Stirner, em que o foco de suas críticas volta-se para uma ideia apresentada para a consciência comum de modo invertido.
Assim, em sua resposta à crítica da religião realizada pelos jovens hegelianos, por meio de uma mudança de foco, torna-se a religião não mais uma questão substantiva, mas o resultado de uma falsa representação. No entanto, pode-se dizer que a exposição segue um roteiro ainda próximo ao da descrição hegeliana do trajeto da consciência na Fenomenologia
do Espírito, de G.W.F. Hegel, mas apresentada nos termos de uma crítica das falsas aparências
resultando, ao final, é a afirmação de seu pressuposto que se revelaria um princípio dinâmico que permitiria compreender a mudança social que é pressuposta às particularidades das ideologias assumidas. O que surge de caracteristicamente distinto de Hegel e Feuerbach, seria que, para Marx e Engels, a afirmação de Feuerbach de uma libertação materialista do homem e o uso do conceito de estranhamento (Entfremdung) assume uma importância central organizando a exposição da crítica, mas pensando as relações entre os homens, dentro de um modelo político materialista para as relações sociais, portanto, sempre a partir da chave de relações sociais substantivas onde o homem se insere. Deste modo, a mudança em seu pressuposto ao considerar o fundamento material na sociedade e não da natureza, permitiu a Marx e Engels uma crítica ao espírito que se identifica também a uma crítica dos usos do pensamento hegeliano que reconhecem em Hegel a justificação da constituição de um espírito
universal que encontraria seu sentido no desenvolvimento histórico como fruto de uma
teleologia absoluta e consciente de si mesma. Esta forma de leitura, reivindicada pelo espectro conservador dos seguidores de Hegel, utilizava dos conceitos hegelianos antes para a
129 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia Alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007, p.77-78.
justificação de um princípio organizador no Estado, representado pela religião universal e pelo absolutismo seguidor de regras que ele mesmo criaria conforme a necessidade e a partilha de um critério mínimo (e portanto, não um modelo estático, mas passível ainda de reformas e aprimoramentos).
Há neste uso dos conceitos hegelianos um impacto direto na sociedade, fundamentando antes um princípio conservador que buscasse um fim da história, hipostasiando as estruturas de poder existentes mesmo que fosse possível ainda a partir de Hegel. Uma definição mais liberal e progressista da política, como um processo sem fim de reformas em prol de um bem comum. Neste sentido, a crítica aos jovens hegelianos assumia duas chaves, a primeira contra a forma da ideologia representada pela crítica à própria inversão da realidade representada pelos seguidores de Hegel que defendiam as políticas de Estado baseados no idealismo e a segunda e principal, à crítica aos jovens hegelianos que endereçavam sua crítica às políticas de estado, mas cujo embate com a ideologia de Estado não conseguia ir além de sua representação, mantendo-se restritos a certo limite ideológico. O que ocorreria principalmente porque esta forma da crítica mantinha o fundamento ideológico da dominação política que era a abstração das condições sociais de sua reprodução (o trabalho).
O próprio Stirner, no Único e sua Propriedade, foco principal das críticas de Marx e Engels durante este período, seguiria um roteiro semelhante mirando em Feuerbach de modo a definir uma crítica não apenas à devoção a Deus, como em Feuerbach, mas também ao Espírito, acreditando atingir o fundamento da filosofia hegeliana como história constitutiva da consciência presa em representações ideais que a aprisionariam. Stirner realizaria o que via como uma rebelião individual (fundamento absoluto para Stirner) contra as formas abstratas de totalidade que limitariam o “Eu,” o conceito filosófico que em Stirner define a individualidade, pois minariam sua propriedade (Eigentum enquanto qualidade, atributo). Esta rebelião resulta em um caminho para esta afirmação do Eu. Segundo sentido dinâmico em que sua essencialidade particular e intransferível passaria pela crítica das falsas representações, como momentos falsos e limitações do “Eu” que refletiriam um combate contra o “Estado,” visto como uma forma absoluta pelos hegelianos de direita responsável pela mediação de todas as formas sociais. No entanto, em Marx e Engels, para negar-se o “Estado” em Stirner, negava-se o fundamento das condições para a existência do “Eu” na sociedade e as relações sociais que o condicionam.
fundamento da descrição das relações materiais utilizando-se de uma forma de definição do “Eu” contra Stirner, na forma de um homem, como indivíduo que responde a um princípio concreto, e, portanto, para Marx e Engels, social e não individual. Para os autores, para responder a Stirner, seria necessário tomar o “Ego como ponto de partida, o indivíduo empírico de carne e osso, se não quisermos, como Stirner, ficar paralisados nesse ponto” [...] temos de usar o empirismo e o materialismo como ponto de partida se quisermos que nossos conceitos, e principalmente nosso ‘homem,’ tenham algo de real; temos de deduzir o geral do particular, e não de si mesmo ou, a la Hegel, do nada” 130. Mas não apenas, para Marx e
Engels também era necessário com um procedimento análogo, criticar as formas do comunismo de inspiração fourrieriana que para eles, estavam sendo adaptadas ao jargão feurbachiano, entre os chamados comunistas verdadeiros representados por Karl Grün e Moses Hess que foram divulgados na Alemanha, principalmente a partir do estudo sobre o socialismo e o comunismo realizado por Lorenz Von Stein, “apesar das intenções críticas do autor em face daquelas doutrinas.”131
Para Marx e Engels, a sociedade como base material deste processo mostrou a necessidade de uma representação mais detalhada como forma de compreensão do modo como se relaciona com as representações ideológicas que constituem, e foi pela mudança em sua base social ligada às mudanças constantes e relações de força propiciadas pela história das relações de produção, que estes encontram seu termo no engendramento de uma “massa da humanidade ‘destituída de propriedade’” em contradição com um mundo onde a riqueza e a cultura estariam disponíveis, o que colocaria em pauta alguns dos seus aspectos principais: o da mediação social das contradições da sociedade (civil burguesa), pelo interesse comum representado enquanto “neutro” no Estado, e por isso, enquanto ideologia.
No entanto, outros elementos apresentam-se além das contradições políticas da vida social, pois já se apresentava para Marx e Engels o problema do Capitalismo em sua importância para a história, através dos efeitos da divisão da sociedade em classes, como a reificação das relações sociais mediadas pelo dinheiro (sem ainda extraírem-se todas as consequências do entendimento do trabalho enquanto mercadoria, mas pensando-o como relação com foco no valor de uso, isto é, no processo de produção), a universalização (ou internacionalização) das relações sociais por meio do mercado mundial, destacando o conflito contra os economistas que trataram de um cosmopolitismo gerado pela mediação entre os
130 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx and Engels Collected Works vol.38. Moscow: Progress Publ. [u.a.], 1978, p.12.
131 HOBSBAWM, Eric J. (a) Aspectos políticos da transição do capitalismo ao socialismo. In: HOBSBAWM, Eric. J. [et al.]. História do Marxismo vol. I. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1983, p.56.
interesses dos indivíduos da sociedade e, por fim, a alienação como resultado das condições materiais de produção e da organização social, de modo a tornar o homem estranho em relação à atividade que ele realiza. Todas estas relações que convergiriam para um único pressuposto material: o desenvolvimento das forças produtivas.