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LEWİS YAPISI, BİLEŞİK TÜRLERİ VE ADLANDIRILMASI 12 KMY 008

No inverno de 1885, Freud esteve em Paris, onde assistiu ao curso de Charcot, aderindo ao modelo inicial de abordagem da histeria que apontava na etiologia da histeria um trauma ocorrido na vida do sujeito. Segundo esta teoria, podia se chegar ao fato por meio da hipnose para que, com sugestões feitas ao paciente durante o estado hipnótico, se pudesse eliminar essa injunção causadora dos sintomas. Indo além no que diz respeito a que Charcot se limitava a ‘dar vistas’ ao espetáculo histérico, Freud será o primeiro a escutar aquilo que a histérica vinha, através de seu corpo, denunciar; aquilo que já estava lá nas apresentações de caso das pacientes de Charcot, mas que não era escutado: a sexualidade.

Uma das marcas características de Freud quando da fundação da Psicanálise, será o fato de que ele sempre buscou apoio na clínica para fundamentar sua teoria e não abriu mão de mudar de métodos quando estes se mostravam ineficazes no tratamento da histeria. É assim

que ele vai abandonar a hipnose em favor da associação livre. Através dos casos Elisabeth, Emmy von N. e Dora, Freud vai percebendo que na etiologia da histeria não está um ‘corpo estranho’ ou uma degenerescência nervosa, mas um segredo velado, afastado da consciência; esse fato não ficava tão claro, pois a hipnose encobria um fenômeno que seria caro à Psicanálise – a defesa, uma vez que desperto do momento hipnótico o paciente nada lembrava sobre o que havia se passado. De fato, Freud percebe a dificuldade na forma de resistências que seus pacientes tinham de tornar conscientes as idéias patogênicas apenas quando inicia o emprego da associação livre, pois estes sempre esbarravam em resistências a falar sobre ‘certos conteúdos’. Que razões teria o sujeito para não permitir que esse segredo pudesse ser expresso na consciência? É por meio de uma interrogação dessas que Freud chega à noção do mecanismo mais geral, à defesa, e do mais específico, o recalque. O paciente afasta da consciência essas idéias porque elas despertam sentimentos morais de vergonha, pudor, autocensura, sobretudo pelo fato de elas estarem ligadas a representações de conteúdo sexuais. Há, portanto, um conflito entre as convenções morais exigidas pelo Eu e a sexualidade, em que

A defesa aparece, assim, como uma forma de censura por parte do ego do paciente à idéia ameaçadora, forçando-a a manter-se fora da consciência; e a resistência era o sinal externo dessa defesa. O mecanismo pelo qual a carga de afeto ligada à essa idéia (ou conjunto de idéias) é transformada em sintomas somáticos é chamado por Freud de conversão (GARCIA-ROZA, 1997: p. 38).

Freud, de certa forma, mantém a idéia de trauma charcotiana, mas a primeira teoria produzida por Freud para dar conta da etiologia dos sintomas histéricos era a de que o sujeito histérico havia sofrido durante sua infância uma experiência sexual traumática. Impotente diante de uma sedução sexual sofrida por um adulto, a criança ficaria paralisada e a emoção sexual despertada por essa vivência não podia ser significada pela consciência, gerando um excesso de tensão no plano inconsciente. Esse excesso de tensão se instalaria no Eu, sendo o futuro gerador dos sintomas histéricos, dentre eles a conversão de que falamos. A conversão no corpo da histérica era assim o destino somático da angústia. Acontece que o caráter traumático só viria em segundo momento, quando na puberdade a sexualidade já tivesse surgido e uma outra cena, por traços associativos, evocasse a cena de sedução, tornando patogênica sua lembrança:

O momento traumático real, portanto, é aquele em que a incompatibilidade se impõe sobre o ego e em que este último decide repudiar a idéia incompatível. Essa idéia não é aniquilada por tal repúdio, mas apenas recalcada para o inconsciente. (FREUD, 1996 [1893-1895]: p. 149).

Observa-se aqui que Freud não considerava ainda a existência de uma sexualidade infantil, o que só ocorrerá mais tarde com a descoberta das fantasias e do Complexo de Édipo7. Freud destaca ser o corpo histérico dotado de uma complacência somática. Ao tratar da conversão num órgão, ele aponta que, no momento traumático, o impacto da sedução destaca uma parte do corpo ou órgãos sob a forma de imagens. É nessas partes ou órgãos que futuramente aparecerão os sintomas de conversão. “O excedente de tensão psíquica concentra-se então nessa imagem e a investe a tal ponto que ela acaba por se dessolidarizar do resto das outras imagens do corpo imaginário, ou, o que dá na mesma, por se dessolidarizar do eu histérico”. (NASIO, 1991: p. 27). Essa imagem considerada pelo Eu uma ‘representação intolerável’ que será fonte dos sintomas histéricos, tem, portanto, uma raiz na sexualidade do sujeito.

O Eu tenta livrar-se das representações isolando-as, afastando-as da consciência, mecanismo que Freud denominou recalque. Pelo mecanismo do recalque, essas representações são afastadas das outras representações da vida psíquica. O recalcamento consistirá, pois, num mecanismo que mantém afastadas da consciência todas as cadeias de associações sentidas como perigosas para o Eu. Esse grupo de representações vai se comportar no Eu como um ‘corpo estranho’ infiltrado em seu cerne. “É ele que estará na origem de uma ‘segunda consciência’ que estará, por sua vez, na origem de fenômenos motores que permanecem parcialmente inexplicáveis.” (MELMAN, 1985: p.58). Os sintomas aparecerão, portanto, como formações substitutas do recalcado. Essa noção de recalque só se tornou mais forte na teoria freudiana quando da publicação de “A interpretação dos sonhos” (1900a), pois neste livro aparece aquilo que seria designado objeto de estudo da Psicanálise – o Inconsciente. Freud produz a ficção de um aparelho psíquico dividido em instâncias psíquicas – o Inconsciente, o Pré-Consciente e o Consciente, com modos de funcionamento diferentes. O essencial é que pela primeira vez o Inconsciente aparece como uma instância psíquica e não mais como um adjetivo qualificativo. O operador dessa distinção entre os

7 As primeiras idéias relacionadas ao Édipo aparecem quando Freud se empenhava na análise de si mesmo, em

1897. Numa carta a Fliess, Freud refere que toda pessoa sente em si resquícios da lenda grega; entretanto nessa época, Freud ainda não dispunha de uma teoria da sexualidade nem do próprio conceito de Inconsciente, que só foi descoberto pouco depois. Já o complexo de Édipo como drama correspondente à estrutura individual e com valor universal só veio a ser teorizado anos mais tarde.

sistemas será exatamente o recalque, que responde pelo modo de ser dos conteúdos inconscientes.

No seu modo de funcionamento, consoante adiantamos, há conflito entre os sistemas, uma vez que o Inconsciente (Ics) tem sua atividade voltada para o livre escoamento das quantidades de excitação, que correspondem ao processo primário do princípio de prazer; enquanto isso os sistemas Pré-consciente e Consciente (Pcs/Cs) têm como função inibir essa livre descarga, buscando uma satisfação mais adequada, que corresponde ao processo secundário do princípio de realidade, de forma que se pode referir que:

[...] a pulsão que está submetida ao recalque poderia ter sido satisfeita e que tal satisfação seria, em si, sempre prazerosa; porém ela seria incompatível com outras exigências e propósitos, e, desse modo, acabaria por gerar prazer em um lugar e desprazer em outro. Então, uma condição para que ocorra o recalque é que a força que causa o desprazer se torne mais poderosa do que aquela que produz, a partir da satisfação pulsional, o prazer. (FREUD, 2004 [1915d]: p. 178).

Existe no Inconsciente o desejo que se manifesta mediante uma força que pressiona constantemente o material recalcado em busca de uma expressão consciente, no que são barrados pelo dique do recalque, uma vez que os conteúdos do Inconsciente são ameaçadores à consciência. Caso não ocorra a liberação de uma parte dessa energia, o aparelho psíquico acumulará uma tensão insuportável. Percebe-se aí o paradoxo, uma vez que a descarga dessa tensão ocasiona prazer ao sistema Inconsciente. Essa mesma descarga produz grande ansiedade ao ego do sujeito. É aí que Freud introduz a idéia de que o aparelho psíquico trabalha em busca da homeostase, de um equilíbrio entre essas tensões. A função do Pcs será a de dirigir para os caminhos mais convenientes os impulsos impregnados de desejo provindos do Inconsciente.

Em “O Recalque” (1915d) Freud fala de dois tipos de recalque. O recalque original,

[...] que consiste em interditar ao representante [Repräsentanz] psíquico da pulsão (à sua representação mental [Vorstellung]) a entrada e admissão no consciente. Esse recalque estabelece então uma fixação, e a partir daí o representante em questão subsistirá inalterado e a pulsão a ele enlaçada. (FREUD, 2004 [1915d]: p. 178-9).

Freud trata, ainda, do recalque secundário ou recalque propriamente dito, afirmando que este:

[...] refere-se a representações derivadas do representante recalcado ou ainda àquelas cadeias de pensamento que, provindo de outros lugares, acabam estabelecendo ligações [Beziehungen] associativas com esse representante. Devido a essa ligação, tais representações sofrem o mesmo destino do recalcado original. (FREUD, 2004 [1915d]: p. 179).

O recalque afasta da consciência as representações, mas não as destrói, elas continuam com sua potência sempre pressionando o aparelho psíquico, ocasionando um dispêndio constante de energia. Dessa forma, elas são capazes de produzir derivados que são o “retorno do recalcado”, uma formação de compromisso entre os dois sistemas, que reaparecem de forma deformada e distorcida de maneira que pouco se assemelhem às representações recalcadas, que são os sonhos, sintomas, atos falhos, chistes. Quando as representações estão suficientemente afastadas do recalque original por obra de agentes, como as deformações (deslocamentos, condensações), a carga de energia fica mais baixa e o acesso ao consciente fica mais fácil. Por isso, a técnica analítica consiste em fazer o paciente produzir derivados do recalcado que possam passar pela censura e chegar à consciência; daí a idéia da associação livre. Observa-se, entretanto, que o paciente é capaz de produzir esses derivados,

[...] até o momento em que se depara com um grupo de pensamentos cuja relação com o recalcado se manifesta tão intensamente que ele se vê obrigado a voltar a repetir a tentativa de recalque. De modo análogo, os sintomas neuróticos devem ter preenchido as mesmas condições descritas acima, pois eles são os derivados do recalcado que, por meio dessas deformações sintomáticas, afinal conquistaram o acesso à consciência que antes lhes era negado [versagt]. (FREUD, 2004 [1915d]: p. 180).

No texto “O sentido do sintoma” presente nas “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise” (1915-1917), Freud nos diz que o sintoma tem um sentido e que este é desconhecido pelo indivíduo, pois o sentido está relacionado ao Inconsciente, sendo o próprio fato de ser inconsciente a razão de existirem os sintomas. O sintoma era concebido como resultante de um processo mental que fora impedido de ter acesso à consciência, obrigando-o a permanecer inconsciente. Dessa forma, o indivíduo é incapaz de saber o sentido de seus sintomas, mas que este sentido pode ser desvelado mediante a experiência analítica. Por essa época, Freud acreditava que a neurose era uma espécie de ignorância, um não-saber do individuo a respeito de determinadas experiências, e que a terapêutica deveria caminhar no sentido de desvelar o sentido do sintoma, ou seja, na medida em que este sentido fosse se tornando consciente, o sintoma tenderia a desaparecer. Ora, se os primeiros casos tratados por Freud pelo método analítico pareciam demonstrar uma grande tendência a fazer os indivíduos

sarar de seus sintomas, a verdade é que, com o passar do tempo, essa terapêutica foi se deparando, cada vez mais, com dificuldades à “cura”, manifestas na forma de resistências. Dessa forma, Freud questiona, na conferência seguinte, “Resistência e Repressão” 8, por que o paciente apresenta resistências ao tratamento e a se livrar de seus sintomas, e conclui: “aqui, forças poderosas que se opõem a qualquer modificação na condição do paciente; devem ser as mesmas que, no passado, produziram esta condição.”(1996 [1916 -1917]: p. 345 - 346). Freud dará ao ato empregado pela resistência o nome de recalque9 e conclui que este é a precondição para a existência dos sintomas e que “os sintomas servem de satisfação sexual do paciente; são um substituto da satisfação sexual, de que os pacientes se privam em suas vidas.” (1996 [1916 -1917]: p. 351) As pessoas adoecem quando alguma coisa na realidade as impede de satisfazer seus desejos sexuais. Ora, esse impedimento acontece, sobretudo, na infância em nome da ‘boa educação’, quando a criança é convocada a trocar a satisfação imediata de seus desejos pela promessa adiada de vir a realizá-los no futuro. Nesse sentido, as tarefas educativas trabalham para domar e restringir a satisfação das pulsões sexuais, e isso acontece pela via do recalque.

Freud garante que o recalque é o processo mais característico das neuroses e que nestas encontramos dois fatores relacionados à causação da doença – a fixação e a frustração: “as pessoas adoecem de neurose quando impedidas da possibilidade de satisfazer sua libido – que adoecem devido à ‘frustração’, conforme costumo dizer – e que seus sintomas são justamente um substituto para sua satisfação frustrada.” (FREUD, 1996 [1916 - 1917]: p.403). Nem toda frustração da satisfação libidinal, torna uma pessoa neurótica, mas a frustração está presente em todos os casos de neurose observados:

[...] a fim de atuar patogenicamente, ela deve, sem dúvida, afetar o modo de satisfação que é o único desejado pela pessoa, o único que a pessoa é capaz. Em geral há muitíssimas maneiras de suportar a privação de uma satisfação libidinal, sem adoecer em conseqüência da privação. (FREUD, 1996 [1916 - 1917]: p.403).

Freud é bastante claro a esse respeito, ao acentuar que as moções pulsionais sexuais são extremamente plásticas, elas apresentam grande capacidade de mudar de objeto, se deslocarem, tomando objetos mais acessíveis, e também a capacidade de mudar de objetivo. O efeito patogênico é dado quando a privação incide sobre o único modo pelo qual a pessoa é

8 Conferência XIX. das “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise” (1916-1917). 9 Na E.S.B. traduzido como repressão.

capaz de se satisfazer. Quando não há possibilidade para essa pessoa de sublimar; e, ainda assim,

[...] Há um limite, à quantidade de libido não satisfeita que os seres humanos, em média, podem suportar. A plasticidade ou livre mobilidade da libido não se mantém absolutamente preservada em todas as pessoas, e a sublimação jamais tem capacidade de manejar senão determinada parcela de libido; acresce-se o fato de que muitas pessoas são dotadas apenas de uma escassa capacidade de sublimar.(FREUD, 1996 [1916 - 1917]: p.404).

Freud cita, ainda, o terceiro fator, que é a tendência ao conflito entre o desenvolvimento do Eu e a libido. Ora, como dissemos, se há conflito é porque um grupo de representações precisa ser afastado do Eu por causar ansiedade a este. O conflito está ligado às tendências morais assumidas pelo Eu que se vê obrigado a rejeitar esses impulsos libidinais relacionados a formas de satisfação da sexualidade que o Eu teve de abandonar graças ao processo ‘educativo’. Esse processo está relacionado ao desenvolvimento do Eu no qual há uma substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade. Assim,

O ego descobre que lhe é inevitável renunciar à satisfação imediata, adiar a obtenção de prazer, suportar um pequeno desprazer e abandonar inteiramente determinadas fontes de prazer. Um ego educado dessa maneira tornou-se “racional”; não se deixa mais governar pelo princípio de prazer, mas obedece ao princípio de realidade que, no fundo, também busca obter prazer, mas prazer que se assegura levando em conta a realidade, ainda que seja um prazer adiado ou diminuído. (FREUD, 1996 [1916 - 1917]: p.416- 417)10.

Assim Freud, demonstra que, quando a realidade se mostra demasiadamente intransigente, a libido busca outras vias, tentando se satisfazer pelo caminho da regressão, seja numa das organizações já deixadas pra trás ou em um dos objetos já abandonados. “A libido é induzida a tomar o caminho da regressão pela fixação que deixou após si nesses pontos do seu desenvolvimento.” (FREUD, 1996 [1916 - 1917]: p.420). Nesse ponto, algo vem distinguir as neuroses das perversões, pois, se não há nenhum conflito em jogo, não podemos falar em recalque, portanto, não se trata de neurose.

10 Nas traduções das “Obras Completas” de Freud, em muitos momentos, encontramos ego em lugar de Eu, no