Os DSM18 são manuais surgidos nos Estados Unidos, que se hegemonizaram com a globalização, tornando-se os mais utilizados pelos profissionais de saúde mental para diagnosticar distúrbios psiquiátricos importantes, enquanto que a CID-10 19 é utilizada pelas instituições de saúde para identificar os diagnósticos com seus códigos. Estes manuais de classificação estão impregnados, dentre outras, pela ideologia cientificista e pragmatista dos E.E.U.U. Buscam afirmar uma pretensa identidade médica da Psiquiatria, baseiam-se no modelo da Medicina científica, sobretudo na coleta de sinais que sejam objetiváveis e
18 Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders.
quantificáveis e que facilitem os registros estatísticos das epidemias, bem como a comunicação entre os clínicos das mais diferentes partes do mundo.
O transtorno dismórfico corporal (TDC), é descrito há bastante tempo na literatura médica, tendo sido relatado desde o século XIX como dismorfofobia; entretanto essa categoria só adquiriu critérios diagnósticos no DSM-III-R em 1987, sendo enquadrado como transtorno somatoforme atípico e definido como uma preocupação excessiva com um defeito mínimo ou imaginário na aparência física que traz sofrimento significativo e causa prejuízos em área importantes da vida do indivíduo. A Psiquiatria considera que o caso do Homem dos Lobos descrito por Freud representaria um caso clássico de Dismorfofobia, pois o paciente se queixava de uma cicatriz no sulco do nariz afirmando que o nariz estava arruinado sem que houvesse algo dessa queixa aparente fisicamente.
As queixas se referem principalmente a falhas imaginárias ou leves na face ou na cabeça, tais como cicatrizes, rugas, assimetria, acne, calvície, pelos faciais, ou com a forma de do nariz, bochechas, orelhas, mandíbula, cabeça etc.; entretanto, qualquer outra parte do corpo pode ser foco de preocupações excessivas, tais como tamanho dos ombros, abdômen, seios, quadris, órgãos genitais etc. Indivíduos com esse transtorno pensam que as demais pessoas estão constantemente observando seus ‘defeitos’, o que pode levá-los a evitar relações sociais.
Se tomarmos o DSM-IV-TR20 na sua versão atual não encontraremos a dismorfia muscular e esta será classificada como transtorno dismórfico corporal (TDC), catalogado na sigla 300.7 ou F45.2 na CID-10. O transtorno dismórfico corporal é definido pelo DSM-IV com base nos seguintes critérios:
A. Preocupação com um imaginado defeito na aparência. Se uma ligeira anomalia física está presente, a preocupação do indivíduo é acentuadamente excessiva.
B. A preocupação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
C. A preocupação não é melhor explicada por outro transtorno mental (por ex., insatisfação com a forma e o tamanho do corpo na Anorexia Nervosa).
O DSM-IV-TR (2000) em seus critérios diferenciais assinala que:
20 Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders. 4 ed. American Psychiatric Association, 1994. A
A prática excessiva de exercícios (p. ex., musculação) que pode ocorrer neste transtorno para corrigir uma falha percebida na aparência deve ser diferenciada dos exercícios saudáveis e do excesso de exercícios que pode ocorrer como parte de Transtorno da Alimentação.
Por ser um fenômeno bastante recente 21, a vigorexia ou dismorfia muscular, não teve seus critérios diagnósticos classificados na última edição da CID-10 ou DSM-IV-TR. Ballone (2004) e Pope et al. (2000) apontam a dismorfia muscular ou vigorexia como um possível subtipo do transtorno dismórfico corporal, descrito pelo DSM-IV-TR, que seria uma preocupação excessiva com a imagem de corpo, geradora de distorções nessa imagem. Esse transtorno apresenta, segundo os autores, características dos transtornos obsessivos- compulsivos.
Apesar de todas as características clínicas da Vigorexia, vários autores não a consideram uma nova doença ou uma entidade clínica própria, mas sim, uma manifestação clínica de um quadro já amplamente descrito; o Transtorno Dismórfico Corporal. Essa manifestação clínica separada seria o chamado Transtorno Dismórfico Muscular (ou Vigorexia). (BALLONE, 2004).
Segundo Pope et al. (2000) a dismorfia muscular é uma patologia que apresenta dificuldades de definição epidemiológica, uma vez que não há estudos na população em geral, estando estes mais relacionados aos praticantes de musculação. Estima-se que entre os levantadores de peso a problemática atinja cerca de 10% e 84 % dos fisiculturistas. Esse transtorno apresenta uma incidência na população masculina entre 18 e 35 anos. A etiologia está relacionada a fatores biológicos, psicológicos e socioculturais; entretanto Ballone (2004) afirma que “parece que a patologia esteja relacionada com desequilíbrios de diversos neurotransmissores do sistema nervoso central, mais precisamente da serotonina”22. Além dele, Pope (2000) também apresenta fraca argumentação que dê provas dos fatores biológicos, mas, de acordo com um dos casos rapidamente apresentados, considera ele:
21 G. Pope o descreveu pela primeira vez em 1993.
22 . Cf. BALLONE, G. J. Vigorexia – In: PsiqWeb psiquiatria geral. Disponível em:
Em primeiro lugar, existe quase certamente um componente genético, com base biológica. Em outras palavras, algumas pessoas como Scott herdam uma predisposição química a desenvolver sintomas obsessivo- compulsivos. Mas a genética não age sozinha. O segundo provável componente é psicológico – raízes obsessivas e compulsivas derivadas, pelo menos em parte, de experiências durante sua criação tais como ser reprimido. Scott ainda se lembra de ser chamado de fracote e maricas na escola essas lembranças ainda alimentam sua obsessão muscular e sua compulsão a malhar. E finalmente, acreditamos que a sociedade desempenha um poderoso e crescente papel, transmitindo constantemente mensagens de que “homens de verdade” possuem grandes músculos – tal como os fisiculturistas nas figuras das paredes da Academia Olímpica. (p.30).
Ambos os autores concordam quanto aos fatores socioculturais e psicológicos, sendo citados a crescente igualdade entre homens e mulheres, os padrões culturais tradicionais de masculinidade, bem como a criação de drogas capazes de promover o aumento da musculatura (esteróides anabolizantes) e seu uso nos campeonatos de halterofilismo e nos esportes em geral, assim como a veiculação maciça nos meios de comunicação dessa nova estética masculina por meio dos astros de Hollywood, modelos publicitários, cantores etc. Os autores aconselham o uso de medicamentos bloqueadores seletivos da recaptação de serotonina associada à psicoterapia comportamental-cognitiva para o tratamento da dismorfia muscular.
Seguindo a mesma lógica do DSM-IV, Pope et al. (2000) propõem os seguintes critérios diagnósticos operacionais para esta condição particular, utilizando o mesmo estilo do DSM-IV; assim são necessários à classificação do transtorno dismórfico muscular os seguintes critérios de A a C:
A. Preocupação com a idéia de que o corpo não é suficientemente magro e musculoso. Condutas associadas características incluem longas horas levantando peso e excessiva atenção para a dieta.
B. A preocupação é manifesta pelo menos por dois dos seguintes quatro critérios:
1. O indivíduo frequentemente abandona importantes atividades sociais, ocupacionais ou recreativas por causa de uma compulsiva necessidade de manter seu esquema de exercício e dieta.
2. O indivíduo evita situações onde seu corpo é exposto a outros ou enfrenta tais situações apenas com acentuado desconforto ou intensa ansiedade.
3. A preocupação com a inadequação do tamanho ou da musculatura corporal causa desconforto clinicamente significativo ou prejuízo a áreas de atividade social, ocupacional ou outras áreas importantes. 4. O indivíduo continua a exercitar-se, a fazer dieta ou utilizar substâncias ergogênicas (destinadas a melhorar o desempenho) apesar de saber as conseqüências adversas do ponto de vista físico ou psicológico.
C. O foco da preocupação e da conduta concentra-se em ser muito pequeno ou inadequadamente musculoso, distinguindo-se do medo de estar gordo como ocorre na anorexia nervosa, ou uma preocupação primária apenas com outros aspectos de aparência tal como em outras formas de distúrbio dismórfico corporal. (POPE, 2000: p.302-303).
Dentre os principais sintomas descritos da vigorexia está a distorção na imagem do próprio corpo, e deste decorrem os demais, como a compulsão aos exercícios físicos e uma obsessão pela musculatura. Outra característica citada é que pessoas com sintomas vigoréxicos se olham constantemente no espelho, mas jamais estão satisfeitos com o corpo que possuem. Embora possam ser bastante musculosos, eles ainda não se acham suficientemente fortes, passando a uma prática obsessiva de exercícios físicos, sem importar- se com as condições climáticas, físicas, ou quantidade de tempo em que se submetem aos exercícios. Além disso, a pessoa com sintomas vigoréxicos sente-se culpada quando não consegue atingir um perfil de tempo, espaço ou resultados corporais esperados; eles costumam comparar seus corpos em relação aos demais, considerando- se sempre “mais fracos”. Isso faz com que a pessoa com vigorexia tenda a passar muitas horas praticando os exercícios.
A adicção ou dependência ao exercício, também chamada de Vigorexia ou
Overtraining, em inglês, é um transtorno no qual as pessoas realizam
práticas esportivas de forma continua, com uma valorização praticamente religiosa (fanatismo) ou a tal ponto de exigir constantemente seu corpo sem importar com eventuais conseqüências ou contra-indicações, mesmo medicamente orientadas. (BALLONE, 2004).
A busca de músculos hipertrofiados provoca um progressivo desinvestimento na vida emocional, social e ocupacional; um aumento nos riscos de dores e lesões; em muitos casos, poderá haver dietas bastante rígidas e o consumo de esteróides e anabolizantes, o que causará
uma série de outros riscos para a saúde do indivíduo. Enfim, trata-se de uma problemática que desencadeia problemas físicos e estéticos.