WORKS CITED
2. Leonardo Dergisi ve Pragmatizm
Atualmente as políticas habitacionais no Brasil se justificam em função, principalmente, do amplo processo de urbanização, impulsionado pela crescente industrialização, iniciado nas primeiras décadas no século passado, levando ao crescimento populacional das cidades, mas nem sempre acompanhado da disponibilização de moradia adequada para todos.
No começo desse processo, porém, não se apresentava ainda, pelo menos de forma direta, o discurso oficial do acesso universal à moradia de qualidade. Prevalecia, à época, a preocupação com a sanidade do ambiente urbano, o que proporcionava, indiretamente, melhoria habitacional, no próprio instante em que trabalhava na perspectiva de garantir um conforto ambiental no entorno ou prolongamento da moradia.
288 Sobre o tema, cf. MELO, Marcus André. Estado, governo e políticas públicas. In: MICELI, Sérgio (Org.). O
Segundo Marise Duarte289, as primeiras reformas urbanas eram destinadas especialmente a sanear as cidades para eliminação das epidemias, promover algum embelezamento paisagístico e definir o marco legal para um mercado imobiliário capitalista.
No mesmo sentido, Gilberto Cotrim290, ao analisar as revoltas sociais na República Velha, lembra que esse período histórico do Brasil vivenciou crises na atividade cafeeira que geraram êxodo do campo para a cidade, de modo que legiões de trabalhadores rurais extremamente pobres, ao chegarem nesse novo espaço, sobreviviam de qualquer forma, inclusive mendigando pelas ruas.
Ora, num quadro desses, o que mais se destacava era a miséria e a violência numa relação de causa e efeito. Até porque, como afirma Alba Zuluar291, ao analisar as raízes da
criminalidade no Rio de Janeiro, “a pobreza é o determinante, ora da vitimização, ora da ação violenta”.
É lógico concluir, então, que esse cenário ofuscava a paisagem, as linhas arquitetônicas das construções e os padrões urbanísticos, num contraste com o momento de consolidação política e de luta pela afirmação republicana, bem como de expansão industrial e comercial, além do incipiente processo de urbanização.
Por isso, lembra Gilberto Cotrim292, os primeiros governos republicanos foram, em certa medida, forçados a transformar o Rio de Janeiro numa espécie de cartão-postal do país ou na capital do progresso. Para isso, precisavam enfrentar e superar grandes problemas sociais, como a miséria, o desemprego, o acúmulo de lixo nas ruas, a epidemia de febre amarela, cólera, peste bubônica e varíola. Essa missão coube à gestão do prefeito Pereira
Passos, com a tese de promover a “modernização” da cidade, mediante obras para
alargamento das ruas principais e ampliação de rede água e esgoto.
Até aí, tem-se que admitir a retidão de pensamento e a correta estratégia político-social de enfrentamento desses graves transtornos urbanos e melhorar as condições de vida na cidade. Todavia, os aspectos metodológicos dessas ações não escaparam às críticas, uma vez que teria sido um procedimento de caráter economicamente excludente, socialmente preconceituoso e territorialmente segregador, forçando muitas pessoas a se instalarem nos morros, em condições precárias de moradia, geralmente morando em barracos de madeira.
289
DUARTE, Marise Costa de Souza. Meio ambiente e moradia: direitos fundamentais e espaços especiais na cidade. Curitiba: Juruá, 2012, p. 99.
290 COTRIM, Gilberto. História do Brasil: um olhar crítico. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 274.
291 ZULUAR. Alba. Para não dizer que não falei de samba: os enigmas da violência no Brasil. In: SCHWARCZ,
Lilia Moritz (Org.). História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.245-318.
De acordo com Marise Duarte293, uma das consequências dessa decisão política foi expulsar a população pobre para as periferias e favelas, quase sempre desassistidas de equipamentos públicos, ocasionando a segregação territorial e gerando um dos maiores problemas urbanos enfrentados atualmente: as moradias irregulares nas cidades paralelas, temática enfrentada no segundo capítulo.
Um exemplo de aplicação dessa metodologia equivocada ocorreu com a erradicação das habitações coletivas, conhecidas como cortiços, que, na visão das autoridades, representavam verdadeiros asilos das classes perigosas, composta de malfeitores, vadios, prostitutas e ladrões294. A propósito, o estilo de vida num cortiço é retratada por Aluísio Azevedo numa das mais importantes obras da literatura brasileira295.
Enfim, essas primeiras políticas habitacionais se pautaram em medidas sanitárias, como a erradicação dos cortiços, para combater a epidemia de varíola, a varrição das ruas, para remover sujeiras e focos de diversas doenças, e a vacinação obrigatória, a partir de uma proposta do medito Osvaldo Cruz. A ideia era limpar, urbanizar e preparar a cidade para um novo momento político e social.
Mas, apesar da aparente boa intenção das autoridades em modernizar a cidade e em melhorar as condições de moradia do povo, houve resistência social à aplicação dessas medidas, simbolizada pela denominada Revolta da Vacina, ocorrida no Rio de Janeiro, no ano de 1904, durante o governo de Rodrigues Alves.
Sobre esse episódio da história brasileira, Gilberto Cotrim296 descreve que essa manifestação foi marcada por passeatas e comícios em praças públicas, pedradas contra a polícia e funcionários da saúde, incêndios de carroças e bondes e saqueio de lojas. E os motivos para tudo isso consistiam nos métodos autoritários na implantação das reformas urbanas, nas disputas e manobras políticas entre situação e oposição, na ignorância da população quanto aos benefícios da ciência e nas tradições dos escravos, negros livres e das camadas mais pobres, acreditando que a varíola era um castigo sobrenatural, curável somente mediante práticas religiosas de purificação.
A partir da metodologia usada e dos resultados alcançados nessas primeiras reformas, pode-se concluir que elas tinham caráter fortemente intervencionista e autoritário, uma vez que não se falava à época em participação popular na definição dos rumos políticos da cidade.
293
DUARTE, Marise Costa de Souza. Meio ambiente e moradia: direitos fundamentais e espaços especiais na cidade. Curitiba: Juruá, 2012, p. 99.
294 Sobre essa descrição, cf. COTRIM, Gilberto. História do Brasil: um olhar crítico. São Paulo: Saraiva, 1999,
p. 286.
295 AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Martin Claret, 2004.
Outro aspecto a ser considerado nesse sentido diz respeito ao fato de que tais medidas culminaram numa nova forma de exclusão social, pois afastou as famílias pobres para a periferia, sem a mínima infraestrutura urbana e sem os serviços públicos essenciais, além de distante das áreas estruturadas e saneadas, que passam a ser um privilégio apenas da classe elitizada.
Em face dessa realidade, numa tentativa de superar essas chagas, instituíram-se, a partir da década de 60 do século passado, políticas públicas de natureza habitacional com perfis voltados para a questão do acesso à moradia, seja no seu aspecto quantitativo, incentivando a ampliação da oferta e facilitando a aquisição, seja no aspecto da qualidade, estabelecendo-se requisitos mínimos de segurança estrutural e jurídica.
Agrega-se ainda a essa pauta, a questão da higiene e do conforto ambiental para as moradias, elencando condições para que elas pudessem ser financiadas. Trata-se do Sistema Financeiro de Habitação (SFH) e do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS), que serão analisados no próximo item.