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O corpo é a figura central do universo. É com o corpo que se descobre o mundo, através do movimento e dos seus sentidos, que se desenham linguagens, que se permeiam espaços e fronteiras, que se sonda e submerge no interior das coisas, enfim é o anfitrião do agir e do conhecer. Justifica fortemente a acuidade a ter com artefacto tão valioso. Reconhece-se cada vez mais o imperativo de dar voz e expressividade a essa personagem como valorização e promoção de uma maior consciência e compreensão deste magnífico instrumento de comunicação e conhecimento.

Cada vez mais, reconhece-se o exercício físico como sendo de importância capital no desenvolvimento corporal, mental e emocional da criança. É um complemento da actividade mental, pelo que Vayer (1992) se refere ao dualismo do corpo e do espírito. Em consonância com este pensamento encontramos Berge (1976) quando afirma que corpo e mente são complementares, pois, move-se o corpo com inteligência e sensibilidade e o espírito encarna-se com exactidão na expressão do corpo. Esta autora, afirma que, o problema das inaptidões parte de uma incorrecta utilização do instrumento que é o corpo e que devemos ter este factor em conta desde muito cedo para uma adequada educação da criança.

Será, então, através do corpo que a criança vai se relacionar e comunicar com o que a rodeia, com os outros, com as coisas, e desta forma, descobrir o mundo. Vayer

elucida-nos que o corpo é o primeiro objecto do entendimento da criança, a partir do bem-estar, da dor, das mobilizações e deslocações, das sensações visuais, auditivas e tácteis, enfim, “ (…) o corpo é o meio da própria acção, do conhecimento e da

relação.” (1992: 20).

O corpo e a voz são meios utilizados na praxe do jogo dramático. O pensamento da criança encontra uma translação física, expressa no movimento. Do ponto de vista de Aguilar (2001), as actividades que implicam movimento, facultam a desinibição da criança e a melhoria do seu poder de comunicação. As actividades de expressão dramática vão das mais simples às mais complexas, passando pelas actividades projectivas, tendo sempre o corpo e a voz como meios ou instrumentos de expressão, poderosos meios de expressão e comunicação. As actividades dramáticas, ao colocarem o corpo em acção, possibilitam que este se desenvolva e se estruture de forma integral, anexando-se ainda da actividade mental, tornando tais actividades ainda mais completas.

Não se pode pretender educar um ser humano, no seu todo, desconhecendo o seu comportamento motor. Aguilar considera a educação psicomotora como uma educação de base que deve ter o seu início desde cedo, no jardim-de-infância, ainda mais que a expressão corporal auxilia todas as aprendizagens pré-escolares e escolares, não se tornando bem sucedidas se a criança não for acostumada a tomar consciência do seu corpo, a situar-se no espaço, a dominar o tempo, confirmando desse modo, a reflexão de Vayer (1992) sobre a construção do esquema corporal, atribuindo-lhe um papel fundamental no desenvolvimento da criança, considerando essa organização como o ponto de partida das suas diferentes possibilidades de acção.

Nas fases da elaboração do esquema corporal, o autor enunciado, refere-se às idades compreendidas entre os dois e cinco anos como sendo o período global da aprendizagem e do uso de si mesmo, revestindo-se, assim, de extrema importância todo o tipo de actividades com este domínio relacionadas, que se possam proporcionar às crianças nesta fase.

A partir dos cinco anos a criança passa do estádio global e sincrético ao da diferenciação e da análise, ou seja, do corpo a agir pela sua representação. E esta elaboração do esquema corporal, acompanhando sempre as mesmas leis, prossegue até aos onze, doze anos, refere-nos Vayer (op. cit.), afirmando que motricidade e psiquismo não se podem dissociar, porque se tratam de dois aspectos inseparáveis de uma mesma organização.

Portanto, na construção do eu corporal, que possibilita à criança destacar-se do mundo exterior e por si mesma o reconhecer como tal, está implicado inteiramente todo o ser, porque cada impressão, cada sensibilidade ou sensação traduz-se num movimento que é a resposta.

A elaboração do esquema corporal caracteriza-se por uma auto-construção de acordo com as possibilidades de expressão/comunicação que são presenteadas às crianças. Assim sendo, é de todo pertinente que, nestas fases, se proporcionem actividades promotoras de desenvolvimento como as de expressão dramática em toda a sua envolvência e plenitude. Além do movimento, o corpo é também emissor sonoro, revelando, através do som e da sua tonalidade, o modo de estar e sentir de cada pessoa. Corpo e voz estão associados num sistema de cumplicidade e harmonia.

Nas actividades de expressão dramática, encontram-se incluídos trabalhos vocais com as crianças, sem esforço, num clima de confiança e de serenidade, rejeitando quaisquer exibicionismos que coloquem em perigo as cordas vocais Aguilar (2001). Este autor adverte-nos para a cautela preciosa a ter quando nos propomos trabalhar a dicção com as crianças, numa fase mais avançada: “o trabalho vocal, que visa a clareza

e a correcção da emissão sonora, deve ser realizado em espaços e tempos próprios, e não deve colidir com o desenrolar espontâneo do jogo dramático.” (ibid.). Antes de dar início a qualquer trabalho vocal, é categórico reaprender a respirar e, consequentemente, a descontrair, a relaxar.

Sobre o relaxamento, defende Berge (1976), que este deve instituir-se como introdução indispensável a qualquer actividade que seja empreendida. A sua vasta experiência dita que o relaxe deve preceder toda e qualquer sessão de educação corporal. A autora vai mais longe ainda ao afirmar que todos deveríamos considerar o relaxamento como um exercício profilático quotidiano tão indispensável como alimentar o corpo logo pela manhã, atingindo-se, destarte, o bem-estar, o verdadeiro estar, segundo as suas convicções.

Pelo que conhecemos da expressão dramática e pelas exposições efectivadas pelos diversos autores, cremos, encontrar-se à altura de um bom e harmonioso desenvolvimento de todo o ser humano, através das suas actividades, desde que, aplicadas com sabedoria e consciência plenas.

Benzer Belgeler