• Sonuç bulunamadı

Tem sido observado que a privação da mãe nos primeiros anos de vida traz prejuízos para o desenvolvimento da criança e que os efeitos dessa privação variam quanto ao grau e não afetam todas as crianças da mesma maneira. Assim, embora haja muitas divergências no que se refere ao alcance e à profundidade dos efeitos da privação da mãe, não há dúvidas de que esses prejuízos existem (GIL; ALMEIDA, 2005).

A literatura mostra que a situação de internação hospitalar de crianças traz aos pais uma situação altamente estressante e problemática, sendo que o que se verifica para pais de bebês pré-termo é uma complexidade de tal situação, pois além de lidar com a situação de internação em si, há as questões emocionais relativas a um nascimento sonhado e idealizado que não se realizou como o esperado, dificultando o processo de formação de vínculo natural que normalmente se dá com pais de bebês de nascimento a termo. De acordo com Rossel, Carreño e Maldonado (2002), a maioria das mães de seu estudo (75% de 40 participantes) se sentia culpada e impotente frente à prematuridade de seu filho, a quem percebiam como pequeno e disforme, sendo que uma das dificuldades especialmente experimentada pelas mães

de prematuros foi à incapacidade de poder estabelecer apropriadamente um vínculo afetivo. Numa visão diferente desta apresentada, Gomes e colaboradores (1997) relata que existe uma relação mãe-bebê que, num primeiro momento, é de importância fundamental para ambas as partes, e mesmo com todas as ansiedades que a situação de um bebê pré-termo suscita, a mãe está direcionada para este vínculo e sua energia e atenção estarão voltadas para ele. De acordo com a autora, o que se observa é que a formação do vínculo mãe - bebê pré-termo, na situação de internação do bebê, ocorre de uma forma muito parecida com a que ocorre com aqueles bebês que não apresentam qualquer tipo de problema, e podem ficar sob os cuidados maternos assim que nascem; entretanto, as inseguranças iniciais é que são maiores em razão da situação que esses bebês apresentam. Posteriormente, mesmo diante de situações difíceis e instáveis, estas mães apresentam um vínculo intenso, sendo capazes de se identificar com as vivências de seus bebês e decodificar suas mensagens.

Diante da situação de internação em UTI neonatal, e dos riscos dela advindos, familiares apresentam atitudes e sentimentos contraditórios em relação ao bebê – sentimentos de vida versus morte do bebê e de bebê idealizado a termo versus bebê real prematuro (LINHARES et al, 1999). Para Fonseca e colaboradores (2004), à medida que a família vai sendo inserida no espaço das unidades neonatais, ela traz consigo suas necessidades no processo de vivenciar o nascimento prematuro, os sentimentos de ter um filho com riscos de danos e morte, as dificuldades de ter que assumir o cuidado cotidiano de um filho que necessitará de cuidados especiais em longo prazo, além dos aspectos relacionados às condições socioculturais. Embora queiram participar de seus cuidados e convívio, têm medo de não serem capazes de desempenhar a “maternagem” de maneira adequada diante da dificuldade que sentem em captar os sinais de interação emitidos pelo bebê.

Rossel, Carreño e Maldonado (2002) referem que os vínculos afetivos entre mães e bebês ficam, a princípio, entorpecidos, em função da imaturidade neurológica dos pré- termo, algo que compromete, neste início específico de vida, sua capacidade de girar, abrir os olhos ou sorrir frente aos estímulos apresentados por seus pais. A ausência destas reações cria nos pais a sensação de não serem correspondidos e gera nas mães um sentimento de tristeza e solidão. Nesse contexto, para que a mulher possa começar a se aproximar do bebê, ela precisará lidar com o impacto que o parto e o bebê pré-termo lhe despertam, sendo que os primeiros contatos serão intermediados pela equipe (GOMES, 2002). Segundo Thomaz e colaboradores (2005), ver, tocar e ajudar a cuidar do filho alivia em parte a angústia e a insegurança.

Para Brazelton (1997), é importante permitir aos pais o descobrimento e admiração das competências interativas de seu bebê, e auxiliá-los neste processo, pois isto pode ser um passo determinante para a construção de sua relação, sobretudo em situações em que estas capacidades podem estar menos visíveis. Dessa forma, é admitida a necessidade do ajustamento da resposta que o adulto fornece ao bebê como garantia do bom desenvolvimento do mesmo; de acordo com esta perspectiva, para revelar as competências do bebê é necessário um adulto atento e disponível (WENDLAND, 2001).

Para Linhares e colaboradores (2004), a mãe, no papel privilegiado de cuidadora primária e em longo prazo do bebê, precisa ser cuidada para que possa desempenhar plenamente as funções maternas com afetividade e efetividade. Para tanto, precisa desenvolver o senso de competência e de autoconfiança, tão necessário para o adequado desempenho destas funções. No estudo de Gomes e colaboradores (1997), a observação revelou uma realidade bastante particular e complexa: essas mães, em geral, vêm ao berçário todos os dias, acompanhando e se interessando pelas mudanças diárias das condições gerais de seus filhos, percebendo detalhes muitas vezes imperceptíveis. Ainda assim, enfrentam muitas incertezas, principalmente no início, quando querem algumas respostas sobre o prognóstico e desenvolvimento do bebê, respostas essas que, muitas vezes, não são possíveis.

Conforme Linhares e colaboradores (2004) indicam, a mãe experimenta, de um lado, a necessidade de aproximar-se do bebê e, de outro, restrições que condicionam esse contato, já que a condição de saúde do bebê pode prejudicar ou mesmo impedir que ela exerça de forma independente o papel de cuidadora primária de seu bebê. Nesta situação, fica impedida de realizar os cuidados básicos do bebê de imediato, tais como amamentar, segurar no colo, dar banho e trocar, gerando como conseqüência uma experiência de baixo senso de competência e sentimento de frustração por parte das mães.

A criança necessita da mãe, pois não existe sozinha; portanto, as habilidades ou dificuldades desta (ou de quem assume o cuidado da criança) tornam-se integrantes na assistência à saúde. Os pais dos recém-nascidos pré-termo e de baixo peso são considerados população de risco, por apresentarem dificuldades para cuidar dos filhos, necessitando de apoio durante a internação e após a alta hospitalar (SCOCHI et al, 2003). Essas dificuldades, segundo os autores, podem ser atenuadas ou reforçadas de acordo com a oportunidade que essa mãe tem ou não de participar, de alguma forma, dos cuidados de seu filho, sendo cada vez mais forte a tendência dos profissionais estarem atentos à introdução de condutas dirigidas ao estabelecimento do contato e interação entre mãe e filho.

Dessa forma, além do acesso e permanência dos pais permitidos, há o incentivo para as mães tocarem e pegarem seus filhos no colo; o contato olho - no - olho; a prestarem alguns cuidados básicos higiênicos e alimentares entre outras ações mais ativas, conforme a estabilização da condição clínica da criança, como: a realização do método mãe-canguru; a alimentação láctea usando o copinho, até a amamentação materna exclusiva, etc. Diante dessa situação, mãe e bebê terão que descobrir um caminho de aproximação e contato, o que promoverá a constituição e desenvolvimento do bebê como sujeito (GOMES, 2002).

A problemática envolvida nesta situação pode repercutir na vida futura destes pais e bebês e nas posteriores relações sociais desse bebê, o que justifica a necessidade de conhecer qual é o repertório de comportamento das mães no momento de interação inicial com o bebê, em que ela precisa estar próxima afetivamente de um bebê que está, fisicamente, distante, para verificação se os mesmos posteriormente serão transformados em condutas adequadas de interação. Para Wendland-Carro e Piccinini (1995), a possibilidade de intervir o quanto antes na relação mãe - bebê tem se apresentado como um meio importante para promover o desenvolvimento sadio do bebê e, também, para prevenir o estabelecimento de condições que possam prejudicá-lo.

Uma maneira de reverter e prevenir essa situação seria proporcionar à mãe condições de interagir com seu bebê de forma natural (como normalmente todas as mães costumam agir) na própria rotina do serviço, capacitando-a para tomar parte dos procedimentos que não sejam técnicos específicos da equipe (como por exemplo, a coleta de exames ou a medicação), mas que fazem parte das rotinas do desenvolvimento, preparando a mãe para os cuidados que ela deverá assumir após a alta do bebê. A literatura nacional indica que o atendimento ao recém-nascido internado em UTI neonatal e serviços subseqüentes, em muitos hospitais, quase sempre é restrito aos médicos e enfermeiros, mas vem mostrando um movimento crescente de formação de equipes multidisciplinares, que tem atuado com o intuito de atender ao bebê em relação a outros aspectos do seu desenvolvimento que não sejam somente as condições clínicas. Mas há, ainda, escassez de materiais didáticos e instrucionais para auxiliar na orientação das mães; os treinamentos são individuais, normativos, sem trocas de experiências ou técnicas criativas, para o preparo das mesmas diante da alta hospitalar de seus filhos (FONSECA et al, 2004). Há, ainda, pouca visibilidade sobre quais são os comportamentos das mães diante da situação de internação hospitalar de seu bebê e quais são os comportamentos dos profissionais frente à necessidade de tratar e orientar a mãe para o cuidado de seu bebê na situação pós - alta hospitalar, tanto os existentes quanto os desejáveis.

Considerando, assim, as condições do ambiente hospitalar no qual bebês de alto risco são submetidos, e que, pelas características próprias desse ambiente, há uma amplitude de eventos que direta e indiretamente provocam efeitos no desenvolvimento do bebê, os objetivos desse trabalho são:

• desenvolver recursos para capacitação de mães de bebês pré-termo para lidar com seus filhos durante a estadia destes bebês em internação pós-UTI neonatal, considerando as necessidades e peculiaridades deste tipo de situação;

• avaliar recursos de ensino propostos como condição para capacitação de mães de bebês pré-termo em período de internação pós-UTI neonatal.

• capacitar mães para que, nos momentos de procedimentos de rotina no atendimento ao bebê (alimentação, troca, banho, brincadeiras entre outros) haja uma interação de qualidade, ou seja, que os momentos de interação não se restrinjam à técnica aprendida do banho, da alimentação, do posicionamento, do manuseio, mas que se constituam também, um momento de afeto, de cumplicidade e formação de vínculos.

É esperado que, a partir dos dados obtidos no decorrer da capacitação desta população, possam ser produzidos recursos de apoio para profissionais e/ou para mães, voltados para a promoção de repertórios comportamentais apropriados destas mães como agentes do desenvolvimento de bebês que necessitam de internação hospitalar, na situação em que o estudo foi desenvolvido e em outros similares.

ESTUDO 1

INTRODUÇÃO

ELABORAÇÃO DE PROGRAMA DE ENSINO PARA CAPACITAR MÃES DE

Benzer Belgeler