Conforme vimos anteriormente, o aluno A propõe um estudo sobre as condições de significação do sujeito do chorado no século XVIII e nos dias atuais. O exemplo a seguir é uma sequência do excerto 3, que foi desmembrado em razão de entendermos que a parte que ora apresentamos compõe-se de um modo de escrita que desenvolve um efeito de promoção de uma teoria, e não de um conceito ou de um autor.
EXCERTO 7 – ALUNO A 01
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A A.D que teve suas origens na França na década de 60 (sessenta) com M. Pêcheux, nasce a partir da leitura de Lacan, na psicanálise; de Althusser, em relação aos sistemas ideológicos marxistas; e de Pêcheux, quanto ao sistema linguístico de Saussure.
Esse trecho foi construído a partir de referências que ressaltam e marcam a importância dos conceitos e da história da teoria utilizada no trabalho. Evidencia-se a necessidade de quem escreve em demarcar não apenas os conceitos que utiliza como referências do seu trabalho, mas também a historização de uma área, independentemente da relevância disso na proposta de análise. A descrição histórica da teoria que fundamenta o trabalho é um exemplo de marcação que serve para garantir a inserção da produção acadêmica numa comunidade científica que é adepta dos conceitos teóricos utilizados como referência,
103 considerando que a retomada da origem da teoria pode ser entendida como uma forma de demonstração de conhecimento sobre seus conceitos e pressupostos.
Esse processo, que se caracteriza não só como atividade do jovem pesquisador, mas também como uma característica do “jogo” acadêmico, ressalta certo conhecimento sobre a teoria que fundamenta a pesquisa, o que pode, na visão de determinados entes da comunidade acadêmica, garantir a aceitação e aprovação do trabalho. Contudo, o desenvolvimento da produção escrita resultante de uma investigação, mesmo que de iniciação, a explicação e articulação de conceitos teóricos com uma análise, perde-se do texto.
O excerto 07 evidencia um modo de escrita acadêmica que entende os conceitos da teoria como representativos de um conhecimento universal, comum a todos os leitores do texto. Depois dele, temos duas citações recuadas para explicitar as características do estudo da Análise do Discurso, sem definir como os conceitos apresentados contribuirão com a análise proposta. São citações sobre a história e funcionalidade da teoria da AD. O locutor cita a voz do outro para explicar o papel da teoria que utiliza, mas não mostra como ela poderia auxiliar a pesquisa que realiza.
É interessante ressaltar que os trabalhos da Análise do Discurso recorrem frequentemente à descrição histórica da teoria, e entendemos que isso não é algo proibido ou desqualificado. Acreditamos que tal prática é outra maneira de assegurar a aceitação de um trabalho acadêmico. Mas como considerar como produção científica o texto que não articula conceitos com a análise de dados, repete os dizeres de outros autores e dedica-se a narrar a história da teoria, sem relacionar tudo isso com a proposta de investigação? Temos, então, a construção de um sentido de que o texto, em vez de contribuir para a produção de um trabalho científico, repete conceitos e a história da teoria, e, mesmo assim, os pares da comunidade científica no qual o trabalho pretende se inserir o aceitam e o aprovam.
EXCERTO 8 - ALUNO A 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10
Como já discutimos sobre a noção de leitura (Orlandi, 2004), no relato, por se tratar de um material simbólico, não podemos, na perspectiva da A. D, visar compreender o que esse texto está querendo
dizer, mas compreender como o discurso faz significar determinados efeitos de sentidos e como
esses efeitos de sentidos se significam e funcionam. Em relação às discussões de Orlandi (2002, 2004), compreendemos o relato como o espaço simbólico do discurso sobre a Dança do Chorado. Neste material simbólico de análise, os sentidos que se significam e que funcionam o fazem a partir de um imaginário de unidade e de autoria. De acordo com Orlandi (2001: 65), o imaginário de unidade de sentidos produz a textualidade e o discurso imaginário da função-autor.
“Falando da função-autor tenho dito que ela constrói uma relação organizada – em termos de discurso – produzindo um efeito imaginário de unidade (com começo, meio, progressão, não contradição e
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fim). E a isto chamo de textualidade. Toda vez que tenho isso, tenho a função autor, colocando imaginariamente o sujeito na origem do sentido e sendo responsabilizado pela sua produção”.
O excerto 8 foi retirado do capítulo de análise e é um recorte posterior a uma citação recuada que é apresentada no excerto 04. Nesse trecho, temos a apresentação de como a Análise do Discurso compreende a disposição dos elementos da comunicação assim como as noções de língua, de emissor e de processo de significação.
Na linha 01, o texto faz a marcação do outro em reemissão à “noção de leitura” de Orlandi. Entretanto não há contextualização da noção de leitura no capítulo de análise nem no capítulo dedicado a resenha teórica. O termo é apresentado rapidamente, sem comentários, diante de uma referência a autora mencionada na mesma linha. Em seguida, temos outro conceito da autora que é citada e que até então não havia sido apresentado. Aquele que escreve traz, a partir da marcação da autora Orlandi, um comentário do que se pode entender por leitura na perspectiva da AD. Todavia, não há desenvolvimento e operacionalidade do que é apresentado, o que podemos interpretar como indício de uma relação entre aquele que escreve e a teoria utilizada, teoria que é inadequada para o desenvolvimento da investigação proposta. É possível perceber a nomeação de conceitos que não são definidos ou comentados, tais como “material simbólico”, “espaço simbólico do discurso”, “imaginário de unidade e de autoria”, “textualidade” e “discurso imaginário”. Na linha 08, encontramos o conceito de “função-autor” acompanhado de um comentário, mas que é feito a partir da citação da voz do outro. Na linha 07, o conectivo “de acordo” é utilizado para marcar a voz do autor que está citando. Esse recurso linguístico, como já foi dito, demarca uma tentativa de quem escreve de se adequar ao dizer do outro, o que, segundo Authier-Revuz (2004), é uma marcação de heterogeneidade mostrada.
Entre as linhas 09 e 12, logo no início do capítulo de análise, há uma nova citação recuada que expressa a voz do outro autor que é utilizado como fundamentação do trabalho. Dessa forma, produz-se um efeito de promoção, visto que não é possível perceber uma reflexão ou utilização da voz do outro em uma análise, mas, sim, a repetição dos dizeres de Orlandi. Aquele que escreve se utiliza do dizer da autora para realizar a análise. De certa forma, essa é uma concepção de produção acadêmica equivocada fundamentada na perspectiva de que, ao se apresentar uma diversidade de conceitos de uma teoria e marcar a presença do discurso de autores que participam da comunidade científica em que pretende se inserir, o aluno está desenvolvendo os requisitos necessários para ser aceito e reconhecido academicamente.
105 Segundo Rossi-Landi (1985), esse modo de escrita pode até assumir um valor de troca, pois a voz de outro tem seu uso resgatado, mas não é possível perceber um valor de uso, já que a escrita não satisfaz uma necessidade comunicativa para que possa ser considerada como um exemplo de trabalho linguístico; a monografia limita-se a repetir sucessivamente o dizer de outro, sem contribuir para a construção de novos sentidos. Cria-se um efeito que aponta para uma escrita com o objetivo promover o já-dito, denunciada pela falta de indícios de autoria daquele que escreve o texto. Na realidade, podemos dizer que o objeto proposto pelo trabalho fica esvaziado e a teoria acaba ganhando mais status com o processo.