No encontro inicial, a professora dedica-se ao trabalho de leitura das charges, tendo como foco, mais detidamente, o contexto social e os significados culturais, conforme proposto no planejamento. Para tanto, traz mais três charges que fazem parte da coletânea apresentada, no início da sequência de aulas.
A princípio, ela faz oralmente uma exposição sobre o gênero charge, ressaltando a sua natureza de sempre fazer alusão a fatos e acontecimentos atuais, embora com ousadia e crítica permitindo ao leitor uma oportunidade para a reflexão. E, de acordo com sua explicação,
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buscava promover essa reflexão: “eis o nosso objetivo aqui – estimular vocês a refletirem de forma crítica sobre assuntos polêmicos relacionados à Copa”. Para fins de organizar a discussão, a professora apresenta os seguintes itens: i) contexto social; ii) discursos e iii) cultura que, segundo ela, subjazem à produção da charge e contribuem sobremaneira para a construção do sentido.
Objetivando destacar aos alunos os itens elencados anteriormente, a professora faz um preâmbulo sobre a realização da Copa do Mundo no Brasil, mostrando pelo menos dois discursos em relação a sua realização. O discurso do governo que defende a Copa e o discurso de uma grande parcela dos brasileiros que é contra o evento. De imediato, os alunos se identificaram com um dos posicionamentos citados e começaram a interagir fazendo perguntas e reflexões sobre o assunto. A participação foi intensa, mesmo os alunos que gostam de futebol e que acompanham os jogos da Copa, faziam questão de se colocar contra o evento (talvez influenciados pelas aulas anteriores). Uma aluna, porém, ponderou dizendo que para ela era motivo de orgulho e alegria ter a Copa no Brasil, o que não a impedia de criticar os desmandos políticos e que os problemas sociais do Brasil iam continuar independente da realização da Copa.
A professora concorda com a aluna reconhecendo que são muitas as opiniões a respeito dessa temática e ressalta que considera isso muito positivo. Acrescenta, ainda, que toda a euforia em relação à Copa, deve-se ao fato de termos uma cultura muito ligada ao futebol e procura encerrar a discussão (os alunos falam ao mesmo tempo) remetendo novamente às charges – “vamos considerar tudo isso na leitura das charges, tá?”. A seguir, a professora sorteou com a turma, para serem analisadas, as charges apresentadas inicialmente, chamou atenção para aspectos do cotidiano social envolvidos em cada charge e instigou os alunos a observarem em suas análises, elementos salientes da composição imagética por meio de uma proposta de atividade (cf. apêndice A).
Os alunos se empenharam na realização da atividade, ora fazendo comentários sobre as leituras, ora chamando a professora para esclarecimento de dúvidas. A seguir uma análise feita individualmente:
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Figura 17: Charge para análise
A charge fala de duas realidades brasileiras, o governo gastando muito dinheiro com a copa do mundo e o povo sem água pra beber. As figuras apresentam imagens diferentes, modo de vestir diferentes e pessoas diferentes. A palavra sede também fala das duas realidades, um lugar destacado com um saco de dinheiro e o outro, um lugar sem recurso onde as pessoas não têm água pra beber. O que ganha destaque nessa charge é o tamanho do saco de dinheiro que parece maior que tudo ali. A charge mostra que para a copa não falta dinheiro. (Leitura realizada por um aluno individualmente32)
Verificamos que o aluno consegue perceber a crítica feita pelo chargista através da representação visual e destaca também elementos imagéticos especificamente trabalhados como a saliência quando fala em relação à representação desproporcional do saco de dinheiro em comparação aos demais elementos da imagem. Alguns outros aspectos da imagem não foram contemplados e sentimos, também, que não há um maior aprofundamento da denúncia apresentada pelo chargista, porém consideramos uma leitura pertinente, haja vista refletir sobre as significações agregadas aos recursos imagéticos na constituição da charge.
Chamou-nos a atenção o posicionamento da professora, no decorrer dessa atividade, interferindo para dar uma explicação que, segundo ela, serviria para todos. A explicação fez referência às expressões sede da copa / sede do povo que figuram na charge.
32 Devido à dificuldade em relação ao cumprimento das atividades de produção e à irregularidade de frequência às aulas, a professora sempre optava pela realização das atividades em duplas ou em trios, já era uma prática antes da realização de nosso projeto. A exceção era esse aluno - autor da análise, ele se mantinha sempre sozinho em todas as atividades e situações.
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Para esclarecer o significado das expressões, a professora transcreveu-as no quadro e explicou a diferença de sentido nos dois momentos da charge. Além disso, recorreu à nomenclatura gramatical designando as palavras como palavras homônimas e exemplificando os tipos de homônimas (perfeitas, homógrafas e homófonas). A reação dos alunos foi demonstrada pelo interesse e curiosidade em algumas particularidades no uso da língua nesse campo da homonímia.
Pudemos observar o domínio da linguagem verbal na experiência de ensino da professora que ao invés de se utilizar da estrutura imagética da charge para ampliar o significado da expressão ou mesmo induzir os alunos a estabelecerem relações entre a linguagem verbal e a composição visual, empenha-se na exposição de aspectos do sistema de regras da língua fazendo com que os alunos compreendam conceitos e especificidades linguísticos, desconsiderando totalmente o texto imagético. Tal fato, por sua vez, nos faz refletir sobre a concepção tradicional de ensino, em relação aos conteúdos gramaticais, ainda presente na escola, como podemos observar nas considerações da professora ao ser questionada sobre o trabalho que realizava com a imagem antes da implementação do nosso projeto didático.
Pesquisadora: Sente que faz um trabalho satisfatório com este tipo de texto (a imagem) ou não? Por quê
[...]
Colaboradora: (...) acho que ainda não faço um trabalho satisfatório... sabe... acredito que ainda estou sem conseguir trabalhar de forma concreta, real este tipo de texto não sei... quase sempre acabo desviando o olhar para os conhecimentos conteudísticos é muita exigência da escola sabe... tem que ensinar... isso aquilo... seguir o programa da série aspectos mais de conteúdo formal gostaria de explorar ainda mais este recurso do visual ... ferramentas tecnológicas essas coisas que precisam ser mais acessíveis na sala de aula
(Fragmento da entrevista com a professora em 27/03/2014)
Percebemos pela resposta, que, de fato, não havia trabalho com a imagem, uma vez que a professora não fala concretamente sobre ele e ainda justifica essa prática em razão das cobranças ou exigências formais da escola. Diante dessa realidade e da ausência de uma formação específica com a modalidade visual, consideramos a condução, dada pela professora no desenvolvimento do projeto, bastante pertinente, muitas vezes extrapolando o planejamento feito e agindo com muita autonomia.
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Por fim, após a leitura compartilhada das análises produzidas pelos alunos, a professora solicitou a produção de uma charge sobre algum fato daquela comunidade escolar (escola, bairro), em especial, orientou que pesquisassem sobre algo relacionado ao Meio Ambiente, já que havia um Projeto sendo desenvolvido na escola sobre essa temática e eles podiam utilizar as charges para participarem. A princípio, os alunos mostraram-se meio resistentes alegando dificuldade para realização. Contudo, em meio às alegações, a professora sugeriu o acesso ao Pixton, um site no qual é possível criar desenhos para quadrinhos, como forma de auxiliar a produção do material imagético.