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2. GENEL BĐLGĐLER

2.11. Lakkaz Aracılı Sistemler-LAS, (Lakkaz Mediatör Sistemler-LMS)

As pessoas que participam dos empreendimentos econômicos solidários, enquanto seres sociais, vivenciam experiências e espaços de participação que foram e são construídos, de forma constante, nas relações estabelecidas na família, na escola, no trabalho, nas experiências de participação comunitária, nos movimentos sociais, entre outros. Como diz Paz (2002, p.36), “a categoria participação refere-se diretamente à base cultural, à densidade social, construída historicamente nas experiências cotidianas dos diversos sujeitos sociais”.

Nos empreendimentos econômicos solidários, vivenciam-se espaços de participação, no âmbito da produção, no exercício coletivo da gestão e organização do trabalho, na socialização das informações, na partilha do poder.

5.2.1. Experiências de participação

Como diz Paz (2002, p. 43), “a experiência pessoal de participação é algo que marca e transforma o sujeito, no modo de ver e de se relacionar com o mundo”. Nesse sentido, “as relações afetivas, familiares, de trabalho, de gênero, são diretamente impactadas pela inserção em processos participativos e pelas experiências de enfrentamento, negociação e proposição” (PAZ, 2002, p.43).

As primeiras referências de participação, apontadas pelos entrevistados desta pesquisa remetem ao período escolar, durante as festividades do calendário escolar (dias das mães, dos pais, São João, Natal) e no desfile cívico de Sete de Setembro, conforme relatos a seguir:

na escola, eu participava de tudo: do desfile, fui baliza, nos teatros representava, cantava, era difícil ficar fora (Camila – Associação das Mulheres do Camarão).

participava do desfile, de jogos de queimado. Não participava de outras coisas porque minha mãe não deixava (Marta – UNIGRUPO).

Na época em que estudaram, não era comum, aos entrevistados, a participação em grêmios estudantis. Sabe-se também que não está presente no sistema regular de ensino, o incentivo à participação nos grêmios estudantis, pois a presença destes, muitas vezes, foi vista como algo subversivo dos quais os alunos deveriam se afastar.

Parte dos entrevistados, em suas infâncias e adolescências, viveu na época do regime militar, sendo educados dentro de um sistema que combatia as formas de manifestação e expressão, ou seja, proibia-se a fala que fosse contrária aos preceitos deste regime. Anulava-se a possibilidade de reivindicação da parcela dos que não têm parcela, como diz Oliveira (2000). Essas vivências foram marcando as trajetórias pessoais de cada um e influenciando nos sentidos e significados que a participação vai tendo em suas vidas.

Já na adolescência, a participação em outras instâncias sociais ocorreu por meio do envolvimento em grupos de jovens vinculados a atividades religiosas, a exemplo de Rosa: “participei do grupo de jovens, do coral, a gente ensaiava os

Entretanto, a grande maioria das pessoas entrevistadas não participou de outros espaços societários, exceto o da convivência familiar e no trabalho, cuja principal razão apontada está relacionada ao fato de que foram conduzidos logo cedo para o mercado de trabalho:

comecei a trabalhar muito cedo, não tinha tempo de participar de nada (Manoel – CARE).

logo cedo trabalhei na roça e em casa de família. Não tinha como participar de nada. Na escola só brincava, só aprendi o ABC (Margarete – CARE).

Os que participaram de alguma atividade no ambiente escolar, em grupos de jovens e/ou outros, quando adultos, não participaram de outras instâncias da sociedade. Na vida adulta, a sociabilidade tem sido estabelecida muito mais por meio das relações com a vizinhança e grupo de amigos do que com a participação em atividades comunitárias, sociais e culturais. Mesmo assim, em algumas situações, a exemplo dos cooperados da CARE, tais relações não acontecem com freqüência e, quando acontecem, são poucos os vínculos de proximidade estabelecidos, conforme apontam os depoimentos abaixo:

quando chego em casa, tranco tudo com não sei quantos cadeados. Sou medrosa. Aos meus vizinhos dou bom dia, boa tarde, boa noite e é só. Se precisarem de mim ajudo, mas não gosto de ficar na casa de ninguém. Aproveito meu final de semana para descansar (Selma – CARE).

quase não vejo meus vizinho. Fico dentro de casa cuidando das coisas, quando vejo o tempo já passou, não sou muito de amizade. Só tem uma moça que vem de vez em quando passar um domingo aqui em casa, mas ela mora longe. Quando termino as coisa em casa vou assistir televisão (Margarete – CARE).

me dou bem com todos os meu vizinho, mas quando tô em casa vou ajeitar uma coisa, ajeitar outra, fazer um serviço na casa de um filho, é assim (Manoel – CARE).

As mulheres do UNIGRUPO demonstraram que a sociabilidade tem sido fortalecida, tanto pelas relações entre os vizinhos, como também por meio da participação em atividades religiosas:

quando eu morava aqui [se referindo ao bairro onde funciona o grupo] tinha muitos amigos, mas agora estou longe e não conheço ninguém. Continuo participando da igreja aqui. Tenho muitos amigos da igreja (Marta – UNIGRUPO).

durante a semana, fico aqui no grupo e a noite aproveito para resolver as coisas em casa. Conheço muita gente aqui no bairro, tenho muitos amigos. No final de semana me divido entre ir visitar minha mãe e ir à igreja com minha filha (Renata – UNIGRUPO).

Já na Associação das Mulheres do Camarão, as relações sociais têm sido mescladas entre os contatos mantidos com os vizinhos, como também nos momentos das festas realizadas no povoado e manifestações culturais. Por se tratar de um local cuja tradição cultural é significativa, a sociabilidade e participação também têm ocorrido por meio de festas religiosas, encontros culturais e outros eventos.

Aqui todo mundo se conhece. Povoado pequeno você sabe, né? Tenho muitos conhecidos (Rosa - Associação das Mulheres do Camarão).

Aqui sempre tem festa. O povo daqui é muito animado e gosta muito de festa. Eu nem sempre vou, mas minhas filhas gostam e vão (Margarida – Associação das Mulheres do Camarão).

Como diz Paz (2002), os vínculos sociais influenciam no tipo de participação que as pessoas vão desenvolvendo na vida cotidiana. Nesse sentido, à medida que os indivíduos estabelecem vínculos sociais primários e secundários que favorecem e estimulam a participação, torna-se mais fácil a sua inserção em organizações e ações coletivas.

Dessa forma, as experiências de participação em outros espaços societários variam muito de grupo para grupo, de indivíduo para indivíduo e também tem vinculação direta com a rede de relações vivenciadas durante suas trajetórias de vida. Entre os entrevistados da CARE, por exemplo, foi comum a afirmação de ausência da participação em outras instâncias da vida social. Os relatos mostram as difíceis condições de sobrevivência, a luta constante pela inserção no mercado de trabalho, as limitações na constituição de uma rede de relações que permitisse uma sociabilidade que os despertassem para outras formas de luta e instâncias participativas, como afirma Manoel: “nunca tive tempo

para participar dessas coisas”; ou ainda Margarete “eu nunca participei de nada disso, tinha que trabalhar para sobreviver”.

Já na Associação das Mulheres do Camarão, metade das entrevistadas teve ou tem algum tipo de experiência de participação em outros espaços societários, a exemplo do clube de mães e associação de moradores. A moradia em um local em que todos se conhecem, a preservação de uma identidade cultural, a atividade laborativa desenvolvida que exige facilidade de comunicação e expressão, são fatores que auxiliam na possibilidade de inserção em organizações sociais que imprimam outras dimensões da participação, não restritas ao ambiente familiar ou do trabalho. Sem dúvida, isso se diferencia entre as próprias entrevistadas que justificavam, conforme depoimento de Margarida, a sua não participação em outros espaços societários: “não tenho mais idade para

participar (...) eu participava do clube de mães, mas saí com raiva porque meu marido é muito enjoado”.

No caso das mulheres do UNIGRUPO, somente uma entrevistada informou sua participação na associação de moradores. As demais afirmaram a participação em atividades religiosas, sendo, inclusive, uma oportunidade de lazer para boa parte delas, conforme depoimentos:

eu participo da associação de moradores já tem um tempo. Gosto e acho importante (Renata – UNIGRUPO).

participo da igreja desde jovem. Atualmente, participo de um grupo de mulheres. As mulheres fazem pintura, crochê, bordado, e tem um dia de domingo que fazem visitas aos asilos, orfanatos (Carmélia – UNIGRUPO).

participo só da igreja, grupo da carismática (Regina – UNIGRUPO).

na igreja eu participo do grupo de louvor, de passeios, de gincana, de tudo isso (Marta – UNIGRUPO).

O vínculo estabelecido, por meio da participação nas atividades religiosas, aparece forte nos depoimentos das mulheres do UNIGRUPO, sendo um fator de aglutinação entre elas no cotidiano do empreendimento, auxiliando-as na resolução de possíveis conflitos, já que em vários depoimentos foi comum a

importância da convivência no grupo como algo relacionado à extensão do próprio convívio familiar.

Ao serem indagados sobre as razões da não participação em outras instâncias da vida comunitária, a exemplo de associação de moradores, alguns informaram o seguinte:

não participo da Associação de Moradores porque antes era só política. Hoje ela até que tá funcionando, mas no passado era só politicagem (Rosa – Associação das Mulheres do Camarão).

a associação daqui você só paga o dinheiro [mensalidade] e mais nada porque eu não vejo eles resolver nada (Camila- – Associação das Mulheres do Camarão).

Outras justificativas também aparecem e estão vinculadas ao estabelecimento de relações pessoais com as lideranças políticas locais, mediadas e alimentadas pela dependência, subserviência e paternalismo. Assim, a participação, na vida política partidária, está diretamente relacionada à proximidade e afinidade com líderes políticos, refletindo a perpetuação de uma cultura clientelista, própria da formação social brasileira. Os relatos, a seguir, expressam bem essa relação:

aqui tem uma Associação de Moradores, mas eu não gosto de participar porque tem um negócio assim contra o Prefeito, coisa assim que prejudique, fale mal dele eu não gosto (Margarida - Associação das Mulheres do Camarão).

a associação de moradores daqui é política pura (Rosa - Associação das Mulheres do Camarão).

É interessante destacar que, apesar de as entrevistadas afirmarem que a intervenção da política partidária não deve influenciar o andamento das atividades e as relações pessoais no interior do empreendimento, este tem sido freqüentemente atingido pela interferência desta política, quando por ocasião dos pleitos eleitorais. O grupo normalmente se divide entre os partidos da situação e de oposição, principalmente nas eleições para prefeito, dificultando, pois, as relações interpessoais e o surgimento de conflitos. Os reflexos dessa situação foram logo visíveis pelo próprio grupo.