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3.2 DEÜ Hastanesi Merkez Laboratuvarı Akreditasyon Çalışmaları

3.2.2 Teknik Gerekliliklerin Yerine Getirilmesi

3.2.2.3 Laboratuvar Donanımı

Assim também as práticas dos primeiros cristãos, que antes eram privadas, reservadas às catacumbas e locais ermos, fugindo à hostilidade do império, foram aos poucos adquirindo hegemonia dentro das práticas políticas e civis, quando direitos e deveres passaram a ser reconhecidos publicamente. Estes mesmos direitos e deveres provenientes de uma religião positiva institucionalizada acabam introduzindo elementos contrários ao contrato social do Estado. Pois o individualismo, que transcende o entendimento, e a razão que se depreende do positivismo judaico cristão contrasta com o coletivismo da religião imaginativa grega. O primado do indivíduo que é força

Leistungsfähigkeit (potencialidade) ao se impor sobre a coletividade Vielfältigkeit

(diversidade), origina o legalismo positivista que impede a liberdade. Embora o ethos cristão se afirme como uma prática singular Leistungsfähigkeit, realiza-se no mundo das relações políticas e sociais Vielfältigkeit e com as mesmas se reconcilia numa unidade plena, em redes tensas, como Gegenseitigkeit. Por isso, ao contrário do que se pensa, por mais que Nietzsche se mostre em seus escritos como autor antipolítico, pela sua defesa do princípio de individuação (o que muitas vezes se confunde com individualismo) e pelo fato de deplorar o liberalismo anárquico e o totalitarismo normativo, essa mesma preocupação faz dele um autor político, ou melhor, um crítico da política, como o é do Cristianismo, daí ser este último não um problema alheio a ele. A tarefa que Nietzsche se impõe, de constituição de uma grande política sobre a pequena política de Bismark, se configura como uma tarefa biopolítica, uma genealogia política das interpretações, cujo dinamismo plural transfigura a existência em seus elementos sociais comunitários. Ora, o problema da vida social está quando se transforma em moral de rebanho, em massificação

355 Cf. Mt 15,21-28, (THE NEW OXFORD ANNOTED BIBLE, 2001, p. 31). 356

sob o título de “[…] ‘igualdade das almas perante Deus’. Esta falsidade, este subterfúgio das rancunes de todos os espíritos inferiores, este explosivo do conceito, esta revolução final, ideia moderna e princípio da degenerescência de toda a ordem social – é a dinamite cristã...” (NIETZSCHE, AC, KSA, § 62, 1999, p. 252). A vida social se degenera quando não respeita o princípio da diferença. Peter Sloterdijk diz a esse respeito, que “Nietzsche tinha entendido que o fenômeno irresistível e mais importante da cultura vindoura iria consistir na necessidade de se distinguir da massa.357” Diante disso nos perguntamos: como aproximar Nietzsche da imagem do Jesus que se apresenta como o pastor do rebanho? Se este rebanho é encarado como constituído por diferenças e o pastor como aquele que as reconhece como diferenças, ou seja, não as vê simplesmente como número, mas como uma individualidade, pois conhece a cada uma358, então é possível aproximá-lo de Nietzsche. Esse pastor dá tanto valor a cada uma de suas ovelhas que, tendo cem ovelhas, ao se perder uma, deixa as noventa e nove e vai em busca daquela que se perdeu até encontrá-la359. Neste sentido, o rebanho não pode ser confundido com massa, tanto que Nietzsche no Anticristo não menciona o termo Herde (rebanho) e sim Menge (multidão) nos aforismos 14, 56 e 60. Nietzsche, para além da multidão, defende um conjunto constituído por diferenças que guardam a independência e a liberdade. Portanto, a liberdade, como recorda Denis Rosenfield360, está para além de ideologias coletivistas e totalitárias.

Assim, o foco, tanto de Hegel como de Nietzsche na política, é o de garantir independência e liberdade por parte dos indivíduos e das nações em redes potenciais múltiplas Gegenseitigkeit (reciprocidade). Tanto no contexto frankfurtiano de Hegel como na maturidade de Nietzsche o sistema político está em crise, marcado pela falência do kantismo e do empreendimento revolucionário francês, pela democracia e pelo igualitarismo oriundo sobretudo da Kulturkampf (Revolução das Culturas), de Otto Bismark. Embora seja somente no período posterior, o de Iena, que Hegel irá refletir com maior propriedade sobre a política e embora Nietzsche no todo de seu pensamento não desevolva um pensamento propriamente político, razão pela qual muitos o consideram um pensador anti-político, ambos criticam os extremos da centralização absolutista e do nivelamento igualitátio que não reserva o devido valor às mediações. Por essa razão, em ambos, os meios serão mais importantes que os fins no sentido de influir na união entre a

357

Cf. SLOTERDIJK, 2004, p. 84

358 Cf. Jo 10,14, (THE NEW OXFORD ANNOTED BIBLE, 2201, p. 166). 359 Cf. Lc 15,4-5, (THE NEW OXFORD ANNOTED BIBLE, 2001, p. 126). 360

Grécia e o sujeito que opera mediação entre a subjetividade moderna e a eticidade grega. Enquanto Hegel elabora a mediação, necessária pela vitalidade original do mundo moderno que se depreende de maneira particular da comercialidade de Frankfurt361, pela eticidade, na Filosofia do Direito, Nietzsche explicita elementos políticos que se aproximam à reinvenção da política no sentido da autonomia do indivíduo como resistência a toda a forma de massificação da vida em rebanho. É um pensamento que reconcilia e, como tal, se concretiza através da vida, a experiência, a prática da unidade entre o uno e o múltiplo: o amor. Este tem no “Cristianismo original”, tal como pensado por Hegel, ou seja, no “Cristianimo da prática de Jesus” como defendido por Nietzsche, a sua atualização: um processo que não depende de uma condição política revolucionária362, pois é a prática de vida mesma que opera essa mediação entre o uno e o múltiplo em torno a uma unidade plena. Essa unidade é o amor, superação do destino, oposição de um particular frente a outro, Jesus mesmo supera este estranhamento ao considerar Deus não como um outro, mas como Pai. Na superação, o destino deixa de ser um oposto para ser reconciliado, acolhido jubilosamente: amor fati no universal que guarda a diversidade do particular. A prática política de Jesus tem a forma de crítica ao dualismo entre o sujeito e a comunidade, unindo-os na eticidade e na suprassunção de todas as cristalizações que impedem a plenitude da vida. Para tanto, ambos, Hegel e Nietzsche, partem da mitologia grega, marcada pela vivência plural entre povos e deuses, passando pelo monoteísmo judaico, “[…] que viola os vínculos da vida em comum e do amor” (HEGEL, ECD, TWS, 1994, p. 277), para o Cristianismo que, em Jesus, busca superar a barreira do individualismo: um retorno ao elemento da polis grega, implicada numa ética cristã. Por isso, o caráter apolítico que se depreende de uma forma de vivência do Cristianismo que é criticado como causa de sua inadaptação ao mundo. Portanto, segundo Caterina Deligiorgi, a ética essencialmente cristã é “[…] uma ética que enfatiza contexto, história, comunidade e os papéis e relações que dão substância para a nossa vida moral.363” A vida moral cristã que ultrapassa os limites do formalismo da lei positiva, “[…] os

361 No Estado moderno, para além da república grega, o indivíduo só se identifica ao universal mediatamente por ser um universal imensamente maior que o da antiga república grega, por isso, o ser humano moderno somente entra em relação ao Estado mediante a sua morada na esfera limitada da propriedade privada. As desigualdades, decorrentes da propriedade privada, ameaçam a própria liberdade política, daí a necessidade de se transpor os limites do ideal da organização espontânea da vida para o real do devir humano que possui um desenvolvimento imanente do qual se depreende a liberdade; essa passagem caracteriza a chamada crise de Frankfurt, do real que se antecipa no ideal, como momento da manifestação da liberdade, porém obscurecida pelo destino. Por essa razão esse destino deve ser acolhido como a realidade mais sagrada, amor fati.

362 Cf. BOURGEOIS, 2000, p. 57. 363

incompreensíveis e misteriosos dogmas da trindade, da reconciliação e do pecado original364,” que implica numa política de comunidade sem, que tal implicação política resulte em nivelamento promovido por movimentos anarquistas, pois o nivelamento conduz à cristalização das disposições vitais e ao positivismo da lei, tanto na Igreja como no Estado.

Mas por este caminho a positividade é tirada apenas em parte; e entre os Xamãs de Tungo com a Igreja e o Estado governado por prelados europeus ou o mongol com o puritano e o [homem] que obedece ao mandamento do dever, a diferença não é que aqueles se fizeram servos e estes seriam livres, porém que aqueles trazem seu senhor fora de si, mas esses dentro de si, mas ao mesmo tempo é seu próprio servo; para o particular, impulsos, inclinações, o amor patológico, sensibilidade, ou como se quiser chamar, o universal é necessário e eternamente um estranho, um objetivo; ele permanece uma positividade que resta indestrutível, que se torna, por isso, completamente ultrajante, que o conteúdo que o dever obtém do mandamento do dever universal, um dever determinado, contém a contradição de ser ao mesmo tempo limitada e universal e que faz da forma da vontade universal para sua unilateralidade a mais dura pretensão (HEGEL, ECD, TWS, 1994, p. 323).

A lei positiva decorrente do Cristianismo moral deve ser superada, pois acarreta consequências para a vida social e política. Já ao analisar o destino do Judaísmo, Hegel mostra que os judeus não atingiram o estatuto de cidadãos pelo fato de se manterem na posição de dependência para com seu “[…] legislador invisível […] e nenhuma cidadania, que é a condição de toda a política, realizou-se naquela dependência” (HEGEL, EJ, TWS, 1999, p. 290). Pelo contrário, a implicação política promove a reciprocidade pela manutenção contante da força e das diferenças na Gegenseitigkeit (reciprocidade).

A implicação do Cristianismo na política também é constatada por Nietzsche, mas é criticada: “ - E não subestimemos a fatalidade que do Cristianismo se insinuou para a política! Hoje ninguém mais tem coragem para Direitos especiais, para Direitos de senhor, para um

páthos da distância… Nossa política está doente dessa falta de coragem! (NIETZSCHE, AC,

KSA, § 43, 1999, p. 218).” Nietzsche constata a influência do Cristianismo sobre a política como um fato frente ao qual anuncia um pathos de distância, ou seja, uma crítica, a fim de converter sua doença em coragem. O pathos da distância assegura a diferença, fundamental para a criação de novos valores que elevam a vida até a sua culminância. Neste sentido, Saul Newman observa que: “Para Nietzsche valores de equilíbrio e democracia […] surgem da revolta escrava na moralidade. Esses (valores) são gerados pelo mesmo espírito de vingança e ódio do poderoso. Nietzsche condena os movimentos políticos: como a democracia liberal, o

364

socialismo e o anarquismo”365. Tanto os movimentos contratualistas, por supervalorizarem a força do Estado sobre as disposições humanas naturais, como os movimentos anarquistas, por seu espírito de nivelamento, são ambos movimentos niilistas, pois impedem com que a força

Leistungsfähigkeit da qual se depreende a Vielfältigkeit inerente à natureza humana, se

manifeste, pela reconciliação e transvaloração, entendidos como abertura ao porvir, ao destino, como Gegenseitigkeit. Embora nos escritos de Nietzsche o Estado não ocupe papel central, é importante na medida em que, voltado às realidades orgânicas vitalistas, proporciona condições de uma crítica à moral da qual emerje uma cultura elevada. Pela noção de Reino de Deus Nietzsche acusa o Cristianismo de ter traído o seu fundamento, pois transferiu o Reino de Deus para outro mundo, em prejuízo de uma crescente depreciação para com as coisas do mundo da vida. Assim como o Estado absoluto, a “[…] Igreja é o ‘Anticristo’ que tem pervertido o Cristo original […] ela tem vendido Cristo para César e tornou-se a principal cúmplice do Estado em obrigar uniformidade.366” Logo, pelo pathos da distância se assegura a diferença entre as classes sociais e essa diferença impede o ressentimento provocado pelos movimentos da moral escrava, desde determinado contexto de Judaísmo, como o de Paulo e o de Lutero. Frente a essa doença provocada pelo ressentimento do movimento das massas, Nietzsche conclama à coragem: seu Anticristo não é assim uma nova fé contra o Cristianismo, mas uma Gaia Ciência que abre a mente com a devida distância crítica. Essa mesma distância é apresentada por Hegel mediante o movimento de reconciliação, por influência da tragédia grega; ele reconhece, no pathos, um erro trágico em que o protagonista é instigado pela culpa e pelo destino, o elemento verdadeiramente trágico grego “[…] é o paradoxo do reconhecimento voluntário da culpa na parte do protagonista – apesar da força arbitrária do destino367”. Enquanto Hegel reconhece, no pathos, um sintoma de doença, (hamartia) incapacidade e distância daquela coragem derivada da tragédia grega, Nietzsche, por sua parte, a fim de fugir daquele sentimento de resignação típico do pathos, interpõe o movimento da distância. Com isso se preservam as diferenças, que, mesmo em luta, atingem unidades representadas pela culminância da potência, ao passo que em Hegel o pathos da distância funciona como inclusão das diferenças reconciliadas. Assim, em Hegel e Nietzsche há uma visão bastante similar quanto à tragédia pelo pathos da distância como força

Leitungsfähigkeit que assegura as diferenças Vielfältigkeit: seja pela reconciliação entre as

diferenças via pathos, seja pelas unidades potenciais culminantes instantâneas, via oposição

365 Cf. NEWMAN, 2004, p. 108 366 Cf. KAUFMANN, 1968, p. 176 367

entre os impulsos artísticos apolínio e dionisíaco. Dessa oposição não emerge uma síntese, mas redes caóticas de pólos em luta em unidades recíprocas Gegenseitigkeit como sublimação (Aufhebung) estética368. O universal, social e cósmico é superado e guardado no individual369, ou seja, se afirma, nega e transcende, a fim de que o essencial cristão se presentifique no individual pessoal concreto. Com isso, evoca um movimento dialético que parte de um fato: o ethos cristão na política, que necessita de uma negação daquilo que no Cristianismo é doente, para atingir a sua reflexividade que é a coragem e a abertura para a criação de novos valores. De toda a sua crítica impetuosa ao Cristianismo salvaguarda a imediatidade do ethos cristão, como destino a exercer sua marca sobre a política. Esse ethos imediato supera o ressentimento pela transformação de nossas relações de poder que se dá pela afirmação do eterno retorno das mais duras realidades, como superação de tudo o que limita a acolhida do incerto como a mais alta conquista da plenitude da vida, que se expressa, como lembra Danko Grlik, em uma obra de arte que “[…] abole a oposição entre o passado e o futuro, ou mais exatamente, ao mesmo tempo que confere ao passado a marca de um devir aberto potencial, dá ao futuro a permanência, a solidez, a imutabilidade do passado.370” Assim, a natureza da coletividade deve ser compreendida como “[…] contingência de identidade – sua abertura para a diferença, para a sigularidade, para a individualidade – que é, em si mesmo, ética”371. É uma ética do

amor fati, da acolhida jubilosa suprassumida no instante eterno, que permanentemente perfaz

um movimento de transvaloração, em pontos vitais culminantes.

Jesus aparece como uma imediatidade. Sua presença, por mais indeterminada e original que seja, é decisiva para a instauração de um modelo ético com implicações políticas substanciais. Sua vida e ação, por mais original e imediata que se mostre em seus primórdios, é um fato, um todo universal a assumir pontos culminantes de vida – Lebenshöhepunke, culminância vital que se atinge através de sua prática, inaugurada a partir de seu modo de ser original, cândido, livre e simpatético. Por essa razão são inegáveis os efeitos da prática de Jesus que, com seu aparecimento simples, puro e original traz influências sobre a política.

Este santo anarquista, que conclamou o povo baixo, os excluídos e ‘pecadores’, a chandala no interior do Judaísmo, a contrariar a ordem dominante – com uma linguagem que, se pudéssemos confiar nos evangelhos, ainda hoje levaria à Sibéria - , foi um criminoso político, na medida em que criminosos políticos eram possíveis

368 A diferença básica entre a sublimação estética nietzschiana e a reconciliação hegeliana está em que, para esse último, a reconciliação não necessita ser bela, mas verdadeira, já para aquele primeiro a verdade se esconde por trás das aparências que se manifestam artisticamente.

369 Ibidem

370 Cf. GRLIC, 1973, p. 124 371

numa comunidade absurdamente apolítica (NIETZSCHE, AC, KSA, § 27, 1999, p. 198).

O ataque de Jesus contra a vida política de um povo particular, afeito a uma ordem estabelecida, a uma fórmula e uma doutrina, fez com que o último resquício daquela existência política fosse abalado a partir de suas bases. Com esse abalo, assiste-se ao nascimento de uma nova modalidade na vida ética: não mais afeita à hierarquia e à lei, mas à existência singular, que acolhe o destino em sua plenitude e amor em infindáveis pontos culminates vitais. Pois, como recorda Otto Pöggeler, ao se opor ao mundo a religião cristã é também apolítica, não podendo realizar aquilo que é o ideal de Hegel – o de ser a alma de um povo composta por homens livres372. Em outras palavras, há uma separação entre o político e o social: “O político só pode ser adequadamente separado do social com o advento dos estados monárquicos ou revolucionários centralizados […] claramente distintos da vida social de seus súditos”373. Jesus agiu como um verdadeiro revoluncionário374 na medida em que estabeleceu essa ruptura com a ordem até então estabelecida. Por mais que essa ruptura transpareça como ressentimento da parte de Jesus por defender o povo baixo, em última análise revela a inserção da política na religião, na medida em que a política se apresenta como prática cristã singular, como força Leistungsfähigkeit que, ao passar pelas diferenças

Vielfältigkeit se atualiza na abertura de redes recíprocas Gegenseitigkeit, de trocas sociais que

suprassumem as diferenças. Por essa razão, tanto Hegel como Nietzsche reconhecem, no espírito do Cristianismo, uma singularidade real e efetiva, que pode ser corrompida pela sua estrutura histórica, fazendo com que Deus se torne um estranho e moralizador: aquele mesmo problema que outrora Jesus criticou no Judaismo. Quais as consequências do positivismo da fé para o Cristianismo histórico?

Benzer Belgeler