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Uma unidade reconciliada mediante o movimento dialético tem, na lógica, a tarefa de operar a relação sistêmica dos diversos elementos de um sistema categorial. A lógica é uma crítica da razão pela própria razão e, ao mesmo tempo, o engendramento de todo o sistema categorial. Pela lógica se revela a idéia de que a realidade nada mais é senão a exterioridade da própria idéia. Com isso, Hegel constrói uma coextensividade entre o mundo numênico e o mundo fenomênico, superando a separação kantiana entre razão e inclinações, entre o mundo da inteligibilidade e aquele dos desejos. Essa superação leva a não mais conceber o mundo numênico, como um mundo estranho, alheio ao mundo sensível, mas coextensivo a este mundo, constituindo uma Vielfältigkeit (diversidade) que é a vida e que, em sua plenitude, se expressa como culminância de força. Tal culminância é reconciliação pela qual se alcança a

plenitude do ser, o todo orgânico, base para a constituição de um ethos340. É trágico, por não existir nesta reconciliação, um ponto final, mas uma fluidez que jubilosamente acolhe o destino: amor fati. A cada instante pleno de acolhida do destino se atinge pontos culminantes de potência, tornando a reconciliação sempre em movimento que se expressa como “[...] integração orgânica do negativo no positivo da vida ética [...] Hegel analisa, então, no seio da consciência singular, a condição de possibilidade de sua reconciliação absoluta com a plenitude ética”341. Há, no entanto, uma reconciliação, mas que coabita com o destino da não reconciliação, portanto do trágico. E isto confere à ética a sua dimensão de abertura à

Vielfältigkeit (diversidade) que implica em plenitude vital: Lebensfülle, para atingir

constantemente novos pontos culminantes: Lebenshöhepunke.

A vida que se abre à culminância da força tem a vontade como motor que, por sua constante insatisfação, a torna aberta a sempre agregar mais potência. A partir da noção de vontade de potência, como auto-superação da moral, se depreende um sistema em Nietzsche que consiste em romper os interditos que esta moral põe nos impulsos e instintos. A auto- superação, em Nietzsche, consiste num Monismo que supera o dualismo através da vontade de potência. É um Monismo não estático, fluído, supera o dualismo de forças em luta na vontade de potência que, por seu sentido altamente metafórico, muitos filósofos resistem em extrair dele uma filosofia. Nietzsche permanece em conformidade com a tradição342 no que diz respeito à essência daquilo que permanece sem mudança: a enérgheia e a vontade de potência. Poder e força é enérgheia que, pelo constante controle, abnegação e repúdio de um lado, e controle e sublimação de outro, constituem os pontos fundamentais na filosofia de Nietzsche na visão do caos: a sublimação que permite a harmonia orgânica da cultura que se transfigura na physis343. O Monismo dialético de Nietzsche, fundado na vontade de potência, atinge pontos culminantes e se aproxima da noção hegeliana de reconciliação dialética entre opostos: ambos rejeitam qualquer idéia de um Monismo, mas que seja aberto à expressão da diversidade pulsional, isto é, da Vielfältigkeit (diversidade). Por isso esse Monismo é compreendido como holismo. Perguntamos, contudo: qual o papel da razão no Monismo dialético de Nietzsche? Para além de uma identidade ou oposição à razão, a vontade de potência é “[…] potencialmente racional.344” Na vontade de potência estão presentes dois polos em oposição, a Vielfältigkeit (diversidade) como manifestação de uma força básica, a

340 Hegel vê na organicidade da natureza a superação das suas divisões numa unidade superior, numa eticidade suprema: “[…] a tragédia grega exprime a essência total da vida ética” (BOURGEOIS, 1986, p. 456). 341 Cf. BOURGEOIS, 1986, p. 499 e 507. 342 Cf. KAUFMANN, 1968, p. 221 343 Ibidem, p. 227 344 Ibidem, p. 235

enérgheia, a Leistungsfähigkeit (potencialidade) – algo que permanece para além de todos os

momentos da metarmofose. Com isso podemos admitir um Monismo dialético em Nietzsche sem comprometer o seu projeto filosófico de abertura e tensão vital constante. Na vontade de potência se compreendem numa visão plena os dois polos dualísticos anteriores. Por isso apostamos num paralelo com a Aufhebung de Hegel. A diferença entre os instantes nietzchianos da metarmofose e os momentos da dilética hegeliana está no fato de que a força básica de Hegel não é a vontade de potência, mas o espírito, não compreendido puramente como razão, mas como força criativa. Logo, não podemos reduzir a reconciliação hegeliana a um processo lógico nem a sublimação nietzschiana a um sentido psicológico. A culminância dessa aproximação se dá na síntese, entendida como essência potencial e múltipla do cosmos. Logo, a “[…] sublimação de Nietzsche envolve não menos do que a aufheben de Hegel, um preservar simultâneo, cancelando e elevando.345” Em outras palavras, a reconciliação hegeliana sempre aberta a novas reconciliações aproxima os pontos culminantes de potência nietzchianos, abertos a sempre novos pontos. Essa essência fundamental toca a lógica de Hegel e a psicologia de Nietzsche e, por ser a lógica da juventude de Hegel ainda bastante inicial, dista daquela sistematização própria de sua filosofia da maturidade e aproxima-se do vitalismo pulsional de Nietzsche.

Logo, em torno à lógica hegeliana e à psicologia nietzschiana, se depreende um núcleo fundamental comum: um Monismo dialético, que se apresenta como força Leistungsfähigkeit (potencialidade) que mantém a Vielfältigkeit (diversidade) de pólos em oposição que, em cada metamorfose do processo, alcança uma reconciliação aberta a novas reconciliações, expressas em pontos culminantes de potência, a Lebenshöhepunkte, que constitui a vida em sua plenitude, a Lebensfülle. A vida só consegue atingir a sua plenitude através da manifestação da culminância da força na medida em que não se submete à autoridade de um estranho – uma vontade enferma, mas que se constitui enquanto vontade que quer – vontade de potência. Novamente uma pergunta: como essa vontade, entendida como uma lógica da plenitude e culminância da vida, é capaz de constituir uma ética cristã? E como essa ética, pela culminância da vida Lebenshöhepunkte, se expressa na lógica?

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3.3.4 A expressão lógica do ethos cristão na Lebenshöhepunkte como Vielfältigkeit

Benzer Belgeler