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De acordo com Tillich, o cristianismo se separou do dualismo pagão desde os primórdios, como fica claro no primeiro artigo do Credo Apostólico: “Creio em Deus Pai Todo Poderoso, criador do céu e da terra”:

Deveríamos pronunciar essas palavras com grande reverência, porque, por meio dessa confissão, o cristianismo se separou da interpretação dualista da realidade presente no paganismo. Não há dois princípios eternos, o princípio mau da matéria tão eterno como o bom princípio da forma. O primeiro artigo do Credo é a grande muralha que o cristianismo ergueu contra o paganismo (HPC:41).

A declaração de Tillich é muito importante, na medida em que mostra a sua valorização da idéia de Criação para a constituição fundamental da tradição cristã. Essa

doutrina servia para reunir firmemente a revelação redentiva, centrada em Jesus Cristo, e a ordem natural, em sua estrutura essencial. Tal reunião viria a colocar qualquer possível reflexão sobre o mal entre dois anteparos: a bondade essencial da criação e a universalidade da Redenção. Poderíamos até mesmo dizer que esses dois termos “induziram” a criação de uma doutrina da Queda. Bastava que eles fossem submetidos a uma tensão, o que não demorou a acontecer.

Como o próprio Tillich, observa, o embate com o gnosticismo foi um dos mais graves conflitos enfrentados pelo cristianismo, ao longo de toda a sua história. Essa forma altamente sincrética de pensamento religioso ameaçou o cristianismo ao reinterpretar seus conceitos fundamentais em termos de sínteses criativas de idéias neo- platônicas e estóicas com elementos originários das religiões de mistério que pululavam em torno do mediterrâneo e crenças originárias da pérsia, como o dualismo metafísico e o “mito do homem primal”. Em termos sumários, o gnosticismo via o mundo criado como essencialmente mau (HPC:54), estabelecendo uma oposição entre Deus Pai e Deus Salvador. A teoria gnóstica foi descrita como a blasphemia creatoris (HPC:60).

Para enfrentar esse desafio, entraram em cena os Pais Antignósticos, especialmente Irineu e Tertuliano. Na perspectiva dos Antignósticos, a questão do pecado deveria ser respondida em termos de uma história da salvação (HPC:62), isto é, em termos eventuais, e não ontológicos. Assim, Tertuliano sustentou que o pecado seria obra da liberdade humana, e não uma estrutura criada (HPC:61). E Irineu construiu uma grande narrativa histórico-salvífica centrada no conceito de recapitulação (anakephalaiosis), segundo o qual o plano de Deus, iniciado em Adão mas frustrado pela Queda, vem a ser completamente realizado em Cristo, o homem essencial (HPC:63).

Em Adversus Haereses, Irineu ataca a concepção gnóstica de uma “salvação” das almas para fora do tempo e da matéria, estabelecendo uma conexão entre a criação e a redenção. Um mesmo Deus cria e salva; e não podem haver dois deuses, pois se Deus não é o criador, não irá salvar a criação. Irineu negava ainda que a queda fosse necessária, sendo vista como um acidente e um desastre não necessário para a realização da plenitude do plano de Deus. Essa compreensão básica da “metanarrativa bíblica” como a tríade “Criação-Queda-Redenção” pode ser encontrada também em Agostinho e desde então tem lugar firme na tradição da igreja, chegando até o século XX.

Sob a ótica cristã, dificilmente será possível apreciar a verdadeira natureza da criação se não for possível distinguir o quê, na criação, reflete a vontade original do criador e o que é a desordem não necessária; igualmente, não se pode falar sobre o sentido da salvação cristã sem reconhecer adequadamente “o que” precisa ser salvo e “como” isso será realizado. Essa reflexão reflete, enfim, a unidade da divindade. Tillich indubitavelmente reconheceu a importância teológica da distinção entre Criação e Queda implícita na tríade criação-queda-redenção. Tratando a respeito da natureza da razão, ele destaca a coerência entre criação e redenção:

A criação contém o logos, mas se a redenção contradisser a criação, será Deus que se contradirá a si mesmo [...] A igreja quase foi destruída nos primeiros séculos na luta para preservar a bondade da criação, em outras palavras, para manter a estrutura da realidade como um todo baseada no logos. A igreja conseguiu, finalmente, superar a tentação do dualismo, classificando como tentação demônica, por causa da ruptura na divindade entre o Deus bom e o Deus mau. (HPC:52).

A visão de uma coerência fundamental entre criação e redenção capacita Tillich a afirmar a coerência entre o logos da criação e a revelação, e isso é evidentemente decisivo para o seu método teológico, pelo menos enquanto justificativa teológica. Quanto a isso, sabemos que Tillich se põe ao lado dos pais antignósticos contra

Uma definição adequada da criação e da redenção, no entanto, exigirá definições claras a respeito da queda. Não é possível dizer adequadamente em que consiste a bondade do logos, que deve ser coerente com a revelação, se não sabemos identificar a presença do mal no mundo. Com percepção aguda, Tillich observa que “A blasfêmia do criador, nova ou antiga, baseia-se sempre na confusão da bondade do mundo criado com a sua distorção” (HPC:81), ou seja, na incapacidade de diferenciar corretamente o mal da criação. Isso nos leva diretamente ao problema da Queda. E na Teologia Sistemática Tillich introduz o assunto afirmando que “O símbolo da queda é um capítulo decisivo da tradição cristã” (TS, 2005:324). Não pode haver dúvida, portanto, de que Tillich

aceita a existência de um símbolo cristão da Queda, que o considera importante para a

Teologia, e que pretende manter sua interpretação desse símbolo dentro da tradição

dos pais antignósticos, no que se refere à diferenciação de Criação e Queda.

Outra contribuição importante do período patrístico, para Tillich, foi o pensamento neoplatônico sobre o mal e o pecado. O neoplatonismo influenciou profundamente Orígenes, Agostinho, Dionísio Areopagita, e todo o misticismo cristão, atraindo a atenção de Tillich (HPC:68). Em primeiro lugar, percebe-se a afinidade de Tillich com a noção agostiniana de mal, que teria no neoplatonismo uma de suas fontes:

A fonte do mal é o abandono do nous pela alma na direção da matéria, do reino corpóreo. O mal não é poder positivo. É a negação do espiritual. É participação na matéria, não-ser, participação no que não tem poder de ser em si mesmo. O mal aparece quando a alma se volta para o não-ser. Nem os gregos nem os cristãos admitiram que o mal pudesse ter realidade ontológica [...] Quando se faz esta afirmação, venha ela de Plotino, de Agostinho, ou de mim mesmo, argumenta-se que nesse caso o pecado deixaria de ser levado a sério [...] (HPC:71).

Tillich observa que o não-ser não é o “imaginário”, mas algo real, que pretende, no entanto, negar a essência do real. Mas a essência seria boa. Ele cita Agostinho: esse

(HPC:71). 44 É a falta, a pobreza, a ausência de poder de ser. A alma apresenta uma ambigüidade, sendo capaz de voltar-se para o nous e assim para o Uno divino, ou “cair” no não-ser, isto é, a particularidade da matéria (HPC:70). Segundo Tillich, as idéias neoplatônicas influenciaram profundamente o pensamento e o misticismo cristão (HPC:72) e, de fato, são nítidas as associações metafísicas com Schelling e com Tillich no que tange à concepção do mal, da natureza da divindade e da liberdade da alma.

Tillich comenta as idéias de Orígenes sobre a Queda. Esta teria ocorrido, quando, na linguagem origenista, os espíritos racionais e livres romperam a sua unidade com Deus e caíram, recebendo corpos materiais. Trata-se, pois, de uma Queda

transcendente, na qual cada um é responsável individualmente, e a liberdade individual

é preservada. Essa Queda se torna temporal nas decisões de cada pessoa, em seus atos, que a representam. Esta seria a origem do pecado, portanto. Tillich se sente atraído pela estrutura geral da solução origenista, na medida em que ela explica a origem do mal em termos metafísicos:

Se perguntarmos: De onde procede a queda? Por que é universal? Por que não há exceções? A resposta deve ser: Porque a queda precede a criação da mesma maneira como vem depois dela [...] Mitologicamente, a queda não se deu no espaço. Trata-se da transição eterna da união com Deus para a separação de Deus [...] A queda transcendental se realiza por meio de atos especiais no plano histórico [...] É um destino que, como todo destino, une-se à liberdade (HPC:77-78).

Em Orígenes teríamos dois mitos distintos: o da Queda transcendental e o da Queda histórica sendo, esta última, a realização temporal da primeira. Haveria, portanto, um fundamento ontológico, ou semi-ontológico, para a Queda. Tillich identifica-se com

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Há, possivelmente, uma ligação do mal com a divindade, desde que o Uno divino, como o que está além de toda particularidade, “[...] é o abismo de todas as coisas específicas, onde desaparecem todas as coisas definidas” (HPC:69). Assim, Schelling mostrará que o juízo e a salvação de Deus sobre a vontade finita que se opõe a Deus ocorrem simultaneamente, em sua anulação como vontade distinta. E em Tillich encontraremos o “pólo meôntico do ser”.

a solução origenista, interpretando-a em termos das polaridades ontológicas de seu sistema.