A finitude implica a possibilidade de ruptura; a possibilidade do desequilíbrio das polaridades, da perda do eu e do mundo. Mas não implica, de modo algum, a sua necessidade. Assim Tillich é muito claro em apontar que a finitude é algo pensável, algo essencial. É possível conceber o ser finito sob a ameaça da ruptura, mas não rompido; em tensão, mas em equilíbrio. Ora, é da característica do pensamento essencialista que ele nos dá o que é possível, embora não o que é concreto. Mas isso significa que, sem dúvida, a relação do ser com o não-ser na finitude é essencial e que, na essência, a finitude é equilibrada; a possibilidade da ruptura pressupõe a presença do equilíbrio.
Mas vamos definir melhor os termos: “essência” é o ti estin, ou quid est de algo.
Essentia é o que conhecemos sobre algo, a particularidade não temporal de uma coisa
temporal e mutante, a substância que define a possibilidade de algo. A essência não pode, no entanto, implicar existência. Não é possível demonstrar logicamente esta conexão (MW1[EPh]:357).
O que, então, distingue a concepção essencial da finitude da concepção empírica, que reconhece a realidade de uma ruptura de todo ser finito, como um dado universal? Alguns filósofos negam que “exista” algo além do que “existe”; que o que é, é exatamente o que deve ser. Mas no próprio ato de atribuir “falsidade” a uma forma de pensar, põe-se uma lacuna entre o que “deveria ser” e o que “é”, lacuna impossível de ser explicada, se temos apenas conceitos positivos, para descrever a realidade: “Como pode o ser, que inclui em si a totalidade de sua realidade concreta, conter sua própria distorção?” (TS:210).
Esta pergunta nos leva diretamente para o que Tillich denominou “o problema existencialista”. Tillich observa que a raiz da palavra “existir” é o latim existere, “estar fora de”; existir seria “estar fora do nada”. Como vimos há pouco, haveria duas formas de “ser”: estar fora do nada absoluto (ouk on) ou do não ser relativo (me on). Para Tillich, se algo existe, está fora do não-ser absoluto, mas não pode estar totalmente fora do não-ser; o ser finito é a “mistura” de ser e não-ser.
Tillich recorreu às categorias aristotélicas de potência e ato para explicar essa relação entre to-on e me-on.63 Tudo o que é possibilidade ou potencialidade pura é o não-existente; mas, é, por outro lado, a soma de todas as possibilidades em forma perfeita; é, assim, ser essencial. As coisas que vem à atualidade, no entanto, são “mais” do que o potencial, num sentido, pois estão separadas por um “salto” qualitativo; mas são menos do que poderiam ser, em sua possibilidade essencial. O ser “puro” é a possibilidade de ser de todas as coisas, tanto em sua essência como em existência: “[...] tudo participa do ser, seja que exista ou não” (TS:316). Mas o existente, o que se atualizou, tem menos potência que a essência pura. O existente seria aquele no qual o
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“[...] de Aristóteles, para o meu pensamento teológico [eu tenho recebido] a distinção entre as duas principais formas de ser, isto é, ser potencial e ser atual. E isto permeia todo o meu pensamento” (MW1[PBT]:416).
poder de ser se torna manifesto, mas no qual a potencialidade jamais é completamente atualizada, de modo que o existente ainda não é, sendo uma mistura de ser e não-ser relativo (me-on).64
O que, afinal, possibilita este “salto”? Desde que a razão lida apenas com possibilidades (Essentia est possibilitas); só na atitude ética as possibilidades são restringidas e uma possibilidade é especificada; a liberdade faz a transição para a existência, não a razão (MW1[EPh]:359).
Deus seria o único “ser” no qual não há o conflito de essência e existência. Ele não “existe”, pois isso o tornaria também separado de sua essência, como os entes finitos65; mas também não é pura essência, do contrário não poderia se auto-atualizar. Já o universo está sujeito a esse conflito, sendo que aqui teríamos exatamente a localização da doutrina da queda de Tillich:
Só Deus é ‘perfeito’, uma palavra que é definida exatamente assim: estar além da ruptura entre ser essencial e ser existencial. Nem o homem nem o mundo têm esta perfeição. A existência de ambos está fora de sua essência como numa ‘queda’. Neste ponto, as valorações platônica e cristã coincidem (TS, p. 261).
Fica, portanto, evidente, que o conceito de queda de Tillich está ligado à
distinção de essência e existência, e que Tillich estabelece neste conceito uma conexão
entre o tipo de perspectiva encontrada no pensamento grego e no cristianismo. A distinção entre essência e existência teria sido negada nas diversas formas de “essencialismo”, tipificadas em Hegel, que pressupõe uma perfeita presença essencial na existência e nega a realidade da ruptura. E teria sido “recolocada” na filosofia, por assim dizer, através do pensamento existencialista, que aponta a realidade e
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A consciência dessa distinção fundamental estaria presente já antes de Platão, na distinção entre o nível “essencial” e “existencial” da realidade. A essência seria o potencial, e o existir seria o estar fora da potencialidade, implicando em perda relativa da essência.
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profundidade da ruptura. Mas seria a chave e o critério pivotal em todo o sistema de Tillich, conforme ele mesmo o declara numa passagem crucial:
A diferença entre essência e existência, que, religiosamente falando, é a diferença entre o mundo criado e o mundo como efetivamente é, constitui a espinha dorsal de todo o corpo do pensamento teológico. Por isso, ela deve ser elaborada em cada parte do sistema teológico (TS:212).
Temos, pois, que a distinção essência-existência em Tillich é considerada por ele como a espinha dorsal do pensamento teológico, que deve ser elaborada em todo o sistema. Por meio dela, poderíamos dizer, o teólogo é habilitado a diferenciar a finitude essencial da finitude existencial, obtendo um princípio crítico para a compreensão da realidade sob a perspectiva cristã da bondade da criação, e da liberdade humana.