É inegável que os fatores econômicos internacionais colaboraram de maneira significativa para a redução da dívida pública em proporção do PIB. Pelos menos quatro fatores, segundo Filgueiras e Gonçalves (2007), foram importantes para a redução observada, pelo menos, a partir do ano de 2004 até 2006. São eles:
O Tripé que envolve redução da taxa de juros, crescimento da economia e a continuação da apreciação cambial;
Redução da dívida externa em valores absolutos e em proporção do PIB; Os saldos favoráveis da balança comercial, que, como não poderiam deixar
de ser, possibilitaram o aumento das reservas cambiais em dólares e permitiram que o governo pagasse parte do principal da dívida;e
O último aspecto revela que a obtenção de superávits primários em níveis maiores que os do período anterior (FHC) não foi suficiente para reduzir a dívida pública total, apesar da redução em proporção do PIB.
Entende-se que a redução da dívida em termos relativos se deu, principalmente, por conta da redução da dívida externa líquida do setor público. E isso só foi possível devido aos superávits na balança comercial e, consequentemente, ao aumento nas reservas cambiais. Dessa forma, fica perceptível que alterações nos ciclos econômicos internacionais são perigosas para a economia, pois podem afetar o balanço de pagamentos e, por conseguinte, contribuir para o aumento da dívida pública tanto em termos relativos quanto absolutos.
Cabe salientar que há uma estreita relação observada entre a política econômica do governo Lula com seu sucessor. De acordo com Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 107):
O governo Lula não moveu um milímetro para alterar a essência do modelo de desenvolvimento, caracterizado, sobretudo, pela dominação lógica financeira e pela vulnerabilidade externa estrutural. O custo da política econômica, condicionada (e articulada) fortemente pela (e com a) abertura comercial-financeira, resulta em um dos mais pífios desempenhos em termos de taxa de crescimento do PIB entre os países em desenvolvimento, além da manutenção de taxas de desemprego ainda muito elevadas e do crescimento da dívida pública interna.
Ao que se sabe, em troca da redução da dívida externa, o país aumentou sua dívida interna. A dívida interna apresenta prazos menores de pagamento e juros maiores. Como se pode perceber no gráfico 5, embora a dívida externa tenha se reduzido, a dívida interna seguiu trajetória ascendente.
Gráfico 6: Dívida interna (líquida) x Dívida externa (líquida) – 2003 a 2010: Saldo em R$ bilhões
Fonte: IPEADATA. 4.3 Políticas sociais
As políticas sociais do governo Lula, da mesma maneira como aconteceu no governo anterior, priorizaram a focalização, em detrimento da universalização. Por
742,40 829,30 972,10 1.147,90 1.410,10 1.500,70 1.655,20 1.835,50 189,70 153,20 67,90 -27,80 -198,30 -332,50 -292,50 -359,70 -500,00 0,00 500,00 1.000,00 1.500,00 2.000,00 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
isso, as ações em algumas áreas têm relação direta com o modelo herdado de FHC. De acordo com Druck e Filgueiras (2006, p. 10):
A lógica e o discurso são de que o Estado deve dirigir suas ações para os mais pobres e miseráveis – conforme o estabelecimento de uma linha de pobreza minimalista, empurrando os demais para contratação de serviços de mercado (saúde, educação e previdência principalmente). Na verdade, a classe média (inclusive parte da chamada classe média baixa), há tempos supre no mercado suas necessidades (em particular com escolas e planos de saúde privados), não fazendo o uso dos serviços ofertados de forma precária pelo estado.
A educação superior pública gratuita, por exemplo, é um eixo que suscita as mesmas discussões, ou seja, de que os ricos estudam na universidade pública e os pobres estudam nas universidades privadas, e que o melhor seria a cobrança de mensalidade, a fim de destinar os recursos para o primeiro e o segundo graus. No entanto, há um equívoco ao se afirmar que os ricos se concentram nas universidades públicas, quando, na realidade, são os integrantes da classe média, considerados como ricos, que se encontram, em grande maioria, tanto nas instituições públicas como nas privadas. Nesse caso, há uma superestimação de indivíduos e famílias pobres, quando se quer desqualificar a universidade pública; mas, quando se trata da transferência de renda, há uma subestimação (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007).
O crescimento do número de instituições privadas durante o governo FHC criou o problema da ociosidade de vagas, o qual encontrou solução no Programa Universidade para Todos (PROUNI), do governo Lula. Funciona da seguinte maneira: as instituições privadas com número de vagas superior à demanda recebem desoneração fiscal e oferecem bolsas de estudo aos estudantes de menor renda, que não têm condições de arcar com o valor das mensalidades. Trata-se, mais uma vez, de favorecimento ao setor privado.
O “irmão” do PROUNI, o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades (REUNI), lançado em 2007, faz menção à expansão da universidade pública, como o próprio nome diz. Mas o que parece é que a expansão só se deu no número de vagas, pois os investimentos não cresceram na mesma proporção. Os estudantes que entraram a partir dessa expansão convivem ou conviveram com problemas estruturais, como o número insuficiente e a improvisação de salas de
aula, a falta de laboratórios e de restaurantes universitários, além do mais importante: a carência de professores.
O quadro a seguir traz o exemplo da experiência do campus de Palotina da Universidade Federal do Paraná (UFPR):
Quadro 3: A experiência do REUNI
Fonte: Adaptado da revista Universidade e Sociedade do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES – SN) nº 51, março de 2013.
A reforma agrária, por sua vez, devido ao recente desempenho da economia brasileira como uma das maiores exportadoras do mundo, ficou esquecida mais uma vez. Todo o apoio ao modelo agroexportador (créditos, perdão fiscal, infraestrutura) dado pelo governo Lula restringe toda e qualquer ação mais efetiva no tratamento do problema. Nas palavras de Gilmar Mauro, dirigente do MST, não existe Plano Nacional de Reforma Agrária; o que existe, de fato, é uma política de assentamentos, e a estrutura fundiária permanece a mesma. Ele ainda salienta que, apesar das conquistas alcançadas, não é possível caracterizá-las como reforma agrária. (MAURO, 2010).
Fernando Henrique Cardoso usou a seu favor o Plano Real e, com Lula, não poderia ser diferente; mas, nesse caso, é o Bolsa Família que passa a ser o maior
[...] Segundo informações apresentadas pelos docentes, atualmente faltam 13 salas de aula para o campus suportar 2.120 estudantes até o ano de 2015. No entanto, atualmente mesmo com o número a 1.500 alunos, sente-se a ausência de salas para dar suporte aos cursos e aos alunos já presentes, bem como é insuficiente a existência de algumas salas de aula, desde já utilizadas, por seu tamanho não suportar o número de alunos em algumas disciplinas. Na tentativa de adaptar-se a estas situações, para a primeira encontra-se como solução a união de turmas de diferentes cursos, em disciplinas básicas compartilhadas, enquanto para a outra situação faz-se a divisão das disciplinas em pelo menos duas turmas. Situações estas que resultam, entre outras questões, no excesso de trabalho do docente e na dificuldade de acesso deste por parte dos estudantes.
Nota-se também a falta de estrutura e a necessidade de improvisação no campus ao voltar- se para um prédio adquirido no decorrer da implantação do REUNI, espaço chamado de Seminário, cuja ocupação fora necessária porque havia atraso nas obras de todo campus. A ocupação que a princípio foi indicada como temporária permanece até hoje e passou a ser também local de instalação de laboratórios e do restaurante universitário.
A falta dos mais diversos laboratórios imprescindíveis às atividades práticas e a carência de ambientes ideais para o desenvolvimento das atividades acadêmicas já existentes nos
campus, fazem com que o cotidiano da pesquisa, ensino e extensão seja constantemente
interrompido. Nestas situações criam-se e se mantêm laboratórios dentro de espaços que foram banheiros do campus [...].
aliado do Lulismo. Esse programa nada mais é do que a unificação dos programas sociais focalizados da era FHC. Fica claro o caráter paliativo e político desse tipo de programa, como explicam Druck e Filgueiras (2006, p. 13):
O Bolsa família se constitui, de fato, numa política assistencialista e clientelista e, portanto manipulatória do ponto de vista político, em particular em se tratando do seu público alvo: uma massa de miseráveis desorganizada e sem experiência associativa de luta por seus direitos.
Outro ponto que merece ser destacado diz respeito à diferenciação entre política de Estado17 e política de governo. A primeira está protegida juridicamente contra cortes orçamentários, enquanto a segunda tem caráter transitório e está sujeita às decisões de governo. Utilizando mais uma vez análise de Druck e Filgueiras (2006, p. 13):
A renda transferida às famílias não se constitui num direito social, podendo ser reduzida e/ou retirada a qualquer momento, ao sabor dos interesses de cada governo – bem ao gosto da política fiscal liberal-ortodoxa, que não concorda com nenhuma vinculação orçamentária entre receita e despesa; com exceção, obviamente, do pagamento dos juros da dívida pública (a lei de “Responsabilidade Fiscal” tem exatamente esse objetivo).
A lei de Responsabilidade Fiscal foi criada para conter os ânimos do FMI, dada a crise da desvalorização do Real, em 1999. Através dessa lei, ficam garantidos os interesses dos credores do Estado, e as políticas com fins sociais ficam em segundo plano. Portanto, a lei de Responsabilidade Fiscal é um instrumento perverso, que impõe aos governantes tanto no âmbito estadual como no municipal um arrocho nos gastos sociais, mas “[...] não impõe nenhum controle ou sanção aos que decidem a política de juros e elevam a dívida pública do país em favor dos credores nacionais e internacionais” (PAULANI 2003, p. 58).
As análises feitas pelos estudiosos aqui citados forneceram elementos importantes, os quais ajudam a entender em que molde se realizaram as políticas sociais do governo Lula. O termo “focalização” é a palavra que melhor define o caráter das políticas que são crivadas pelo ajuste fiscal permanente e pelos desmandos do Banco Mundial. Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 174) defendem que o governo, ao optar por esse caminho, deixa de lado as questões relativas aos problemas estruturais da pobreza, bem como a relação entre as classes sociais.
17
Estão entres as políticas sociais de Estado o Regime Geral de Previdência (RGPS), o Sistema Único de Saúde (SUS), o Ensino Fundamental e os Benefícios de Prestação Continuada (BPC) da Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS). Para maiores detalhes sobre análise acerca das políticas sociais do governo Lula, ver Filgueiras e Gonçalves (2007).