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O desempenho esdrúxulo do crescimento do PIB, característico de toda a era FHC, enfatiza mais uma vez a face das políticas econômicas ortodoxas, como chama atenção Filgueiras (2006a).

[...] A dificuldade crescente com as exportações ante o avanço da importação gerou um quadro complexo de déficit comercial [já discutido ], o que complicou ainda mais a sustentação do crescimento econômico diante das altas taxas de juros. A reversão da situação exigia não apenas a mudança do regime cambial, mas a queda nas taxas de juros, com a adoção de uma política de estímulo à produção e ao emprego nacional. Nada disso, todavia, ocorreu.

O regime cambial brasileiro permaneceu inalterado até o ano de 1999, mas, devido às diversas circunstâncias relacionadas às sucessivas crises internacionais, não foi mais possível sustentar o regime de câmbio fixo. Isso ficou evidente após a crise russa, pois a estratégia de manter a taxa de juros em níveis elevados, a qual dava sustentação à âncora cambial, não era mais eficaz no controle dos ataques ao Real (FILGUEIRAS, 2006a).

Devido à abertura econômica e à âncora cambial a piora nas diversas variáveis macroeconômicas ficou visível, inclusive no crescimento do produto a taxas pequenas (gráfico3) - o qual por sua vez, implicou no aumento das taxas de desemprego, ocasionado pelo fechamento dos postos de trabalho - e no crescimento insuficiente da ocupação no comércio e nos serviços. O aumento da população economicamente ativa, que se faz pela entrada de milhões de pessoas no mercado de trabalho, todos os anos, ensejava um crescimento do PIB a taxas maiores do que as observadas (FILGUEIRAS, 2006a).

Gráfico 3 – Variação do PIB (%) – 1994 a 2002

Fonte: IPEADATA.

Em relação às leis trabalhistas brasileiras, Pochmann e Borges (2002) enfatizam que o processo de desregulamentação do mercado de trabalho ocorreu

5,33 4,42 2,15 3,38 0,04 0,25 4,31 1,31 2,66 0 1 2 3 4 5 6 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002

sob a égide de que elas estavam atrasadas e do elevado custo do trabalho, o que, na verdade, não parece ser verdade, pois, através dessa manobra, foi possível não só modificar a CLT, mas também estabelecer novas modalidades de contrato de trabalho sem a parte do salário, como, por exemplo, o Sistema Simples e o contrato por tempo determinado.

Outro ponto deve ser comentado: a questão dos rendimentos. Devido a uma série de questões relacionadas – como, por exemplo, a ausência de crescimento econômico sustentado somado à expansão do desemprego –, a maior escolarização e a qualificação da oferta da mão de obra desencadearam maior concorrência no interior das classes trabalhadoras, levando a piora da parcela salarial na renda nacional. Nesse contexto, o efeito das políticas de desregulação do mercado de trabalho, somado ao chamado processo de terceirização das definições salariais e ao enfraquecimento do poder dos sindicatos, contribuiu para a queda nos rendimentos do trabalho. (POCHMANN; BORGES, 2002).

No bojo de todas as transformações impostas à regulação do mercado de trabalho, não poderia ser deixada de lado a reforma da Previdência. A Proposta de Emenda Constitucional 3315, que tratava da reforma, previa uma série de mudanças na maneira como as aposentadorias se dariam. As principais mudanças inseridas foram: aumento da idade mínima para aposentadoria (60 anos para homens e 55 para mulheres); a substituição da aposentadoria por tempo de serviço pela aposentadoria por tempo de contribuição (35 anos para homens e 30 para mulheres); e a instituição de limite de idade para a aposentadoria integral dos servidores públicos (53 anos para homens e 48 para mulheres). No primeiro momento, a reforma da Previdência Social prejudicou mais os trabalhadores do setor privado.

Para toda e qualquer reforma danosa à sociedade, sempre havia algum argumento. No caso da Previdência não foi diferente. E qual foi o argumento utilizado?

A Previdência Social foi apontada como a causadora do déficit público, portanto, era uma questão de ajustamento das contas do governo. Mas isso é

apenas um argumento do governo. Não se pode aceitar tudo o que é posto sem antes fazer uma investigação. O estudo intitulado A reforma da previdência: a verdade nua e crua, do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (UNAFISCO SINDICAL), desmente todos os argumentos do governo.

O estudo comprova que o governo comete um grave erro quando computa, pelo lado das receitas, somente o que é obtido com contribuição previdenciária, enquanto que, do lado das despesas, são somados os encargos previdenciários aos de natureza assistencial. As receitas destinadas à seguridade social, diferentes das de Previdência Social, são obtidas através de várias fontes, sendo o consumidor a principal delas. Por isso, não se pode justificar a reforma da previdência criando falsos argumentos. O principal objetivo da reforma da previdência é a criação de um mercado privado, visando tão somente beneficiar o capital interessado nesse filão.

4 Uma “esperança” chamada Lula

Após oito anos da era FHC, os grupos de esquerda ensejavam uma virada nas políticas que dilapidaram econômica e socialmente o país. Todas as esperanças, “até certo ponto”, voltaram-se a favor da figura do candidato Luís Inácio Lula da Silva. A história política de Lula o credenciava como representante das classes mais organizadas da sociedade: líder sindical na década de 1980 esteve sempre presente nas lutas por melhores condições de trabalho do operariado do ABC paulista e redemocratização do país.

Para tornar viável sua candidatura (e, posteriormente, a vitória), Lula se submeteu a acordos políticos que nada tinham a ver com seu passado. O mais famoso deles foi a “Carta ao povo brasileiro”, documento endereçado aos credores internacionais e não ao povo, como seu título queria passar. Fato não menos grave foi a aliança com o Partido Liberal, que trazia para a chapa que compunha a candidatura, como vice-presidente, um dos maiores empresários brasileiros, representando, dessa forma, um acordo com os setores mais conservadores da sociedade. A ideia de vencer as eleições parece ter virado obsessão e oportunidade, já que o principal adversário, o PSDB de Fernando Henrique, caminhava para o final de sua era com a imagem muito desgastada.

Por essas atitudes, sepultava-se de vez toda e qualquer esperança de um movimento que simbolizasse a ruptura. O que se viu foi um processo de aceitação e continuidade do modelo econômico do governo anterior.

Celebradas as alianças e os acordos, que respaldavam a candidatura perante os poderosos setores da economia, era preciso conquistar o apoio popular, principalmente da faixa que ainda tinha rejeição ao candidato Lula. Para tanto, foram utilizados recursos astronômicos, em uma grande e bem sucedida campanha publicitária.

Enfim, a vitória veio após três tentativas frustrantes, mas consolidou a virada à direita de um partido que nasceu em meio às lutas populares. De acordo com Boito Jr (2005, p.11-12):

Ao contrário do que têm afirmado ou sugerido os intelectuais progressistas e revolucionários que têm criticado, de modo pioneiro e corajoso, o governo Lula, a mudança de orientação do Partido dos Trabalhadores, de seus aliados e integrantes da equipe governamental não é recente e nem pode ser pensada como uma simples mudança de orientação desses políticos profissionais. Essa mudança de orientação faz parte de um processo mais o longo e mais profundo.

Dessa maneira, o processo de mudança do PT não pode ser visto como algo novo, pois já vinha ocorrendo paulatinamente ao longo dos anos, nos quais o partido foi emplacando vitórias nas eleições municipais e estaduais e seus políticos foram se transformando em políticos profissionais. Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 186) explicam dessa forma a transformação que o partido sofreu ao longo dos anos:

Concomitantemente, a institucionalização do PT prosseguiu, com vitórias eleitorais em municípios e estados importantes, configurando-se uma escalada progressiva que o transformaria em mais um partido da ordem. Para isso, o PT teve que passar por transformações internas fundamentais, com enorme centralização das decisões e o enquadramento das suas tendências mais a esquerda pela tendência majoritária (Articulação). Este processo político interno reduziu o espaço de debates, formulações e questionamentos, cuja expressão maior foi a destruição dos núcleos de base que formavam o partido.

Portanto, Lula era visto apenas como uma mera esperança, dadas as transformações petistas ao longo do tempo.

4.1 A política macroeconômica do novo governo

A política macroeconômica do governo Lula foi a mesma do segundo governo FHC e sustentava-se num tripé básico que envolve: metas de inflação, ajuste fiscal e regime de câmbio flutuante(FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007).

A melhora observada na balança comercial, pelo menos no primeiro governo, possibilitou, sobretudo, uma melhora no saldo de transações correntes. Aproveitando-se desse contexto, o cenário macroeconômico brasileiro ficou menos instável, e os elementos que tornaram possível a melhora da balança comercial foram: “[...] a desvalorização cambial de 2002, o crescimento das economias americana e chinesa, recuperação da Argentina e disparada dos preços das commodities” (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007, p. 102).

Benzer Belgeler