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No último século, se observa uma alteração no processo produtivo e na inserção do indivíduo na sociedade. A forma de organização, basicamente familiar, informal e rudimentar, foi substituída, em grande escala e mais notoriamente nas últimas décadas, pela organização formalmente constituída e com pessoas contratadas para geri-las ou nela trabalharem em atividades operacionais.

Em obras que tratam do assunto aqui referidas, há uma busca em conceituar o que se entende, hoje, por organização enquanto entidade formalmente constituída. Observam diversos e diferentes aspectos na intenção de decifrar a complexidade e o grau de flexibilidade engendrados em sua estrutura de funcionamento, nos processos internos e na maneira de agir, e como ela se desenvolveu.

Normalmente, o grau de flexibilidade mostra o quanto ela pode sofrer alterações em seu ambiente interno e quanto menos flexível mais se aproxima do conceito de Weber de organização burocrática.

Para Weber (1944), as formações sociais37 como Estado, cooperativas,

companhias, fundações, são desenvolvimentos e entrelaçamentos de ações características de pessoas em suas individualidades, e que somente estas podem realizar ações orientadas por seus sentidos, razões, como forma de enfrentar a realidade, e mesmo que não seja possível compreendê-la em sua totalidade, pode ser vislumbrada sob diferentes ângulos.

O autor supracitado trata, principalmente, das organizações formalmente constituídas como entidades sociais, onde os indivíduos desempenham atividades por meio de ações que classifica como ―conduta humana‖. Através da ação é possível conhecer a conduta humana, que é intrínseca a cada um e pela qual uns se

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relacionam com os outros de forma subjetiva. E em se tratando da ação social, consequentemente, é uma ação onde o sentido instituído pelo indivíduo ou indivíduos refere-se à conduta do outro, orientando-se por esta em seu desenvolvimento (WEBER, 1944, p. 5). Faz menção ao comportamento humano que pode ser (ou não) manifestado (uma atitude interna ou externa que tanto pode ser omissa ou permissiva, ou seja, de abstenção ou ação propriamente dita).

A ―ação social‖ tem um sentido estabelecido e determinado pelo comportamento de outrem e frisa que a denominação ―outros‖ pode ser cada pessoa em sua individualidade e conhecida, como também uma pluralidade de indivíduos indeterminados e totalmente desconhecidos, mas afetados pela ação em algum momento.

Pelo conhecimento da conduta do outrem é possível conjeturar o que raciocinam, sentem ou intentam realizar e isso é possível quando nos colocamos no lugar do outro, ou seja, nos projetamos em sua mente. É possível apreender como ocorre e se firmam as relações sociais (condutas plurais, imbuídas de significação, com probabilidade em adotar certa postura, agir de certa maneira), a organização dos grupos, e numa complexidade maior, entender como funcionam as estruturas coletivas sociais. A capacidade de agir do homem é porque ele raciocina, sente, valoriza, pensa, planeja.

Para Weber (1944) o estabelecimento de uma ação rigorosamente racional em consonância com fins estabelecidos é tido como um tipo (ou tipo ideal) através do qual se compreende a verdadeira ação – confrontando a ação real com a ação análoga construída: ideal –, mesmo sofrendo influência de irracionalidades de toda espécie, como afetos, sentimentos e erros, que se constituem num desvio do desenvolvimento da ação racional, implicando, assim, que uma ação social não é, fundamentalmente, racional ou conscienciosa, pensamento compactuado por Merton (1995).

No contexto de organizações estabelecidas com fins predeterminados, precisos, certos, inflexíveis, mensuráveis, a ação racional se desenvolve. Qualquer tipo de irracionalidade é percebido como ‗anomalia‘ capaz de obstar o que é tido como certo e a ser seguido, respeitado, executado, ou seja, racional.

A contextualização em Weber de que na ação social há quase sempre um elemento intencional, conduz a busca da compreensão sobre o que é a organização instituída formalmente, de forma intencional, e porque existe.

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Parte-se do princípio de que uma organização existe para atender as necessidades da sociedade (constituída de indivíduos e organizações) em termos de bens e serviços, por meio de uma estrutura planejada (composta de edificação, máquinas, equipamentos, tecnologia, processos de trabalho, divisão de trabalho, sistema de informação, regras, regulamentos, cargos, definição de funções, pessoas para desenvolverem atividades operacionais e de direção).

Pessoas e demais recursos são imperativos para sua manutenção. Uma entidade pública, por exemplo, objetiva o bem-estar social e se mantém através da própria sociedade. Com isso, é possível afirmar que indivíduos e organizações (e elas próprias entre si) nutrem uma relação intrinsecamente dependente.

Sobre o contexto da organização, Blau (1971, p. 128) afirma que ―uma organização é um sistema de mobilização e coordenação de esforços de vários grupos, tipicamente especializados, para a consecução de objetivos comuns‖. Mobilizar pessoas tem o sentido de proporcionar meios para agrupá-las visando a execução de atividades, com esforços coordenados para integração das diferentes áreas internas, de maneira a alcançar os objetivos organizacionais compartilhados.

A busca de objetivos38 previamente planejados por meio de pessoas, as quais

também buscam atingir os seus próprios39 objetivos, sugere que a organização é um

grupo social onde os indivíduos ocupam cargos previamente estabelecidos, formando uma estrutura hierárquica.

A definição de organização conforme seu padrão de controle é feita por Tannenbaum (1975, p. 16), ao afirmar que

38 Exemplos no campo educacional: (1) ampliação do EF de 9 anos é uma das metas do EF no Plano Nacional de Educação (PNE- Lei 10.172/2001) com o objetivo de inserir todas as crianças de seis anos na escola cujo obrigatoriedade de cumprimento pelo poder público foi em 2010 (Lei 11.274/2006). Assim, o EF passou a ser de 9 anos, devendo o início da obrigatoriedade dar-se aos 6 anos, para a criança, provocando mudanças estruturais nas escolas brasileiras (atendimento de uma maior demanda, ampliação do número de salas de aula, necessidade de mais professores, materiais, equipamentos etc.); (2) implementar uma política pública estabelecendo gasto mínimo de impostos com educação: o Estado de São Paulo, por exemplo, está obrigado a investir, de acordo com o artigo 255 de sua própria Constituição, pelo menos 30% dos recursos de impostos e transferências constitucionais para manutenção do ensino público.

39 Pode ser no campo profissional: aquilo que se deseja trilhar na organização (um professor que

almeja o cargo de diretor ou uma formação específica para atuar em determinada disciplina na escola, por exemplo) e no campo pessoal: quando têm relação com a satisfação pessoal imediata ou não (comprar um automóvel, fazer uma viagem de férias para determinado lugar, por exemplo).

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organização implica controle. Uma organização social é uma associação ordenada de interações humanas individuais. O processo de controle ajuda a restringir os comportamentos idiossincrásicos e mantê-los de acordo com o plano racional da organização. As organizações exigem [...] a integração de diversas atividades.

O autor apresenta aspectos comuns em Blau (1971) como, a intencionalidade da organização em relação aos objetivos, ser constituída de pessoas que agem na individualidade formando grupos de trabalho40 que atuam em áreas distintas, mas têm suas atividades interligadas, além de duas variáveis diferentes em seu conceito: o controle e o uso do controle para restringir o comportamento divergente do esperado. O controle implica ordem, obediência, poder, no sentido de direcionar os indivíduos ao cumprimento do planejado, sem desvios de conduta e em conformidade com o projeto – a racionalidade organizacional.

Hopkins (1971, p. 78) busca caracterizar uma organização formal e afirma que se constitui de um grupo que

tem um conjunto relativamente específico e explícito de objetivos, um corpo de normas explícitas e intencionalmente estabelecidas a fim de realizar êsses objetivos (ou racionalmente dadas como estabelecidas para promovê-los) e diversas unidades especializadas de organização que, juntas, contêm tôdas as atividades que se supõe necessárias à consecução dos objetivos.

A questão de a organização existir para concretizar objetivos de forma intencional está presente em várias conceituações. Em consonância com Weber, aquele afirma que as normas racionalmente dadas são a base para que haja a obediência no interior de cada unidade especializada, que se constitui no locus onde as ações são desenvolvidas, estando cada grupo de trabalho responsável por uma atividade diferenciada, tendo, portanto, papéis e responsabilidades diversas e ao mesmo tempo coordenadas, que em seu conjunto demonstram uma hierarquia e o todo organizacional.

Mintzberg (1995, p. 20) trata da estrutura organizacional e a define ―como o total da soma dos meios utilizados para dividir o trabalho em tarefas distintas e em seguida assegurar a necessária coordenação entre as mesmas‖. Assim, formam uma estrutura todas as suas partes (cada uma com tarefas bem definidas e funções)

40 Segundo Mintzberg (1995), os grupos de trabalho constituem o contexto em que os indivíduos

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e os elementos (pessoas e recursos) internos necessários para executar suas atividades, e qualquer organização, independente do tamanho ou nível de complexidade, possui necessidades, as quais podem ser em maior ou menor grau, dependendo, principalmente, de suas atividades e dimensão.

A visão contemporânea de Weber (1944) sobre o desenvolvimento das formas modernas de associações (Estado, exército, econômicas e outras) era de que coincidia com o próprio desenvolvimento e incremento da administração burocrática, e mesmo com todos os exemplos adversos (como os comitês parlamentaristas, representações colegiadas) e forças contrárias ao que denominou ―santa burocracia41‖, não se podiam deixar enganar e perceber que todo trabalho

estava sendo realizado por meio de funcionários em seus escritórios e que suas vidas estavam, diariamente, sendo tecidas no interior desse cenário. Sua grande expressão a esse respeito está na frase em que frisa que a escolha é

entre la burocratización y el dilettantismo de la administración; yel gran instrumento de Ia superioridad de Ia administración burocrática es éste: el saber profesional especializado, cuyo carácter imprescindible está condicionado por los caracteres de la técnica y economia modernas de la producción de bíenes, siendo completamente indiferente que tal producción sea en la forma capitalista o en la socialista42 (WEBER, 1944, p. 178).

E para que os dominados se defendam da dominação43 burocrática (a racional) é necessária a criação de outra organização (por exemplo, os sindicatos),

41 Termo originário do francês bureau significando escritório ou escrivaninha

– lugar onde as pessoas trabalham sentadas (MINTZBERG, 1995), que aliado ao termo grego krótos – poder, dão a etimologia da palavra – dando a idéia do exercício do poder por meio dos escritórios e repartições públicas. Littré (apud LAPASSADE, 1976, p. 17) afirma que a expressão foi usada pela primeira vez em 1745 por V. de Gournay. Beetham (1988, p. 13) frisa que no século XIX, a expressão ‗burocracia‘ era usada para designar um tipo de sistema político - governo do bureau. ―Designava um sistema em que os cargos ministeriais eram desempenhados por funcionários de carreira, habitualmente da responsabilidade de um monarca hereditário.‖

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―entre a burocracia e o diletantismo na administração; e o grande instrumento da superioridade da administração burocrática é este: o conhecimento profissional especializado, cujo caráter essencial é determinado pelas características da técnica e economia modernas da produção de bens, sendo totalmente indiferente que tal produção seja da forma capitalista ou socialista‖. Tradução nossa.

43 Weber (1944, 2005) classifica três formas de dominação e poder: (1) tradicional, se baseia nos

costumes e é passada de uma geração a outra no decorrer do tempo (tradição). A obediência ao que detém o poder decorre do respeito, devoção e fé aos ordenamentos e poderes sempre presentes nas doutrinas e ritos dos antepassados – é santificada no costume –, sendo o tipo mais legítimo a dominação patriarcal. Weber (2005, p. 65) nomeia como ―autoridade do ‗eterno ontem‘, do costume consagrado; (2) carismático, tem suporte na confiança num dom extraordinário, talento ou qualidades excepcionais do outro (fé), como exemplo, o herói guerreiro, o grande demagogo. Weber (2005, p. 65) intitula como ―autoridade do dom da graça‖; (3) racional, ocorre porque há uma crença na

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mas que irá funcionar, também, sujeita a uma burocratização. E a razão para a superioridade da organização burocrática é a superioridade técnica que manifesta frente a qualquer outra organização, como

la precisión, la rapidez, la univocidad, la oficialidad, la continuidad, la discreción, la uniformidad, la rigurosa subordinación, el ahorro de fricciones y de costas objetivas y personales son infinitamente mayores en una adrninistración severamente burocrática, y especialmente monocrática, servida por funcionarios especializados44 (WEBER, 1944, p. 731).

Essas características levam ao juízo de que a burocracia é uma forma de organização que busca ajustar os meios aos fins preestabelecidos e assegurar a máxima eficiência, com o uso do poder, sendo a técnica o conjunto dos meios aplicados numa ação, e quando racional45, se baseia em planos e é realizada de forma consciente. Além de ser meio e técnica pode ser instrumento e para cada atividade particular pode existir uma, como a técnica do pensamento e da investigação, da educação, do poder político ou hierocrático, administrativa, erótica e militar etc. (WEBER, 1944).

Benzer Belgeler