A palavra ironia provém do grego eiróneía, que significa dissimulação, fingimento. Segundo MUECKE (1995), ironizar é dizer alguma coisa de uma forma que ative não uma, mas uma série infindável de interpretações subversivas.
Para Aristóteles (2005), a ironia quadra melhor ao homem livre do que a bufonaria, pois ironizamos para nos deliciarmos, enquanto bufoneamos para deliciar os outros. Propp (1992) [1976] aproxima a ironia do paradoxo e afirma que, se no paradoxo conceitos que se excluem mutuamente são reunidos apesar de sua incompatibilidade, na ironia se expressa com as palavras um conceito, mas se subentende outro contrário a ele. Para o autor, a comicidade que advém da ironia explica-se pelo fato de ela constituir um dos aspectos da zombaria. Brait (1996) postula que é possível saltar de uma concepção retórica da ironia para uma concepção que a considere dentro de uma perspectiva discursiva. Para a autora:
A ironia pode ser enfrentada como um discurso que através de mecanismos dialógicos oferece-se basicamente como argumentação direta ou indiretamente estruturada, como paradoxo argumentativo, como afrouxamento de ideias e de normas institucionais, como instauração da polêmica ou mesmo como estratégia defensiva. É possível assim abandonar a série caracterizada como sendo a das figuras de linguagem, da frase de efeito de um texto que compõe, e mesmo da comicidade, delineando-se o horizonte de outra perspectiva. (BRAIT, 1996 p. 58)
Segundo a autora, a dupla leitura mobilizada por um enunciado irônico envolve formas de interação entre os sujeitos, bem como a relação entre o objeto da ironia e as estratégias linguístico-discursivas que põem em movimento o processo. Dessa forma, o produtor da ironia chama a atenção do destinatário para o seu discurso, convocando-o a uma construção interpretativa. Nesse sentido, lembramos o Princípio de Cooperação de Grice, para quem a comunicação depende de um esforço cooperativo entre os participantes.
A ironia é, conforme Brait, uma categoria estruturadora de textos que denuncia um ponto de vista, promovendo uma argumentação indireta. Conta para isso, com a perspicácia do destinatário – intérprete final – para concretizar-se em sua significação. Nas palavras da autora:
[...] o discurso irônico joga essencialmente com a ambiguidade, convidando o receptor a, no mínimo, uma dupla descodificação, isto é, linguística e discursiva. Esse convite à participação ativa coloca o receptor na condição de co-produtor da significação, o que implica necessariamente sua instauração como interlocutor. (BRAIT, 1996, p. 96).
O processo da ironia evidencia conceitos como intersubjetividade, conhecimentos partilhados, convivência e comprometimento entre os sujeitos de forma que, mesmo assinalado por valores atribuídos ao enunciador, o procedimento irônico passa a exigir do leitor/ouvinte a mobilização de seus valores culturais no trabalho de interpretação. Dessa forma, percebemos que a participação do leitor/ouvinte dá-se de forma a ultrapassar o nível linguístico do processo da ironia, afirma Brait.
Para a autora, devemos estudar a ironia como um procedimento intertextual e interdiscursivo, numa concepção que a relaciona à ideia de heterogeneidade discursiva, isto é, o discurso construído a partir do discurso do
outro. Ainda, segundo a autora, para haver ironia, existe a opacificação do discurso que, em outras palavras, significa o enunciador produzir um discurso de forma a chamar a atenção não apenas para o que está dito como também para a forma de dizer e para as contradições existentes entre as duas dimensões.
Depreende-se, pela leitura de Ducrot (1987), que a ironia pertence ao grupo das manifestações polifônicas que se contrapõe à ideia de unicidade do sujeito. Assim, quando em um enunciado retoma-se o que o outro disse (e que, por isso, o locutor não assume como seu), observa-se um movimento de polifonia. O autor, ao distinguir locutor de enunciador, exemplifica:
[...] quando há uma retomada (em um sentido mais largo deste termo, e que não implica nem repetição literal, nem paráfrase). L, a quem se censurou por ter cometido um erro, retruca: “Ah! eu sou um imbecil; muito bem, você não perde por esperar!”. L é aqui ainda o produtor das palavras e é ele igualmente que é designado pelo eu. Mas a responsabilidade do ato de afirmação realizado no primeiro enunciado não é certamente L que assume – já que justamente L tem a modéstia de o contestar: ao contrário, L o atribui a seu interlocutor I (mesmo que I não tenha, de fato, falado de bobeira. Mas somente feito uma censura que, segundo L, implica em boa lógica para I, a crença na imbecilidade de L). (DUCROT, 1987, p.180)
Dessa forma, concluímos que os enunciados podem apresentar declarações que não condizem com o ponto de vista daquele que as enuncia, sendo que, na ironia, isso acontece de forma mais evidente. Segundo Maingueneau (2008), a ironia ocorre quando o enunciador subverte a sua própria enunciação. Para ele, o fato de alguém apontar a gentileza de outro alguém que acaba de ser grosseiro é como uma encenação, em que a voz que ele escuta ressoa como a de outro, que ele põe em cena, e que dele se distancia.
Para Castro (2005), a ironia apresenta-se como um caso típico de bivocalidade – marca principal da obra de Mikhail Bakhtin – pois a consideração pelo discurso do outro implica o reconhecimento do segundo contexto como forma de percepção da ironia.
O discurso irônico também tem sido estudado pelas relações com as Máximas postuladas por Grice (1982), no tocante ao princípio da qualidade, em que se espera veracidade em um enunciado. Nesse caso, a interpretação de
que a fala é contraditória ocorre pelo processo inferencial que leva o ouvinte/leitor ao estabelecimento de implicaturas. O enunciador sinaliza, por meio de marcas, que o que ele diz não é o que efetivamente pretende dizer. Tais marcas transparecem na oralidade pela entonação, enquanto na escrita, ela é revelada por índices que marcam distanciamento, como reticências, palavras enfáticas e aspas, dentre outros.
Por fim, lembramos que a ironia, não sendo uma condição para a existência do humor, a ele relaciona-se. Julgamos que a abordagem feita neste tópico sobre a ironia é mais condizente, para nosso trabalho, que outras mais tradicionais e que a limitam a mera figura de linguagem. Ao considerar o receptor como intérprete final do enunciado irônico, a perspectiva adotada acaba por considerar, também, a linguagem como uma atividade do sujeito, como um lugar de interação.