Entre os vários estudos linguísticos que se fazem sobre textos humorísticos, a recategorização metafórica tem sido analisada como uma ocorrência que pode servir como gatilho para o humor. De acordo com Lima (2007), tal análise, no entanto, demanda uma abordagem não só no aporte teórico do campo da Linguística Textual, como também das vertentes do cognitivismo, num enlace entre os dois campos. Segundo Cavalcante (2005), a recategorização é, por definição, uma alteração nas associações entre representações categoriais parcialmente previsíveis. Consoante Leite (2007), a recategorização metafórica é um fenômeno textual que se manifesta, de modo
particular, como forma nominal referencial e desempenha um papel argumentativo na produção do sentido.
De acordo com Koch (2006), a formação de categorias depende de nossas capacidades perceptuais e motoras. Marcuschi (2007) afirma que não existem categorias naturais porque não existe um mundo naturalmente categorizado. Para ele, as coisas ditas são coisas discursivamente construídas e a maioria de nossos referentes são objetos de discurso.
Para Koch (2005), a discursivização ou textualização do mundo por meio da linguagem não consiste em um simples processo de elaboração de informações, mas em um processo de reconstrução do próprio real, conforme afirma:
Os objetos-de-discurso não se confundem com a realidade extralinguística, mas (re)constroem-na no próprio processo de interação: a realidade é construída, mantida e alterada não apenas pela forma como nomeamos o mundo, mas acima de tudo pela forma como, sociocognitivamente, interagimos com ele. Interpretamos e construímos nossos mundos na interação com o entorno físico, social e cultural. (KOCH, 2005, p. 34)
Assim, analisar a referência sob uma perspectiva interacionista e discursiva pressupõe uma concepção de língua que não se esgota no código nem implica uma correspondência direta com o mundo.
Segundo Mondada e Dubois (2003), a instabilidade das categorias está vinculada a suas ocorrências, uma vez que se situam nas práticas do sujeito, em que os locutores negociam uma versão provisória, contextual, coordenada do mundo. Para esses autores, tal instabilidade lança a desconfiança do leitor sobre toda descrição única, universal e atemporal do mundo.
Observamos, no próximo cartum, a construção das categorias como objetos de discurso.
(Superadas 2, p. 32)
Com a indagação feita à mãe, a menina tenta entender como surgem as categorias pelas quais os sujeitos compreendem o mundo. A prática de tirar a parte superior do biquíni pode ser categorizada como topless para a mãe, sem nenhum prejuízo à sua imagem, como uma prática da modernidade. Como a pergunta foi feita à mãe, infere-se que a avó, tentando mascarar seu comportamento, tenha tentado explicar, à neta, a sua atual postura como uma prática filosófica de viver.
Mondada e Dubois (2003) chamam a atenção para a questão da variabilidade das categorias como dependente do contexto, no envolvimento também do ponto de vista ideológico adotado. Assim, um piano pode ser categorizado como um móvel pesado e incômodo ou como um instrumento musical, da mesma forma que um indivíduo pode ser igualmente tratado como um “traidor” ou como um “herói”.
O cartum a seguir é exemplo de como a categorização depende de nossa percepção sobre o mundo.
(Superadas 2, p. 139)
Com uma chave de fenda na mão, como que a consertar o que parece ser uma tomada, e com a caixa de ferramentas a seu dispor, a filha, de forma implícita e de acordo com sua percepção, categoriza a época de juventude de sua mãe, como um tempo ruim, em que as mulheres se privavam de opinar, não se cuidavam, tinham poucas oportunidades de lazer e viviam para cuidar dos afazeres domésticos. Esse mesmo tempo, no entanto, é categorizado pela mãe como um “paraíso”, numa demonstração de que a época atual nada tem a acrescentar a seu bem estar no mundo. A apresentação da mãe, no estereótipo de pessoa bastante idosa, com os cabelos brancos e com o corpo envergado contrasta com a postura da filha, ajoelhada, no chão, de forma a evidenciar a diferença de idade entre as duas e, por conseguinte, da visão de mundo de uma e de outra em relação às épocas retratadas.
Para Mondada (2005) a questão da referência atravessa a filosofia da linguagem e assume, na Linguística, formas teóricas diferenciadas. De um lado a referência é vista dentro de um modelo de correspondência entre as palavras do discurso e os objetos de mundo, de outro lado é concebida como um processo dinâmico e intersubjetivo que se estabelece na interação, constituindo-se, dessa forma, em uma atividade discursiva.
Nas palavras de Koch:
Não se entende aqui a referência no sentido que lhe é mais tradicionalmente atribuído, como simples representação extencional de referentes do mundo extra mental, mas, sim, como aquilo que designamos, representamos, sugerimos quando utilizamos um termo ou criamos uma situação discursiva referencial com essa finalidade: as entidades designadas são vistas como objetos de discurso e não como objetos do mundo. (KOCH, 2006, p. 57)
Assim, o referente passa a ser tomado pela noção de objeto-de-discurso e a ideia de referência passa a ser tomada pela noção de referenciação, evidenciando a ideia de processo que caracteriza o ato de referir. Cavalcante (2003) observa que quando passamos da noção de referência para a de referenciação, acabamos por questionar os processos de discretização e de estabilização, implicando em uma visão dinâmica que considera o sujeito sócio-cognitivo e não somente o sujeito “encarnado”.
Para Marcuschi (2007), o processo referencial caracteriza-se melhor quando considerada a interatividade entre os falantes da língua. Segundo ele, o entendimento de que a linguagem é uma atividade colaborativa pressupõe seu envolvimento com a questão referencial. Isso explicaria, por exemplo, o caso de A saber, com segurança, que B sabe o mesmo que ele quando usa a expressão X para referir-se à entidade Y.
Numa proposta de classificação e de recategorização lexicais, Apothéloz e Reichler (1995, apud Lima 2007) determinam três níveis de ocorrência do processo: a) quando a transformação é operada pelo próprio anafórico; b) quando o anafórico leva em conta os atributos do referente; e c) quando o anafórico leva em conta os atributos do referente e os homologa. Esta proposta de classificação considera a forma como se manifestam as expressões anafóricas do discurso; dessa forma, observamos que as expressões anafóricas não são usadas somente para apontar para um objeto- de -discurso, mas podem ser usadas, também, para modificá-lo.
Segundo Koch e Elias (2006), na construção dos referentes textuais, estão envolvidas as seguintes estratégias de referenciação:
Introdução (construção): quando um objeto até então não mencionado é introduzido no texto;
Retomada (manutenção): quando um objeto já presente no texto é reativado por meio de uma forma referencial, de modo que o objeto-de-discurso permaneça em foco;
Desfocalização: quando um novo objeto de discurso é introduzido, passando a ocupar posição focal, mantendo, contudo, o objeto em stand by, ou melhor, disponível para utilização imediata sempre que necessário.
As recategorizações metafóricas usadas como gatilhos para o humor estão entre as ocorrências das transformações operadas pelo processo anafórico. De acordo com Leite (2007), uma expressão pode tomar a forma de uma metáfora ao acrescentar um novo ponto de vista argumentativo à expressão referencial antecedente, recategorizando-a. De Lima (2007), extraímos o exemplo que ilustra tal ocorrência:
O cara chega para o amigo e fala:
Minha sogra morreu e agora fiquei em dúvida, não sei se vou trabalhar ou se vou pro enterro dela... O que é que você acha? E o amigo:
Primeiro o trabalho, depois a diversão. (PIADAS SELECIONADAS, 2003, p. 25)
Em Leite, encontramos outro exemplo:
Na redação do jornal:
– Não deu pra sair a notícia do seu casamento – fala o repórter para um figurão.
– Tivemos uma catástrofe mais importante. (SARRUMOR, 1999, p. 226)
Constatamos, no primeiro exemplo, a recategorização metafórica de enterro da sogra como diversão e, no segundo exemplo, a recategorização metafórica de casamento por catástrofe.
A recategorização metafórica a que Lima (2007) deu ênfase em textos de humor é apresentada por Koch (2006) como uma manobra lexical de orientação argumentativa, sobretudo, em textos opinativos.