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BÖLÜM II. SORUMLULUK VE SOSYAL SORUMLULUK KAVRAMLARI

2.8. Kurumsal Sosyal Sorumluluk Projeleri Uygulama Süreci

2.8.1 Kurumsal Sosyal Sorumluluk Projelerinin Uygulama Yöntemleri

PARTICULARIDADES DO TRABALHO COM ADOLESCENTES

O que há de particular no momento da adolescência para despertar esse pensar que recoloca o homem no seu lugar de iniciador, que busca a descoberta e o desenvolvimento das possibilidades próprias?

Para a discussão dessa pergunta comecemos lembrando-nos dos ritos de passagem na adolescência descritos por Eliade, em que há sempre a descrição de uma fase da vida que morre dando espaço para uma nova nascer.

Segundo Eliade:108

A cerimônia começa em todo o lado com a separação do neófito da sua família e um retiro na selva. Já há ali um símbolo da morte: a floresta, a selva, as trevas simbolizam o além, os “infernos”. Ali o neófito é engolido por um monstro: no ventre do monstro reina a Noite cósmica; é o mundo embrionário da existência (…). Em inúmeras regiões, existe na selva uma cabana iniciática, simbolizando o ventre maternal.

Eliade conta que nos simbolismo da morte iniciática, entre certos povos, os candidatos são enterrados ou deitados em túmulos cavados de fresco ou são cobertos de ramagens e permanecem imóveis como mortos ou esfregam-os com um pó branco a fim de os fazerem assemelharem-se aos espectros.

De acordo com o autor, as torturas correspondem à situação daquele que é comido pelo demônio. Além das mutilações (o arrancar de dentes, a amputação de dedos etc.), das operações específicas (circuncisão e a subincisão), outros sinais exteriores, como tatuagens e escarificações, marcam a morte e a ressurreição.

Eliade descreve o rito de passagem da infância à juventude como sempre, uma iniciação, uma mudança radical de estatuto social. Ele escreve:109 “São

imagens de ponte e de porta estreita que sugerem a idéia de passagem perigosa e que, por esta razão, abundam nos rituais e nas mitologias iniciáticas”.

Segundo Eliade,110 o simbolismo da renascença apresenta-se sob múltiplas formas. Os candidatos recebem outros nomes, que serão daí para o futuro seus verdadeiros nomes. Geralmente aprendem na selva uma língua nova. “Na iniciação, tudo recomeça de novo”. Nos povos bantu, na cerimônia conhecida pela designação de ‘nascer de novo’, o pai sacrifica um carneiro; três dias depois envolve a criança na membrana do estômago e na pele do animal. Mas, antes de ser envolvida, a criança deve ir para a cama e chorar feito recém-nascido. Fica na pele do carneiro por três dias. Nesse mesmo povo os mortos são enterrados em posição embrionária na pele dos carneiros.

Eliade escreve que, penetrar no ventre do monstro ⎯ ou ser simbolicamente enterrado ou fechado na cabana iniciática ⎯ equivale a uma regressão ao indistinto primordial, à noite cósmica. Sair do ventre ou das cabanas tenebrosas ou da tumba iniciática, equivale a uma cosmogonia. A morte iniciática reitera o retorno exemplar ao Caos, para tornar possível o novo nascimento. Segundo ele:111

A morte chega a ser considerada como a suprema iniciação, como o começo de uma nova vida espiritual ‘Os três momentos do esquema iniciático (sofrimento, morte e ressurreição) se reencontram em todos ritos de puberdade do homem arcaico (…). Mais ainda, foram considerados três momentos de um mesmo mistério e todo o esforço espiritual do homem arcaico foi empregado em mostrar que não devem existir corte entre estes três momentos. Não se pode parar em um desses três momentos . O movimento, a regeneração continua

sempre. (grifo nosso)

A possibilidade de “ressureição” aparece nos diálogos com Jonathan: “’Você parece melhor mesmo do que quando entrou aqui semana passada, quando parecia ter uns 1000kg em cima de você, agora pode ser até um tipo de renascimento, né?’ Ele, sem dúvida muito satisfeito, responde: ‘É’”. E, aparece também, no encontros com Keli: “’Talvez seja a hora de você virar uma página da sua história, o livro

109 Ibid., p. 189. 110 Ibid., p. 198. 111 Ibid., p. 203.

continua sendo o mesmo, sua vida. Agora numa nova etapa: você se afastar, para não morar mais com seu pai, para ficar bem, talvez isto inclusive seja o melhor jeito de você ajudar ela também’”.

Por que esses simbolismos de reclusão, isolamento, sofrimento, inferno, Caos, morte, ressurreição, vir-a-ser, que mostram a condição regeneradora, condição de movimento, de impermanência, de morte e de ressurreição do homem predominam de forma tão forte nos ritos de adolescência?

Podemos aproximar a simbologia de Caos com a experiência da angústia existencial, de rompimento com o mundo, de desorientação, da mais radical solidão.

Nos ritos descritos por Eliade a passagem do mundo da criança para o mundo adulto se dá na vivência mais radical da condição de ser mortal, de morrer e renascer. O homem não possui uma essência nem a priori, nem a ser alcançada, ele se faz existindo, não pára no tempo.

Junqueira112 explicita que na maioria dos grupos indígenas, os ritos de iniciação ou puberdade também impõem aos jovens um período de reclusão, no qual se sujeitam a numerosos tipos de restrição. Esse período realça a transição que sofrem: “sem serem crianças não são adultos, até que passem pelos rituais previstos. Estão em trânsito e, como tais, na expectativa de vir-a-ser”.

Tanto a criança, quanto o jovem, o adulto, o idoso, são este ser aberto, este ser-aí, já exposto nesta pesquisa. Não se trata de uma característica da adolescência, mas de uma condição humana.

A percepção da história como singular e as implicações e convocações dessa percepção parece instalarem-se no momento da adolescência.

Critelli113 simplifica:

112 JUNQUEIRA apud ABRAMOVICH (Org.). Ritos de Passagem da nossa infância e adolescência:

antologia. São Paulo: Summus, 1985, p. 179.

[…] Toda vez que minha avó me dizia que o molde em que fui feita fora quebrado quando nasci, eu achava que ela estava me elogiando. Acreditava que somente eu era única no mundo. Aos poucos fui percebendo meu engano...Quem eu sou e deverei ser? Minha individualidade é um mistério.

Não se tratava de um elogio, mas de uma condição de vida. Essa percepção que, aos poucos, vai acontecendo parece justamente falar da transição da infância para a vida adulta: da adolescência, de um modo de se perceber e de ser tocada pelo mundo que sofre transformação.

Buscou-se despertar Jonathan e Keli para essa condição: “’(…) Bom Jonathan, pelo o que a gente conversou me parece que, por enquanto, você tem três opções, pense com qual delas você vai ficar (…) Mas isso é o que eu quero para mim; agora você realmente está na hora de decidir o que quer para sua vida, ela é só sua’. Silêncio. Responde, parecendo decidido: ‘Eu quero sair do crime!’ E Jonathan parece ter despertado quando mostra uma mudança em seu ânimo, ao dar esta resposta”; Já com Keli: “Vamos deixar de lado se ele merece ou não [nesse caso o senso comum poderia abrigar qualquer uma das duas hipóteses: estuprador merece morrer e pai não se mata], vamos pensar em você. Viver na cadeia é uma coisa que é ‘muuuuito’ difícil, você quer isso para o seu futuro, consegue se imaginar lá? (…) Meiga como você parece ser, você acha que o fato de tê-lo matado viraria um ‘fantasma’ na sua vida?’”

Perosa114 diz que há um momento na vida de uma pessoa em que já não é possível viver desconhecida de si mesmo. Após a descoberta da existência da sua vida como intrinsecamente própria, não há mais possibilidade de viver ‘esquecida de si’. Sua existência agora lhe pertence e, diferente de até então, é de sua total responsabilidade.

O jovem precisa saber de si, de sua sexualidade, suas aptidões, seus valores. Seu próprio corpo é testemunha da sua condição humana de mudança de morte de um estado para outro nascer. O futuro o con-voca (com – junto; voca – chama). O futuro o chama para uma parceria.

Ainda Perosa escreve que o adolescente busca saber de si através do pertencimento como na infância. E busca essa identificação com os outros através da paixão, da admiração de ídolos, do pertencimento a um grupo de amigos, etc. Mas, por mais que procure a si mesmo no outro, o jovem jamais haverá de sentir novamente o pertencimento infantil. Sempre sobrará um pouquinho de si mesmo que o outro não abrange, é o saber sem volta da falta. Conforme o autor:115 “O advento da adolescência é sem volta”.

Já Cytrynowicz. lembra que o bebezinho mostra, na hora, o que tem ou o que quer. Não há considerações intermediárias:116

Se estiver doente, ou com fome chora até que a dor ou a fome passe. Isto é tanto verdadeiro que se chegou a formular a teoria do princípio do prazer: as crianças seguem o princípio do prazer. E o que é tal princípio? O princípio do prazer quer dizer: é pra já! O bebê cresce, vai para a escola, não consegue fazer uma lição e o ‘mundo cai sobre a cabeça’: “eu nunca vou conseguir!”

Segundo a autora, nas experiências das crianças, prevalece sobre qualquer aspecto passado ou futuro, sempre o tempo imediato. Ela resume:117 “O futuro parece ser tão menor quanto for a criança”.

Bachelard118 parece se aproximar dessa compreensão do imediatismo quando se refere ao tempo da infância como um “tempo de horas sem relógio que ainda está em nós”.

Boss119 escreve:

Todavia, por mais amparado que tenha sido o lactente, a criança brevemente terá que experimentar a angústia, ora em menor ora em maior medida. Mesmo uma criança de três ou quatro anos pode

115 Ibid., loc. cit.

116 CYTRNOWICZ, B. O Tempo da infância. Revista da Associação Brasileira de Daseinsanalyse.

São Paulo, n. 9, 2000, p. 69.

117 Ibid., p. 70

118 BACHELARD apud MACHADO, M. Cacos de Infância: teatro da solidão compartilhada. São Paulo:

Fapesp/Annabkume, 2004. p. 37.

acordar sobressaltada noite após noite, em virtude de, nos seus sonhos, ver repetidamente aproximar-se a mesma bola gigantesca e escura. Este acontecimento onírico corresponde à aproximação turbulenta de todo seu futuro humano. No entanto, na sua fragilidade infantil, ela ainda não sente capacidade para aceitá-lo e suportá-lo. Por isso, sonhando, ela teme sua carga como a uma monstruosidade esmagadora. Nos pesadelos infantis com animais ferozes, assaltantes ou incêndios devastadores, que de vez em quando perturbam as noites de praticamente todas as crianças, elas temem a destruição da sua condição humana regular e conhecida, no caos de forças compreensivas, dominantes e incontroláveis de sua vitalidade natural.

O futuro, o que ainda não é e que pode ser, ou não, o mundo do possível, do incerto, do inseguro bate à porta da criança. Ela se assusta. Sua vivência do imediato, da “aderência às situações”, como escreve Merleau-Ponty120 começa a ser visitada pela incerteza do futuro.

Para Machado,121 o ponto de vista da criança parece absoluto. Amadurecer seria passar a ser capaz de ver o mundo em termos de ponto de vista. Conseguir olhar algo a partir de pontos de vista é sair do seu lugar, é perceber esse ponto de vista como parcial e/ou provisório (o que é para mim pode não ser para você e o que é hoje pode não ser amanhã).

A criança está, à medida que cresce, conhecendo o mundo e sua condição humana. No momento da adolescência, o futuro inacabado e incerto, e a responsabilidade do homem diante de tal condição, aparece como questão a ser compreendida. O futuro, em branco, aparece como um mistério exclusivo, pessoal, intransferível, a ser desvendado.

Crescer, segundo Cytrynowicz,122 “é abrir-se para o futuro. Isto é crescer está voltado para a possibilidade do novo, do que ainda não é”.

É justamente essa condição de morrer e renascer, que abunda nos rituais da adolescência. É justo que assim seja. A condição humana como impermanente, o futuro que se abre, a história a ser escrita, que é dada instranferivelmente a cada um, e a regeneração abundam nos rituais de adolescência e falam do futuro que

120 MERLEAU-PONTY apud MACHADO, op. cit., p. 38. 121 MACHADO, op. cit., p. 38.

convida, que convoca à tarefa do responder ao que lhe é dado, do avalizar a história própria.

Se o jovem não vê o futuro como possibilidades em aberto não conseguirá se comprometer com seus atos. O futuro inicialmente curto, visto em Keli e Jonathan não é o das “horas sem relógio” da infância, mas o da total desesperança em um futuro novo, autêntico, na palavra própria. Critelli123: escreve que quem se encontra, podendo ser autenticamente, reconhece sua inautenticidade e dominação e seu vir- a-ser lhe é entregue e, conforme Heidegger,124 “à responsabilidade da possibilidade de encontrar-se de novo em suas possibilidades”.

123 CRITELLI, op. cit., Educação e dominação Cultural: tentativa de reflexão ontológica, p. 50. 124 HEIDEGGER apud CRITELLI, Ibid., loc. cit.