A permanência na prisão por longos períodos de tempo, traz igualmente consequências em termos de adaptação pós-reclusão, implicando, não raras vezes, a criação de hábitos de pen- samento e de ação que podem ser desadequados em liberdade (Haney, 2003). Com efeito, a ressocialização pode representar um período de tensão e de readaptação às normas sociais, vi- venciando, o recluso ruturas à sua nova condição, a de ex-recluso. Dado o afastamento durante o período em que estiveram na instituição-prisão, os laços familiares poderão apresentar-se quebrados ou fragilizados, sendo que poderão trazer dificuldades no restabelecimento ou, mui- tas vezes, no estabelecimento de vínculos sociais. Para além disso, os reclusos em liberdade
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continuam a integrar muitos aspetos negativos da cultura prisional, encontrando adversidades nas suas relações sociais e íntimas, tendo baixos níveis de autoestima, que foram reforçadas negativamente pela experiência prisional, embora estes efeitos psicológicos dependam de indi- víduo para indivíduo e, muitas das vezes, são reversíveis (Haney, 2003).
Numa tentativa de explicar a manutenção do comportamento delituoso, Zamble & Quincy (1997) elaboraram um modelo designado por “The Coping-Relapse Model of Criminal
Recidivism”, que embora não contemple a origem do comportamento criminal, explana de uma
forma muito completa as variáveis que possam es- tar na origem da reincidência, complementando a literatura encontrada sobre esta temática. Assim, segundo esta teoria o processo de reincidência é desencadeado por um evento ambiental precipi- tante, considerado stressante (e.g. discórdias con- jugais, perda de emprego, fragilidade económica, etc.) ou, ainda originado por situações do quotidi- ano (e.g. ter de lidar com o sistema de transportes públicos lotado de pessoas). Dada a experimenta-
ção de uma ou mais destas situações, o indivíduo recorre a uma avaliação cognitiva e emocional negativa, desencadeando emoções negativas, como hostilidade, raiva, medo, etc. (Brown, 2002). Dada a tentativa falhada de lidar com este tipo de situações, o indivíduo vivencia um nível de stress exagerado, gerando um ciclo negativo de emoções e cognições inadaptadas (e.g. “eu não tenho controlo sobre a minha vida”) (Brown, 2002). O desencadeamento desta situação como um problema ou ameaça por parte do indivíduo é mediada por dois subconjuntos de fa- tores, designadamente por influências individuais e mecanismos de resposta disponíveis (Brown, 2002). As influências individuais são constituídas por fatores como a história criminal e traços da vida duradouros (e.g. temperamento e reatividade emocional), cujos podem predis- por o sujeito a reagir de forma desadequada a determinadas situações (Brown, 2002). Relativa- mente aos mecanismos de resposta, constituídos por variáveis como a capacidade de enfrentar situações, o abuso de substâncias psicoativas, atitudes criminosas, o suporte social e a motiva- ções, apesar de menos instáveis que os referidos anteriormente, são mais eficazes na definição de padrões de mudança de comportamento e, por conseguinte, melhores preditores de reinci- dência (Brown, 2002).
Figura 1 - The Coping-Relapse Model of Crimi- nal Recidivism
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Schnittker (2014) acrescentou que o stress que provém do facto dos ex-reclusos perma- necerem separados da família durante o cumprimento da pena, o facto de lhes ser negado em- prego e de se depararem com situações discriminatórias aquando a liberdade, pode influenciar negativamente o seu processo de ressocialização.Outrosestudos afirmaram que problemas re- lacionados com o emprego, a habitação, a educação, a saúde, o abuso de substâncias e relacio- namentos interpessoais podem apresentar-se como obstáculos à reintegração social do indiví- duo acabado de sair da prisão, e, por conseguinte, positivamente relacionados com a reincidên- cia (Dhami et al., 2006). No mesmo sentido (Vacca, 2004: 301), referiu que os reclusos quando saem da prisão têm dificuldade em encontrar trabalho devido à sua pouca experiência e baixas habilitações literárias e, para além disso, segundo Petersilia (2001), durante o cumprimento da pena os reclusos não têm oportunidade de reunir as condições financeiras necessárias, o que pode também constituir um obstáculo nesta fase de transição. Apesar disso, em alguns reclusos verificou-se o oposto, ou seja, a prisão para alguns mostrou-se uma oportunidade de melhoria, no que concerne a problemas existentes antes da reclusão (Dhami, et al., 2006).
Positivamente relacionados também com o sucesso da ressocialização está o estabeleci- mento de laços de boa qualidade com membros da família, encontrar um emprego remunerado e a participação em programas pós libertação (e.g. programas de controlo da cólera, formação para o trabalho, programas de tratamento de drogas e/ou álcool, etc.) (Dhami, et al., 2006) em- bora a sua existência em Portugal seja muito reduzida, estando estes, maioritariamente associ- ados a programas de tratamento face a consumos de substâncias psicoativas. Contudo, a acu- mulação destes e outros problemas sem qualquer acompanhamento ou ajuste, mostram-se po- sitivamente relacionados com a reincidência (Dhami, et al., 2006).
Dada esta experiência, os indivíduos sofrem uma rutura com a sociedade, passando a ter que se adaptar a uma nova realidade e as novas regras inerentes à prisão, passando por múltiplas transformações, incluindo a nível pessoal. Efetivamente, o tratamento prisional está repleto de intenções de ressocializar o indivíduo, no entanto e como se pode verificar ao longo da expla- nação acerca dos fatores de risco para a reincidência, parece não estar a ser suficiente para a diminuição da criminalidade, ou por outro lado, parece não obter os resultados esperados quer a nível da ressocialização do indivíduo quer a nível de redução dos danos para os reclusos que, não raras vezes, regressam à instituição prisional por não se conseguirem integrar socialmente. Apesar disso, e como se explicará no ponto seguinte, existem fatores associados ao sucesso da reintegração na sociedade que funcionam como inibidores ou redutores do fenómeno da rein- cidência criminal, sendo por isso importante referi-los.
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