1. BİRİNCİ BÖLÜM -SOSYAL SORUMLULUK KAVRAMI
1.3. Sosyal Sorumluluk Alanları
1.3.6. Topluma Karşı Sorumluluklar
Inicialmente, tínhamos a intenção de utilizar, em nossa pesquisa, dispositivo metodológico de análise das situações de trabalho baseado na autoconfrontação cruzada. Seriam usados, para as sessões de autoconfrontação, registros de observações das atividades feitas em diários de campo, transcrições de entrevistas e documentos que retratassem as prescrições do trabalho, mesmo aqueles que não direcionados diretamente para a atuação psicológica.
Assim posto, para a constituição do coletivo de análise representativo do meio de trabalho associado à pesquisa, privilegiamos a formação de um grupo amostral de psicólogos(as) que atuassem em CREAS que fizessem parte dos municípios da RMF. A escolha dessa área se deu por conta da facilidade de acesso e porque os municípios que a compõem são locais próximos à capital do estado.
Conforme dados existentes na Célula de Média Complexidade da Secretária do Trabalho e do Desenvolvimento Social – STDS (CEARÁ, 2010), existiam no estado, na época em que iniciamos nossa pesquisa, 56 CREAS. Desses, 13 localizavam-se nos municípios componentes da RMF, a saber: Aquiraz, Caucaia, Cascavel, Eusébio, Horizonte, Itaitinga, Maracanaú, Maranguape, Pacajus, Pacatuba, São Gonçalo do Amarante (01 CREAS em cada um desses municípios) e Fortaleza (02 CREAS, sendo um municipal e outro de abrangência regional, de responsabilidade do estado)5. Assim, para atender aos objetivos desta pesquisa, trabalharíamos com os CREAS de caráter municipal, excetuando, evidentemente, aquele em que atuamos profissionalmente. Portanto, o CREAS Regional6 também seria, automaticamente, excluído do estudo.
Dos 11 CREAS restantes, foram priorizados, para a investigação, aqueles que possuíssem, pelo menos, dois profissionais de Psicologia que estivessem atuando como psicólogo(a), e não como coordenador, a fim de atingir o critério do número mínimo de participantes para a aplicação da autoconfrontação cruzada. Fernández e Clot (2007) apontam que um bom número de profissionais para trabalhar com essa metodologia é de quatro sujeitos, no máximo de seis indivíduos, mas sempre em número par.
Em contato prévio, realizado em abril de 2010 com os locais citados, ficou evidenciado que apenas três municípios contemplavam o critério estabelecido, apresentando
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Além dos municípios citados, Chorozinho e Guaiúba também fazem parte da RMF (CAVALCANTE et al., 2007). Ademais, recentemente, Cascavel e Pindoretama passaram a compor, igualmente, a mesma região (TV VERDES MARES, 2009).
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dois profissionais de Psicologia cada um. Em dois desses locais, havia, ainda, a presença de um terceiro psicólogo, mas este se encontrava na condição de coordenador da instituição. Dos três municípios, selecionamos pesquisar o CREAS daquele que fosse mais próximo de Fortaleza. Buscou-se, com essa restrição do universo pesquisado, garantir a qualidade das análises e a adequação ao tempo destinado ao desenvolvimento da pesquisa no mestrado, além de facilitar nosso trabalho de investigação. A fim de garantir o anonimato dos participantes, não citaremos os nomes dos municípios e chamaremos o município escolhido de “Jardim”7.
O CREAS de Jardim foi implantado no início do ano de 2006. Na época de sua implantação, a equipe era constituída por uma psicóloga, uma assistente social, uma socióloga, uma agente administrativa e não havia educadoras sociais. Atualmente, ela é composta por dois psicólogos, duas assistentes sociais, duas agentes administrativas, três educadoras sociais, uma coordenadora (que é da área da Psicologia), uma advogada, um motorista e duas estagiárias de Serviço Social voluntárias. Está previsto o ingresso, ainda no ano de 2011, de um(a) terceiro(a) psicólogo(a) para a unidade.
Quando começamos a pesquisa, a instituição localizava-se em um prédio composto por uma sala de atendimento, em que cabem, confortavelmente, além do(a) psicólogo(a), mais quatro pessoas adultas. No caso de crianças, esse número de pessoas se mostraria inadequado para o espaço, pois os infantes costumam ser mais ativos, tendo que ser reduzido para, no máximo, três crianças. A sala estava mobiliada para atendimento infantil, com pequena mesa e cadeiras apropriadas ao uso desse público, além de material ludoterápico. Possuía, ainda, estante e armário com tranca. Além da sala de atendimento, havia uma sala de reunião em que o restante da equipe costumava ficar. Esta sala é mobiliada com mesa redonda, cadeiras, mesas para equipamentos, armários, arquivo para prontuários e estantes, além de computador, quadro branco para o cronograma semanal, telefone/fax, impressora em perfeito estado de funcionamento, TV, DVD player e vídeo cassete. É nela que está localizado o banheiro da equipe. Ambas as salas tinham ar condicionado. O prédio era compartilhado com o conselho tutelar da cidade, e, por isso, a recepção e a cozinha serviam às duas instituições. Além dos materiais citados, a equipe conta com carro e motorista de uso restrito do CREAS.
No decorrer da investigação, o CREAS de Jardim mudou-se para um prédio de uso exclusivo, agora localizado no centro da cidade, no pólo de lazer do município, perto da
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Sabemos da existência de um município cearense chamado Jardim, localizado na região do Cariri, mas ressaltamos que o município visitado por nós não tem nenhuma relação com ele, sendo esse nome escolhido ao acaso para preservar a real denominação do município investigado.
avenida central. A nova estrutura do CREAS é composta por uma sala ampla para reuniões, com mesa redonda, dois computadores (um novo), um arquivo do tipo gavetão com pastas dos casos, um armário, quadro branco com cronograma semanal, uma impressora, um telefone, um fax, um ventilador e um banheiro de uso da equipe. Além disso, há um salão grande utilizado como recepção, uma sala ampla de atendimento individual e grupal com banheiro adaptado e uma dispensa. A mudança ocorreu em dezembro de 2010. No começo, não havia placa de identificação da instituição, apenas um trabalho de grafite no muro com o nome CREAS. Porém, a mesma foi providenciada e, atualmente, conta com placa específica para identificar a instituição.
Estava planejada para nossa proposta inicial de pesquisa a constituição das seguintes etapas:
1. Visitar o município selecionado, apresentar a proposta de pesquisa e, após a aceitação dos profissionais em participar, realizar visitas sistemáticas de observações às atividades desenvolvidas pelos(as) psicólogos(as). Estas seriam registradas em diário de campo;
2. Processo de autoconfrontação simples, através de entrevistas gravadas, em que os diários de campo, documentos oficiais e outros que fornecessem parâmetros para o serviço do(a) profissional de Psicologia seriam utilizados para estimular a confrontação desse trabalhador com suas atividades de trabalho;
3. Processo de autoconfrontação cruzada, em que ambos os profissionais seriam confrontados, durante uma reunião com a pesquisadora, com a atividade do outro e debateriam sobre o fazer do(a) psicólogo(a) no CREAS. Esse momento seria igualmente gravado;
4. Reunião de retorno para apresentação e discussão dos resultados da pesquisa.
Porém, a realidade encontrada durante os passos iniciais da pesquisa mostrou limitações que impossibilitaram a utilização de uma única apreensão metodológica como alternativa de acessar as atividades dos(as) psicólogos(as) no CREAS investigado. Logo no princípio, percebemos que a dinâmica própria do CREAS de Jardim dificultaria a aplicação do processo de autoconfrontação cruzada. Pouco sobrava tempo entre uma atividade e outra
dos(as) psicólogos(as), e a rotina era sempre muito apressada para conseguirem se desincumbir de seus afazeres. Era comum, também, as atividades planejadas serem suspensas para atender as urgências que surgiam e pediam medidas imediatas, como a acolhida de novos casos, responder à solicitação do juiz da comarca etc. Além disso, os(as) profissionais de Psicologia que lá trabalham têm outro emprego paralelo e, por isso, assim que concluíam suas atividades nos CREAS, precisavam rapidamente sair para conseguirem cumprir com suas outras responsabilidades. Outrossim, havia apenas um dia na semana em que ambos os(as) psicólogos(as) encontravam-se na instituição, mas cada um realizava as atividades que lhes diziam respeito. Ademais, não foi possível observar algumas ações, ou porque o(a) psicólogo(a) julgou que minha presença poderia incomodar o(a) usuário(a) e atrapalhar o desenvolver de sua atividade, ou as pessoas que dela participaram não se sentiram à vontade e solicitaram que eu não estivesse presente. Por esses motivos, existiu certa dificuldade de permanecer mais tempo com eles(as). Algumas vezes, tivemos que propor a realização da entrevista em locais e horários distintos daqueles em que o(a) profissional encontrava-se no CREAS. Além do mais, surgiram limitações de outra natureza que também atrapalharam o processo de pesquisa.
Por conta disso, lançou-se mão dos recursos disponíveis para dar conta da realidade do local de trabalho escolhido para a pesquisa. As observações, os diários de campo e as entrevistas gravadas de autoconfrontação simples das atividades que conseguimos observar permaneceram, mas incrementamos com outras entrevistas individuais com os exercícios de instrução a um sósia e outras perguntas que levassem ao acesso do real da atividade de cada psicólogo(a) e a compreensão de seu fazer e nos indicassem sua percepção sobre a atividade do outro. Acrescentamos, ainda, uma entrevista com a pessoa na coordenação da instituição, pois ela também é profissional de Psicologia e já atuou como tal por três anos no CREAS de Jardim, o que poderia contribuir para a investigação com suas informações sobre sua atuação nesta unidade pública estatal.
O método de instrução ao sósia é um tipo de autoconfrontação mais “leve” que a autoconfrontação cruzada, pois não se pedem registros em vídeo em ambiente natural, e que, também, serve como instrumento de elaboração da experiência profissional. Esse método, de acordo com Clot (2007, p. 144), consiste num trabalho no qual um sujeito voluntário recebe a tarefa de dar instruções a um sósia, uma espécie de clone do indivíduo, a partir da seguinte consigna: “Suponha que eu seja seu sósia e que amanhã eu deva substituir você em seu trabalho. Que instruções você deveria me transmitir para que ninguém perceba a
substituição?”. A experimentação focaliza-se, principalmente, sobre os detalhes do trabalho, interessando-se muito mais pelo “como” do que pelo “porquê”.
Segundo Clot (2000, p. 13-14):
Tecnicamente, a atividade do sósia consiste em resistir à atividade do instrutor que busca fazê-lo partilhar sua versão do real. Ele resiste interpondo, entre o instrutor e sua ação, uma imagem da situação pouco afeita à idéia “naturalizada” que o sujeito faz dessa situação. Ele coloca, no meio imaginado, obstáculos que se acumulam frente a ação habitual do instrutor. Ele entrava o desenrolar das operações evocadas a fim de que o sujeito mobilize não apenas esse desenrolar específico, mas outros mais conformes à descrição do meio proposta pelo sósia, mesmo e sobretudo quando se trata de uma representação surpreendente da situação de trabalho. Assim, o que é convocado pela obstinação metodológica do sósia é a atividade possível ou impossível na atividade real. O que é transmitido pelo instrutor, ou melhor, recuperado no comentário de autoconfrontação que segue, são as hesitações e alternativas, a gênese das escolhas. Não somente os comportamentos que venceram, mas os que foram abandonados sem no entanto terem sido abolidos.
Assim, o sujeito, no curso do exercício do sósia, tenta ser aquilo que ele acredita que deveria ser, servindo-se de sua situação profissional como instrumento de ação sobre o sósia. O sósia, guiado pelas consignas do sujeito, põe a prova as atividades que ele empresta ao instrutor. Ele reclama os meios para, ele mesmo, agir na situação em que o sujeito conhece. Essa busca da conformidade operatória aparece para o indivíduo como uma redução das possibilidades de sua atividade real com relação à tarefa, aos colegas de trabalho, à hierarquia e a seus grupos informais de pertencimento. Ele é conduzido a pensar sobre as escolhas feitas no momento em que se desenrola a cadeia operatória que as coloca em ação. O “como” focalizado no desenrolar processual das operações leva, paradoxalmente, ao “porquê” da ação, ou seja, sobre as inibições que a precedem. Dessa forma, o sósia não busca fazer o sujeito evocar o passado da ação vivida, mas fazê-lo partilhar a dificuldade de reproduzi-la. É esse deslocamento no real que pode desprender o sujeito de seus esquemas de ação usuais.
Portanto, esse exercício transforma as operações da ação analisada em instrumento de descoberta de alternativas diversas das quais o sujeito passa a dispor. O trabalho pode ser descrito como uma série de “subtrações” de atividades que o sósia deve se esforçar por repatriar na atividade presente, agarrando o real no realizado, contra um pesquisador que insistentemente busca, ao contrário, reenviar o real ao realizado (CLOT, 2000).
Por sua vez, a autoconfrontação simples consiste em colocar o trabalhador diante de sua própria atividade, estimulando-o a falar sobre ela, abrindo um espaço para que o indivíduo produza um discurso explicativo, narrativo ou responda às questões propostas pelo
pesquisador, a fim de avançar na produção de significados concretos sobre o que foi observado (VIEIRA; FAÏTA, 2003).
Procuramos, utilizando esses recursos, examinar, em nossa pesquisa, como propõe Clot (2000), quatro domínios da experiência: o campo das relações com a tarefa propriamente dita; o campo das relações com os pares; o campo das relações com a linha hierárquica; e o campo das relações com a organização formal e informal da instituição.
No entanto, devido ao caráter dinâmico das entrevistas, não será possível apontarmos, especificamente, de qual técnica veio cada fala dos participantes, porque os métodos foram utilizados, por vezes, em uma mesma entrevista. Da mesma forma, não separaremos por tópicos, também, neste trabalho, os quatro domínios da experiência ora expostos acima quando apresentarmos a análise, pois, muitas vezes, em uma mesma fala, emergiam os diversos aspectos do trabalho e os campos se apresentavam emaranhados. Portanto, tal qual foi a entrevista, assim o será a análise, ou seja, dinâmica, não engessada.
Apesar de termos seguido outros caminhos de investigação e análise que puderam ser sugeridos pelas situações encontradas ou por outras abordagens aqui apresentadas, continuamos optando pela Clínica da Atividade como teoria de referência. Avaliamos, epistemologicamente, a possibilidade de um diálogo com outras clínicas do trabalho, sem perder, no entanto, a coerência interna. Dessa forma, vamos ao encontro do que afirmaram Osório da Silva, Barros e Louzada (2011) sobre a co-habitação de distintas metodologias e conceitos numa mesma pesquisa, como vimos no capítulo dois.