Suponho não estar psicologizando em excesso ao dizer que o ensino médio é a adolescência da educação. E não somente pelo fato de ter sua clien- tela na coorte de adolescentes, mas simbolicamente por ser esta a fase mais vulnerável, mais sensível às transformações sociais, às novas demandas so- ciais, às novas expectativas de determinada época. Há um consenso razoavel- mente extenso a respeito das dificuldades em todo o mundo educado de se estabelecer uma boa política para o ensino médio. Que se deve esperar dele? Formação para o mercado? Preparação para o ensino superior? Como lidar com a rapidez de seu envelhecimento para a sociedade e para os próprios es- tudantes? Pela perspicácia sociológica com que lidava com as questões edu- cacionais, Fernando de Azevedo já se referia à “permanente inquietação” de que sofre o ensino secundário ao fato de ser esse grau de ensino o mais sus- cetível às transformações sociais, econômicas e políticas dos últimos tempos. Essa inquietação permanente que, em quase todos os países, se vem tradu- zindo em constantes reformas tem, para Azevedo, três causas principais: a) a adaptação e articulação com os demais graus de ensino; b) a organização es- pecífica do curso secundário, isto é, deve ser uno ou múltiplo; e c) as diver- gências, ainda não solucionadas, entre o humanismo clássico e o moderno e o lugar que se lhe deve reservar no currículo secundário. E com estes apon- tamentos, entramos na última seção deste texto.32
Dos três decretos que motivaram estas notas, o que batizou a Lei Or- gânica do Ensino Secundário (Decreto-lei nº4.245 de 9 de abril de 1942) é aquele que também, como os dois outros, traduz fielmente o espírito que pre- sidia a montagem e consolidação do Estado Novo, mas que, ao contrário dos outros dois, mantém-se como desafio permanente aos governos e à própria sociedade. O teor essencialmente político que impregnou tanto o projeto da Organização Nacional da Juventude quanto o programa da Nacionalização do Ensino, a ponto de hoje os considerarmos extemporâneos, respingou na re-
32 Lucia Magalhães. Síntese da evolução e da situação atual do ensino secundário no Brasil,
palestra realizada na ABI para os candidatos ao Concurso a Técnicos de Educação. Arquivo Gus- tavo Capanema, 1939, FGV/CPDOC.
forma do ensino secundário, e não sem razoável justificativa. O ensino pri- mário é o momento de formação do caráter; o ensino secundário é decisivo na formação de mentalidade. O “homem novo” para o Estado Novo teria seu embrião vertebrado na adolescência, veria o mundo e avaliaria sua posição na sociedade de acordo com o convívio de juventude que tem no ensino se- cundário sua inequívoca expressão. As exposições de motivos que o ministro da Educação apresentou ao presidente da República, e que embasaram o pro- jeto de Lei Orgânica do Ensino Secundário ilustram didaticamente a sintonia em que deveriam trabalhar o Estado e a política educacional:
“A comissão terá em mira que, sendo a formação da personalidade integral dos adolescentes a primeira finalidade da educação secundária, a esse harmônico objetivo deverão atender, de maneira oportuna e adequada, todos os programas.”33
Constavam da comissão especial para a organização dos programas do curso ginasial — nomenclatura que se refere às quatro primeiras séries do 2º grau, de acordo com a Lei Orgânica de 1942 — o diretor-geral do Departa- mento Nacional de Educação e os diretores da Divisão de Ensino Secundário e da Divisão de Educação Física, os professores cel. Pedro Mariani Serra, Sousa da Silveira, Ernesto de Faria, Maria Junqueira Schmidt, Osvaldo Serpa, Euclides Roxo, Costa Ribeiro, João Pecegueiro, Melo Leitão, Jônatas Serrano, Delgado de Carvalho, Nereu Sampaio, Rocha Lima, Heitor Villa-Lobos e Ger- maine Marsaud. Consta ainda da exposição enviada ao presidente da Repú- blica a advertência de que cada programa de disciplina será, tanto quanto possível, marcado pelo sentido patriótico e pela preocupação moral. A distri- buição das disciplinas pelos diversos anos de curso dá bem a mostra da dire- triz que deveria ser observada. Prioridade para ensino de línguas, história, geografia, humanidades, enfim. Veículo mais adequado ao cumprimento do que seria prioridade na formação dos indivíduos em uma sociedade chamada a espelhar o Estado. Preocupados, como já ficou claro antes, com a desagre- gação individualista e pragmática da prática liberal, os formuladores de po- lítica no Estado Novo tinham na socialização de valores o espaço eleito para fomentar o holismo desejado. Educação física, musical, pré-militar e familial constituíam o conjunto das práticas educativas regulares no curso ginasial e também no curso clássico e científico que, no segundo ciclo, sucederiam, com a duração de três anos, aos quatro iniciais do ginásio. A demonstração de que o Estado estava integrado em matéria de formação da juventude se comprova no art. 55 da Lei Orgânica: As escolas secundárias vincular-se-ão à Juventude
Brasileira, da qual farão parte os seus alunos menores de 18 anos. Os pará- grafos desse art. 55 precisam mais o vínculo: as atividades cívicas da Juven- tude Brasileira, que terão caráter obrigatório, executar-se-ão dentro do pe- ríodo semanal dos trabalhos escolares e as faltas às comemorações especiais da Juventude Brasileira serão equiparadas às faltas às aulas das práticas edu- cativas.
Os pontos essenciais do projeto da nova lei de ensino secundário refor- çam o ensino das línguas (português nos sete anos de curso; latim em quatro anos e mais três para os que fizerem o curso clássico; grego no curso clássico; francês e inglês obrigatoriamente; e aos alunos do curso científico, o espanhol. Reforçam ainda o estudo das ciências, da educação moral e cívica, a educação feminina. Tais pontos estão em conformidade com o espírito geral que orien- tou a reforma: o ensino secundário tem duas finalidades essenciais: dar uma ampla e segura cultura geral aos adolescentes e orientá-los e torná-los aptos à realização de cursos profissionais de diferentes categorias e modalidades. Esse sis- tema, diz o ministro Capanema, “atende à necessidade de dar aos jovens es- tudantes aptidões necessárias e suficientes ao ingresso em cursos profissionais de níveis diversos, que assim se tornam acessíveis à vocação, à capacidade in- telectual e às possibilidades econômicas de cada um. As três categorias dife- rentes de cursos profissionais poderão dar acesso os ciclos do ensino secundá- rio: do primeiro ciclo se poderá ir aos cursos técnicos; do segundo ciclo, aos cursos superiores; e do terceiro ciclo, aos cursos universitários”.34
A retomada dos fundamentos da reforma do ensino secundário e sua comparação com as discussões contemporâneas a respeito da modernização de nosso sistema educacional são, a meu ver, exercícios mentais que nos re- velam a dinâmica da relação entre educação e sociedade. Politização da edu- cação, holismo pedagógico ou educação integral são termos que traduzem o ethos estado-novista. A concepção de democracia que os atores políticos e ideó- logos do Estado Novo defendiam se articulava precisamente na crítica ao in- dividualismo desagregador, conflitivo, efêmero e excessivamente pragmático. Democracia se refere à totalidade, à comunhão de uma idéia, à integração de cidadãos em um Estado benfeitor e condutor de mentalidades. Pertencer ao conjunto é identificar-se como cidadão de um espaço político circunscrito. Es- paço político dos iguais, dos cidadãos daquele conjunto, identificados e iden- tificáveis, representados e representáveis. A intolerância com o estranho, o es- trangeiro, os diferentes se baseia nessa concepção totalitária de inclusão no mundo dos iguais. As etnias estrangeiras são como notas dissonantes de um conjunto harmônico, sintonizado, consensualmente forjado. Se tal concepção não é natural, e não é, cabe às lideranças políticas, pedagógicas e religiosas a função de forjá-la, de construí-la em toda sua extensão. Daí a estratégica fun-
34 Gustavo Capanema. Algumas informações confidenciais sobre a Reforma do Ensino Secundário.
ção dos ideólogos do Estado, dos pedagogos do Estado e das alianças profí- cuas com o Estado como aquela que a Igreja católica efetivamente celebrou. O centro de toda essa arquitetura é a política; o sucesso de sua implementa- ção depende da capacidade que os atores e as instituições tiverem de criar nos indivíduos o sentido de habitus, na forma como o entendeu Norbert Elias: “saber social incorporado”. Política e cultura imbricam-se definitivamente em um programa de socialização para uma “democracia totalitária”, como já tra- tou Ricardo Benzaquen de Araujo.35
Este final de século, a década de 90, nos trouxe outra urgência. Sai de cena a política, entra agressivamente a economia não mais como ator sub- merso “na última instância”, mas como protagonista de uma cena que envolve a todos sem que se tenha qualquer controle sobre os resultados. Numa socie- dade onde a internacionalização dos procedimentos, a interação social pelos diversos mercados e a ligação virtual dos indivíduos com parceiros de outras plagas e identidades inteiramente desconsideradas são os elementos convida- dos como provocadores das necessidades de reformas educativas, a educação volta a ser protagonista de um roteiro não mais de idealização de um tipo de homem novo, político, mas sim de concretização do homo economicus em sua feição de final de milênio: plástico, habilidoso, intercambiável, polivalente. Combinar permanência e continuidade educativa progressivas com ideais tão decisivamente utilitários parece ser o grande desafio dos reformadores de nossa conjuntura de sociedade democrática, plural e competitiva.
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