Pretendo neste subcapítulo realizar um breve apanhado histórico das pesquisas em arte rupestre realizadas no Brasil apontando os pressupostos teóricos e metodológicos com os quais as pesquisas foram levadas a cabo ao longo de sua trajetória. Proponho aqui situar esta pesquisa frente às abordagens dada à arte rupestre e a produção bibliográfica que de certa maneira auxiliam e norteiam este trabalho e as escolhas por mim realizadas.
A arqueologia, hoje, pode ser vista a partir de diversas perspectivas teórico- metodológicas que marcaram o seu desenvolvimento e que foram ampliadas substancialmente nas últimas décadas do século XX. Estas tendências podem ser entendidas como integradas a contextos sociais, culturais e político-econômicos tanto em escalas regionais quanto globais com os quais a ciência, dentre elas a Arqueologia, estão inseridas.
Cacos de cerâmica, restos faunísticos, sepultamentos, instrumentos feitos em pedra, arte rupestre, todo o registro arqueológico foi entendido por diferentes pontos de vistas e discutidos sob vieses teóricos em diferentes períodos, mas que podem se sobrepor sem que haja prejuízo à investigação. Como aponta Tobias (2010, p.88/89) as diferentes perspectivas teóricas e metodológicas em arqueologia não se tratam de um jogo entre forças incompatíveis. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, fazem parte de um processo de acumulação e ampliação do conhecimento sobre o passado que é sempre interpretado, reinterpretado e concebidos por novos conceitos, métodos e técnicas.
Neste sentido, opto por expor algumas das aproximações dada à arte rupestre neste capítulo. Apresento inicialmente diferentes conceitos que tiveram uso em outros contextos e no Brasil para, posteriormente, indicar aquelas em que esta pesquisa possui afinidades. Julgo importante entender como se deu o uso de determinados conceitos no estudo da arte rupestre no Brasil, pois as escolhas teóricas e de método na dissertação são fruto de um processo de reflexão sobre elas, de (re)apropriação e/ou de suspensão de abordagens utilizadas em outros momentos e contextos.
O estudo da arte rupestre no Brasil passou por períodos mais ou menos bem definidos em que o tema incorporou objetivos e interpelações diversas em contextos que se distinguem de maneira relevante. É possível que hoje percebamos algumas destas diversidades, desde as pesquisas realizadas por “amadores” até o momento da formação da Arqueologia enquanto
38 “ciência”. A arte rupestre inserida em um contexto mais amplo é possível observá-la como arraigada em contextos distintos na produção de conhecimento.
Algumas correntes arqueológicas cujas origens conduzem às escolas europeias e norte- americana foram amplamente difundidas na América Latina e possuem reverberações até os dias de hoje em pesquisas realizadas no nosso continente. Dentre elas, as que tiveram usos amplamente difundidos no Brasil a partir da segundo metade do século XX são aquelas fundadas do histórico-culturalismo e do estruturalismo. Embora estas correntes utilizassem de um conjunto de referência e práticas, esses não eram expostos de maneira explícita ou clara pelos coordenadores de projetos de pesquisas que atuaram por aqui(LINKE, 2014).
As pesquisas em arte rupestre no Brasil tiveram seus primeiros levantamentos sistematizados nos estados do sul por Rohr e Piazza, Mentz-Ribeiro, Aytai, em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo respectivamente. Entretanto, é com a chegada das Missões Franco-Brasileiras e suas pesquisas realizadas em Lagoa Santa e no Piauí que a sistematização ganha força, seguindo com a expansão para outros estados do nordeste (PROUS, 1992).
Embora a arte rupestre tenha sido objeto de estudo antes da chegada das missões arqueológicas, Funari (1994) aponta que no começo dos anos 1950, Paulo Duarte trouxe ao Brasil em diferentes períodos a pesquisadora origem francesa Annette Laming-Emperaire que desenvolveu estudos inspirados pelo estruturalismo de Claude Lévi-Strauss, de modo semelhante a André Leroi-Gourhan. As pesquisas da Missão Arqueológica Francesa, no que diz respeito a arte rupestre, começaram em 1971 em Minas Gerais, sob coordenação geral de Laming-Emperaire.Os objetivos principais pautavamna caracterização dos temas, composições gráficas e a interpretação da arte rupestre sob os princípios do estruturalismo (PROUS, 1992).
O momento inicial de sistematização do registro arqueológico foi marcado pela pouca importância dada às particularidades individuais dos sítios e dos momentos de ocupação dos suportes rochosos. Assim, novos sítios eram inseridos nas classificações já elaboradas ou se propunham novas unidades classificatórias para eles. Este aspecto acabou dando espaço para agrupamentos artificiais de grafismos onde similaridades, estas priorizadas, poderiam não corresponder às realidades dos autores dos grafismos.
No início a atenção era voltada para a identificação de grandes padrões de similaridades gráficas, que foram agrupadas sob as tradições rupestres, e as relações cronológicas entre elas. Foram propostas diversas“tradições” rupestres em que algumas delas englobaram unidades menores (variedades, fáceis, estilos), correspondentes a períodos ou
39 territórios restritos nos limites geográficos e temporais abrangidos pelas tradições. O cenário arqueológico das décadas iniciais da sistematização da arte rupestre no Brasil, em que foram privilegiadas as semelhanças entre os grafismos, deixou pouco espaço para a convergência de significantes e a percepção das relações de contato indireto e trocas sócio-culturais entre os grupos executores da arte rupestre (RIBEIRO, 2006).
Para Barreto (1999), os pesquisadores Betty Meggers e Clifford Evans (Smithsonian Institution), influenciados pelo neo-evolucionismo da arqueologia americana e da ecologia cultural dos anos 50, trouxeram às pesquisas na região da Amazônia orientações teóricas advindas do determinismo tecno-ambiental. Entretanto, pouco desse corpo teórico foi passado aos arqueólogos brasileiros, e nas pesquisas em outras regiões do Brasil esta orientação teve pouco impacto na organização da arqueologia brasileira, sobretudo nas pesquisas que ocorriam no âmbito do PRONAPA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas).
Na publicação “Method and Theory in American Archeology: An Operational Basis
for Cultural-Historical Integration” de Phillips & Willey (1953), nota-se que seus
pressupostos, na medida em que apresentam algumas das bases da arqueologia histórico- cultural, alguns de seus conceitostiveram diferentes desdobramentos na arqueologia brasileiras, os quais foram amplamente utilizados no início da sistematização dos registros arqueológicos. O conceito de tradição era entendido como um conjunto de elementos ou técnicas compartilhadas e que possuem persistência temporal; já o de fase era encarado como conjuntos de elementos culturais que estão associados, relacionados no tempo e no espaço em menor escala (PHILLIPS & WHILLEY, 1953; PROUS, 1992).
Phillips & Willey (1953), ao discorrerem sobre o conceito de fase, consideram que o registro material humano é produto de comportamentos sociais e que o arqueólogo por vezes é incapaz de realizar as ligações entre suas formulações e as unidades sociológicas, principalmente se considerarmos que as proposições que são elaboradas, na prática social, podem não ter correspondências. Em outras palavras, a preocupação dos autores é a de que os componentes que agrupamos em uma fase ou momento de ocupação podem não ser de fato o contexto vivente das sociedades estudadas. Esta preocupação, presente em qualquer estudo em que se pretende delimitar pretensas diferenças ou similaridades que refletem ou não o compartilhamento de comportamentos, se dá da mesma maneira.
Os autores supracitados propõem que, além do exposto acima, não podemos ter certeza que membros individuais de comunidades se reconheceriam como pertencentes ao mesmo povo, poderiam nem mesmo falar a mesma língua. A exemplo disso, a etnoarqueologia demonstra que diferentes sociedades, eventualmente, partilham a mesma
40 cultura material, podendo as diferenças entre as sociedades passarem desapercebidas dos olhos do arqueólogo.
O PRONAPA, sob influência de propostas de arqueólogos norte-americanos, tinha por objetivo realizar pesquisas arqueológicas no Brasil de modo a oferecer em curto prazo de tempo um quadro geral das culturas arqueológicas por meio da observação de semelhanças. Os principais métodos envolviam a realização de prospecções, testes e pequenas escavações organizando os dados em categorias como “fases” e “tradições” (PROUS, 1992). Cabe enfatizar que existem diferentes abordagens teóricas nas primeiras pesquisas arqueológicas realizadas no Brasil, em que algumas delas estabeleciam cronologias relativas e absolutas para criação fases e tradições. Barreto (1999) lembra que estas categorias estavam intimamente relacionadas ao difusionismo cultural europeu e não ao neoevolucionismo ecológico estadunidense como se acredita.
No Brasil, Anne-Marie Pessis (1992, 1993, 2003), com formação na tradição arqueológica francesa e ligada às missões franco-brasileiras, interpretou as semelhanças gráficas de conjuntos da Tradição Nordeste como expressão de etnicidade comum entre os agentes criadores das figurações. Esta concepção, apoiada em escopos teóricos-metodológicos extremamente frágeis e passíveis de duras críticas, atualmente não é amplamente aceito por arqueólogos e carece de revisão. O que não faltam são exemplos concretos de estudos etnográficos que caminham em sentido contrário a essa proposta. Entretanto, este tipo interpretação configura-se como questões que frequentemente surgem nas pesquisas realizadas na arqueologia: a atribuição dos objetos a grupos étnicos no tempo e espaço. Além da correspondência entre as semelhanças observadas nos vestígios e as realidades históricas, culturais e sociológicas.
A influência do histórico-culturalismo e do estruturalismo na arqueologia brasileira tiveram amplo alcance e aceitação por parte dos arqueólogos. Não obstante, outras necessidades vêm surgindo nos últimos anos, com maior presença a partir da década de 90. Os pressupostos destas duas escolas têm ganhado novos olhares, alguns aspectos foram e ainda estão sendo (re)discutidos, outros abandonados e novas aproximações téoricas e metodológicas foram acrescentadas nos estudos da arte rupestre no Brasil. Este é, também, um reflexo da emergência de novas questões a serem atendidas por pesquisadores em outros países, possibilitando o debate acerca da arte rupestre em diferentes contextos.
Em Minas Gerais, por exemplo, as pesquisas realizadas nas décadas de 70 e 80 passaram a ser revistas a partir de novos estudos realizados pelo Setor de Arqueologia da UFMG. Os trabalhos que tiveram como principal preocupação a ordenação, criação de
41 tradições e fáceis e as dispersões no território passam a ser examinadas considerando outras perspectivas. Foram incorporados outros elementos ampliando as concepções de tradições e estilos, valendo-se de aspectos da paisagem e suas relações com os sítios para caracterizar os agrupamentos gráficos.
Dentre trabalhos precursores que se destacam neste sentido, com os quais esta dissertação possui afinidades, destaco os trabalhos de Loredana Ribeiro e Andrei Isnardis (1996/1997) no Peruaçu (MG) e, posteriormente o mesmo autor identificando padrões nas escolhas de sítios e suportes em diálogo com a paisagem (ISNARDIS, 2004). Estudos mais recentes em outras regiões, que passaram a incorporar diversas outras variáveis da paisagem em Diamantina (LINKE, 2008) e o trabalho de Rogério Tobias (2010) em Jequitaí (MG), delinearam relações entre temáticas dos grafismos por meio da cronoestilística em diferentes litologias também foram fontes com as quais dialogo. Todos estes trabalhos se diferenciam dos momentos iniciais dos estudos com arte rupestre no Brasil, além do exposto acima, na medida em que consideram os contextos de inserção buscando entender além das similaridades, as divergências estilísticas entre conjuntos gráficos, fundamentais para a compreensão da arte rupestre regional e em maiores escalas.