No contexto C, a gestora afirmou inicialmente que os casos de nervosismo e sofrimento psicológico são encaminhados para diferentes serviços próximos à Unidade. Ela possui uma lista com o endereço e telefone desses serviços (ambulatórios e policlínicas vinculados ao SUS) e os fornece ao usuário junto com o encaminhamento. A participante colocou ainda que não tem muitos problemas com isso e acredita que a maioria dos usuários deve conseguir atendimento, uma vez que não retornam à Unidade. Contudo, em uma segunda visita, a gestora solicitou uma atividade em saúde mental que pudesse contribuir para a formação dos trabalhadores nesse campo.
Diante dessa solicitação e com o intuito de aproveitar esses momentos em grupo para conhecer melhor o cotidiano do serviço, foram realizados seis encontros com todos os trabalhadores, denominados de “rodas de conversa em saúde mental”. Cada encontro versou sobre um tema relacionado ao campo da saúde mental: 1) A discussão normalidade e anormalidade; 2) O que é depressão; 3) O que é ansiedade e nervosismo; 4) O que é psicose; 5) O que é mania; 6) A promoção de saúde integral e as ações em saúde mental.
Em linhas gerais, esses encontros proporcionaram um espaço de reflexão sobre esses diferentes temas e, principalmente, deixou em evidência para todos os participantes a ausência de dispositivos de cuidado em saúde mental de maneira mais específica. Boa parte deles se mostrou sensibilizada com a temática do sofrimento psicológico, mas deixou clara a dificuldade em lidar com esses casos. Muitos relataram casos de suas próprias famílias e da impotência em ajudar as pessoas em função do estigma, que ainda circunda a questão da loucura, e da sensação de que não podem fazer nada, da cronicidade do caso e consequente impossibilidade resolutiva.
Em um dos encontros, uma enfermeira aponta que esses usuários têm necessidade de escuta, mas devido à alta demanda, eles não recebem um acolhimento adequado. A participante afirma que quando não há acompanhamento, os pacientes podem “cronificar” (sic). Nesses encontros, alguns depoimentos evidenciam a importância de refletir sobre o tema da saúde mental, destacando os aspectos positivos desse tipo de abordagem:
Quando a gente chega a um lugar e vê uma família desestruturada e pode fazer algo por ela, é muito bom. Faz bem a gente. (trabalhador, contexto C)
Sair dos muros. É isso que a gente precisa. (trabalhador, contexto C).
Esses momentos de reflexão contribuíram para que os participantes pudessem constatar que as ações de promoção de saúde, que já são desenvolvidas na Unidade, podem contribuir para o alívio do sofrimento psicológico das pessoas. Assim, atividades como o grupo de idosos, de caminhada, de dança, de teatro, também podem ser espaços de promoção de saúde mental. Isso só foi ficando claro à medida que os trabalhadores iam falando sobre os diferentes casos e discutindo sobre as questões de saúde mental mais específicas. Nos contextos anteriores (A e B), os trabalhadores conseguiam
identificar o problema, mas se sentiam impotentes para mudar alguma coisa. No processo de interanimação dialógica proporcionada pelas rodas de conversa, a maioria dos trabalhadores do contexto C puderam sair do discurso da impotência para pensar melhor sobre como aproveitar os espaços já existentes na Unidade.
Observa-se que a dicotomia entre saúde e saúde mental parece dificultar as ações, no sentido de que os trabalhadores não percebem ou não consideram que algumas ações de saúde podem promover, também, alívio no sofrimento psicológico. Contudo, ao ter espaço para refletir sobre essas questões, a dicotomia vai perdendo sua força.
No último encontro das rodas de conversas, foi realizada uma atividade em grupo para a construção de estratégias de atenção à saúde mental dentro das possibilidades da Unidade. Cada grupo trabalhou por aproximadamente 1h e elaborou um cartaz com as ideias discutidas. O primeiro grupo colocou que a caminhada já é realizada, mas que poderiam proporcionar outras ações de lazer para os usuários, assim como organizar um grupo para alcoolistas e portadores de deficiência mental.
O segundo grupo apontou a importância do acolhimento e da escuta a essas pessoas e sugeriram atividades artísticas e de educação física. O terceiro também apontou a importância das atividades de lazer, música, brincadeiras e a importância de inserir as crianças com problemas psicológicos nessas ações. O quarto grupo abordou a questão do acolhimento trazendo as concepções de amor e liberdade como pressupostos fundamentais para esse tipo de trabalho. O quinto grupo recomendou a realização de rodas de conversas com os usuários e afirmou que não se pode ficar indiferente ao sofrimento do outro.
No momento de avaliação das rodas de conversa, os participantes apontaram a importância desse tipo de trabalho para melhorar o entendimento sobre as singularidades do sofrimento e de outros problemas de saúde mental. Percebeu-se quão
importante é, no campo da saúde mental, esse tipo de atividades de debate e reflexão conjunta e a necessidade de se implantar urgentemente dispositivos de cuidado, como apoio matricial e equipes do NASF. Contudo, é preciso cuidar para que essas estratégias não sejam implantadas de forma verticalizada, impositiva e prescritiva como parece acontecer com a maioria das ações em saúde.
Mais uma vez fica evidente que a qualificação formal ou tradicional em saúde mental não é o mais importante para ampliar as intervenções na atenção básica. Os trabalhadores de saúde precisam também desses espaços de construção conjunta de conhecimentos a partir dessas questões, trocar ideias de como potencializar o que já é realizado na Unidade, bem como propor ações que nem sempre são exclusivas do campo da saúde.