No processo de produção dos planos de aulas, os futuros professores definiram os temas de acordo com interesse e curiosidades e construíram suas ideias com a utilização das tecnologias digitais. A ideia foi a de que eles pudessem analisar e discutir, à luz de fundamentos teóricos dos campos conceituais, como um professor organiza uma aula, para que futuramente tenham elementos para organizar a sua própria aula (CYRINO; OLIVEIRA, 2016).
Este ponto da pesquisa demonstrou um crescimento cognitivo nos aspectos conceitual e procedimental, pois, além do domínio e precisão na abordagem dos conceitos matemáticos nos planos de aulas, os futuros professores se apropriaram dos procedimentos necessários em cada etapa, como também, desenvolveram o poder de argumentação e a criatividade, o que condiz com a construção e produção de conhecimento.
Após momentos de debates sobre a utilização pedagógica das tecnologias, propomos aos futuros professores que planejassem uma aula utilizando tecnologias digitais, para isso disponibilizamos um modelo de plano de aula utilizado pelas formações da OBEDUC/Emult e os licenciandos se basearam também no modelo de aula do Portal do Professor14. Os planos de aulas dos futuros professores que envolviam tecnologias se encontram no Apêndice C.
Em seguida, iniciamos um debate com os futuros docentes sobre como foi este momento de preparação de um plano de aula com a utilização das tecnologias digitais. Buscamos focar se no planejamento os licenciandos conseguiram inserir efetivamente as tecnologias e como esperam trabalhar com estes recursos de forma pedagógica.
Salientamos que, dos quatro participantes da pesquisa, dois utilizaram as tecnologias digitais em seus planos de aulas e os outros dois não fizeram a abordagem com tecnologias. Para melhor organização, traremos primeiramente o debate com os que utilizaram e posteriormente com os que não utilizaram os recursos digitais.
A seguir temos uma discussão com D2 e I3 sobre a utilização das tecnologias em seus planos de aulas. O primeiro fez uma proposta de aula com a utilização do vídeo que haviam produzido e o segundo fez uma proposta com a utilização do Geogebra.
Pesquisador– Percebemos que vocês propuseram o uso de vídeos e
do Geogebra em suas aulas. Qual foi a motivação para estas ideias?
D2– Estas ideias sugiram a partir da formação, pois antes não tinha a menor ideia da utilização pedagógica das tecnologias. Pra falar a verdade não tinha nem ideia de como fazer um plano de aula. Quando produzimos o vídeo, achei que seria interessante propor ele em uma aula de funções, porque posso abordar o vídeo e depois pedir aos meus alunos que criem seus próprios vídeos.
I3 - A minha proposta foi explorar e construir com meus alunos o conceito de função afim. Nos momentos de formação achei muito interessante a utilização do Geogebra, daí escolhi este software para observarmos a influência dos coeficientes a e b no gráfico. Podemos gerar gráficos no software Geogebra e a partir daí manipular e
14 portaldoprofessor.mec.gov.br/
analisar de forma colaborativa a influência dos coeficientes a e b na função afim.
Evidenciamos que os futuros professores D2 e I3 já se colocam como se estivessem indo para a prática docente e além disso conseguiram perceber a relevância da utilização pedagógica das tecnologias digitais no ensino de Matemática. No uso de vídeos, o participante D2 afirmou que pretendia mostrar o vídeo que os futuros docentes produziram sobre a questão das operadoras de celular e depois trazer um debate sobre funções para a produção de outros vídeos.
A proposta do futuro professor sobre a utilização pedagógica das tecnologias para o ensino de um conceito específico vai ao encontro do TPACK (MISHRA; KOEHLER, 2006), principalmente quando o futuro docente demonstra que reservará um momento da aula para que os estudantes produzam seus próprios vídeos. Estamos em uma sociedade da produção e compartilhamento e isto torna o conhecimento mais eficiente.
Em uma das atividades da pesquisa em que produzimos um vídeo, o licenciando D2 relatou que foi uma experiência relevante e que tinha passado de expectador para coautor (SILVA, 2012) e agora faz uma proposta semelhante quando for atuar como docente. Assim, constatamos que a formação colaborativa contribuiu para a prática deste futuro professor.
O participante I3formulou a proposta de gráficos no software Geogebra e a partir daí manipular e analisar de forma colaborativa a influência dos coeficientes a e b na função afim. Ao permitir que os estudantes manipulem livremente os coeficientes e formalizem seus conceitos, o futuro professor insere os alunos na aula como sujeitos ativos do conhecimento. A partir da criação de estratégias para abordar o conteúdo de função afim, evidenciamos as contribuições no processo formativo do futuro professor. A seguir, exporemos a fala dos futuros docentes que não propuseram as tecnologias digitais em seus planos de aulas:
J4 - Fiz a proposta de trabalhar com resolução de problemas. Acho interessante o trabalho com as tecnologias, mas as vezes pode complicar mais.
Pesquisador - Complicar mais para quem?
J4 - Para os alunos e para os professores.
N5 - Eu fiz a proposta para a criação de um gráfico, mas não coloquei se era com tecnologias ou não. Mas acho que com tecnologias pode fazer mais sentido.
Pesquisador– N5 porque você não colocou as tecnologias no plano de aula?
N5 – Acho que pode fazer mais sentido, mas concordo com J4 que
A partir das falas de J4 e N5, constatamos que no momento de elaboração do plano de aula não ficou clara a contribuição das tecnologias. A justificativa colocada por estes futuros professores é que os recursos digitais podem complicar mais em alguns momentos. Mesmo que esta proposição seja verdadeira, acreditamos que se de fato a utilização pedagógica das tecnologias tivessem feito sentido para estes futuros professores eles teriam feito essa abordagem em seus planos de aula.
Este dado demonstra que os futuros docentes precisam se familiarizar mais em que as tecnologias digitais podem contribuir para os processos de ensino e aprendizagem da Matemática. Estamos trazendo esta reflexão porque no momento de alguns debates todos os participantes mostraram ter algum conhecimento da utilização pedagógica das tecnologias, mas no momento de trazer isto para o planejamento de uma aula nem todos demonstraram este conhecimento.
A partir dos planos de aulas dos futuros professores, evidenciamos que todos os participantes da pesquisa tiveram como foco o conceito de função que está dentro do campo conceitual das estruturas multiplicativas. Em relação à presença das tecnologias digitais no plano de aula, 50% dos participantes da pesquisa não propuseram a utilização dos referidos recursos, mesmo sendo uma proposta feita anteriormente à elaboração do plano. Este fato demonstra ainda certo afastamento dos futuros professores em relação à utilização pedagógica das tecnologias (MISHRA; KOEHLER, 2006).
Os resultados discutidos mostram que, mesmo com a continuidade de algumas limitações em relação à utilização pedagógica das tecnologias, os futuros professores conseguiram avançar em relação a este debate. No início da formação, os participantes da pesquisa desconheciam qualquer forma de utilizar pedagogicamente os recursos digitais e ao final da formação colaborativa evidenciamos que existe um empenho para o trabalho com os referidos recursos.
Os recursos digitais utilizados foram relevantes para a exposição dos conhecimentos dos futuros professores. As tecnologias utilizadas durante os eventos foram fundamentais para a construção do conhecimento sobre o ensino e a aprendizagem de estruturas multiplicativas, com foco nos conceitos de covariação.