• Sonuç bulunamadı

KURUM İÇİ ANALİZ VE ÇEVRE ANALİZİ KURUM İÇİ ANALİZ

Que significa o “retorno a Freud”? E por que esse retorno se constituiu em uma reviravolta? Para tratar da questão do “retorno a Freud”, utilizaremos a conferência pronunciada por Foucault O que é um autor?, na qual ele trata da questão do “retorno” como momento decisivo na transformação de um campo de discurso. Segundo ele, o autor não é exatamente nem o proprietário nem o responsável por seus textos; nem o produtor nem o inventor de seus textos; é aquele a quem se pode atribuir o que foi dito ou escrito.

A noção de escrita deveria permitir deixar-se de lado a referência ao autor e dar-se estatuto a sua nova ausência. Pensar a escrita como ausência é localizar esse espaço vazio pelo desaparecimento do autor como sujeito, “seguir de perto a repartição das lacunas e das fissuras e perscrutar os espaços, as funções livres que esse desaparecimento deixa a descoberto” (FOUCAULT, 2006, p. 41), constatando-se que, em lugar do desaparecimento do autor, o que irrompe é sua obra. Nesse sentido, Lacan (1970, p. 425) diz, em Radiofonia: “o autor deve ser relegado a se tornar instrumento de um desejo que o ultrapassa”.

Foucault (2006, p. 59) refere-se a certos autores designando-os como “instauradores de discursividade”, a qual representa um espaço aberto além deles e que, no entanto, pertence ao que eles fundaram, exigindo um “retorno à origem”. Ao fundar a psicanálise, Freud “tornou possível um certo número de diferenças relativamente aos seus textos, aos seus conceitos, às suas hipóteses que relevam do próprio discurso psicanalítico” (FOUCAULT, 2006, p. 60). Nesse sentido, Freud é um instaurador da discursividade.

Segundo Foucault (2006, p. 64), “o retorno a [...]” é um movimento que tem sua especificidade e que caracteriza as instaurações de discursividade. Para que haja retorno, é preciso que tenha havido uma instauração discursiva esquecida, um esquecimento essencial e constitutivo. Retorna-se ao próprio texto, ao texto em sua nudez:

ao que está marcado em vazio, em ausência, em lacuna do texto. Regressa-se a um certo vazio que o esquecimento tornou esquivo ou mascarou, que recobriu com uma falsa ou defeituosa plenitude, e o retorno deve redescobrir, essa lacuna e essa falta; daí o jogo perpétuo que caracteriza os retornos à instauração discursiva (FOUCAULT, 2006, p. 65).

A instauração discursiva esquecida é, ao mesmo tempo, a tranca e a chave que se permite abrir a si própria.

3.1.2 Retorno a Freud versus Psicologia do Ego

Na conferência de 08 de julho de 1953, intitulada O simbólico, o imaginário e o

real, Lacan anunciou o que ele denominou “retorno a Freud” – que significa a volta às fontes

e a verdadeira apreensão da teoria da psicanálise, em todos os sentidos da palavra –, com o propósito de evitar os desvios operados na psicanálise, sobretudo pelos teóricos da psicologia do ego, para os quais o tratamento psicanalítico privilegiava o eu, para reforçá-lo e torná-lo a instância mais forte da personalidade, em detrimento do isso e da parte inconsciente do eu. Por sua própria constituição, o sujeito não tem acesso a qualquer percepção objetiva do eu, pois é na imagem do outro que o sujeito se constitui e se orienta. É essa imagem alienante que ele tende a reencontrar e que, por se tratar de uma ilusão, lhe escapa sempre.

Por ocasião da conferência Freud no século (1955-1956), Lacan questiona, sobre a descoberta da psicanálise, “por que procurar a gênese dessa descoberta fora das significações que seu inventor encontrou em si mesmo na via que o conduzia a ela” (p. 267). Para Lacan, essa descoberta deveria ser isolada com todo o rigor nos procedimentos de investigação do inconsciente, investigação de ordem autenticamente psicanalítica, que parecia ter perdido completamente o sentido.

Para restituir a singularidade do percurso freudiano, Lacan (1953, p. 247) ressaltou: “a nossa tarefa será demonstrar que esses conceitos só adquirem pleno sentido ao se orientarem num campo de linguagem, ao se ordenarem na função da fala”. E, nessa perspectiva, mostrar o relevo próprio da obra de Freud.

Em Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953), Lacan retoma a questão da garantia da transmissão da doutrina freudiana, afirmando que os desvios sofridos poderiam ser corrigidos por um estudo das funções da fala realizado por psicanalistas. Enfatizou, dessa forma, a necessidade de se entender Freud através do registro da linguística, “o relevo da obra freudiana, sem o que nada do que ele desenvolve a seguir nem sequer é pensável” (LACAN, 1955-1956, p. 271).

Segundo Roudinesco (1998, p. 448), além da linguística de Ferdinand Saussure e de Roman Jakobson – da qual Lacan extraiu as concepções de significante e de inconsciente organizado como uma linguagem, ele se baseou na filosofia heideggeriana – o que resultou num questionamento sobre o estatuto da verdade, do ser e de seu desvelamento – e nos trabalhos de Lévi-Strauss – dos quais deduziu a noção do simbólico, da universalidade da interdição do incesto e do complexo de Édipo.

O “sentido do retorno a Freud é um retorno ao sentido de Freud [...] a descoberta de Freud questiona a verdade, e não há ninguém que não seja pessoalmente afetado pela verdade” (LACAN, 1955, p. 406). O sentido de Freud é o retorno da descoberta freudiana nos aspectos clínico, teórico e ético. É com esse propósito que Lacan inicia seu ensino, a partir de 1953, e com o mesmo propósito o conclui, na Carta de dissolução (1980), com o objetivo de que

no campo aberto por Freud, se restaure a sega cortante de sua verdade; que reconduza a práxis original que ele instituiu sob o nome de psicanálise ao dever que lhe compete em nosso mundo; que, por uma crítica assídua, denuncie os desvios e concessões que amortecem seu progresso, degradando seu emprego. (LACAN, 1980, p. 319).

Lacan reinventa a psicanálise sem abandonar o campo freudiano, como diz no

Seminário de Caracas (1980), p. 290): “Cabe a vocês serem lacanianos, se quiserem. Eu, eu

sou freudiano”. E conclui seus ensinamentos com estas palavras: “queremos, com o percurso de que estes textos são marcos e com o estilo que seu endereçamento impõe, levar o leitor a uma consequência em que ele precise colocar algo de si” (LACAN, 1966, p.11).

Benzer Belgeler