AMAÇ, HEDEF VE EYLEMLER
GÜVENLİK PLANIMIZ
Na conferência de 08 de julho 1953, Lacan apresenta as fontes e os fundamentos teóricos em que se apoia para descrever os “três registros essenciais da realidade humana”: imaginário, simbólico e real. Nesses primeiros escritos, embora ele aborde os três registros, a ênfase é dada ao imaginário e ao simbólico O real é pouco falado e, às vezes, pode ser confundido com a realidade, contudo é, enfim, definido como “a totalidade ou o instante esvanecido. Na experiência analítica, para o sujeito, é sempre o choque com alguma coisa, por exemplo, com o silêncio do analista” (LACAN, 1953, p. 45).
Lacan introduz a questão das satisfações ilusórias do sujeito e observa que o objeto imaginário para a satisfação do sujeito não é encontrado no “real puro e simples”. Para aplacar a fome ou a sede, faz-se necessária a absorção de alimentos que as satisfaçam, pois a
satisfação ilusória causaria danos irreversíveis. Um comportamento pode tornar-se imaginário quando “sua orientação a partir de imagens, e seu próprio valor de imagem para um outro sujeito, o tornam suscetível de deslocamento fora do ciclo que assegura a necessidade natural” (LACAN, 1953, p.20). Por exemplo, um fetichista pode ejacular diante de uma pantufa – deslocamento do órgão feminino –, o que mostra a satisfação imaginária encontrada no registro sexual, mas a pantufa não serve para aplacar a fome, mesmo extrema, de um indivíduo. Aí já vemos a proximidade do simbólico ao imaginário. É necessária uma conotação simbólica para que o imaginário adquira consistência.
As categorias do imaginário não são suficientes para a concepção de objeto ilusório. A pantufa da mulher, objeto ilusório, não desempenha sua função no sujeito humano na qualidade de imagem, mas como elemento significante numa cadeia significante.
Do mesmo modo, lidamos constantemente com fantasias no curso da análise. Encontramos, por exemplo, fantasias de felação. Nesses casos, trata-se, da mesma forma, de deslocamentos imaginários. Mas o imaginário não se confunde com o campo do analisável: não basta que um fenômeno represente um deslocamento, ou seja, que seja imaginário, para ser analisável. É preciso que represente outra coisa diferente dele mesmo, que esse elemento imaginário tenha um valor simbólico dentro do contexto da análise em que está inserido, que a fantasia surja no momento do diálogo, para expressar, para simbolizar algo que tenha um sentido diferente.
O símbolo, na relação analítica, isto é, o que encontramos e de que falamos – o sonho, o sintoma, os atos falhos – é organizado e estruturado como uma linguagem, funcionando a partir do significante e do significado, ou seja, funcionando como a própria estrutura da linguagem. O sintoma histérico, por exemplo, equivale a uma atividade sexual, mas o sintoma não é a ela reduzido, pois é sobredeterminado. O sintoma é construído como os sonhos: com uma superposição de símbolos tão complexa como ocorre numa frase poética, “que vale ao mesmo tempo por seu tom, sua estrutura, seus trocadilhos, seus ritmos, sua sonoridade. Tudo se passa em diversos planos, e tudo é da ordem e do registro da linguagem” (LACAN, 1953, p.24).
Quando o sujeito chega à experiência analítica, ele começa a falar e, no início, são “palavras de pouco peso.” Mas ele não vem ao analista para dizer tolices ou banalidades; “é seu próprio sentido que ele vem mais ou menos procurar. Algo paira miticamente sobre a pessoa daquele que o escuta” (LACAN, 1953, p.27). A fala, a partir do momento em que acontece, desempenha um papel essencial de mediação, que muda os dois parceiros em
presença. E, nesse sentido, é também uma ação, uma forma de ato que faz existir o que não existia antes.
Mas qual o papel que a linguagem desempenha na formação dos símbolos? Toda e qualquer relação a dois está marcada pelo imaginário e, para que uma relação tome seu valor simbólico, “é preciso haver a mediação de um terceiro personagem que realize, em relação ao sujeito, o elemento transcendente graças ao qual sua relação com o objeto pode ser sustentada a certa distância” (LACAN, 1953, p.33). A partir desse momento, intervém o registro da lei – o registro do simbólico –, aquilo em que o sujeito se engaja numa relação propriamente humana.
Para explicar o simbólico, Lacan se apoia no exemplo freudiano Fort Da, descrito em Além do princípio do prazer (1920). Trata-se de um jogo instituído em dois tempos. No primeiro, a criança arremessa um carretel por um cordão, de maneira que o carretel desapareça;, e, ao mesmo tempo, ela profere a sílaba Fort (longe, ausente). No segundo, o carretel é recuperado e, quando reaparece, a criança profere a sílaba Da (aí, presente). Nessa experiência, o prazer liga-se ao segundo ato, o do reaparecimento do objeto. Na ausência da mãe, a criança encena o desaparecimento e o reaparecimento do objeto – o carretel – que está ao alcance desta, criando a alternância da presença e da ausência da mãe. O significante só tem sentido diante de outro significante; dessa forma, o Fort – representação da mãe pelo carretel – só passa a ter sentido diante do Da – simbolização da ausência materna.
A repetição dessa experiência aflitiva se harmoniza com o princípio do prazer, e essa escansão temporal mantém a identidade do objeto, na presença e na ausência. Nessa escansão, tem-se a significação do símbolo, o símbolo do objeto – “objeto-aí” –, encarnado em sua permanência, separado de si próprio e sempre à disposição. O objeto passa para o plano da linguagem: “o símbolo emerge, e torna-se mais importante que o objeto” (LACAN, 1953-1954, p. 206).
Lacan critica os pós-freudianos, mostrando que eles, ao privilegiarem a resistência, na experiência analítica, desconsideram o instinto de morte, anulando, de certa forma, a função simbólica da linguagem. Da morte, da perda ou ausência, nasce/emerge o símbolo para representar o objeto perdido. O símbolo tem relação com a permanência de tudo o que é humano e do próprio homem. Por exemplo: “o primeiro símbolo em que reconhecemos a humanidade em seus vestígios é a sepultura, e a intermediação da morte se reconhece em qualquer relação em que o homem entra na vida de sua história” (LACAN, 1953, p. 320).