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Vizard (2006, p. 187-188) sustenta que os Estados-parte dos tratados internacionais de direitos humanos possuem obrigação de cooperação e assistência mútua, de modo que as obrigações de cada Estado-parte extrapolam o âmbito de seus respectivos territórios e abrange ações que visam a garantir o respeito aos direitos humanos em todas as nações signatárias do tratado. De acordo com a autora, essa conclusão apoia-se nos artigos 55 e 56 da Carta das Nações Unidas, em conjunto com os artigos 2 e 23 do PIDESC. O Comentário Geral nº. 3 do CDESC reforça essa compreensão, assim como o Comentário Geral nº. 14, destacando que as obrigações coletivas também se estendem às agências especializadas das nações unidas, como o Banco Mundial, o FMI, os bancos regionais de desenvolvimento e a Organização Mundial do Comércio.
A Declaração Sobre o Direito ao Desenvolvimento, adotada em 1986 pela Assembléia Geral das Nações Unidas, estipula, nos artigos 3 e 4, o dever de cooperação internacional entre os Estados, os quais devem adotar medidas, individual e coletivamente, para formular políticas de desenvolvimento. Vizard (2006, p. 189) cita a posição de Sengupta, para quem, no contexto de globalização, devem haver “Pactos de Desenvolvimento”, que
[...] reflitam a necessidade de um aprimorado mecanismo internacional que coordene as ações dos vários titulares de obrigações em matéria de desenvolvimento e direitos humanos (Estados nacionais, outros Estados, organizações internacionais, etc.) e garanta a cooperação bilateral e multilateral eficaz em situações multilaterais onde os
58 No original: ‘The right to life is a fundamental human right, and the exercise of this right is essential for the exercise of all other human rights. If it is not respected, all rights lack meaning. Owing to the fundamental nature of the right to life, restrictive approaches to it are inadmissible. In essence, the fundamental right to life includes, not only the right of every human being not to be deprived of his life arbitrarily, but also the right that he will not be prevented from having access to the conditions that guarantee a dignified existence. States have the obligation to guarantee the creation of the conditions required in order that violations of this basic right do not occur and, in particular, the duty to prevent its agents from violating it’
direitos humanos internacionalmente reconhecidos não podem ser garantidos por agentes individuais agindo sozinhos (e onde a cooperação pode ser necessária para alcançar a completa realização de um direito humano). (VIZARD, 2006, p. 189).59
O CDESC tem enfatizado a importância de constar nos relatórios enviados pelos Estados-parte a indicação de todos os obstáculos que impedem ou dificultam a implementação dos direitos econômicos, sociais e culturais. Entre as muitas causas relacionadas pelos Estados, tem merecido destaque, pela sua repetição, o endividamento externo, a exemplo dos relatórios do Equador em 1991, do México em 1993 e do Senegal em 1993. (VIZARD, 2006, p. 189- 190).
Esse e outros aspectos tem ocasionado o direcionamento do foco da advocacia de direitos humanos para o contexto internacional econômico e financeiro, em especial no que concerne às políticas de subsídios agrícolas, aos direitos e propriedade intelectual relativos a medicamentos, e outras regras que tratam dos arranjos econômicos internacionais. Citando Robinson, Vizard (2006, p. 191) obtempera que no contexto de pandemias, como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) e malária, é essencial o acesso a medicamentos para a realização progressiva do direito humano à saúde, mas tal acesso é limitado pela natureza das regras internacionais de comércio inseridas nos acordos realizados perante a OMC, assim como pelo fato de as pesquisas não serem direcionadas às doenças que atingem aqueles que vivem na pobreza.
Nessa conjuntura, o próprio Banco Mundial tem acenado mudanças nas suas políticas, o que se conclui a partir de documentos como o Painel de Inspeção de 1999. Esse documento, como assevera Vizard (2006, p. 192), aponta a tendência da instituição em não mais restringir suas inspeções à análise da observância de suas diretrizes operacionais, mas expandi- las no sentido de abranger o exame de questões concernentes aos direitos humanos. No mencionado painel, o Banco Mundial constatou que o governo da Argentina agiu de modo inadequado, ao cortar orçamento para um programa social, e que o monitoramento da execução do acordo foi falho por parte do banco. Em suma, concluiu-se que, embora o acordo de empréstimo não estipulasse quais quantidades específicas do orçamento deveriam ser destinadas a cada um dos vários programas sociais, o serviço do Banco de monitoramento da execução do contrato revelou-se limitado, ao não questionar se o orçamento destinado aos programas sociais era suficiente para sustenta-los durante o ano fiscal.
59 No original: […] reflect the need for an enhanced international mechanism that coordinates the actions of the various obligation holders in the field of development and human rights (national states, other states, international organizations, etc.) and ensures effective bilateral and multilateral cooperation in multiparty situations where the internationally recognized human rights cannot be guaranteed by single agents acting alone (and where cooperation may be required to achieve the complete realization of a human right).
Num sentido parecido, a diretriz nº 19 das Diretrizes de Maastricht aponta que as organizações compostas por Estados-parte do PIDESC, incluindo as instituições financeiras transnacionais, devem, assim como os Estados que as integram, implementar os direitos econômicos, sociais e culturais, nos três níveis esperados (respeito, proteção e promoção), adequando, para isso, suas políticas e programas.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos tem enfatizado a importância de integrar as normas internacionais de direitos humanos aos documentos de estratégia para a redução da pobreza que acompanham os acordos celebrados entre os Estados e as organizações internacionais de desenvolvimento, como o Banco Mundial e o FMI. O ACNUDH tem ressaltado, outrossim, que cabe aos Estados e organizações internacionais que se encontram em condições de prestar assistência e cooperação, viabilizar a implementação do núcleo mínimo de obrigações concernentes aos direitos econômicos, sociais e culturais. (VIZARD, 2006, p. 193).
Como se observa, Vizard alcança êxito em seu objetivo de demonstrar que as normas de direitos humanos e a interpretação oficial dessas normas realizada pelos órgãos oficiais da ONU possibilitam, de modo efetivo, a compreensão de que o direito a um nível adequado de vida abrange, muito além de obrigações meramente negativas, ações positivas dos Estados e de outros agentes. Mais que isso, o atual arcabouço normativo-teórico subjacente ao direito a um nível adequado de vida está apto a justificar o enfrentamento da pobreza numa abordagem de direitos humanos.