O instante vivido agora mesmo, como tal, produz turvação: ele tem uma calidez demasiado obscura e sua proximidade desfaz as formas.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 179)
Ao ―aqui e agora‖, o instante vivido, falta o distanciamento que produz ―estranheza‖, mas torna a realidade mais clara e compreensível. Por isso, o mundo burguês serve aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, mas ―apenas da boca para fora‖, e a fome, como tomada de consciência antecipadora, perde lugar para o desejo sexual (BLOCH, 2005, p. 181). A filosofia narra os afetos como sendo ―estados de si mesmo‖ e ―as emoções mais ativas‖ (BLOCH, 2005, p. 74). Agostinho, Kierkegaard, Descartes, Espinoza e Hegel, com variações, concebem o pensamento subjetivo como determinante, o que seria superficial, aos olhos de Bloch, porque eliminaria a doutrina dos afetos a partir de fora. Assim como as épocas e as relações dos homens com o mundo intervêm repetidas vezes na narrativa das pulsões, pode-se constatar que os sentimentos impulsivos sempre foram tratados de forma insuficiente.
O choque dos mundos, interior e exterior, é que faz do si-mesmo algo que transcende a preservação: ―torna-se explosivo‖ tornando a ―autopreservação‖ em ―autoexpansão‖, ―ativa a consciência como consciência‖ e impulsiona o homem para a frente (BLOCH, 2005, p. 78). A visão de Bloch procede da incompletude do quadro teórico que ele considera comum à psicanálise e à filosofia, impedindo, na sua trama individualista, que dialoguem e favoreçam a consciência do homem solidário. Entende que as pulsões precisam ser orientadas para um alvo (BLOCH, 2005, p. 49). Sem alvo, movimentam-se cegamente, transmitem a impressão de ter vida própria, dominam o corpo, fazem do ser humano uma presa.
O ―ser imediato‖ busca algo exterior para preencher o vazio. Uma vez preenchido, pode se tornar menos ávido, mas permanece insaciável. É o que explica o desejo e o apetite humanos, sendo o desejar mais amplo e o apetite mais antigo: ―O animal dirige-se para o alvo conforme lhe dita o apetite, o ser humano retrata-o por antecipação‖ (BLOCH, 2005, p. 50).
O estômago é a primeira lâmpada na qual deve ser derramado o óleo. Seu anseio é preciso, sua pulsão é tão inevitável que nem mesmo pode ser recalcada por muito tempo. Todavia, por mais alto que a fome grite, raramente ela é tratada do ponto de vista médico. Essa omissão mostra que a psicanálise tratou apenas de sofredores privilegiados. A preocupação de procurar alimentos era para Freud e seus pacientes a mais sem fundamento. Não obstante as modificações temporais e de classe, a expressão real da questão é o interesse econômico: não é o único, mas o fundamental e universal (BLOCH, 2005, p. 68-9).
A palavra fome contém pulsões múltiplas, como Bloch ilustra: sentimentos passionais (triebefühle), as emoções (Gemütsbewsbewegungen) ou afetos, as paixões, a disposição, o ânimo, o interesse, a melancolia, o ato de imaginar, pensar, e, inclusive, a esperança. Ou vingança, volúpia, ganância, afetos do desejo ou do não desejo, que se abrem para um ordem autêntica dos sentimentos, um futuro afetivo novo na imagem do ―afeto mais importante, o afeto do anseio, portanto, o autoafeto por excelência‖ (BLOCH, 2005, p. 72-3),
A fome que deve poder acompanhar todos os afetos, irrompe do modo mais evidente no grupo da libido e da agressão. E quase todos os afetos podem ser associados aos polos da vontade, negação ou afirmação, insatisfação ou satisfação consigo e com seu objeto, sendo que por um lado os afetos de repulsão – angústia, inveja, ira, desprezo e ódio – e, por outro, os afetos de atração – agrado, magnitude, confiança, veneração e amor – coincidem, majoritariamente, com a velha dualidade entre desprazer e prazer (BLOCH, 2005, p. 75-6).
O que é impossível conseguir é um resultado exato. De que adiantam a utopia ou a liberdade para um ser com fome? A fome pode ser literal, como pode ser a fome de progredir, de ver o socialismo na alma do mundo, a fome de escapar das fendas da solidão. Pode ser a fome que, anexada às preocupações financeiras, limita a libido das classes pobres, como pode ser a fome de sexo, que fomenta o ―complexo do dinheiro‖ nas classes ricas ou a fome como ―expressão mais evidente‖ do homem nas suas relações econômicas, com os nacionalismos ou da individualização da concorrência capitalista (BLOCH, 2005, p. 70). Mas, a questão maior é que a fome simboliza a capacidade humana de acordar para a realidade, desejar alimentar-se e reagir se a realidade for adversa.
O poder desse desejo não é um poder efetivo: o homem pode desejar, mas ser passivo ou irracional; pode deixar o desejo esgotar-se na imaginação ou nas impossibilidades impostas pelo cotidiano. Pode reduzir-se ao mero apetite e se limitar ao que se encontra ao alcance. Como também pode ficar guardado, constituir-se na semente a ser cultivada. Mas não há trabalho no apenas desejar. O desejar é uma potência passiva. Falta a práxis. E essa só surge quando o desejar se transforma em querer, potencialidade ativa. Daí, a metáfora da fome. Se há fome, não há como se manter passivo.
O desejar pode ser indeciso, apesar de uma bem determinada imaginação do alvo para o qual se estende. O querer, ao contrário, é necessariamente um alcançar ativo rumo a esse alvo, dirige-se para fora, tem de se medir unicamente com coisas realmente dadas. Sendo que o caminho trilhado pelo desejar, acrescido e assim solidificado pelo querer, pode até ser propriamente indesejado, áspero ou amargo. Entretanto, em última análise, nada se pode querer além do desejado (BLOCH, 2005, p. 51).
Existe a alternativa do desejo de construir a consciência. O consciente-ciente se manifesta pela vontade de ultrapassar a ―legalidade econômica objetiva‖ que, como demonstrou Mandeville na sua fábula das abelhas, não há altruísmo na engrenagem capitalista, o que a paralisaria, mas o predomìnio da ―pulsão egoìsta‖ (BLOCH, 2005, p. 150). A contrapartida é que desde Mandeville há progressiva consciência de que o interesse pessoal não pode estar desatrelado do interesse coletivo e que o cidadão, mesmo em termos da sociedade capitalista, não vive inteiramente para a economia privada. A mentalidade social, outrora chamada virtude, se faz presente e a pulsão, como progresso, se projeta para além do momento, arranca a ―ilusão‖ da utopia e se revela favorável à vida melhor (BLOCH, 2005, p. 152).
O desejo, em Bloch, não está associado ao desencantamento do mundo, mas à beleza da origem grega associada ao verbo desidero. Surge do substantivo sidus ou sidera, uma constelação de estrelas. A ambiguidade do desejo exibe características desafiadoras, no sentido de carência, vazio, ausência, exigência, mas o que ocupa o espaço de atenção é a luta do desejo com a consciência e com a razão, o oposto do instinto cego.
O homem, se há um vácuo entre o fantasma do obsoleto e o desejo pela luz, não pode se aperfeiçoar no sentido socialista se não for mediado pela ética, pela grandeza tácita, pela rejeição à ruína. O desejar mediado tampouco cede, tampouco renuncia. Ele não se perde de vista, por mais que seja dificultado. Ele não fica preso à realidade dada, e sim, considera apropriado não crer inteiramente no que vê ao deparar com o visível existente. Em
contrapartida, a esperança subjetiva, está certa e segura de si mesma, mesmo que aquilo que é designado por ela, a esperança objetiva, chegue a ser apenas provável (BLOCH, 2006b, p. 458).
Há, nessa oposição, o duelo entre a natureza e a história, o impulso e a excitação, o sentimento interior e a exterioridade; a luta de morte entre o desejo da acomodação capitalista e o desejo da transformação socialista também se opõem dialeticamente, espelhando a ambiguidade da palavra grega apptitus, que tanto pode ser agressão, ataque, choque, assalto, como também pode ser solicitação, demanda, movimento.
A irracionalidade e a racionalidade estão presentes na ordem do comportamento humano, o mesmo acontecendo com a dicotomia corpo e alma, consciência e transformação da realidade. Mas isso acontece porque o homem tem naufragado na ―experiência mecanicista‖ do já existente e pelo relacionamento das mudanças às abstrações da autoconsciência (estoicismo) e do idealismo (BLOCH, 2005, p. 149). Segundo Bloch (2005), o ainda-não-consciente tem como princípio o controle das pulsões. O princípio é fazer o homem acordar para a historicidade das pulsões e a função utópica da vontade. Sem a vontade, não há esperança.
Na esperança consciente-ciente, não há debilidade, mas uma vontade que determina: é assim que tem que ser, assim há de ser. Nela o traço do desejo e da vontade irrompe energicamente, o intensivo na superação e nas transcendências. Seu pressuposto é um caminho firme, uma vontade que não se deixa preterir por nada já existente; essa firmeza é seu privilégio (BLOCH, 2005, p. 146).
Esse ponto distinto não é para ser visto como privilégio, como foi a virtude estoica, o orgulho da razão no romantismo alemão, o automatismo liberal ou a imaginada inevitabilidade do socialismo, mas como a interação de condições objetivas e subjetivas pelas quais o homem pode acordar. É um processo. Bloch cita Marx ao lembrar que as ideias de uma época são as ideias da classe dominante, alienada de si mesma, agarrada à ideologia do seu próprio bem estar. Não há sonhos, não há utopias. Não há boa consciência. Há interesses. Caberia uma pergunta: as pulsões seriam manifestações da ideologia dominante? Seriam fruto da mentalidade burguesa? Poderiam as pulsões ser moralmente herdadas? Seja quais forem as respostas, o que Bloch chama a atenção é que as pulsões vêm em socorro da superestrutura dominante. São heranças culturais que o capitalismo transmite de uma geração a outras sem função utópica, mas com ideologia de classes.
O ambiente histórico das pulsões, que fortalece a tese do ainda-não-consciente, cria imperativos para a renovação da filosofia. Junto com a psicanálise, precisam deixar a periferia da vida para andar lado a lado com o homem comum. Seriam, nas palavras de Bloch (2005, p. 77-9), ―expansões para a frente‖, luzes que podem envolver os sonhos acordados. Traduzindo para o universo de Bloch, as pulsões, como impulsos básicos, não se caracterizam primordialmente pela libido, pela vontade de poder, nem pelo inconsciente coletivo com raiz nos primórdios da existência do homem na terra.
São pulsões que se apresentam à vontade e de preservação e nos problemas da fome, mas sobretudo na vontade de conquistar a vida sem o egoísmo capitalista. Assim, a ―autopreservação‖ encontra-se, como fenômeno, sempre em aberto, para proporcionar o encontro do homem com o próprio homem e construir, a partir do ainda-não-consciente a ―solidariedade enquanto solidariedade‖ (BLOCH, 2005, p. 72). E o que prevalece é o desejo de fazer a história avançar.
Se a história avança, a qualidade comum aos homens é crescer, desenvolver o espírito e, com versatilidade e talento, produzir o novum. Da mesma forma o que é ainda-não- consciente, que é o ainda-não-sendo tende, igualmente, a vencer a barreira da consciência existente e dar novo curso à história. ―Nesse campo, tudo é difìcil, tanto mais porque justamente o novo no qual o pioneirismo produtivo ingressa também é essencialmente o novo da coisa que surge em si e para si‖ (BLOCH, 2005, p. 129). O ―pioneiro produtivo‖, como ação, é a instância da realização, a fonte castália que brota no Parnaso, a consciência que nasce das profundezas do ser para atingir pontos elevados.
O produtivo não é nenhum xamã, tampouco algum resíduo psicológico dos tempos primitivos; não é num fogo vindo desse abismo, tampouco um arreio (Mundstück) de poderes superiores como Nietzsche nos teria lembrado atrevidamente. Essa mistificação transcende da inspiração, como se ela despencasse sobre nós, é completamente irrelevante: ela é superior à mágico-arcaica apenas na medida em que quer fazer jus pelo menos ao
transcendere, quer dizer, ao aspecto expansivo, sobrepujador da criação intelectual, e não a falsifica como uma submersão, como uma linguagem noturna. De fato, a constante experiência luminosa que está vinculada à inspiração mostra que no ato da produtividade não ocorre nenhuma regressão arcaica (BLOCH, 2005, p. 123).
Criar é desvendar os mistérios do mundo. É tornar consciente, com as faíscas da criatividade, o polo oposto das pulsões negativas, o espírito de sonhar para a frente. Ideias convivem em harmonia enquanto não passam dos esboços para a prática. Quando isso acontece, vêm as resistências. O caminho se torna difìcil porque o ―limiar superior da
consciência tem seus próprios guardiões‖ e procuram obstruir novas ideias, novos conhecimentos, mas são vencidos (BLOH, 2005, p. 129). Não fosse assim, o conceito de trabalho teria permanecido estranho à sociedade grega e, como lembrou Marx, a humanidade não se atribuiria apenas tarefas que pode cumprir. Como admite Bloch (2005, p. 130), a resistência ao novo não faz parte da natureza fundamental do homem, mas é, sim, uma resistência apenas temporária. Se o caráter do novum é hermético, não falta ao homem olhos para descobrir sua riqueza e profundidade.
CAPÍTULO IV
SONHOS DE DESPERTAR: DILEMAS DA INTERIORIDADE E DA