E na nascente está implantada uma foz; se esta será alcançada, é uma outra questão.
Ernst Bloch, O Principio Esperança (2005, p. 298)
O que Bloch quer dizer? A vida acontece no agora, em silêncio como Ulisses que chegou de volta à Ítaca dormente, como as carências de algo que não são percebidas, como o novum libertador que nem sempre se imagina possível. O instante é o cerne da latência, do real, é o ―princìpio do mundo‖ (BLOCH, 2005, p. 298). Além do ―ainda-não-dominado‖, o futuro contém o ―ainda-não-franqueado‖ (BLOCH, 2005, p. 292).
Nesse desvendar do mundo oculto, segundo Bloch (2005), o marxismo se propõe a indicar o caminho para a compreensão do alcance da consciência orientada para a ação: que o passado é fechado apenas aparentemente, que a latência se sustenta em tendências reais, que o ponto cego, ―esse ainda-não-ver do agora e aqui imediatamente ocorrido‖, manifesta-se a cada momento, independente da duração do instante. Pode ser o real muito mais obscuro do que se poderia imaginar anteriormente.
Essas incógnitas exigem que o sujeito eduque a sua consciência humanista no processo. Que acorde para a evidência que, seja qual for a escuridão, sejam quais forem os fantasmas e angústias atávicas, o realmente primordial é o bem comum. Esse é o simbolismo do instante, o simbolismo do início que se reproduz a cada instante e que vai além do que já se tornou evidente. Desse modo, ―o não como o ainda-não-processual transforma a utopia na
condição real da incompletude, da natureza apenas como fragmentária em todos os objetos‖ (BLOCH, 2005, p. 303).
Quando não existe dogmatismo, mas o sentimento da correnteza real, nascente e foz se tornam uma unidade, uma mesma visão da correnteza da consciência. Não mais o fluxo da correnteza da consciência de acordo com o tempo, o ―não-ter-a-si-mesmo‖, mas a correnteza no tempo, ou o ―estar-presente‖ incessantemente, o ―olho atento‖ para o eterno (BLOCH, 2005, p. 288). Uma nova época de olhar histórico, sem ―zonas de silêncio‖, sem ―latejar‖ de instantes a serem ouvidos, sem átrio de ―presença ainda não consciente, ainda não existente‖ (BLOCH, 2005, p. 290).
[...] a obscuridade vivida é tão forte que não fica restrita nem mesmo à sua proximidade imediata. Ela tem efeito também sobre o seu contexto, sobre o tempo que segue ao justo-agora, e então também sobre o espaço contíguo ao justo-aqui. Esse efeito impede que a proximidade da vivência real, especialmente como proximidade acontecendo, ganhe distância suficiente e tranquilizadora, ou seja, possa ser contemplada de modo habitual. Através disso, surge a penumbra peculiar do respectivo primeiro plano atual, que não é facilmente completável, mas tampouco facilmente captável e sabível. Alguns provérbios estão melhor informados sobre isso do que a maioria dos pensadores pregressos, como, por exemplo: ―Nenhum tecelão sabe o que tece‖, ou: ―Ao pé do farol não há luz‖. E não terá sido por estar, ele próprio, na luz, que Édipo foi o último a perceber que havia casado com a própria mãe (BLOCH, 2005, p. 291).
Obscuridade e luz são, aparentemente, antíteses em Bloch. Mas só o são aparentemente porque dialogam, como dialogam a fome e o instinto de preservação, o romantismo e os afetos, e os sonhos acordados e a esperança. A obscuridade seria o sonhar apenas dormindo e, ao abrir os olhos, como Ulisses de Homero que volta à sua Ítaca, nada encontra, a não ser o objeto do seu desejo e da própria decadência de viver acondicionado no passado heróico. A obscuridade é viver apenas o instante. Ou o curvar-se aos arquétipos velhos, os arroubos quixotescos do tornar-se solitário, desferir golpes freneticamente, o que acaba no vazio, dependente do correr atrás do que passou ou nunca existiu.
É tornar a vida uma ficção, fugir do presente objetivo para presentes imaginários, perseguir sonhos desejantes cavalheirescos, repletos de ―cavalos alados, mares em chamas, ilhas flutuantes e palácios de cristal‖ (BLOCH, 2006b, p. 121). Fazer como Quixote de ―poderosa imaginação, mas sem poder para a ação‖ (BLOCH, 1988, p. 172). Obscuridade é paralisia: quanto mais colorido, mais o sonho é ilusório, quanto mais parece vislumbrar o futuro, mais esse é ―utópico-arcaico‖, uma categoria superior ao anacronismo social (BLOCH, 2006b, p. 121).
Ou, a obscuridade é ainda o homem, sem rebeldia, tendente a voltar ao passado, a se repetir cotidianamente e, a prevalecer, como a visão de Hegel, defrontar-se com o tribunal da história. Um ser crepuscular, mais objeto do que sujeito ativo da história. Um ser condenado à autodestruição, tanto pela obscuridade da sua servidão ao senhor, como em ―consequência de sua avidez por bens exteriores e seu desfrute‖ (BLOCH, 2006b, p. 297). Um ser que, ao contrário de Prometeu, não é Deus (BLOCH, 2006b, p. 298).
O homem-Deus é a luz, o sol. Para Bloch, o sol é como a contemporaneidade, como a metafísica e a matéria, como a casa humana e o mundo para os humanos, como a alquimia e os recortes da existência humana, como a música e a esperança. ―O sol ilumina a vida na Terra e a lua à noite‖ (BLOCH, 2009a, p. 208-9). A construção do mundo exige o sol humano. ―Onde há sol, vê-se gente‖ (BLOCH, 2006a, p. 10). A esperança utópica é o sol que irradia o mundo do não consciente para o imanente mundo do consciente (BLOCH, 1968, p. 160-2). Esse sol irradia a própria luz e leva o homem a questionar o que pode ou não fazer, como agir e como subordinar suas ações à vida. É o sol da totalidade da vida, a luz do telos.
A distinção entre a obscuridade e a luminosidade é o tema que Bloch começa a discutir ainda nos idos das lutas antinazistas na Alemanha. Encontra-se nos primeiros anos da década de 1930, quando passa a pensar a temporalidade e, com ela, a pluralidade dos tempos e as imensas dificuldades da desalienação. Datam dessa época os conceitos de tempos míticos, relativos às crenças arcaicas no ressurgir do nacionalismo alemão e no futuro de uma ilusória raça pura, forte e dinâmica, que Hitler tentou vincular ao III Reich; os tempos sociais, com o choque entre as aspirações da pequena burguesia, ciosa da sua ideologia pré-industrial e do proletariado socialista à procura de humanização que se projetasse para além do trabalho e da tecnologia; e a não sincronia entre esses dois tempos que, por não ter sido compreendida pela esquerda, culminou na ascensão do fascismo. E adiou, mais uma vez, a esperança e a educação das massas para o socialismo.
O tempo é imperativo e a tudo transforma. O papel do revolucionário seria colocar o tempo a seu favor, fazendo dele o guia dinâmico para o futuro, ajudando, por meio da filosofia, o homem a compreender a si mesmo, a sair da obscuridade. No livro Heritage of our Times (Erbschaft dieser Zeit), Bloch (1991) desenvolve a teoria conceitual da ―não- contemporaneidade‖, que ele tinha esboçado em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie) quando aborda o cotidiano capitalista. Na sua perspectiva, não são contemporâneas todas as
expressões do pensamento e do modo de vida de conteúdo atávico, atrelado à sociedade burguesa.103
O fenômeno da não contemporaneidade, apoiado na tecnologia e na burocratização, foi o que teria levado o nacional-socialismo ao poder, pelo voto, depois, evidentemente, da esquerda (socialista e comunista) ter sido dizimada. Ele entendia que os comunistas ignoraram a força conservadora do homem do campo, assim como das classes médias, fixando-se no operariado industrial. Esse erro e suas repercussões, ―um pseudo-iluminismo do marxismo vulgar‖, é que não deveria se repetir, retirando o espaço conservador de recorrer aos mitos antigos – A Idade Média incluída – para anunciar a redenção que jamais ocorrerá (BLOCH, 1991, p. 62).104
Sendo verdadeira a hipótese de que O Princípio Esperança é uma resposta ao fracasso da esquerda em impedir a ascensão do nazismo, o sonho acordado manifesta-se pela necessidade de tornar realidade o socialismo contemporâneo. Desemboca na complementaridade dialética do sonho dormindo e do sonho de olhos abertos, unificados na consciência antecipadora, nos sonhos que estão ao alcance da razão e do entusiasmo.
Se o homem vê que não existe luz ao pé do farol, é porque se sente atraído pela ausência de luz e sente medo do que não lhe é familiar. Começou, ainda referindo-se ao homem que tem medo, o percurso da vida melhor, mas teme concluí-lo. É como se o temor de viver e a própria finitude da vida, em lugar de indicar sua transitoriedade, reforçasse a ilusão do fetichismo da mercadoria e das relações de produção, noções que, na teoria social marxista, refletem o alcance da alienação.
A relação entre a realidade estabelecida e a realidade não conhecida transita entre esses polos – sonho dormindo, sonho acordado e desalienação. Reflete a tarefa da filosofia e da psicanálise de desalienar o homem e libertá-lo das significações da alienação. Abriga, igualmente, o temor conservador de viver e o temor de que a vida acaba com a extinção do próprio homem, sem chances de continuidade.
103 Cf. BLOCH, Ernst. Heritage of our Times. Polity Press, Cambridge, UK, 1991, p. 153-78.
104 A expressão III Reino esteve presente na maioria das insurreições da Idade Média como sinônimo do Terceiro Evangelho: ao Antigo Evangelho se sucederiam o Evangelho do Filho e o Terceiro Evangelho, aquele do Espìrito Santo. O Terceiro Reino seria, nos seus ―nobres propósitos‖, a conciliação entre a Antiguidade e o Cristianismo. O nacional-socialismo roubou a ideia, romantizou-a perante os olhos da ―estupidez‖ pequeno-burguesa e a transformou em ―cheiro de sangue‖, ―corrupção‖ e ―brutalidade‖ nazista, ―obscuro fanatismo‖ (BLOCH, 1991, p. 56-63).
Há sonhos diurnos em número suficiente, só não foram satisfatoriamente observados. Mesmo de olhos abertos, no seu íntimo, a pessoa pode ver tudo colorido ou em forma de sonho. Se a propensão para melhorar aquilo em que nos tornamos não adormece nem durante o sono, como poderia durante a vigília? Pouco são os desejos que não estão carregados de sonho, justamente quando eles tomam consciência de si. Mas, então, quem sonha durante o dia é visivelmente diferente de quem sonha durante a noite. Muitas vezes, quem devaneia segue um fogo-fátuo, desvia-se do caminho. Mas ele não dorme e não submerge na névoa (BLOCH, 2005, p. 80).
O sonhar acordado, por ser uma forma contrária à rememoração, explicitaria a necessidade de ação prática. A partir do sonho à luz do dia, desejos e vontades permitiriam ao espírito da utopia se tornar consciência. E permitiriam que o homem se encontre consigo mesmo e com seus semelhantes.
Foz e nascente, luz e obscuridade, sol poente e sol nascente, fluem por todos os lados do ser humano e do mundo, um ao encontro do outro, com o navio e o relógio da revolução, sendo visto na sua totalidade, metafisicamente, como o encontro não supérfluo e caloroso entre o infinito e aquele, o homem, que volta para casa, que é a sua própria humanidade (BLOCH, 2006b, p. 421). Negar a própria humanidade é como se fosse uma forma de morte. Porém, essa morte não ameaça os que voltam ao estado da natureza, mas aos que não sonham, aos que não se sentem comprometidos com a consciência desperta, com o renascimento da vida.