Portugal, à semelhança dos outros países da Europa do Sul, acelerou, recentemente, o processo do envelhecimento, como resultado da baixa de fecundidade e do aumento da longevidade. Os resultados definitivos dos Censos 2001 apontam para uma superioridade numérica das pessoas idosas, comparativamente aos jovens. As
10 Dados fornecidos na União Europeia, em 11de Novembro de 2009, pelo Instituto da Política da Família
(IPF).
diferentes evoluções demográficas observadas a nível regional determinam assimetrias regionais do fenómeno do envelhecimento.
Os indicadores de 2007 permitem acentuar duas tendências demográficas recentes em Portugal: abrandamento do crescimento populacional e envelhecimento da população. Segundo os indicadores demográficos divulgados pelo INE, relativos a 200712, em Portugal, o número de óbitos foi superior ao dos nascimentos. Morreram, nesse ano, 103 512 pessoas, enquanto o número de nascimentos foi de 102 492. As estatísticas confirmam, assim, a tendência de envelhecimento demográfico. De acordo com os dados estatísticos do INE relativos ao ano de 2008, o aumento da população é cada vez mais reduzido, tendo o país somado pouco mais de 9 mil pessoas. Segundo Maria Filomena Mendes (2008)13, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, estes dados mostram que não só não conseguimos fixar as pessoas em idade activa como não atraímos imigrantes. Os dados do INE (2008) indicam que os concelhos do Minho e Lima continuam a perder gente. O Relatório apresentado no Parlamento Europeu, em Bruxelas, referente a 200814, pelo Instituto da Política da Família, refere que as pessoas com mais de 65 anos passaram a de 11,2% , em 1980, para 17,4% em 2008. Portugal, segundo esse relatório, é o País da Europa que mais está a envelhecer.
A população residente em Portugal tem vindo a denotar um continuado envelhecimento demográfico, como resultado do declínio da fecundidade e do aumento da longevidade. O índice de fecundidade foi de 1,33 crianças por mulher, muito longe das 2,1 necessárias para assegurar a substituição de gerações. Em 2007, os nados vivos foram 102 492; houve 103 512 óbitos e 19 500 indivíduos de saldo migratório favorável a Portugal. Saliente-se, todavia, que houve mais óbitos do que nascimentos. Os valores destes índices manifestam, mais uma vez, que se acentua o envelhecimento demográfico português.
12 INE – Instituto Nacional de Estatística
13 III Congresso Português de Demografia realizado de 29 de Setembro a 1 de Outubro de 2008.
14 Instituto da Política da Família (IPF) - Relatório apresentado na União Europeia a 11 de Novembro de
Em 2007, diminuiu também o número de casamentos. Nesse ano, foram celebrados 46 329, menos 1,528 do que em 2006. Os matrimónios na Igreja Católica tiveram uma quebra de 46%, na última década. Segundo dados do Anuário Católico de Portugal de 1999 e de 2008 todas as dioceses conheceram um decréscimo de celebrações matrimoniais. Num total de 52401 matrimónios em 1999, as dioceses celebraram 27908 no ano de 2008. A Diocese de Viana do Castelo, na comparação de dados referentes aos anos de 2001 e 2007, dá uma redução de 349 matrimónios passando de 1442 para 1093.
Os divórcios continuam a aumentar, tendo sido decretados 25 255, mais 1 320 do que no ano anterior. Além disso, é visível o crescente número das famílias recompostas. Projecções da população residente em Portugal, no período de 2008 e 2060, fornecidas pelo INE (2009), indicam que se a tendência não for contrariada, em 2060, haverá três idosos por cada jovem. Portugal será, então, um país maioritariamente idoso. O nosso sistema demográfico é caracterizado por baixas taxas de natalidade e baixas taxas de mortalidade o que está de acordo com o modelo TAD. São frágeis as políticas de apoio à natalidade em Portugal. Existe o abono de família, há o acompanhamento médico às mulheres grávidas e às famílias numerosas. Mas é longo o caminho a percorrer, por exemplo, no investimento em creches, em quantidade suficiente e adaptadas às necessidades das famílias; a educação, tendencialmente gratuita, traz encargos ao pai e à mãe que têm um emprego nem sempre próximo de casa. A verdade é que, como revela o INE, entre 1987 e 2006 as mulheres residentes em Portugal tiveram menos filhos e mais tarde. Enquanto em 1987 a maioria das mulheres tinha filhos entre os 20 e 24 anos, em 2006, é dos 25 aos 28 anos que se verificam os valores mais elevados das taxas de fecundidade. Os níveis de natalidade atingidos auguram desequilíbrios intergeracionais acentuados e irrecuperáveis, com consequências nefastas para o futuro (Fernandes, 2001). Além disso, assistimos a uma entrada significativa em Portugal de imigrantes: africanos, brasileiros, moldavos, ucranianos, polacos, checos. Os dados estão lançados e, no futuro, prevê Fernandes (2001), teremos provavelmente uma população multirracial e multicultural. O debate sobre a demografia conduz à questão da família e ao problema da fecundidade.
A dimensão média da família tem diminuído. Segundo dados do INE, apresentados no Jornal de Negócios em 10 de Maio de 2007, o número de famílias portuguesas tem aumentado. Aumentou de 3.483.800 em 1999 para 3.839.300 em 2006. As famílias, no entanto, são cada vez mais pequenas, pois a maioria dos agregados familiares tem apenas um filho. Em 2006, as dimensões mais expressivas concentram-se nas famílias de duas pessoas (28,9%) e de três pessoas (27,1%). No entanto, tem aumentado o número de pessoas a viver sós. Verifica-se o adiamento da fecundidade, o aumento do divórcio e envelhecimento populacional. Diminuem, assim, conclui Aboim, (2003), as famílias de casal com filhos e aumentam as de casal sem filhos e as monoparentais.
O envelhecimento é, antes de mais, uma questão demográfica, afirma Fontaine (2000). De facto, tem aumentado o número de idosos e diminuído o número de jovens. Projecções do INE (2003) e da UE (2006) apontam no sentido de que o envelhecimento demográfico se agravará no futuro. Segundo Carrilho et al (2005), em 1960, quando a população em Portugal era de 8 889 400 habitantes, havia um total de 2 591 980 jovens com menos de 14 anos (29% da população). Em 2001, a população cresceu para 10 356 117 de habitantes, mas o número de jovens diminuiu quase um milhão. As pessoas com mais de 65 anos passaram de 708 570, em 1960, para 1 693 493, em 2001. Maria José Carrilho e Cristina Gonçalves estudaram as Dinâmicas Territoriais do Envelhecimento (2005) comparando os resultados dos Censos de 1991 e de 2001 e chegaram a conclusões que confirmaram muito dos pontos que vimos descrevendo, tais como15:
- O aumento contínuo da longevidade e a manutenção dos baixos níveis de fecundidade, aliados, em alguns casos, a fortes fluxos emigratórios são os principais factores demográficos que explicam a tendência do envelhecimento demográfico;
- Os elevados níveis de mortalidade e natalidade deram lugar a um modelo com níveis baixos de mortalidade e natalidade;
15 Censo demográfico: contagem total do número de habitantes de um país, também designado por
recenseamento populacional. Os censos à população são normalmente executados por serviços ligados ao Estado e são realizados de dez em dez anos.
- O processo de envelhecimento demográfico estende-se a todo o país. No entanto, há assimetrias entre o litoral com uma população mais jovem, e o interior com a população mais idosa;
- O expressivo ritmo de crescimento da população idosa, e em particular da muito idosa, embora com tendência para abrandar, caracteriza a evolução da dinâmica populacional nos próximos cinquenta anos e representa um grande desafio para a sociedade portuguesa;
- Em termos de proporção de pessoas idosas, Portugal acompanha o padrão comunitário.
De acordo com os dados recolhidos pelo INE no Censo de 1991, 13,6 % da população portuguesa tinha, nessa altura, mais de 65 anos de idade. No Censo de 2001, esta percentagem tinha aumentado para 16,4% e para 17% em 2004. Se alargarmos o nosso horizonte temporal até ao ano de 2010, encontramos previsões que apontam para que 17,6% ou mais da população portuguesa tenha uma idade superior a 65 anos, podendo ser 30% em 2044 (Carrilho, 2005).
Os idosos precisam de ajuda para reinventar a sua vida. Proporcionar-lhes contextos, ocupações e projectos, de modo que a velhice não seja vivida como um vazio, em estado de cidadania diminuída (Teixeira, 2005). Os idosos, pelo isolamento e pela solidão a que frequentemente são votados, estão carentes de afectividade e necessitados de atenções. As exigências de uma cidadania total obrigam-nos a dar-lhes o que lhes é devido não só por caridade mas por um imperativo de justiça (cf. J. Rawls, 1971). Como refere Teixeira (2005, p. 247):
É necessário atender às tendências que atravessam as sociedades actuais, aos processos de reestruturação que as animam, para que se afirmem e se protejam os direitos do homem e se encontrem formas de inclusão de todos e não de indigna exclusão.
Há que construir uma sociedade inclusiva. Actualmente, há um enorme consenso quanto ao chamado envelhecimento activo e dar mais vida aos anos. Antunes (2008, p. 22) chama à velhice ―o tempo da vida‖, porque entende que, afinal, a velhice é
apenas o último andamento da sonata do existir e que ele gostaria que fosse, sempre que possível, um allegro vivace.